
Um céu cheio de promessas
Teresa Southwick
Argumento
Aquele desconhecido muito bonito afirmava ser médico, mas se comportava como uma pessoa tola. O rico cirurgião Dominic Rodríguez se apresentou na joalheria de Sky Colton pediu-lhe que se fizesse passar por sua noiva enquanto sua família estava de visita. Ela havia aconselhado a sua verdadeira noiva que seguisse os mandamentos de seu coração... E esta fugiu com seu chofer! Sky acabou por atender ao seu pedido, não sabia era que enquanto dava o carinho que ele tanto necessitava, os apaixonados beijos do Dominic fariam com que o sangue ardesse em suas veias.
Capítulo 1
- Não parece uma destruidora de lares. Ao ouvir aquela voz grave e masculina, Sky Colton afastou o olhar das faturas. Não tinha se dado conta de que alguém tinha entrado na loja. Fazia um mês que o natal tinha acontecido e a clientela de sua joalheria de Black Arrow, Oklahoma, tinha diminuído muito. Ao ver aquele homem moreno, alto e bonito, Sky sentiu seu pulso se acelerando.
Depois lembrou o que o homem acabava de dizer. Sky se apoiou sobre o balcão onde estavam seus desenhos exclusivos de jóias.
—Destruidora de lares? Não entendo a que se refere, a não ser que esteja falando de uma empresa demolidora.
—Não acredito.
Ela o olhou atentamente. Usava uma jaqueta de couro, uma camisa azul e calças jeans. Não pôde evitar olhar a firmeza de seu abdômen. Tinha o cabelo curto de cor castanha escura. Estavam no final do inverno, mas o seu rosto possuía um tom bronzeado. Esperava que seus olhos fossem castanhos e quentes, mas não eram.
Eram azuis e brilhavam com fúria. Por quê? Acaso tinha feito algum mau a ele? Estava certa de que era a primeira vez que o via.
—Se o conhecesse, eu me lembraria de você.
—Não nos conhecemos.
—Não precisa ser muito esperta para entender que está zangado comigo. Posso fazer algo por você?
—Não acredita que já tem feito o bastante?
Ela ficou em pé. Media perto de um metro e setenta, mas ele continuava sendo mais alto e bastante atraente, não pôde evitar pensar. Se não tivesse estado tão zangado, possivelmente teria tentado flertar com ele.
—Escute senhor... —esperou que ele dissesse seu nome, mas não o fez. Ela suspirou—. Dedico-me a desenhar e vender jóias. Às vezes utilizo material dos nativos americanos e há pessoas que pensam que esses materiais possuem poderes sobrenaturais. Mas eu não tenho poderes psíquicos e, se acreditar que fiz feito algo terrível e quer que me desculpe, vai ter que me dar mais informação a respeito.
—Eu não acredito nada, eu sei.
—O que é que sabe?
O homem colocou a mão no bolso, tirou duas caixinhas de veludo negro e as colocou em cima do balcão. Estava intrigada.
Tomou uma das caixinhas e abriu-as. No interior pôde ver seu logotipo e um anel, que tinha a certeza de ser um de seus desenhos, efetivamente, tratava-se de um de seus desenhos favoritos. Era o anel de ouro que tinha feito para Shelby Parker, a filha de um rico magnata do petróleo de Midland, Texas. Aquela mulher estava noiva de um homem que conhecia há pouco tempo. Shelby tinha contado que seu noivo tinha pressa em se casar.
Tinham falado muito bem a Shelby dos desenhos de Sky, e ela tinha pedido a seu chofer que a levasse de Houston até Black Arrow, para fazer a encomenda pessoalmente. Seu noivo estava muito ocupado, e não tinha podido acompanhá-la. Shelby tinha retornado à loja para revisar o seu pedido um par de vezes. Sempre viajava de limusine e Sky se perguntou se teria medo de voar.
Shelby tinha falado bastante durante suas visitas e Sky estava tentando recordar o conteúdo daquelas conversas. Tinha contado que seu noivo era um cirurgião plástico muito conhecido em Houston. Havia dito que se chamava...
Só podia recordar que ela o tinha chamado de doutor coração de pedra em tom zombador. Não se lembrava de seu nome real. Abriu a outra caixinha e examinou o anel do noivo. Na aliança se podia ler as iniciais D.R. Depois levantou o olhar para ver aqueles olhos azuis, que pareciam cada vez mais furiosos.
—Doutor Dominic Rodríguez — disse ela enquanto estendia a mão—. Encantada em conhecê-lo, eu sou Sky Colton.
—Sei — respondeu com frieza.
—Shelby me falou muito de você — embora não recordasse o que ela tinha contado.
—É curioso que associe seus clientes com as jóias que lhe encomendam.
Sky não deixou que seu tom a afetasse.
—Vi muitas séries de televisão sobre médicos, que associam seus pacientes com as doenças que padecem. Acredito que minha associação é muito mais agradável, não acha?
Um traço de sorriso se desenhou em seus lábios, mas não durou muito.
—Não.
—Parabéns por seu casamento. Certamente tinha vindo para fazer alguma modificação nos anéis. Posso...
—Estou aqui porque o casamento não vai acontecer.
Sky o olhou surpresa.
—Não entendo acaso Shelby e você decidiram atrasar...?
—Acredito que fui bastante claro, mas repetirei uma vez mais. O casamento foi cancelado. Recebi a fatura dos anéis.
Sky ficou olhando-o fixamente. Não pôde evitar pensar em quão sensual era, parecia uma pessoa muito apaixonada... Como podia pensar em algo assim? A noiva daquele pobre homem acabava de abandoná-lo! Ou possivelmente tinha sido ele...
Sky se fixou na tensão de seu corpo, no olhar de ódio e pensou que tinha que ter sido ela. Ele parecia muito afetado.
Tinha razões para estar, depois de tudo havia estado a ponto de casar-se. O fato de que finalmente não se casou a alegrou, embora não entendesse muito bem por que. Ela também tinha estado noiva e quando rompeu seu compromisso decidiu não voltar a pensar em suas idéias infantis de se casar, ter filhos, criar uma família... Tinha decidido dedicar-se a sua carreira, a criar seu próprio negócio. Não convinha sentir-se atraída por um homem como aquele. Possivelmente era um homem livre, mas na realidade ainda estava unido a alguém que o tinha desprezado. Sky pensou que Shelby ou era tola ou estava cega.
O que podia ter passado? Shelby tinha contado a ela que o doutor coração de pedra era o homem ideal. Por que teria mudado de opinião? Por que o teria abandonado? De repente, Sky pensou no que aquele homem havia dito ao entrar na loja. O que tinha querido dizer?
—Doutor Rodríguez, tenho a impressão de que me culpa de algo.
—Assim é.
Ela elevou as mãos.
—Vou ver se o entendo. Você disse que o casamento foi cancelado. Por quê? O que aconteceu?
—Não finja que não sabe nada, senhorita Colton.
—Não estou fingindo doutor Rodríguez. A verdade é que não entendo nada. Você se importaria em explicar isso?
—Absolutamente. Shelby se negou a casar-se comigo por algo que você disse a ela.
—Algo que eu lhe disse? —ficou a mão no peito—. Escute-me doutor, quando ela vinha à loja eu estava trabalhando. Falávamos de pequenas coisas, não fazíamos confissões pessoais. Não pude dizer nada que a fizesse mudar de opinião.
—Faça um esforço por recordar.
—Me falou de você. Disse-me que era cirurgião plástico. Você faz com que a gente se orgulhe de nossa imagem e ela me disse que se sentia muito lisonjeada de que alguém com uma profissão tão nobre houvesse reparado nela. Estava cheia de esperanças, mas não mencionou... —deteve-se. Tinha estado a ponto de falar de seu incrível atrativo.
—O que não mencionou?
—Esqueça, não tem importância.
—Isso eu decidirei. O que ia dizer? Não estava disposta a contar a verdade, mas ao ver o brilho de seus olhos procurou uma alternativa.
—Também comentou que chamam você de doutor coração de pedra, embora não entenda muito bem por que.
Ele a olhou surpreso.
—Vim para tratar o assunto da fatura. Que mais lhe contou?
—Mencionou a um homem chamado Reilly Donovan.
—Ah, sim?
— Sim, acredito que é o chofer.
De repente, Sky compreendeu tudo.
Estava começando a se lembrar. Shelby tinha falado do chofer e da estranha e embriagadora atração que sentia por ele. Aquela mulher tinha viajado pelo menos quatro vezes de Houston até Black Arrow. Era uma viagem longa, passou muitas horas dentro daquele enorme carro. Muito tempo para que ambos tivessem tido tempo de conversar, para se conhecer, para flertar e fazê-la duvidar. Mas por que o doutor perfeito jogava a culpa nela?
—Por fim chegamos à parte interessante — disse ele enquanto se apoiava sobre o balcão—. O que contou a você sobre o chofer?
Sky não pôde evitar olhar as suas mãos. Eram umas mãos bonitas: grandes, magras, fortes e sensíveis. As mãos de um homem que curava os outros. Certamente aquelas mãos saberiam como acender o corpo de uma mulher. A idéia a fez tremer.
Disse si mesma que era normal sentir algo assim. Desde que tinha rompido com Wes Keiler, não tinha tido nenhuma relação, e isso fazia muito tempo.
Sky olhou ao doutor fixamente, decidida a não perder a compostura.
—Shelby me disse que o chofer era muito bonito.
—E você disse a ela que fariam um bom casal.
—Não exagere. O aspecto não é tudo.
—Entretanto, acredito que para Shelby foi suficiente. Fugiu com ele pelo conselho que você deu a ela.
—Já disse que eu não lhe dei nenhum conselho. Sky recordou a última visita de Shelby. Estava resplandecente, parecia acalorada e seus olhos tinham um brilho pouco habitual. Sky sempre a tinha vista impecavelmente vestida, penteada e maquiada.
De repente recordou que durante aquela última visita, Shelby parecia estar um tanto nervosa, seu aspecto parecia um tanto descuidado, como se alguém tivesse acariciado o seu cabelo e tivesse beijado aqueles lábios não tão bem pintados como outras vezes.
—A última vez que a vi estava um pouco estranha — disse com cuidado—. Mas, estivemos falando de quão afortunada era...
—Parece que não era eu a fonte de sua felicidade — disse ele com um tom amargo.
—Possivelmente ficou nervosa. Talvez se falasse com ela...
—Deixou-me uma nota em que dizia que não ia se casar comigo e me pedia que me encarregasse de cancelar tudo. Deixou esta fatura dos anéis — mostrou-lhe o papel.
Sky tomou o papel e se olhou na quantidade total da fatura. Era muito dinheiro. O que ia fazer? Normalmente teria aceitado a devolução dos anéis e os teria vendido a outros clientes. Aquele desenho era magnífico e os benefícios de sua venda teriam contribuído para ajudar a abrir uma nova loja, possivelmente em Los Angeles, em Nova Iorque ou em Dallas.
Antes que pudesse responder, um homem entrou na loja. Tinha esquecido que tinha uma entrevista com ele, tinha que desenhar um presente de aniversário para sua mulher.
—Te atendo agora Clay — disse ao recém-chegado. Logo olhou o médico—. Perdoe, mas não posso falar disto agora mesmo, tenho trabalho.
—Eu também. Mas não temos nada mais que falar. Só trouxe os anéis para que me devolva o dinheiro. Quando me der, tudo ficará resolvido.
—Não estou de acordo. Preciso pensar nisto. Onde posso localizá-lo? Ele a olhou surpreso.
—Eu entrarei em contato com você — limitou-se a dizer.
Quando Sky voltou a levantar o olhar, o doutor já tinha desaparecido. Aquele homem moreno, alto e tão atraente tinha deixado de ser um desconhecido e ia voltar a vê-lo. Poderia ter se sentido culpada por isso, mas não era assim. Embora seu próximo encontro não tivesse nada de romântico, nem de agradável, a não ser que aquele leve sorriso se repetisse.
Não entendia por que, mas tinha vontade de voltar a vê-lo. Embora fosse pela última vez e embora continuasse zangado.
Dom esperou na porta da loja. Era uma fria noite de janeiro e estava tremendo de frio. A joalheria ficava em uma das ruas principais de Black Arrow. Sky tinha estado trabalhando com o homem que os havia interrompido até passar da hora de fechamento.
Do seu carro, que estava estacionado do outro lado da rua, Dom tinha visto como Sky atendia a seu cliente. Depois que o homem se foi, e ela tinha fechado a porta,
Dom saiu do carro para esperá-la fora. Era cirurgião plástico especialista em enxertos de pele para queimaduras graves. Mas, acostumado a ver todo tipo de coisas, não era imune ao sofrimento, o que aconteceu com Shelby há uns dias demonstrava isso.
Era estranho, mas ao recordar, não sentiu tanta dor como outras vezes. Possivelmente os que o chamavam doutor coração de pedra tivessem razão, ou possivelmente conhecer Sky Colton tinha feito esquecer parte do seu rancor.
Era por isso que esperava na calçada, em lugar de ir embora e retornar no dia seguinte? Por que não queria que Sky escapasse dele? Era uma idéia ridícula. Na realidade, tudo o que queria era recuperar seu dinheiro. Era o primeiro trâmite depois da ruptura e provavelmente o mais singelo.
A Sky Colton que imaginou era muito diferente da que tinha conhecido. Alguém disposto a dar conselhos de amor, tinha que ter pelo menos cinqüenta anos e Sky era muito mais jovem. Uma pessoa intrometida como a que imaginou não podia ser formosa, nem muito menos ter aquele cabelo negro e brilhante e uns olhos cinza tão cheios de raiva quando estava nervosa, e tão ternos quando algo a divertia. Aquela mulher que tinha destroçado seus planos de futuro não podia ser capaz de fazê-lo sorrir, menos mal que se deu conta a tempo.
Não queria sorrir. Sua vida tranqüila e ordenada era um caos graças à senhorita Sky Colton. Tinha que cancelar os pedidos de flores, o banquete, a festa de compromisso e os convites para o casamento. E além da parte prática, estava a outra. Afetava duas pessoas que eram muito importantes para ele e que levaram muito tempo desejando que se casasse. Não sabia como ia enfrentá-las.
Depois de descobrir que sua noiva fugiu com o chofer, havia ficado furioso. Tinha deixado uma nota, muitas faturas, e tinha desaparecido. Sky era a única pessoa sobre a qual podia descarregar sua frustração, embora se arrependesse de ter sido tão duro com ela.
Entre suas grandes destrezas como médico, estava a de ser capaz de construir uma boa relação com seus pacientes. Mas depois da traição de Shelby, a raiva se acumulou e não tinha encontrado nenhuma válvula de escape. Até que entrou na loja. Sky não era seu paciente e ele se deixou levar.
Imerso em seus pensamentos, Dom demorou em se dar conta de que as luzes da loja se apagaram. A porta se abriu e Sky saiu e fechou a loja.
Dom saiu das sombras.
—Já era hora.
—Meu deus! —Sky girou o corpo e o olhou muito surpresa. Colocou uma mão no peito e suspirou—. Não ensinaram na faculdade de Medicina que dar um susto assim a alguém pode provocar um ataque de coração?
—Eu sinto muito— encolheu os ombros enquanto fechava a gola do casaco—. Meu senso comum está tão gelado como o resto de meu corpo.
—Não está dizendo que ficou todo este tempo esperando na rua? —perguntou-lhe incrédula.
—Não exatamente, também estive um tempo no carro.
—Por acaso estava me vigiando? Acreditava que iria fugir? —perguntou divertida.
—Além de séries de médicos, você viu muitos filmes de suspense.
—Possivelmente. Talvez lhe surpreenda, mas nunca abandonaria a cidade. Tenho muito que perder.
—Ah sim?
—Escute, possivelmente não vai ser tão fácil voltar a vender os anéis.
—Por quê?
—Já imaginou quais são as possibilidades de que um casal entre em minha loja e tenha as mesmas iniciais que você e Shelby?
—Não sei do que está falando. Ela franziu o cenho.
—Acaso não se deu conta de que são desenhos exclusivos?
Ele encolheu os ombros.
—Por que teria que fazê-lo? Não estamos falando de instrumentos médico ou de um estetoscópio.
—Eu acredito que quando vemos um estetoscópio, vemos a todos.
—Não estou de acordo, há muitas diferenças. Algumas são muito pequenas, mas outras notam-se à primeira vista.
—Como as jóias que eu faço — respondeu ela—. Mesmo assim, não o identifiquei somente pelo desenho do anel. A aliança leva suas iniciais gravadas. Shelby pediu isso. Não acredito que um casal com as mesmas iniciais se apaixone de repente e queira comprar o anel — encolheu os ombros—. Possivelmente possa apagar as iniciais, mas não é algo fácil de vender e não posso me permitir tê-las à venda por muito tempo.
—Entendo... Então, pensa cobrar-me por isso — já me disse há um momento — ficou olhando-a—. Recorda de haver dito à minha noiva que deveria estar contente por casar-se com um médico?
—Deveria fazê-lo — respondeu com um suspiro—. Por que deveria me sentir responsável pelo que sua noiva lhe fez? Ninguém me escuta, nunca imaginei que ela faria. Eu falei com ela sobre coisas sem importância.
—Isso me disse faz um momento — ficou olhando-a-Lembra-se de haver dito a minha noiva que deveria estar contente por casar-se com um médico?
—Vagamente.
—Lembra-se de haver dito que a vida é breve e que não deveria fazer nada que não desejasse de verdade?
—Mais ou menos.
—Acaso em sua conversação superficial não disse a ela que a gente deve fazer o que manda o coração?
—Torture-me se quiser, mas isso é algo que todo mundo sabe.
—Assim reconhece que deu esse conselho a ela?
—Possivelmente. O que dizia Shelby na nota que lhe deixou?
—Que você havia dito tudo o que lhe contei, que tinha se dado conta de que você tinha razão e que não podia prosseguir com o casamento, porque estava apaixonada por Reilly Donovan e ia fugir com ele.
Ela ficou olhando-o fixamente.
—Não sei o que dizer... Lamento que o casamento foi cancelado.
Parecia tão jovem com aquela calça de lã cinza, o pulôver de gola alta e o casaco. Ele tinha trinta e oito anos, não era tão velho, mas comparado com aquele ar jovem e fresco que ela possuía, parecia um ancião.
—Por que pensa que ninguém a escuta? —perguntou de repente.
Ela o olhou surpreendida.
—Tenho cinco irmãos, três maiores que eu e dois menores. Amo muito todos eles, mas não gostam das mesmas coisas que eu gosto.
—Refere-se às jóias?
Ela riu.
—Essa é uma das coisas — tocou os lábios com um dedo. Ele não pôde evitar fixar o olhar naquela boca grande e sensual—. Embora me atendam quando necessitam um favor que os ajude a sair de um beco sem saída.
—Como?
—Quando fazem algo mau e a mulher com que estão está disposta a romper com eles. Se me dessem uma moeda cada vez que consegui salvar uma relação, seria uma mulher rica. As jóias ajudam a superar muitos problemas.
—Exceto os meus — mas ele não se deu conta de que sua relação com Shelby estava em perigo. E tudo graças a Sky Colton—. Assim, o que pensa fazer com minha fatura?
Ela suspirou.
—Por muito que necessite desse dinheiro, nunca poderia lhe cobrar. Minha consciência não me permite isso.
—Obrigado. Desejaria que todos os outros preparativos para o casamento fossem tão fáceis de cancelar.
Sobretudo a parte relacionada à sua família, as mulheres de sua família. Elas vão passar por uma grande decepção.
O que ia dizer a sua mãe? E a sua avó, que ia viajar da Espanha para assistir ao casamento?
—Quais os outros preparativos que precisa cancelar? —perguntou enquanto abotoava o casaco.
—Escute, aqui fora faz muito frio. O que parece se formos a um lugar mais quente e a convido para jantar? Ela o olhou intrigada.
—Não estará pensando em jogar veneno em minha comida?
—E por que teria que fazer algo assim? E como acredita que conseguiria fazê-lo? —disse-lhe divertido.
—A amiga de meu primo Willow, Jenna Elliot, é enfermeira. Ela me contou que os médicos e as enfermeiras têm acesso a muitas drogas. Podem receitá-las, assim também podem consegui-las.
Apesar de que não quisesse sorrir, não pôde evitar fazê-lo.
—E essa enfermeira amiga sua não contou que os médicos têm que fazer um juramento que nos obriga a fazer o bem?
Ela sorriu de novo.
—É que estava tão furioso quando entrou na loja, que não posso entender por que quer me convidar para jantar.
À medida que conversava com ela, ele tinha começado a sentir como seu aborrecimento se desvanecia. Além disso, tinha ocorrido algo insólito. Era uma idéia pouco convencional, mas não podia deixar de pensar em um problema que logo se converteria em uma grande crise. Estava desesperado e em momentos assim, o sentido comum desaparecia. Com a ajuda daquela mulher, possivelmente tudo poderia ser mais singelo.
—Digamos que quero convidá-la para jantar em agradecimento por ter aceitado que devolva os anéis — respondeu finalmente enquanto a segurava pelo cotovelo—. Além disso, necessito desesperadamente de uma mulher.
Capítulo 2
— Alto lá, doutor — Sky soltou—. Não sou dessa classe de mulheres.
—Acredito que não me entendeu.
Sky subiu a gola do casaco, estava começando a tremer de frio.
—Entristece-me ter que dizer, mas, suas palavras não deixam lugar a dúvidas. Está equivocado de pessoa.
—Escute — ele disse com as mãos elevadas como se tivesse se rendido—. Se continuarmos aqui fora você vai se morrer de frio e, sendo médico, não posso permitir. Vamos a algum local onde possamos falar. Quero lhe propor algo.
—Acredita que com essas palavras vai conseguir me tranqüilizar, doutor?
—Meu nome é Dom.
—De acordo.
—Prometo que não é o que pensa, e se mentir...
-Lembrar de que?
Ele passeou pela calçada, parecia incomodado.
—Dê-me um minuto. Estou tentando pensar em algo que te convença de que sou sincero.
—Eu tenho uma idéia. Se continuar, direi a meus cinco irmãos e a meus quatro primos que lhe dêem uma boa lição. E antes que diga mais alguma coisa, tenho que dizer que minha família faz parte das forças de ordem. Meu pai é um soldado aposentado e agora tem uma empresa de segurança. Um de meus corpulentos primos é o xerife de Black Arrow. Meu irmão Jesse está na Agência de Segurança Estatal e Billy é militar. Ambos conhecem centenas de formas de matar um homem com as mãos. Tenho outro irmão, Grei, que é juiz. Ele poderia se encarregar de fazer desaparecer o que sobrar de você.
Quando Sky terminou de falar, ele estava rindo com vontade. Ela ficou atônita. Era incrível o quanto se transformava quando estava de bom humor. Passava de ser um doutor sério e inacessível, a alguém muito próximo em poucos segundos. Ao ver aquele agradável sorriso, o pulso de Sky se acelerou.
—Acredita que estou brincando? —perguntou.
Ela estava lutando por manter suas emoções sob controle. Se fosse uma garota esperta, daria a volta e o deixaria sozinho. Não queria sentir-se atraída por nenhum homem. E muito menos por um homem que acabava de perder a sua noiva e que ainda a culpava por isso. Mas não foi uma garota esperta. Ficou ali olhando aquele sorriso até que desapareceu.
—Não acredito que esteja brincando — disse negando com a cabeça, mas ainda divertido—. Acredito que tem bons contatos nas forças da ordem.
—Assim quer me propor algo, mas não necessita de uma mulher, não?
—Não. Quero... Bom, na realidade, preciso falar contigo. Se o que tiver que dizer te ofender, pode chamar a sua família.
—Então de acordo. Mas não faz falta que me convide para jantar.
Ela confiava naquele homem. Possivelmente porque Shelby tinha falado bem dele ou o fato de ser médico inspirasse confiança nela. Qualquer que fosse a razão, Sky estava acostumada a ser boa no julgamento das pessoas, exceto em uma ocasião seu coração tinha falhado. Sabia que não tinha por que temer a Dominic Rodríguez.
—Meu apartamento está em cima da loja. Prepararei algo para você jantar.
—Não é necessário que...
—Acredita que não sou boa cozinheira?
—Não, eu sozinho...
Ela suspirou em voz alta.
—Está piorando as coisas, doutor.
—Não quis ofender — tomou ar—. Estou certo de que cozinha muito bem, mas não quero incomodar.
—Não é nenhum incômodo. Eu gosto de cozinhar. Relaxa-me. Além disso, hoje é sexta-feira, os restaurantes estarão cheios e teremos que esperar. Se formos a minha casa, esquentaremos em seguida e o jantar vai estar preparado em uns minutos.
—De acordo.
—Siga-me, doutor — disse ela enquanto se dirigia à porta vizinha à loja.
—Não pode subir através da loja?
—Não, meu primo Bram...
—O xerife?
—Sim, ele e meu pai se encarregaram de instalar o sistema de segurança da casa. Como na loja há jóias de muito valor, é bastante possível que alguém tente roubá-las, então pensaram que o melhor seria que não pudesse acessar a minha casa através da loja no caso de algum assalto.
—Boa idéia, mas tem algo mais, não?
—Instalaram um sistema de segurança e meu pai deu sua aprovação antes de instalá-lo. Também tenho um bom seguro.
—Na realidade me referia a seu apartamento, não à joalheria.
—Tenho outro sistema acima e mais seguro. Não precisa que se preocupe comigo.
Embora estivesse segura de que não estava preocupado com ela... Dirigiram-se à escada, tirou a chave do bolso do casaco e abriu a porta. Depois de acender as luzes, marcou o código de segurança e logo fechou a porta.
—Lar, doce lar — disse enquanto tirava o casaco e o pendurava no cabide—. Pode me dar seu casaco?
Ele assentiu com a cabeça, tirou a jaqueta de couro e a deu. Estava ainda quente e desprendia uma fragrância muito masculina.
—Obrigado — disse Dom enquanto olhava o salão—. É uma casa muito bonita.
—Eu gosto.
O apartamento tinha dois andares. Em cima havia dois dormitórios, um banheiro e um estúdio. A planta principal, onde estavam naquele momento, estava composta pelo salão, a sala de jantar, a cozinha e uma área para a máquina de lavar roupa. No salão havia um sofá e sua poltrona favorita. Ambos possuíam um estampado de flores. No canto havia uma mesa com um abajur para a leitura.
Ela se dirigiu à cozinha e Dom a seguiu.
—Quer tomar algo? Cerveja? Vinho? Café? Chá? — «ou a mim?»
Desejou não havê-lo dito em voz alta.
—Uma cerveja.
—Sirvo isso agora.
Meu deus! O que tinha aquele homem que a punha tão nervosa? Tinha algo, algo que tinha feito convidá-lo a sua casa. Normalmente não estava acostumada a fazer isso até depois do quarto encontro. Mas conhecia Dominic Rodríguez há apenas três horas e já estava rompendo as normas.
Abriu a geladeira e se inclinou um pouco para tirar uma garrafa de cerveja, ergueu-se e fechou a porta. Quando o olhou de novo, a agradou ao ver como ele levantava o olhar. Tinha estado observando seu traseiro e em seus olhos havia um brilho de aprovação.
Um ligeiro tremor percorreu suas costas, agradava ver que ele a olhava com aprovação. Mas, por quê? Não se interessava por aquele homem e não importava se ele estava interessado nela. Atribuiu à auto-estima e deu a cerveja a ele.
—Aqui está.
Ao dar a garrafa se perguntou o que tinha um homem apoiado contra o batente de uma porta para que o achasse tão masculino tão atraente. Arregaçou a camisa e cruzou os braços. Parecia um modelo.
—Obrigado — disse-lhe—. Você não toma nada?
—Não está tentando me embebedar, não?
—Absolutamente. Essas cem formas de matar um homem com as mãos dissuadem qualquer um.
—Muito bem. Além disso, é difícil que uma cozinheira bêbada possa preparar uma comida decente.
Sky deu a volta, tirou uma forma da geladeira e acendeu o forno.
—Chama isso preparar uma comida?
—É obvio — olhou-o e sorriu—. Preparei esta manhã. São raviólis recheados de espinafres e queijo com molho de tomates.
—Bem pensado.
—É claro.
Programou o forno e preparou rapidamente uma salada e pão de alho. A única coisa que faltava fazer era pôr a mesa, mas tinha estado deixando para o final, porque para fazer tinha que passar perto dele. Tomou um par de pratos, os talheres e os guardanapos e se dirigiu à porta.
A fragrância de sua colônia era intensa e quando o roçou sentiu um calafrio. E se por acaso aquilo fosse pouco, teve que passar tão perto dele que pôde perceber o calor de seu corpo. Como podia ser possível que aquele homem sentisse frio na rua?
Sky terminou de pôr a mesa na sala de jantar.
—De acordo, agora só temos que esperar que a comida esquente. Vamos sentar no salão? Já é hora de que me fale desse problema que tem.
—Que problema?
—Acaso têm tantos que não se lembra qual me expôs?
—Normalmente não, mas desde que te conheço...
—Refrescarei a tua memória. Refiro-me ao comentário a respeito de que necessitava desesperadamente de uma mulher, além da proposta que mencionou que queria me fazer.
—Ah, isso.
Sky deixou que o doutor fosse à frente, para que escolhesse o assento e ela pudesse sentar-se longe dele. Dom se sentou no sofá, assim que ela se acomodou em sua poltrona favorita.
—Por que está tão desesperado por conseguir uma mulher?
—Na realidade, é tua culpa.
—Não comece outra vez com isso — advertiu ela.
—Nem sonho. Mas já não tenho noiva.
—E o que tem isso que ver comigo? Acaso não pode seguir com sua vida? Eu fiz...
—O que disse?
—Não importa. Agora estamos falando de você. O melhor que pode fazer é não olhar para trás.
—Mas tenho que enfrentar a minha mãe. Deixe-me contar um pouco de coisas sobre mim para que entenda — apoiou os cotovelos sobre os joelhos enquanto segurava a cerveja.
—De acordo — Sky se recostou na poltrona e cruzou as pernas, enquanto tentava deixar de pensar na facilidade que Dom parecia ter para posar de uma forma tão masculina.
—Meus pais emigraram da Espanha quando minha mãe estava grávida de mim. Meu pai era médico, e tinha pensado em abrir uma clínica neste país. Mas morreu em um acidente de carro.
—Deus, sinto muito.
Sky se inclinou e colocou uma mão sobre o braço dele. Sabia que não era uma tragédia recente, mas queria reconfortá-lo e para fazer isso tinha que tocá-lo.
Agarraram-se pelas mãos durante uns segundos. Sky sentiu uma mescla de calor e frio e depois estremeceu. No final retirou a mão.
—Meu pai queria que seu filho fosse americano, assim que minha mãe se negou a voltar para a Espanha, apesar da insistência de minha avó. Minha mãe não tinha estudos, assim que se dedicou a limpar casas.
—Tem que ser uma mulher muito valente. Ele assentiu com a cabeça e bebeu um pouco de cerveja.
—Trabalhou como governanta nas casas de várias famílias muito ricas e assim conseguiu pagar meus estudos primários e secundários. Ganhava bastante dinheiro, e tudo o que sobrava economizava para me dar uma boa formação. Minha mãe sabia quão importante é ter uma boa educação.
—Deve estar muito agradecido.
—Sim — Olhou-a fixamente—. Devo tudo a ela. Sacrificou-se muito por mim. A única coisa que ela sempre desejou para si mesma foi viajar e ver mundo, mas nunca pôde se permitir isto —
—Parece uma mãe maravilhosa.
—Se não tivesse sido por ela, nunca teria chegado até onde estou agora.
—Entendo, mas não compreendo o que tem haver com o fato de que necessite uma mulher.
—Tenha um pouco de paciência — tomou um pouco de ar—. Trabalhei duro para não decepcioná-la, e tive muita sorte, o melhor cirurgião plástico de Houston prestou atenção em mim. Ofereceu-me uma sociedade e a oportunidade de ficar com uma clínica de muito prestígio quando se aposentasse. Não demorei em ganhar uma boa reputação e, há um tempo, não tenho problemas de dinheiro.
—Sim, sei que o mundo da cirurgia estética está muito em moda.
—A cirurgia plástica não só é isso, mas falaremos disso em outra ocasião. Tentei convencer a minha mãe de que se aposentasse ou de que pelo menos me deixasse convidá-la a fazer uma viagem.
—E o que acontece?
—É uma mulher muito independente — negou com a cabeça—. E logo me disse que não desfrutaria da viagem até que eu não me casasse e sentasse a cabeça.
—É muito direta.
Ele sorriu.
—Faz tempo que minha mãe e minha avó não param de me dizer que deveria me casar.
—Assim são as mães.
—Isso é o que ela disse. Disse-me que eu nunca a entenderia que só uma mãe podia sentir algo assim, e a não ser no dia em que os homens fossem capazes de ter filhos, nunca a compreenderia.
Sky riu.
—Simpatizo com a sua mãe. Ela e sua avó devem ter ficado muito contentes quando disse que ia se casar com Shelby.
Ele assentiu com a cabeça.
—Tudo aconteceu muito rápido e eu queria dar algo de presente a elas. Dei a notícia e as convidei a fazer um cruzeiro pela Grécia.
—É muito generoso.
—Queria um casamento simples para arrumar tudo o quanto possível. Shelby concordou. A idéia era que minha avó viesse da Espanha para fazer o cruzeiro com minha mãe. O casamento aconteceria quando voltassem.
—O que disseram quando contou que o casamento foi cancelado?
—Nada.
—Não disseram nada?
—Ainda não disse.
—Dom, tem que contar-lhes, disse muito surpreendida—. Tem que dizer antes que sua avó venha para nada.
—Se as coisas funcionarem como pretendo não virá para nada. Quero que minha avó faça o cruzeiro. A minha mãe adorará e minha avó tampouco viajou muito.
—Mas agora que não vai se casar, acredita que vão querer vir?
—Se conseguir fazer a festa, nunca irão se inteirar.
—Que festa?
—Uma que organizei para anunciar meu compromisso. Minha mãe insistiu em que tudo devia ser feito segundo a tradição.
—Isso não está certo. Tem que contar a verdade. Certamente se souberem como importante é para você que elas desfrutem...
—Mas embora conseguisse convencê-las que fossem minha mãe faria sua primeira viagem com uma grande tristeza. E tudo é tua culpa.
—Culpa minha? —um assobio anunciou que a comida já estava quente e se levantou—. Tem sorte, salvo pelo sino.
Olhou-a satisfeito.
—Acaso esse sino não anuncia o começo do segundo assalto?
Sky se dirigiu à cozinha e tomou a forma quente.
—É a última vez que digo isso, não foi minha culpa.
Embora não pudesse evitar se sentir um pouco culpada.
Acaso Shelby teria fugido com o chofer se não tivesse dado nenhum conselho?
—Quer dizer que não aconselhou a Shelby que fizesse o que lhe ditava o coração? Não disse que a vida é muito breve para fazer algo que não está segura?
—Já contei tudo e, além disso, é um bom conselho — Sky não gostava de como ia a conversa—. O jantar está servido. Prometi isso. Depois do jantar acredito que deveria ir.
—Não quer saber por que necessito uma mulher?
—Não.
—Não está nem um pouco intrigada?
—Nem um pouquinho.
—Sky, você mente muito mal.
—Doutor, sente-se e coma.
—Necessito de uma noiva.
—E o que eu tenho com isso?
—Só necessito até que passe a festa de noivado.
—Isso não te ajudará. Só conseguirá atrasar o inevitável. É melhor que diga a verdade. Ter a consciência tranqüila te ajudará a se sentir bem e evitará futuras paradas cardíacas.
—Obrigado pelo diagnóstico. Normalmente estaria de acordo contigo, mas sei que as mulheres de minha família são muito teimosas. Ou as convenço de que vou sentar a cabeça de uma vez por todas, ou não irão viajar. E sei o muito que minha mãe deseja fazer algo assim. Mas se fizer a festa e as convenço de que sou feliz e estou a ponto de me casar com a mulher de minha vida, farão o cruzeiro.
—Shelby era a mulher de sua vida? —perguntou em voz baixa. Sentia-se muito culpada.
—Minha mãe teria pensado que era a mulher perfeita. Foi aos melhores colégios do país, viajou. É o tipo de mulher que minha mãe sempre admirou. Bela, independente, educada, capaz de cuidar de si mesma. Uma mulher capaz de viver com um homem muito ocupado, a mulher ideal para um médico.
O casal ideal para o doutor perfeição até que Sky tinha aparecido e tinha quebrado todos seus planos. Gostaria poder voltar atrás e não dar nenhum conselho.
—E? O que responde? —ele perguntou.
—Eu diria que está louco.
—Não estou pedindo que seja minha psicóloga. Sky negou com a cabeça.
—Não funcionará certamente tudo sairá mal — colocou as mãos na cintura—Não há nenhuma lei que proíba fazer coisas assim? Não é uma fraude? É uma idéia horrível.
—Não estou pedindo sua opinião.
—Então o que me está pedindo?
—Estou pedindo que passe por minha noiva, nessa mulher que preciso — olhou para o teto e suspirou—. O que quero dizer é, seria minha noiva?
Possivelmente Sky estivesse tão louca como ele, mas durante uns segundos, sonhou que a pedia de verdade. Que pedia que se casasse com ele. Não eram loucos?
—Não sei que dizer.
—Com um sim ou um não bastará.
—Dom, não posso fazer isso.
—É preciso que eu recorde que você é a culpada de eu não ter mais uma noiva? Pense em minha mãe, uma mulher cheia de coragem que sacrificou sua vida por mim. É minha oportunidade de fazer algo por ela. Deve-me isso, Sky.
—Quando disse que necessitava uma mulher, pensei que se referia a outra coisa.
—Ao que? —perguntou com um sorriso. Sabia perfeitamente o que ia dizer.
—A sexo. Acreditei que necessitava de uma mulher para se deitar com ela.
—Apesar disso convidou-me para vir a sua casa?
Ela suspirou.
—Sim. Acredito que nós dois necessitaríamos de um psicólogo. Possivelmente podemos fazer uma terapia conjunta — Negou com a cabeça e olhou-o—. Se estivesse falando de sexo tudo teria sido muito mais singelo.
Capítulo 3
-Sim, mas com o sexo não soluciono nada, disse com os olhos muito brilhantes.
—Então não é igual ao resto dos homens.
—Obrigado.
Ela não podia acreditar que se atreveu a falar sobre o tema do sexo. Acaso estava tentando distraí-lo de sua absurda idéia? Ou queria falar de coisas mais pessoais? Na realidade preferia falar sobre seus planos. Sky sempre tinha pensado que ela era a ovelha negra da família, que todos eram muito diferentes dela. Fingir ser outra pessoa poderia chegar a ser divertido...
Tinha tentado que sua relação com Wes funcionasse, mas ele queria mudá-la, não a queria tal como era. Felizmente tinha se dado conta antes de casar-se com ele. Pelo menos, Dom era sincero e havia dito o que queria. Aquilo era algo novo para ela.
—Dizer que é diferente dos outros homens não é necessariamente um elogio.
—Está mudando de assunto. Que te parece se pago os anéis? Poderia me ajudar então?
—Não estou falando de dinheiro. Dom preciso lembrar a você uma vez mais que não é uma boa idéia. Trair a sua mãe e a sua avó... É como ir contra a natureza. Enganar a mulher que te pariu e a sua mãe... —negou com a cabeça—. É uma idéia absurda. Eu não sei...
—Está exagerando.
—Suponho que você é um desses médicos que não acredita na medicina natural, não?
—Sou um médico cujo principal objetivo é fazer com que os pacientes se sintam melhor, utilizando todos os meios que estão a meu alcance. Se a única forma de fazê-lo é traindo, que seja assim. Não importam os meios para que sempre se consiga o que se quer.
—O fim justifica os meios?
—E por que não? Já te disse que eu sozinho utilizo minha habilidade para fazer o bem — cruzou os braços—. O que me responde?
—Mas quando voltarem da viagem terá que contar a elas que no final não vai se casar. E isso é o que elas mais desejam.
—Terminarei me casando. Só tenho que encontrar outra noiva.
—Que tola eu fui. No que estaria pensando? Tem razão, o mundo está cheio de noivas dispostas a se casar—respondeu com sarcasmo.
—Não queria dizer isso. Só necessito tempo para procurar alguém.
—Falas como se tivesse muito tempo livre.
—O que quer dizer com isso?
—Sua noiva me contou que não tinha um anel de compromisso porque você não tinha tempo para comprá-lo. E não pôde arranjar tempo para vir com ela para comprar as alianças. O que te faz pensar que vais ter tempo para procurar outra mulher que queira casar-se contigo?
—Podemos nos concentrar em um problema somente? Ou prefere procurar bronca?
—Se com isso consigo que se esqueça de sua absurda idéia, seguirei toda a noite.
—Vai ajudar-me ou não?
—Não posso te responder agora, não é tão simples — suspirou—. Tenho que pensar em muitas coisas. Simplesmente não sei.
—Volto para Houston no domingo, poderia me dar uma resposta amanhã?
—Terei que fazer.
Sky não sabia por que não se limitou a dizer que não, que nunca faria algo assim e que não mudaria de opinião. Mas aquela resposta era tão definitiva, que não conseguia pronunciá-la.
Não ia mudar de opinião, tinha que negar. Não podia fingir ser sua noiva. Teria que despedir-se dele de uma vez por todas, e não sabia por que, mas a entristecia ter que fazer isto.
No dia seguinte, Dom se deteve nos tribunais de Black Arrow e ficou olhando o edifício. As paredes do interior estavam tingidas de negro por causa do incêndio que tinha ocorrido fazia um par de meses. Tinha ido à loja de Sky para vê-la, mas ela não estava ali. A mulher mais velha que estava atrás do balcão se apresentou como Alice, a mãe de Sky. Havia dito onde podia encontrar a sua filha. Tinha contado que Sky tinha ido se despedir de seu irmão, que se mudava para Washington.
Enquanto passeava pelos tribunais, deu-se conta de que a parte mais prejudicada do edifício eram as salas onde se guardavam os arquivos.
De repente ouviu vozes e se dirigiu para elas. Procediam de uma sala na ala esquerda do edifício. O incêndio não parecia ter afetado essa zona. Como a mãe de Sky tinha indicado, ela estava ali. Havia três homens com ela.
Ficou parado na porta e os olhou. O grupo estava de costas e continuaram falando. Suas vozes retumbavam nas paredes, Dom podia ouvi-las com clareza. Dois daqueles homens eram mais ou menos de sua mesma altura, perto do metro oitenta. Tinham o cabelo escuro como o de Sky e Dom pensou que certamente se tratava de dois dos homens corpulentos que ela tinha falado na noite anterior. Perguntou-se qual dos dois seria o que conhecia cem formas de matar a um homem com as mãos.
O terceiro homem era diferente. Pouco depois de entrar na sala o ouviu falar.
—Bram, por que não se encarrega de avaliar os danos sofridos no jornal, os tribunais e a empresa de cereais? Quando fizer, envie o relatório ao meu pai.
Bram se penteou com a mão. Inclusive de longe podia ver com clareza a sua insígnia de xerife e o revólver que levava na cintura.
—Escuta Rand, sei que é parte da família, mas isto não é assunto teu, e tampouco de seu pai.
Naquele momento, Dom se deu conta de que aquele homem era Rand Colton. Tinha ouvido falar deles, eram uma família muito rica da Califórnia. Estava claro que Sky era parente deles.
Rand levantou a mão.
—É obvio que é nosso assunto. A culpa de tudo é de meu tio Graham. Graham não pode suportar que seu pai Teddy não estivesse casado legalmente com sua mãe. Por isso contratou Kenny Randolph para que destruísse todas as atas de nascimento e o resto dos papéis que testemunham da relação entre Teddy Colton e os Colton de Oklahoma. Para Graham só interessa o dinheiro, mas se equivocou ao contratar um ex-sentenciado. Ele não pretendia fazer dano a ninguém, nem criar esta desordem. A responsabilidade é de minha parte da família, assim nós arrumaremos tudo. A família deve se manter unida.
—Eu estou de acordo — disse Sky.
—Meu pai me enviou para me encarregar de tudo — Rand girou o corpo e Dom o viu sorrir e olhar aos outros dois homens—. Ninguém diz não a Joe Colton, e não quero discutir mais sobre o tema.
—Como você falou — disse Bram assentindo com a cabeça—. A verdade é que nós estamos muito assombrados com a herança. Ainda não sabemos que vamos fazer com ela, e Kenny não foi de muita ajuda.
Rand assentiu com a cabeça.
—Jesse, quando for a Washington, pode tentar averiguar o paradeiro de Kenny?
—Verei o que posso fazer — depois olhou para Sky—. Espalhou essa foto de Kenny? É importante que todo mundo saiba como é, para que estejam alerta.
—Sim, já fiz — respondeu—. De todas as formas, provavelmente já está muito longe daqui.
—Não esteja tão segura, irmãzinha, nenhum de nós deve baixar a guarda. Kenny atacou Willow, por isso sabemos que é capaz de atacar uma mulher — olhou Bram—. Comprovou que os sistemas de segurança da joalheria e de seu apartamento funcionam bem?
Bram assentiu com a cabeça.
—Eu e seu pai comprovamos. O tio Thomas disse que o sistema estava em perfeitas condições. O sistema de segurança está conectado a uma central. Se houver algum problema, não demorarão a chegar ali.
Jesse a olhou.
—Possivelmente você e eu deveríamos repassar alguns desses golpes que te ensinei...
—Não estamos sozinhos — disse Rand olhando a Dom com desconfiança.
—Olá — saudou Dom. Os três homens giraram de repente e não deixaram de olhá-lo enquanto se aproximava deles. Possivelmente ele também teria que fazer uso de suas aulas de defesa pessoal. Quando Sky olhou, mudou de cor.
Os três homens o olharam intrigados.
—Não me recordo haver visto antes — disse o xerife Bram.
—Cheguei à cidade ontem — explicou Dom—. Sou amigo de Sky.
Dom não pôde evitar pensar que aquilo parecia uma cena de um filme de jeans em que o forasteiro bonito entra no bar. Perguntou-se se Sky o achava atraente e se surpreendeu ao dar-se conta do muito que importava sua opinião.
Depois recordou o que ela havia dito sobre o sexo na noite anterior. Olhou-a atentamente. Trajava uma saia negra e justa, sapatos de salto e um pulôver de cor nata que ressaltava a suavidade de seus quadris. Seu aspecto era refinado e muito feminino. Estava muito atraente.
—Doutor Dominic Rodríguez, este é meu irmão, Jesse, meu primo Bram, e Rand, meu recém descoberto primo.
Dom estirou a mão aos três homens e depois se dirigiu a Bram.
—Não pude evitar ouvir, xerife. Escutei vocês falarem sobre o valentão que contratou alguém da família, mas, por que teve Sky que distribuir sua foto?
—Ofereceu-se — Bram olhou aos outros dois homens—. Toda a família está interessada em apanhar esse desgraçado. Atacou a minha irmã Willow e causou muitos danos em numerosos edifícios da cidade enquanto procurava informação sobre nós. Quando Graham se deu por vencido, Kenny jurou que se vingaria dos Colton. É um homem fugidio e perverso, fez muitas coisas más. Todos devem manter os olhos bem abertos até que consigamos apanhá-lo.
—Entendo — disse Dom. Aqueles homens estavam muito nervosos e ele era o centro de todas as olhadas.
Olhou Sky. Os olhos claros, a pálida pele, o cabelo negro e brilhante... Ela permanecia de pé, orgulhosa, sem medo. Dom não soube por que razão, mas de repente sentiu vontade de abraçá-la com força e protegê-la. Meu deus! Por que sentia algo assim? Estava claro que ela não necessitava dele.
Mesmo assim, era provável que ela tivesse razão, Kenny devia estar muito longe já. Aproximar-se dos Colton depois do que tinha passado era coisa de louco, sobretudo tendo em conta o tipo de homens que abundavam na família.
Jesse tossiu.
—Sky, já terminamos. Seu amigo...
—Bom, não se pode dizer que sejamos amigos. Eu diria que temos um negócio pendente.
Jesse ficou olhando para ela por um instante.
—Algum negócio do qual eu deveria ser informado?
—Tranqüilo irmão, não obrigue Dom a utilizar as mãos. Necessita delas para seu trabalho — olhou a seu irmão com tristeza—. Mas tenho que ir. É hora de voltar para a loja. E você tem que ir ao aeroporto. Suponho que isto é uma despedida.
—Sim... —aproximou-se e a abraçou com força—. Cuide-se bem, irmãzinha. Não se meta em confusões.
—Já me conhece.
—Sim, é por isso que digo isso.
Ela riu e depois se afastou.
—Quero-te muito. Tenha cuidado.
—Você também. Não se preocupe pelo Kenny. Iremos apanhá-lo. Além disso, não se atreverá a aparecer por aqui. Em Black Arrow estará segura.
—Eu sei — beijou-o e logo se afastou um pouco mais—. Saúde Samantha de minha parte. Acabou de se casar—disse a Dom.
Pelo menos alguém conseguia casar-se, pensou Dom.
—Parabéns — disse enquanto estendia a mão.
—Obrigado — respondeu Jesse enquanto apertava sua mão com força, com muita força. Dom assentiu.
—É um prazer conhecer a todos — disse enquanto dava a mão ao resto dos homens.
—Adeus, meninos — disse Sky enquanto se despedia com a mão.
Dom a seguiu. Saíram à rua, fazia muito frio e ela se deteve para vestir o casaco. O sol brilhava e o céu estava claro, mas o vento soprava com força.
—Como soube onde me encontrar? —disse enquanto terminava de abotoar o casaco.
—Sua mãe me disse.
Ela assentiu.
—É obvio, não sei como não pensei nisso. Ela me substitui sempre que necessito.
—Posso te convidar a comer?
Sky negou com a cabeça.
—Já usei minha hora do almoço para ver meu irmão.
—Não está tentando me evitar?
—Por que diz isso?
—Porque como é a proprietária da loja, acredito que pode tomar o tempo livre que queira. Sobretudo se for sua mãe que te substitui. Seu negócio está em boas mãos.
—Pode ser, mas não te ocorreu pensar que minha mãe possivelmente tenha outras obrigações?
—Ela tem?
—Não. É uma professora aposentada e desde que meu pai deixou de trabalhar, sempre procura desculpas para sair de casa. Suponho que passam muito tempo juntos. Mas não quero me aproveitar dela. Disse que estaria de volta em uma hora.
Ele parou no meio da calçada.
—Há uma invenção muito prática chamada celular. Com ela pode chamar de onde quiser.
—É muito engraçado—disse enquanto ria—. Tenho uma dessas maravilhosas invenções, mas prefiro não usá-la. Prefiro voltar para trabalho.
—Assim está fugindo de mim.
—Isso seria covardia.
—Já se decidiu? Disse que ia pensar nisso, vai me ajudar?
Ela o olhou preocupada.
—Acredito que é uma má idéia, Dom.
—É uma boa idéia — apontou para os tribunais queimados pelas chamas—. Você mesma disse faz um momento, que a família vem em primeiro lugar, que deve se ajudar uns aos outros.
Ela colocou a bolsa.
—Acredito que enganar a sua mãe e a sua avó é ajudá-las?
—É por razões de força maior.
Dom sentia uma mescla de júbilo e fúria ao falar com ela. As discussões o estimulavam. Enfurecia-o de tal forma que seus olhos se obscureciam e seu pulso se acelerava.
—Isso não é verdade, está equivocado — respondeu enquanto negava com a cabeça—. Não importa o que diga, continua sendo uma mentira e as mentiras são más.
—Isso depende da forma que se olhe — encolheu os ombros—. Eu acredito que terminarão me agradecendo por isso.
—Já a mim, olharão com ódio.
—Mas quando o fizerem, não estará ali para ver — sentiu um pouco de pena ao terminar de dizer aquelas palavras. Como se não gostasse da idéia de não vê-la nunca mais—. Escute-me, Sky, significaria muito para mim que fizesse este favor. Necessito que me dê uma resposta. Quer ser minha noiva, sim ou não?
Enquanto fazia a pergunta, duas mulheres mais idosas passaram a seu lado e ficaram olhando para Sky. Ela as olhou como se desejasse que a terra a tragasse.
—Olá, faça isso. Olá, Ruthanne.
—Quem é esse forasteiro tão bonito? —perguntou uma das mulheres.
—Um amigo — respondeu Sky—. Foi um prazer ver vocês duas — disse enquanto seguia caminhando pela calçada. Quando se afastaram das duas mulheres, olhou-o— Dá conta do que tem feito a mim? Essas duas mulheres são as pessoas mais fofoqueiras de Black Arrow. Dentro de uma hora todo mundo da cidade pensará que sou sua noiva.
—Que coincidência! Eu tenho uma festa de noivado dentro de pouco e necessito de uma noiva. O que me diz?
—Podemos falar do tema em outro momento e em privado?
—Onde? Quando? —perguntou ele.
—Em minha casa às sete.
Sky estava no salão com Dom, embora daquela vez ela tivesse cometido o engano de sentar primeiro e ele se sentou a seu lado. Apesar do intenso aroma do jantar que estava esquentando no forno, Sky pôde captar a masculina fragrância de sua colônia. Ela tinha jurado não manter relações com os homens por um tempo, mas não pôde evitar que todos seus sentidos despertassem diante aquele aroma.
Recostou-se contra a poltrona e se colocou mais afastada dele que pôde.
—Bom, explique uma vez mais por que quer que o eu faça. E não me diga que devo isso, porque não é verdade.
—Contigo bastará até que tenha tempo de encontrar outra mulher que queira casar comigo — respondeu ele enquanto descansava seu braço sobre o encosto do sofá.
—Muito obrigado — disse ela zangada—. Bem, vou dizer o que pode fazer com sua idéia de farsa... Ele a deteve, selando seus lábios com um dedo.
—Tome cuidado, não vá dizer algo que logo se arrependa.
—De acordo, por mim pode fazer o que quiser com seu plano, mas não tenho intenção de te ajudar.
—Escute Sky. É por pouco tempo, minha avó e minha mãe não demorarão muito em vir para assistir a minha festa de noivado. Na segunda-feira tenho que estar de volta ao trabalho. Não tenho tempo para procurar outra pessoa, minha mãe se sacrificou muito por mim.
—A minha também, mas...
—Ele negou com a cabeça.
—Não entende, eu a vi usar sapatos cheios de buracos. Remendava seu casaco cada ano para não comprar um novo, havia vezes que inclusive dizia que não tinha fome para que eu comesse bem. Eu sabia que mentia. As coisas melhoraram quando conseguiu um trabalho como garota da limpeza na casa de uma família muito rica e eu fui trabalhar em tempo parcial. Tínhamos mais dinheiro e ela começou a economizar para fazer uma viagem, mas logo vieram os gastos de matrícula, os materiais, os livros...
—Mas Dom...
Ele a deteve levantando a mão.
—Não me interrompa. Ela viveu com o mínimo e logo me disse que não podia ir viajar até que eu tivesse sentado a cabeça. Maldita seja quase consigo... Estava noivo e ela aceitou em fazer a viagem. Era minha oportunidade de agradecer e de compensá-la por todas as penúrias pelas quais passou. Não fará se pensar que está me abandonando.
—É um homem adulto e vive muito longe dela, como pode pensar que está te abandonando se viajar?
—Eu não estou dizendo que a entenda, só estou te contando o que ela diz. O que quero dizer, é que não quero que continue se sacrificando por mim, não se posso fazer algo para evitar.
De repente, ela se perguntou por que o chamavam o doutor coração de pedra. Ela sabia que teria que ser muito insensível para que aquelas palavras não a comovessem. Um homem como aquele, que se importava tanto com sua mãe, seria um marido ideal. Embora ela não quisesse se casar, não queria voltar a sair com nenhum homem e muito menos com o homem que tinha encontrado a mulher perfeita e a tinha perdido por sua culpa.
—E o que tem com o meu negócio? Quem vai me substituir enquanto eu fingir ser sua noiva?
—Sua mãe? Ela suspirou.
—Não sei mentir, você mesmo disse. Não poderei enganá-las.
— Só quero que faça o melhor que puder.
—Vou ao inferno — depois o olhou—. E você também, por me pedir que minta — disse enquanto negava com a cabeça.
—Quer dizer que fará?
—Não. Quero dizer que ambos sabemos que não tenho razões para me sentir culpada e que se fizer isto por ti, deveria pensar como uma forma de me devolver o favor.
—Por exemplo, fingindo ser seu noivo? Ela sorriu.
—Não. Como pensa em me devolver o favor?
—Já te disse que assino a nota promissória dos anéis, que mais quer? —perguntou surpreso. Ela pensou durante uns instantes. Não ocorria nada para pedir a ele—. Darei o que quiser, mas me diga, isto significa que vai me ajudar?
Ela assentiu.
—Sim.
— Sinto vontade de te abraçar.
Ela elevou a palma da mão.
—Preferiria que não fizesse isso.
—Seus desejos são ordens para mim — disse enquanto se limitava a acariciar sua bochecha—. Não sei como lhe agradecer por isso — Parece experiente para alguém que diz ser muito mal nisto.
—A sua mãe vai agradecer com um cruzeiro — insinuou ela.
—Boa intenção.
—Não perco nada por provar — de repente o olhou pensativa—. Bem, voltemos para o assunto que nos ocupa. As mentiras convencem mais, quanto mais verdade houver nelas.
—Parece uma perita para alguém que diz ser inexperiente.
—É o sentido comum. Mas falo sério, precisamos compartilhar um par de coisas para que nossa história pareça convincente.
—Como o que por exemplo?
Ela ficou pensando um momento.
—Em primeiro lugar, como nos conhecemos?
—Vim a Black Arrow para solucionar o tema da fatura.
—Não refiro a nós, refiro a ti e a Shelby.
—Vive em Midland, ali é onde está a empresa de petróleo de seu pai. Mas a conheci porque era meu paciente.
—Não sou muito boa em geografia, mas Midland e Houston estão muito longe, por que foi até ali?
—Tinha ouvido falar muito bem de mim e queria que eu a visse. Veio de limusine no fim de semana de Ação de Graças.
—Em uma limusine? Deve ter algo contra os aviões.
—Odeia os aviões.
—Alguma vez pensou que passava muito tempo com o chofer?
—Não. A partir de agora, passará a vida na estrada.
—Se a memória não me falha, Shelby parecia perfeita. O que fez? O nariz? Os seios? O queixo?
— Não posso falar disso.
—De acordo — de toda forma, não era importante. De repente calculou o tempo que levava saindo com Shelby e assobiou com surpresa—. O dia de Ação de Graças? Foram muito rápidos, não?
—Como você disse antes, não tenho tempo que perder. Além disso, quando encontra a pessoa adequada, é fácil decidir.
De repente, Sky voltou sentir-se culpada.
—Sinto que sua relação não funcionou.
—Eu também, mas... Voltemos para trabalho.
—De acordo — disse Sky. Não queria afundar em sua culpabilidade—. Acaba de ocorrer um problema — um de tantos, embora era difícil levar em conta—. Não me pareço em nada com Shelby. Ela era loira e tinha os olhos azuis. Como vais explicar isso? Sei que é cirurgião plástico, mas não pode fazer milagres, e menos ainda em tão pouco tempo.
—Já pensei nisso e não há problema algum. Em primeiro lugar, ainda não enviei os convites, assim me limitarei a retirar os de sua família e amigos. Ninguém poderá te reconhecer.
—E os seus amigos?
—Sabem que saio com alguém, mas não a conhecem.
—Não a conhecem? Não a conhecem nem seus amigos, nem seus colegas de trabalho? Mantinha a mulher escondida? —ele a olhou com recriminação e ela continuou falando—. Não entendo. Saíram juntos, pediu que se casasse contigo. Como pode ser que seus amigos não conheçam a mulher que ama?
—Como você disse, sou rápido — moveu-se incomodado—. Tudo aconteceu muito depressa e ela insistiu em manter segredo. Disse que se as revistas soubessem não me deixariam em paz. Esse tipo de publicidade prejudicaria muito os meus pacientes.
Sky não pôde evitar pensar que se ela tivesse sido a noiva, teria gritado ao mundo inteiro.
—Shelby teve a brilhante idéia de fazer uma festa surpresa para anunciar nosso compromisso e ver como reagiam. Só minha mãe e minha avó sabem que vamos anunciar nosso noivado.
—Nunca pensou que Shelby era um pouco...?
—um pouco o que?
—Excêntrica? Vaidosa possivelmente? Não digo com má intenção.
—Não. Eu acredito que é uma mulher independente, agressiva e com muita iniciativa.
—De acordo.
—Graças a sua excêntrica idéia da festa, não teremos problemas com sua atuação. Mandarei os convites assim que chegue a Houston. Os convidados devem recebê-los três semanas antes, é um pouco precipitado, mas faço isso por minha mãe.
Ela olhou desconfiada para ele.
—Sua mãe sabe o quanto caem bem as suas mentiras?
—Em realidade não me caem bem, mas as circunstâncias me obrigam a fazer isto. Não estará pensando em contar a ela — Não me assusta.
—Não se preocupe de todas as formas eu tenho o melhor papel. Você é que lhes está ocultando algo, eu sozinha vou te ajudar um pouco.
Ele franziu o cenho e ela se deu conta de que o tinha em suas mãos.
—Doutor, não assusta os meninos e as mulheres quando faz essa cara?
—Sim, e não só eles, também ao resto dos empregados do hospital.
—Não me assusta.
Ele segurou uma mecha de seu cabelo e o acariciou com suavidade.
—Alguma vez disseram que seu cabelo é como a seda?
—Não e, seguindo com o assunto que estamos discutindo, não acredito que seja certo que comece a fingir ser sua noiva, sem que saiba nada sobre ela, nem sobre ti.
—Provavelmente tem razão.
—Comecemos pelo princípio, qual é sua cor favorita?
—O azul, e a tua?
—O verde — disse sem pensar—. Mas isso não é importante, qual é a cor favorita de Shelby?
—Não sei se alguma vez me disse. Isso é importante?
—Suponho que não, se não houver ninguém que a conheça. Mas se por acaso te interessa, ela gosta do vermelho.
—E você como sabe?
—Porque quando estivemos vendo os desenhos dos anéis, mencionou a idéia de utilizar rubis porque gostava de muito de sua cor. Não posso acreditar que não saiba, as cores dizem muito sobre as pessoas.
—Ah... E o que diz o verde sobre ti?
—Que sou uma pessoa serena e tranqüila. Eu não gosto de conflitos, os problemas. Mas já está bem de falar sobre mim. Onde nasceu?
—Na Califórnia, minha mãe continua vivendo ali.
—Vive tão longe de ti, e mesmo assim pensa que fazer um cruzeiro seria como te abandonar?
—Como não posso te explicar o que sente uma mãe, acredito que o melhor será que deixemos o assunto. Estudei o secundário na Califórnia e Medicina no Texas. E você?
—Eu nasci na Alemanha. Meu pai era militar e viajávamos muito. Deixou de ser quando eu tinha três anos, mudamos para Black Arrow para que ele estivesse perto de sua família e vivemos aqui desde então.
—Assim que é a filha mimada de um militar?
—Alguma vez fui uma menina mimada — Sky voltou a cair na armadilha de falar de si mesma—. Onde nasceu Shelby?
—Em Midland. Estudou teatro em Yale. Uns estudos tão pouco práticos como...
—os de Belas artes? Isso é o que eu estudei—Sky recordou o dia em que disse a seus pais e o desamparo que sentiu. Aquela era uma das muitas razões que a faziam sentir-se muito distinta do resto de sua família—. Achei por bem me interessar em desenhar jóias e não fazer parte das forças da ordem.
—Está na defensiva.
—Isso é imaginação tua e, além disso, não estamos falando de mim. Preciso saber tudo sobre Shelby.
—Não se preocupe. Tudo vai sair bem. Só temos que fingir que somos um casal de noivos. Só tem que ser você mesma ninguém conhece Shelby.
«Nem sequer você», pensou Sky.
—De acordo, mas isso me faz lembrar que há outro problema.
—Qual? Ser você mesma? —perguntou ele com o cenho franzido.
—Não. Fingir que somos noivos. Conhecemo-nos ontem e vamos ter que atuar como se estivéssemos apaixonados. E se não for capaz de fingir que me sinto atraída por ti? Não é que seja um monstro horrível, mas...
—Obrigado... —parecia que o comentário o tinha divertido, mas não sorriu. Havia algo perigoso em seu olhar.
—Sabe a que me refiro. E se tivermos que nos beijar? E se eu não puder fazer isso?
—Não acredita que está exagerando?
—A respeito de que?
—Os beijos são questão de prática.
—Talvez, mas... E se de repente tivermos que nos beijar e for desagradável?
—Por acaso tem os padrões muito altos?
—O que quero dizer é que não podemos deixar que algo assim aconteça, temos que estar preparados.
—Sabe o que acho? Que tem toda a razão. Antes que Sky pudesse dar-se conta do que estava acontecendo, Dom a tinha agarrado pela cintura e a tinha sentado sobre seus joelhos. Sky pôde ver de perto aqueles olhos azuis que a olhavam com intensidade.
—Uma noiva me agarraria pelos ombros.
—Sim...
Mas não podia mover-se, assim que ele tomou seus braços e os colocou sobre seus ombros. Depois, Dom a segurou brandamente na cintura com um gesto de satisfação. Sky se sentia muito mais que incômoda, mas ele parecia muito à vontade, muito masculino, muito atraente... O pulso de Sky se acelerou, custava respirar.
Ele a olhava com intensidade e ela estava cada vez mais nervosa. «por quê? Por que ele? Por que ela?»
—Relaxe — ordenou ele—. Está muito tensa.
—Está vendo? E se acontecesse mesmo diante de seus amigos, mostrar frieza não...
De repente, ele iniciou uma suave descida até que seus lábios se uniram. Uns segundos depois, a última coisa que Sky queria fazer era falar.
Capítulo 4
Dom pensou que beijar Sky era como estar no céu. Não conhecia aquela mulher, mas não podia deixar de pensar nela desde que a tinha visto pela primeira vez. E naquele momento estava beijando-a, e estava desfrutando tanto... Mais do que devia. Como era possível? Fazia somente uns dias que Shelby o tinha abandonado e de repente tudo o asfixiava; a consciência, o peito, a respiração, as calças...
Provavelmente tudo aquilo se devia ao fato de que sentia falta da sua noiva. Ao aborrecimento e a decepção que sentia. A atração que sentia por Sky devia ser produto daqueles sentimentos, já que acabava de conhecê-la.
Se soubesse quão agradável era tê-la entre seus braços, certamente não teria sido capaz de controlar seus instintos.
Precisava acalmar-se. Separou seus lábios e tomou ar lentamente. Olhou-a e viu que ela se descalçou, deixando descobertos seus finos tornozelos, que roçavam docemente as pernas.
Voltou a tomar ar e a olhou fixamente. Ela o olhava interrogante, com a boca aberta e a respiração irregular. Desejava-a, desejava-a muito...
Tratava-se de romper o gelo, não de se deixar levar, recordou-se a si mesmo. Faziam aquilo por algo, tinham um propósito, um objetivo, mas... Deus! Acaso era tão boa atriz? Ou...
Não, o melhor era não pensar nisso. Ela devia ser tão boa atriz, que por um momento ele se esqueceu de que na realidade não era sua noiva. Um médico respeitável não fazia um arranjo assim, a não ser que aquela mulher o tivesse enfeitiçado.
—Dom...
Ouvi-la pronunciar seu nome com a respiração entrecortada fez que seu pulso se acelerasse.
—O que é? —conseguiu dizer uns instantes depois.
—Acredito que este beijo responde à minha pergunta.
—Que pergunta? —interrogou-a. Era incapaz de concentrar-se em outra coisa que não fosse o corpo dela. De repente lembrou—. Refere-se a sermos capazes de convencer às pessoas de que somos um casal?
—Sim, acredito que já pode me soltar.
—Minha mãe não é nenhuma tola e me conhece muito bem. Se não formos bastante convincentes, perceberá tudo. Não acredita que deveríamos praticar um pouco mais?
Dom não sabia por que tinha sugerido algo assim. Tinha que estar louco...
—Praticar nos ajudará a melhorar, pelo menos isso é o que dizem. Suponho que não nos fará nenhum mal — molhou o lábio superior com a língua.
Ao vê-la fazer aquele gesto, Dom sentiu que voltava a ficar louco de desejo e deixou de pensar de forma racional.
Inclinou a cabeça brandamente e teve que se esforçar para se controlar. Beijou-a brandamente. Na realidade desejava fazê-la sua naquele instante. Levou-a para ele com força enquanto acariciava seus lábios. Rodeou-lhe o pescoço com os braços e sentiu como a respiração de Sky lhe acariciava a bochecha.
Ele se recostou no sofá e a colocou entre seus braços. Caiu sobre ela, seus corpos se uniam em perfeita harmonia. Sua pele era suave e cheirava a flores. Os olhos dela o olhavam extasiado e se deu conta de que ele também estava assim, mas não quis pensar no que aquilo significava. De repente sentiu a imperiosa necessidade de acariciar seu rosto.
—Está tremendo. Fica nervosa? Ela negou com a cabeça, mas seus olhos permaneceram muito abertos.
—Não fique, estamos juntos nisto — disse enquanto acariciava o cabelo.
Era tão suave como a seda, mas não podia voltar e dizer isto porque faria com que ela ficasse ainda mais nervosa. Não queria fazer algo assim, mas havia algo que queria fazer... Dom acariciou os lábios de Sky com a língua até que ela os abriu e ele pôde afundar em seu interior. Ao notar como ela tremia de prazer, sentiu-se satisfeito.
Sky começou a acariciar as profundidades de sua boca com a língua e naquele momento ele perdeu a sensatez que restava. O sangue fervia de paixão e seu coração palpitava com força. De repente, a parte mais íntima de seu corpo despertou ameaçadora. Suas línguas se mesclaram em uma batalha cheia de paixão.
Dom sentiu como sua respiração se acelerava e sua pele se arrepiava. Apartou os lábios para começar a beijar as bochechas, a brincar com o lóbulo de sua orelha até que ela gemeu de prazer.
Depois ele desceu um pouco mais abaixo e começou a percorrer seu pescoço com suaves beijos ao princípio e logo com a língua. Ela não parava de tremer e de suspirar.
De repente soou o alarme. Sky endireitou o corpo assustada e se soltou.
Com os olhos ainda cheios de paixão olhou a seu redor. Pouco depois se levantou de um salto.
—Um incêndio! Olhe a fumaça! Mas que diabos... Deus! O jantar!
Sky correu para cozinha e Dom a seguiu. Pelo caminho abriu todas as janelas para limpar a casa de fumaça. Quando chegou à cozinha, viu como Sky abria a porta do forno e tirava os restos de comida. Depois subiu em uma cadeira para desligar o alarme.
Quando estava desligando soou o telefone e se apressou a responder.
—foi um falso alarme.
Dom pensou que provavelmente o alarme estava próximo a um posto telefônico. Sky continuou falando enquanto afastava o cabelo do rosto.
—Não. Houve um pequeno fogo, mas tudo está sob controle. De acordo. Obrigado.
Depois pendurou e colocou o prato queimado na janela.
—Assustei-me muito. Tenho o pulso acelerado. Está tudo bem com você?
—Eu estou igual — tinha o pulso muito acelerado, mas não só pelo incêndio.
—A prática foi boa, não acha? —perguntou ela trêmula—. Não foi nada desagradável. Só me pergunto uma coisa, de onde saiu esse nome de doutor coração de pedra?
Dom se penteou um pouco com a mão.
—Não sei, eu não o entendo.
—Bom pelo menos já não tenho frio.
«Nem eu tampouco», pensou Dom. Nunca tinha conseguido fugir da realidade tanto beijando uma mulher, nunca...
Alguma vez? Nunca. Tinha estado tão concentrado nela, no muito que gostava de beijá-la, que não se deu conta de nada do que acontecia seu redor. Era a primeira vez que acontecia algo assim a ele.
O que significava todo aquilo?
Ao recordar suas experiências amorosas, seu instinto indicou que o melhor em situações como aquela era sair correndo. Desgraçadamente, tinha um plano que era muito mais importante que sua tranqüilidade, e necessitava de Sky Colton para levá-lo a cabo.
Sky olhou para Dom do assento do carona. Tinha um perfil muito bonito e pensou se operava tão bem como beijava, provavelmente seria capaz de curar os mortos. Perguntou-se se não se estaria ficando louca. Era a única explicação que podia dar ao que tinha acontecido em seu apartamento na noite anterior. Tinha que ser uma disfunção cerebral, como podia ter permitido que tudo se acontecesse tão rápido e que naquele momento estivessem em Houston?
Era Domingo. Tinham passado dois dias desde que o havia conhecido. Parecia à protagonista de um filme de ficção científica, embora às vezes também sentisse como se eles se conhecessem por toda a vida.
Dom tinha atrasado seu bilhete de volta e tinha comprado um para ela no mesmo vôo.
—Explique-me uma vez mais, por que tive que vir contigo a Houston para preparar uma festa que se celebrará dentro de um par de semanas.
—Necessita de tempo para se acostumar a isto.
—Certo.
—Como Shelby não era de Houston, não é necessário que conheça a cidade, mas passamos muito tempo aqui, assim terá que se aclimatar um pouco com meu mundo.
—Aclimatar — repetiu enquanto assentia com a cabeça—. É obvio, como se fosse tão singelo. Em que mundo vive?
Ele a olhou divertido.
—Sempre fica de mau humor quando voa?
—Não estou de mau humor. Mas como continua assim, não vai demorar em descobrir — cruzou os braços sobre o regaço—. Tenho que te advertir que Bram não gostou nada desta idéia.
—Ah, não?
—Não. Repetiu o que meu bisavô George White Bear está acostumado a dizer.
—E o que está acostumado a dizer?
—Sempre diz que as grandes cidades escondem grandes perigos. Ria se quiser, mas suas palavras podem converter-se em profecias.
—Não me estou rindo. Embora eu gostasse de dizer que não precisa ser um visionário para dizer algo assim.
—Esteve investigando sobre ti.
—Quem? Seu avô George?
—Não, Bram. Está limpo — olhou pela janela. Estavam saindo da auto-estrada—. Mas isso não quer dizer que o aceite. Diz que se você se atrever a fazer algo estranho, mobilizará até ao exército.
Dom ficou olhando-a.
—Você contou o motivo de vir aqui?
—Confessar voluntariamente a um xerife que estou cometendo uma fraude? Assim é como se chama fazer se passar por outra pessoa não? É obvio que não. Acredita que estou louca? —suspirou—. Disse que ia às compras, que havia uma exposição de pedras em Houston que queria ver e que estava pensando em abrir uma sucursal aqui.
—Então, por que me investigou?
—Porque minto muito mal e ele imaginou que minha viagem tinha algo que ver contigo.
—Assim não acreditou, mas te deixou vir.
—Tenho mais de vinte e um anos.
—Quantos mais?
—Cinco anos — Sky acreditou ouvir um leve grunhido—. E como sou uma pessoa adulta, não tinha forma de me deter. Além disso, a minha mãe está precisando de uma atividade.
—Isso já é algo.
—Sim, ela e meu pai estão tendo problemas desde que ele se aposentou. Meu pai está em casa todo o tempo, e ela não tem muito que fazer, por isso gostou da idéia de me substituir na loja. De qualquer forma, se precisar de mim pode me chamar no celular ou me enviar um e-mail, embora em janeiro não seja comum haver muitas vendas.
—Assim que minha penúria é a alegrias de outros? —disse com ironia. Ela o olhou. As luzes da rua iluminaram seu rosto durante um instante, mas Sky não entendeu a expressão de seu rosto—. Perdão, não pretendia te ofender.
—Não me ofendeu.
Possivelmente tinha ofendido um pouco a ela. Ele amava a Shelby e nunca estaria com ela. Sky sabia quão dolorosa podia ser uma situação assim. Ela também tinha amado o homem com quem tinha estado a ponto de casar. Mas quando tinha descoberto que ele queria que ela fosse uma pessoa que não era, tinha tido que cancelar o casamento. Mas não tinha deixado de amá-lo. Tinha ficado muito mal.
A dor que aquela ruptura tinha provocado tinha ensinado a pensar nos outros, a não prejudicar ninguém, mas sempre se esquecia quão mal Dom devia estar se sentindo. Sky pensou devia estar pela maneira em que a tinha beijado. Dom estava sofrendo muito, mas mesmo assim a tinha feito sentir-se como a mulher mais importante do mundo. Como podia aquele homem conseguir algo assim?
Sky estava tão distraída pensando, que não se deu conta de que tinham entrado em uma zona residencial. Uma zona muito rica, a julgar pelo tamanho das casas. Dom deu várias voltas e logo parou diante de uma casa muito grande.
—Vive neste castelo? —perguntou apontando a casa.
—É mais humilde do que parece — disse ele enquanto encolhia os ombros.
—Por que me trouxe aqui? Acreditei que me levaria a um hotel.
—Quando disse para se aclimatar, referia-me a que se aclimasse em minha casa.
—E eu pensei que se referia a que faríamos excursões de dia — disse ela.
—Sky, não está cansada? Não tem fome? Importa-se que falemos lá dentro? —Dom abriu a porta e saiu do carro.
A verdade era que Sky era uma pessoa bastante liberal, sempre tinha pensado que teria que deixar que a natureza seguisse seu curso. Não tinha nada contra os casais de solteiros que viviam juntos antes de casar-se. Mas naquele momento, estar na casa de Dom pareceu uma grande coisa. Teria tido tantas dúvidas se não houvessem se beijado?
A resposta estava clara: não. Se ele não a tivesse beijado da forma como tinha feito, viver um par de semanas na mesma casa que ele não teria importado.
Mas naqueles momentos a idéia a preocupava. Acaso estava nervosa porque acreditava que era provável que acontecesse algo entre eles? Afastou aquela idéia da cabeça, mas pouco depois recordou a intensa paixão que os beijos de Dom tinham desencadeado nela.
Estava em perigo.
Dom abriu a porta e estendeu a mão para ajudá-la a sair do carro. Assim além de saber dar beijos, aquele homem era um perfeito cavalheiro. O que ela necessitava.
Sky suspirou e saiu do carro.
—Obrigado.
—De nada.
Dom se dirigiu ao porta-malas e tirou a bagagem. Levaram para a casa. Quando chegaram à porta, ele a abriu e deixaram tudo na entrada. Dom acendeu as luzes.
Era uma casa muito bonita. Sky ficou surpresa.
—Impressionante — disse ela—. Tudo está impecável.
—Tenho alguém que vem limpá-la — disse - enquanto deixava as chaves sobre uma mesa antiga.
O primeiro andar parecia não terminar nunca. Todo o piso era de madeira e um pouco mais adiante, entraram em um salão e na sala de jantar.
No salão havia dois sofás e uma lareira. Em cada lado havia uma estante cheia de livros. Sky pôde ver um piano de cauda disposto em um dos cantos e mesas de madeira em lugares estratégicos. As paredes estavam pintadas de bege.
—Quer que te mostre a casa?
—Eu adoraria. Além disso, se fizer sozinha corro o risco de me perder. É uma casa muito grande para uma só pessoa.
Ele ficou olhando para o vazio e Sky desejou não ter dito nada. Aquelas belas feições pareciam ter a palavra solidão escrita. Tristeza possivelmente. Ambas a comoveram. Ali era onde tinha pensado levar a sua futura esposa para viver...
A culpa não demorou em aparecer e se alegrou de ter decidido ajudá-lo. Pelo menos não estaria tão só por um tempo. Possivelmente quando ela tivesse que voltar para Black Arrow, aquela dor, aquela solidão, não seria tão intensa.
Mas, e a atração que sentia por ele? A verdade era que aquilo complicava as coisas. Mas era problema dela, ele nunca saberia de nada.
—Você primeiro, doutor.
Ele a olhou e elevou uma sobrancelha.
—O que disse?
—Não me pergunte. Você será o general, eu serei o soldado.
—Quer dizer com isso que obedece a ordens?
Sky não respondeu e se aproximou dele. Não demorou em cheirar sua colônia e se arrependeu de havê-lo feito. Não era difícil manter a distância em uma casa tão grande como aquela, mas ela tinha tido que se aproximar dele e fazer que seu pulso se acelerasse. Omitia a sua determinação de se manter afastada.
—Aconteceu algo? —ele levantou a palma da mão—. Deixa, está claro o quanto custa para você receber ordens.
—Que ordens? As do médico?
—Qualquer ordem.
—Já veremos, não? —encolheu os ombros—. Eu adoraria ver a cozinha.
—Siga-me.
Ela o seguiu até o salão que estava ao lado da cozinha. Uma fileira de portas com arcos deixava ver o pátio e a piscina que havia mais à frente. Tudo estava iluminado com pequenos abajures exteriores. Sky ficou com a boca aberta.
—Está passando mal?
—Não. É que te invejo. Qualquer amante da cozinha ficaria extasiado com uma cozinha assim — disse tentando assimilar tudo o que via.
A cozinha tinha uma geladeira enorme, armários de madeira, uma mesa central de sonho.
—Incrível — disse ainda muito surpresa—. Fiquei sem palavras. Esta casa é cheia de surpresas.
—Verá quando chegar ao dormitório.
—O dormitório? —Sky desejou que Dom não se desse conta de que suas bochechas estavam ardendo—. Não pode ser que uma casa tão grande tenha apenas um dormitório.
—Tem seis. Mas o dormitório principal é magnífico. Siga-me — disse enquanto retrocediam.
O dormitório principal estava também no andar de baixo, na parte traseira da casa. Dom acendeu o interruptor e duas luzes em ambos os lados da cama se acenderam. Sky pisou no carpete bege e sentiu como se estivesse caminhando sobre algodões. A cama era enorme e tinha uma cabeceira de bronze. Era maravilhosa, nunca tinha visto nada igual.
—É uma antigüidade? —perguntou enquanto a tocava.
Ele assentiu com a cabeça.
—Encontrei-a em Fredicksburg. Acredito que se trata de uma peça do século dezenove.
—É maravilhosa.
—Eu gosto dela — disse como se estivesse na defensiva—. O closet está atrás dessa quina — acendeu outra luz e Sky pôde ver um quarto com três espelhos.
—E o que há no andar de cima?
—Uma sala de jogos com bilhar e um alvo e o resto dos dormitórios.
—Posso escolher o que mais eu goste? —perguntou enquanto se apoiava na parede e cruzava os braços.
Ele sorriu levemente.
—Assim já não quer se hospedar em um hotel?
— Disse isso antes de saber que esta casa era grande como um hotel. Há muito espaço, não nos incomodaremos.
—Acredita nisso?
—Quero dizer que temos suficiente espaço para descansar um do outro se nos cansarmos de estar juntos. Nenhum dos dois se sentirá invadido nesta casa — O brilho de seus olhos a pôs um tanto nervosa.
—Estou certo que tem razão. E pode escolher o dormitório que você mais goste. Pelo menos até que minha mãe e minha avó cheguem.
—É obvio — disse ela—. Não me instalarei completamente. Possivelmente sua mãe e sua avó vão escolher o dormitório onde eu estiver dormindo e então terei que mudar.
—Não é questão de probabilidade.
—O que quer dizer?
—Que vai ter que trocar de quarto quando vierem.
—O que está falando?
—Quando vierem terão que dormir no dormitório principal.
—Entendo... —respondeu o mais tranqüila que pôde—. Você também trocará?
—Sim.
—Eu trocarei de lugar para te dar um espaço na minha cama.
Capítulo 5
— Dar um espaço na sua cama? — perguntou incrédula.
— Sim.
Dom sentiu como a euforia o invadia ante a perspectiva de discutir com ela.
Entretanto, Sky separou-se da parede. Através do espelho, Dom podia ver o cabelo comprido e sedoso, os ombros magros e as costas esbeltas. Tinha posto um pulôver vermelho e ajustado e uns jeans que marcavam suas suaves curvas. Mas foram seus olhos que indicaram a Dom que tinha um par de coisas a lhe dizer. Ficou muito surpreso quando Sky lhe deu as costas e saiu do quarto.
-Sky?
Não podia dizer que a conhecesse bem, mas estava disposto a apostar seu estetoscópio favorito de que aquele comportamento não era normal nela. Seguiu-a até a cozinha.
-Sky?
Ela abriu a geladeira e o olhou por cima do ombro.
—Espero que não se importe. Ele encolheu os ombros.
—É obvio que não, quero que se sinta em casa. Faço tudo isto para que se sinta cômoda.
—Já me disse isso antes, e está claro que está fazendo todo o possível para levar a cabo — replicou ela. Depois tirou um ovo, um pouco de queijo e uns cogumelos da geladeira e os colocou na prateleira—. Inclusive dormindo juntos.
—Tem sua explicação.
—É obvio — disse com um tom sarcástico. Estava claro que não acreditava.
Sky procurou um prato fundo e jogou o ovo dentro. Depois começou a batê-lo com vontade.
Dom se apoiou contra a prateleira central e olhou suas costas enquanto desejava que se inclinasse como tinha feito no dia em que se conheceram. Seu traseiro era uma obra de arte, mas não se inclinou, parecia muito tensa.
—Acredita que faço para me aproveitar de você? Ela o olhou com ironia.
—É um homem e não pode evitar, mas isso não quer dizer que eu vá me servir em uma bandeja.
—Sabe de uma coisa, Sky, o fato de que sua família faça parte das forças da ordem, fez com que seja muito desconfiada. E não é só isso. Primeiro pensa o pior e logo pergunta.
—Eu não fiz uma pergunta — Recordou—. Esse foi meu engano — Sky começou a partir os cogumelos.
Dom se perguntou se o fato de discutir com ela enquanto tinha uma faca devia preocupá-lo.
—Embora isto possa te zangar, tenho que dizer que fez sim uma pergunta. Queria saber se ia ceder uma vaga em minha cama e eu te respondi que sim.
—Também disse que tem uma boa explicação. Estou esperando que me conte isso.
—Na realidade disse que havia uma explicação, mas você é a que tem que decidir se é boa ou não. Ela girou o corpo e o olhou fixamente.
—Vai passar toda a noite para me explicar ou vai contar de uma vez? — perguntou a ele com as mãos na cintura.
—É algo muito singelo e imprescindível para que tudo isto funcione. Minha mãe sabe que Shelby vive comigo.
Dom a olhou fixamente, seus olhos tinham passado de cinza claro a um tom parecido a uma tormenta a ponto de romper. Não era o momento de dizer, mas não pôde evitar pensar que era a mulher mais bela que tinha visto na vida. Estava esperando que ela respondesse para continuar falando.
—Quando se mudou?
—Depois que pedi que se casasse comigo. Mais ou menos no Natal.
—E sua mãe sabe?
—No natal passado dei de presente um computador para minha mãe e outro para a minha avó. Falamos todas as semanas, por e-mail ou por telefone.
—E você pensou que devia contar a elas que sua noiva vivia contigo?
—Quando se mudou estávamos noivos sabia que a notícia as alegraria.
—Assim contou que dormiam juntos?
—É obvio que não, os homens não contam coisas assim para suas mães.
—Então não é necessário que durmamos no mesmo dormitório.
—É sim. Em primeiro lugar, tem que pensar que Shelby e eu íamos nos casar. Além disso, minha mãe não é tola e sabe o quanto as coisas mudaram, assim imaginou que eu dormia com ela.
Dom pôde ver como Sky se ruborizava. Estava certo que não era por vergonha, nem tampouco porque estivesse zangada. O que podia ser então? Ciúmes? Zombou de si mesmo. Se Sky houvesse sentido algo assim por ele, não teria sido tão difícil convencê-la de ajudá-lo. A não ser que se sentisse atraída por ele e estivesse tentando não demonstrar.
Sky voltou a dar as costas e começou a abrir as gavetas uma por uma.
—O que está procurando?
—Um ralador.
—Tem intenção de usá-lo em mim?
Ela o olhou.
—Por que teria que fazer algo assim?
—Parece bastante zangada para me esfolar.
Ela sorriu um pouco.
—Estou, mas se estivesse pensando em te torturar, não faria com um ralador de queijo.
—Ah não? E com o que o faria? Com um rolo de macarrão?
—Não, utilizaria uma colher. Era uma mulher incrível, sempre conseguia surpreendê-lo.
—Por que uma colher? Ou possivelmente deveria perguntar o que faria com uma colher.
—Tiraria o teu coração, e antes que volte a me perguntar, utilizaria uma colher porque faria mais dano.
—E por que iria querer me fazer dano?
Ela deu a volta, olhou-o fixamente e fincou as mãos na cintura.
—De acordo doutor, direi isso. Estou zangada porque não me contou toda a verdade antes de vir até aqui contigo.
—Acredita que se tivesse contado não teria vindo?
—É obvio que não.
—Por quê?
—Às vezes me pergunto como conseguiu entrar na faculdade de Medicina. Contarei isso. Não convém dormir com um homem se nunca saímos com ele.
—Assim alguma vez sentiu uma flechada?
—Uma vez — baixou o olhar—. Mas não estamos falando de mim. Estamos falando sobre o fato de que você me ocultou uma informação que teria ajudado a tomar uma decisão mais acertada.
—Não entendo por que pensa que é tão importante. O plano segue sendo o mesmo: convencer a minha mãe e a minha avó de que nos vamos casar, para que façam o cruzeiro — Encolheu os ombros—. Depois, você seguirá com sua vida e eu com a minha e assim deixará de se sentir culpada pelo que fez.
—Acredito que está exagerando com o tema da culpa. Aceitei te ajudar sem saber que Shelby e você viviam juntos.
—De acordo, direi a verdade. Não contei nada porque tinha medo de que reagisse assim — Dom tinha ocultado porque tinha medo de que ela dissesse que não. Naquele momento se deu conta do quanto tinha desejado que ela fosse com ele — precisava de você e pensei se soubesse que teria que dormir comigo, não aceitaria.
—E tinha toda a razão.
—Sky, não é para tanto. Terá um dormitório para si só até que chegue minha família e depois compartilharemos meu quarto. Só estarão aqui dois dias até que a festa seja celebrada. Seremos como irmãos.
Ela negou com a cabeça como se ele não entendesse nada.
—Seguirei com isto porque um Colton nunca falta a uma promessa. E, além disso, tem razão, não é para tanto — depois levantou a cabeça como se esperasse que ele não estivesse de acordo.
—Sabia que era uma pessoa sensata.
—Você acredita que sou uma mulherzinha sem cérebro, que vende jóias e que dá conselhos sem ser consciente das conseqüências.
—Já não penso isso.
E era verdade. Tinha descoberto que Sky era preparada, divertida e sabia mantê-lo na linha. Também tinha descoberto um pouco ainda pior: que gostava que desfrutava estando com ela. Isso era muito mais perigoso do que imaginou.
Sky leu o número do consultório de Dom no escritório do hospital. Quando chegou ali, comprovou que o nome era correto. Dominic Rodríguez. Sim, essa era a consulta. Abriu a porta e entrou. Depois olhou ao seu redor e se alegrou ao ver que não havia pacientes esperando.
Dirigiu-se à recepcionista. De repente ouviu umas vozes e se voltou para ver uma porta que se abria. Depois saíram duas mulheres, pareciam mãe e filha.
—Mamãe, podemos ir ao centro comercial? Quero comprar uma minissaia para usar na festa da sexta-feira — disse a mulher mais jovem, que parecia uma adolescente.
—De acordo — disse a mãe. A mulher viu Sky e ficou olhando-a—. Não estou acostumada ser tão permissiva, mas depois de tudo o que passou, concederia algo a você.
—Ah, sim? —perguntou Sky. A mulher assentiu.
—Kate sofreu um acidente na classe de química. Tinha queimaduras nos braços e nas pernas. Estava tão insegura, que me jurou que nunca voltaria a usar nem saias nem camisetas de manga curta. Felizmente, o doutor Rodríguez é um especialista em queimaduras. Cuidou do seu caso desde o começo. Esse homem faz milagres.
—É mesmo?
—Certamente não se interesse saber tudo isto, mas queria tranqüilizá-la, já que está esperando para vê-lo — depois tocou o lábio—. Também se tranqüilizará ao saber que as enfermeiras do hospital têm muito medo dele.
Sky ficou estupefata.
—E por que teria que me tranqüilizar?
—Quando Kate estava hospitalizada, ele se encarregava dela, mas se alguma enfermeira colocava a atadura mal colocada ou fazia algo incorretamente, ele se desculpava, e se assegurava de averiguar quem tinha sido. É muito perfeccionista.
—É um tipo genial — disse Kate—. E bastante atraente para sua idade.
—Sim — Sky concordou. Não tinha sentido contar que não era um paciente, mas quis saber que tipo de tratamento tinha recebido a jovem—. E o que fez?
—Tiveram que me enfaixar as queimaduras para que se curassem — disse Kate—. O doutor utilizou pele doada. Sei que soa estranho, mas segundo ele ajuda muito. E tinha razão. Quando as queimaduras curaram, o doutor utilizou parte de minha pele para fechar as cicatrizes. Agora quase não se nota nada. Pensei que nunca voltaria a vestir camisetas de manga curta ou saias.
—E o que vai fazer?
—Se ela quiser... —respondeu a mãe com os olhos cheios de lágrimas. Segurou a sua filha no ombro—. Quando aconteceu, eu dava graças ao céu de que estivesse viva. Mas quando passou o tempo e vimos como podiam ficar suas pernas, não pude evitar desejar que fossem normais. Sei que soa egoísta, mas as mães não querem que os filhos se sintam diferentes.
—E agora? —perguntou Sky.
—Graças ao doutor Rodríguez vamos ao centro comercial comprar saias curtas e camisetas de manga curta. Só espero que seu pai aprove a idéia.
Sky sorriu às duas mulheres.
—Estou certa de que ficará encantado.
—E você? Para que necessita do doutor? —perguntou Kate enquanto a olhava fixamente—. É tão bonita, o que necessita que faça?
—Vim dar um recado. Espero que desfrutem das compras.
—É claro, vamos mamãe.
As duas mulheres se foram e Sky se sentiu estranha. Dom era cirurgião plástico e ela tinha pensado que só tratava mulheres que queriam melhorar seu aspecto. Mas atrás daquela conversa tinha descoberto que seu talento tinha feito que uma adolescente recuperasse a vontade de viver.
Sky tomou ar e depois se dirigiu à recepcionista. Era uma mulher bonita e morena. Uma mulher «muito» bonita.
—Posso ajudá-la em algo?
—Eu gostaria de ver o doutor Rodríguez por um momento...
—Marcou uma entrevista?
—Não. Verei, eu sozinha queria lhe dar...
—O doutor já terminou de ver seus pacientes da manhã. Se quiser pedir uma entrevista, eu posso ajudá-la.
—Não me entende. Só preciso vê-lo uns minutos para...
—E eu estarei encantada em ajudar a vê-lo. Quando está bom?
—Agora.
—Sinto muito. Como disse antes, suas horas de consulta já terminaram. Quando ficaria bem?
Sky deu-se conta de que aquela mulher tão atraente era em realidade um gato selvagem.
Antes que pudesse decidir o que fazer, Dom apareceu atrás da recepcionista.
—Sky — disse ao vê-la.
—Olá — respondeu enquanto o saudava com a mão—. Doutor poderia conceder um espaço em sua agenda?
Sky pôde ver o fogo ardente em seus olhos, mas antes que pudesse analisá-lo desapareceu.
—Doutor, conhece esta mulher? —perguntou-lhe a recepcionista.
—Sim. Ela é...
—Sua noiva — não pôde evitar dizer. De toda forma, devia fazer isso por que mentiu para ela. Até então, tudo tinha sido feito a sua maneira e tinha chegado a hora de mostrar ao doutor embusteiro outras formas de fazer as coisas.
Dom tocou o pescoço e tomou ar.
—Grace, está é minha noiva. Sky...
—Na realidade — interrompeu Sky—. Meu nome é Shelby Parker. Dom gosta de me chamar Sky, embora não sei muito bem por que — disse enquanto mostrava a Dom seu sorriso mais encantador.
—Seus olhos parecem às nuvens cinza de uma tormenta — explicou com um tom sedutor—. Nunca sei se terminarão convertendo em uma suave chuva ou em um furacão tempestuoso.
Sky ficou olhando-o. Acaso Dom era um poeta oculto? Grace parecia pensar o mesmo pela forma como o olhava.
Depois a recepcionista olhou os dois.
—Tenho que confessar que suspeitava que saía com alguém, mas não sabia que estivesse a ponto de se casar. O convite que me deu esta manhã não dizia nada de...
—Sim, sei — disse ele um tanto incomodado—. É uma surpresa. Queríamos anunciar em público na festa. Não é verdade, querida?
Sky captou um tom de recriminação em suas palavras.
—É verdade, mas estou tão emocionada que me custa muito manter segredo. Possivelmente Dom tenha tempo de comprar o anel de compromisso. Espero que não se incomode que eu tenha contado nosso segredo a Grace.
—É obvio que não.
Havia pouca sinceridade em suas palavras, e seus olhos pareciam prometer vingança. Em que tipo de vingança estaria pensando? Faltava uma semana para que tivessem que dormir juntos. Era Dom um homem paciente?
Era o momento perfeito para aproveitar-se da situação. Sky se apoiou sobre o balcão.
—Depois de tudo, Grace trabalha para ti, Dom. Organiza as consultas, os pacientes desejosos de ver as maravilhas que o grande mago pode fazer. Ela deve saber, não é Grace?
—É... Certo — disse a aludida enquanto se movia incômoda na cadeira.
Dom saiu do balcão e se apoiou sobre ele. Olhou para Grace e depois Sky.
—Grace analisa todos os que vêm ou pedem a minha consulta. Fala com eles e decide o tempo que deve dar a cada um para que as pessoas não tenham que esperar muito. Ninguém deveria ser capaz de ler a capa de Guerra e Paz na sala de espera. Grace se encarrega de que isso não ocorra.
—E pelo que pude ver, é muito boa em seu trabalho — Sky gostou que Dom defendesse a sua empregada. Colocou a mão na bolsa e tirou a razão que a tinha levado até ali. Ofereceu a Dom—. Esqueceu o bip — depois olhou Grace—. Normalmente é uma pessoa muito responsável. Nunca se esquece de nada. Coloca as meias três - quartos na máquina de lavar roupa, enxuga o lavabo quando termina de escovar os dentes e coloca os pratos sujos na máquina de lavar pratos —Sky sorriu satisfeita ao ver o gesto de exasperação na cara de Dom.
—Não sei como me arrumei sem você — respondeu enquanto pegava o bip. Quando suas mãos se roçaram, ela sentiu um calafrio—. Obrigado, querida.
—De nada, amorzinho.
Lançou um olhar ameaçador enquanto colocava o bip no cinto.
Aquela manhã tinham estado tomando o café da manhã juntos e, de repente, ele tinha olhado para seu relógio e se levantou assustado enquanto explicava que nunca tinha ocorrido algo assim, que nunca chegava tarde. Depois que foi embora, Sky se deu conta de que havia deixado o bip.
Dom a olhou.
—Não tinha por que se incomodar em me trazer isso. Tenho telefone no escritório e levo o celular. Só o levo no caso de emergência.
—Algo me diz que seria capaz de comprar um satélite para estar sempre localizável.
—Parece que o conhece muito bem — interveio Grace—. Seu trabalho é muito importante para ele.
—Sim, eu sei. E não se preocupe não me importei trazer isso e encolheu os ombros—. Queria conhecer o consultório do grande mago.
—Muito graciosa você sozinha...
—Doutor? —interrompeu-o Grace—. Se não necessitar de mim... Vou lanchar com meu noivo...
—Pode ir, Grace.
Grace ficou de pé e se dirigiu para Sky.
—Foi um prazer conhecê-la Shelby, verei você na festa.
Sky assentiu.
—Posso confirmar sua presença então, mesa para dois?
Grace assentiu.
—Vou perguntar para Rob quando o vir, mas estou certa de que virá. Até mais tarde.
—Adeus — Sky viu como Grace abandonava o consultório.
Interessante a gata selvagem morena tinha um noivo. Sentiu-se aliviada, mas por quê? Só sentia alívio quando se sentia ameaçado, e não podia sentir-se ameaçada porque ela e Dom não estavam juntos na realidade. Tudo era uma farsa.
—Está bem? Parece preocupada com algo.
—Acertaste doutor — não gostava de mentir e de repente tinha pensado na semana que esperava por ela. Mas já tinham mandado os convites e tampouco queria fugir e deixá-lo só com seu problema. Fingir ser sua noiva era de alguma forma, um mal menor. Sorriu com vontade—. Faz quanto tempo que trabalha contigo?
—Acredito que há dois anos, por que pergunta?
—Estava me perguntando por que tem medo de você — encolheu os ombros e depois meteu as mãos nos bolsos.
Ele parecia surpreso.
—Isso é ridículo. Por que diz isso?
—Pela forma que olha você, suponho. Parece querer saber o que está pensando, saber que não falhou contigo — Sky conhecia aquele olhar muito bem, ela também tinha tido durante muito tempo.
—É uma recepcionista muito eficiente e estou certo de que depois de dois anos trabalhando juntos, não causo nenhum medo.
—É óbvio, como pude pensar algo assim?
—Quer que eu mostre o resto do consultório?
—É óbvio.
Mostrou as salas para examinar os pacientes, o lugar onde realizava as cirurgias e o seu escritório. Tudo estava muito limpo e ordenado e ele parecia orgulhoso. Sky se apoiou contra a cadeira de couro do escritório de Dom.
—Pensei que fosse cirurgião plástico.
—E pensou bem.
—Quero dizer que pensei que se limitava a operar narizes e seios. Acreditei que os cirurgiões plásticos só se dedicavam a isso.
—Não exclusivamente.
—Já me contaram — ele a olhou intrigado—. Conheci Kate e sua mãe na sala de espera. Contou-me de suas queimaduras.
Ele assentiu com a cabeça.
—É minha especialidade. Uma vez que as vítimas de queimaduras superam o trauma, querem seguir com sua vida. Não querem ser diferentes.
—E se as cicatrizes permanecem elas se sentem diferentes?
—Isso. A tecnologia neste setor avança muito rápido. Eu utilizo o que é mais novo para minimizar as cicatrizes. Mas não posso fazer milagres, há casos nos quais não posso fazer nada.
Sky acreditou ver um pouco de frustração em seus olhos.
—E se sente impotente.
—Utilizo meus poderes para fazer o bem, recorda-se? Se não puder fazer o bem... —Dom duvidou por um momento. Afastou o olhar—. Sim, odeio.
—Bem, peço-te desculpas.
—Por quê? Destroçaste meu carro?
Sky sorriu e negou com a cabeça.
—Pensei que se limitava a melhorar o corpo das mulheres. Não sabia que os cirurgiões plásticos faziam outras coisas. Subestimei-te e sinto muito.
—Não se preocupe — Dom tirou a bata e a pendurou na cadeira—. Comemos juntos? É o mínimo que posso fazer para agradecer por trazer o bip.
—Eu adoraria, mas tenho outros planos. Estava começando a desejar coisas que nunca poderia ter, por isso negou. Tinha que proteger seu coração.
Capítulo 6
Dom estacionou em frente de casa e uma estranha sensação de júbilo percorreu todo o corpo. Levava cinco anos vivendo naquela casa e nunca tinha estado tão contente de chegar.
Sabia que sua felicidade estava relacionada com a pessoa que o esperava dentro. Era uma sensação nova para ele.
Shelby tinha sido a única mulher com que tinha convivido, até que Sky entrou em sua casa. Com Shelby nunca havia sentido aquela vontade de chegar em casa, embora tenha vivido mais tempo com ela. O que estava acontecendo? Sua futura esposa acabava de abandoná-lo e ele...
Estalou os dedos. De repente tudo estava claro. Era nostalgia! Sentia falta de uma mulher que o estivesse esperando em casa. A emoção que sentia ao ver Sky apenas era fruto do muito que agradecia a sua companhia. Mas aquilo não explicava por que cada vez que estava a ponto de vê-la, seu pulso se acelerava como se estivesse correndo em uma maratona. Nunca tinha acontecido com Shelby, mas havia sentido isso na primeira noite que voltou para casa depois da chegada de Sky. Desde aquele momento, o sentimento era cada vez maior.
Possivelmente tinha a ver com a sua negativa de comer com ele. A intensa decepção que havia sentido o tinha surpreendido, e ainda mais tendo em conta que não tinha esperado vê-la. Deus! Desde quando se converteu em uma pessoa tão sentimental? Havia coisas mais importantes nas quais pensar.
Saiu do carro e fechou a porta de uma só vez. Depois se dirigiu a casa, entrou e cruzou o salão para a cozinha. De repente percebeu o aroma de comida. Cheirava muito bem e sentiu uma paz e um calor que nunca havia sentido. Sky entrou na cozinha e ele se deu conta de que era ela a causa daquela paz, aquela sensação de lar. Podia vê-la, cheirá-la, senti-la e saboreá-la...
Ela sorriu.
—Olá.
—Olá — disse enquanto deixava a maleta sobre a prateleira—. Cheira muito bem.
—É frango ao forno.
—Parece bom—Dom viu que a mesa da cozinha não estava posta—. Quer que ponha a mesa? Ela negou com a cabeça, parecia ocultar algo.
—Já fiz isso.
—Vou ver se adivinho, vamos jantar na sala de jantar?
—Bingo, doutor. Acaba de ganhar uma viagem com as despesas pagas para a sala de jantar.
—Oh!
—Não tenha medo, grande adivinho as flores e as velas já estão preparadas, a baixela da China, as taças de cristal da Boêmia... Lembre-me de perguntar de onde tira essas coisas tão bonitas.
—De minha mãe.
—Já imaginava. Também tenho uma garrafa de Chardonnay na geladeira. Agora que está aqui, que comece o trabalho!
Ela estava de pé no meio da cozinha e embora levasse uma roupa informal, estava incrivelmente atraente, ainda mais apetitosa que a comida.
Sentiu vontade de abraçá-la e beijá-la até que a casa inteira começasse a arder.
Mas em lugar de fazer isso, limitou-se a suspirar.
—Estou ansioso por prová-lo, acredita que tenho tempo para me trocar? — o que realmente queria dizer, era se podia subir e tranqüilizar-se um pouco antes de perder a cabeça e fazer algo que terminaria se arrependendo.
—É obvio, vá se trocar, eu servirei o vinho enquanto se troca.
—Voltarei em seguida.
Dom foi a seu quarto e se trocou. Colocou um jeans e uma camisa de flanela. Quando terminou correu à cozinha.
—O jantar está servido.
—Estou faminto — era uma resposta normal, sem duplo sentido, até que seu olhar ficou cravado nos lábios dela. Já os tinha provado uma vez e tinha descoberto que estavam cheios de paixão.
Pela segunda vez aquela noite, seus instintos masculinos mais íntimos se elevaram ameaçadores. Pensou que o melhor era ser discreto e se apressou em sentar.
Tinha que ser capaz de controlar aquela inexplicável e inapropriada atração que sentia por Sky Colton;
—E então? —disse tentando desviar sua atenção de coisas que não podia controlar. A que se deve esta surpresa?
Estava claro que tinha se dado ao trabalho de fazer o jantar, mas Dom não entendia por que.
—Gosto de cozinhar — Sky bebeu um pouco de vinho.
—De... Acordo — Dom provou o frango, a mescla do vinho e os temperos eram maravilhosos—. Está delicioso.
—Meus sentidos me dizem que não está sendo sincero,
—Então necessita olhar esses sentidos. Está muito bom, de verdade.
—Não me referia a isso. Referia a esse «De acordo» que acaba de dizer. Há algo por trás. Não acredita que fiz porque gosto?
—É obvio que acredito, assim não teria feito. Entretanto, tenho que dizer que esta é a quinta vez que me prepara o jantar.
—Uma medalha de ouro para o doutor. Sabe contar — Sky terminou de beber o vinho da taça.
O corpo de Dom tremia de expectativa. Discutir com ela o deixava louco.
—Naquelas quatro vezes — ignorou o sarcasmo de suas palavras e prosseguiu falando—, meu jantar estava em um prato e esquentava no microondas. Agradeci muito que me fizesse companhia enquanto comia, mas você sempre já tinha jantado.
—Qualquer pessoa morreria de fome se tivesse que esperar por você para jantar. Você deveria saber como é perigoso ter pouco açúcar no sangue.
—Então, por que me esperou esta noite?
—Não sei. Porque é sexta-feira.
—Dia para sair?
—Sair você e eu? —Sky riu—. Vamos pular essa parte do ritual de casamento. Passemos diretamente à fase de convivência.
—Ritual de casamento? Chama-se assim?
—Normalmente sim — pegou seu copo, mas voltou a deixá-lo sobre a mesa porque estava vazio—. Mas nós somos uma exceção. Nós estamos fingindo que estamos noivos e, portanto, envoltos em um ato de distorção da realidade ou engano.

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