CAPÍTULO 13
— Obrigada, Ines — gritou Meredith por cima do ombro. Já era muito tarde, mas sempre parecia lhe levar algum tempo lembrar-se de que teria que dizer coisas como “por favor” ou “obrigada” quando Ines só estava fazendo aquilo por que Joe Colton lhe pagava.
Afinal, Ines Ramírez e sua família tinham um teto sobre suas cabeças, comida e um trabalho pelo qual a maioria das pessoas teria dado seus olhos. O qual, é obvio, não era suficiente para eles. Ou pelo menos para Maia, a filha de Ines, que tinha colocado suas garras em Drake e não demoraria para as cravar também no dinheiro dos Colton.
— Por cima de meu cadáver — se assegurou Meredith enquanto se aproximava das cartas que Ines lhe tinha levado para o quarto. — Já é suficiente que tenhamos esse mestiço atrás de Sophie. Isso é o que acontece trazer para casa meninos desencaminhados, estúpidos. Joe Colton, é o homem mais estúpido que há sobre esta terra.
Meredith tomou ar e tentou recordar a si mesma que não lhe sentava bem deixar que as coisas a afetassem tanto. Afinal, logo mudaria tudo para melhor. Revisou o correio, escolhendo em primeiro lugar as cartas de resposta a seus convites. Sorriu enquanto as abria e lia todas as respostas afirmativas, embora na realidade não esperasse que ninguém negasse seu convite.
Naquele lote de cartas tinham chegado as respostas do senador Horward, do representante Blakely e da senhora Reginald Walker III, uma altiva viúva de São Francisco. Franziu o cenho ao descobrir uma de Sybil, a tia de Joe, e o colocou com os outros. Bom, pelo menos haveria uma representação de Paris. Algo que, supunha, bem merecia o sacrifício de ter que receber Sybil e agüentar suas constantes intromissões.
Em menos de três semanas ia celebrar-se a festa! Meredith tomou o resto das cartas e franziu o cenho ao dar-se conta de que se esqueceu da mais importante; uma carta que chegava sem remete e que tinha o selo de “confidencial”.
Dominando a vontade de abrir o envelope precipitadamente, deslizou lentamente o cortador de cartas pelo fio e tirou a resposta.
Minha querida senhora Colton, começava a carta, e Meredith franziu o cenho ante a intimidade que pressupunha aquela saudação. Como se aquele homem tivesse algum tipo de relação com ela!
Sinto ter que lhe comunicar que a pista que estive seguindo durante o último mês não me levou a nenhum lugar. Não encontrei nenhum rastro de Patricia Portman, nem aqui nem em Nevada, como esperávamos. Patty Portman é uma mulher caucasiana, de cabelo e olhos castanhos, altura média e cinqüenta e dois anos de idade, de maneira que se encaixa no perfil que procuramos. Entretanto, viveu em Las Vegas durante toda sua vida; seu nome de solteira era Patricia Schlenker.
Este é nosso quinto fracasso, depois de ter cultivado grandes esperança, senhora Colton, e não me atrevo a lhe sugerir que continue a busca. Não quero que tenha que incorrer em mais gastos quando posso lhe oferecer tão poucas esperanças de encontrar a sua irmã perdida.
— E agora virá o correspondente “entretanto” — antecipou Meredith. E, efetivamente, ali estava.
Entretanto, se me der permissão, eu gostaria de seguir a última pista que temos, àquela direção do Mississipi que me enviou o mês passado. Só você sabe até que ponto é uma pista confiável, de modo que prefiro que você seja a que diga se deveria ser seguida ou não.
Os honorários serão os habituais. Setenta dólares a hora mais a passagem de avião e as refeições.
Meredith imaginou imediatamente outro cheque de cinco cifras e se perguntou quantos mais poderia assinar até que Joe decidisse prestar alguma atenção a sua conta pessoal. Mostrou-se tão distante durante tanto tempo... Mas ultimamente parecia voltar a interessar-se por tudo, como se estivesse saindo de seu estupor, de sua depressão.
Era perigoso. Muito perigoso. Suficientemente perigoso para dar a aquele detetive a direção que ela tinha esperado não ter que utilizar nunca mais. Localizar sua irmã era uma coisa, expor a si mesmo era outra e, definitivamente, não pretendia fazê-lo. De fato, teria preferido que o detetive localizasse a pista do Mississipi por si mesmo, para que assim não pudessem relacioná-la com ela de nenhuma das maneiras.
Aquela era uma das razões, entre outras muitas, para despedir, definitivamente, Joe Colton no dia de seu sexagésimo aniversário. Estava cansada de esconder-se, cansada de preocupar-se. Cansada de viver com medo de que a descobrissem.
Continuou lendo:
Quanto ao outro assunto, sinto ter que lhe dizer que tampouco tive muito êxito. Houve várias adoções de meninas naquela semana. Três ao total, de idades compreendidas entre zero e dois meses. Se dermos crédito à informação que recebi, foram adotadas na zona que até agora investiguei.
Mas se ampliarmos um pouco mais a área de busca, encontramo-nos com um total de quinze meninas que foram dadas em adoção ou acolhidas em lares infantis durante os dois meses seguintes à data que você me deu. Todas as mortes infantis ocorridas nesse tempo foram investigadas e as dei por eliminadas, o que imagino será uma boa notícia para você.
O tempo é nosso único inimigo. É difícil rastrear documentos de mais de trinta anos. Graças à nova legislação, temos acesso a novos dados, mas os pais adotivos continuam tendo direito, ao igual a seus filhos, a que a maioria dos dados permaneçam em segredo. Sei que tem interesse em que continue investigando sobre esta questão e a informarei de minhas averiguações mensalmente, como sempre, e antes, no caso de que encontre algum dado novo. Neste mesmo envelope envio a fatura pelos serviços emprestados até a data.
Meredith tomou a fatura, amassou-a e a jogou no outro extremo do quarto.
— Idiota! Um ano para isto. Tinha que despedir todos os idiotas que contratou. Não seriam capazes nem de encontrar a si mesmos!
Levantou-se lentamente, sentindo-se derrotada. Tinha que encontrar Patsy. Tinha que encontrar a sua Jóia. E tinha que desfazer-se de Joe Colton para poder fazer as duas coisas.
Meredith recuperou a fatura do detetive particular e a alisou com as mãos. Pagaria aquela fatura. Faria algo por encontrar a sua Jóia. E algo para destroçar Patsy. Para estar segura.
Afinal, ela era Meredith Colton. Só ela. Não havia ninguém mais. Todo mundo sabia.
Um lento sorriso iluminou o rosto de Meredith enquanto entrava no banheiro e pegava suas pastilhas. Tinha que continuar tomando-as, ao menos de momento. Para conservar a calma. Depois, atiraria-as todas pelo vaso... e a seu estúpido médico ruim com elas.
Ela não estava louca. De fato, era a pessoa mais sã que conhecia. Era o mundo que tinha se tornado louco. O sistema inteiro se tornou louco ao tentar vingar legalmente a morte de um lixo de homem. E ao castigar a uma mãe por tentar averiguar aonde tinha levado aquele monstro a sua filha recém-nascida. Tinham encerrado a uma mãe durante anos com a desculpa de que estava doente e necessitava de ajuda.
Ajuda? Sim, necessitava de ajuda. Mas não era do tipo que aquele médico ruim dizia.
Meredith retornou a seu sala, tirou uma chave do bolso e abriu a gaveta da escrivaninha. Dali tirou um pedaço de papel dobrado no qual tinha escrito um nome e o número de telefone de um hotel. Era o nome de um homem que podia conduzi-la até outro tipo que faria o que lhe pedisse sempre que lhe pagasse convenientemente.
Mas se atreveria a fazê-lo? Não podia permitir o luxo de deixar de fazê-lo. Tinha chegado o momento de pedir ajuda.
Tinha um nome, um nome que podia conduzi-la até a pessoa que poderia resolver todos seus problemas. A única coisa que tinha que fazer era dar aquele passo que podia pô-la frente a um potencial assassino.
Depois da festa. O procuraria depois da festa, quando a casa inteira estivesse sacudida pela tristeza de outra perda. Sim, seria considerada. Faria-lhes chorar uma só vez, pela morte de Joe e pela morte de Emily.
“Vi duas mamães”, sim, Emily sempre tinha falado muito. Tinha chegado o momento de que desaparecesse.
E depois iriam morrendo todos um a um.... até que só ficassem dois irmãos Colton: seus filhos, seus autênticos filhos.
E, se esse estúpido detetive averiguasse algo, também teria a sua filha.
— Parece que esteve montando a cavalo — disse Joe Colton, enquanto abria a porta do apartamento de River.
Este, que estava sentado no sofá, ignorando o pó que cobria seu corpo depois de ter estado cavalgando pelos campos, limitou-se a grunhir e a levar a lata de cerveja aos lábios.
Joe recolheu as duas vasilhas vazias que havia em cima da mesa.
— Está a ponto de chegar a seu limite, não acha, filho?
— A água de fogo do homem branco é malote para o homem vermelho. Kemo Sabé — murmurou. Levantou lentamente a cabeça e olhou para seu pai adotivo. — O sinto Joe. De verdade. Isto está errado.
— Certamente. É um insulto para o povo de sua mãe, para ti mesmo e, provavelmente, para mim — se sentou na cadeira que havia ao lado do sofá. — Quer que falemos do ocorrido?
— Não — respondeu River com um débil sorriso. — Voltou para casa? Ou voltou para a cidade, tentando pôr todo o espaço possível entre nós?
— Claro que voltou para casa. Eu mesmo a vi chegar de táxi faz umas duas horas. Perguntei-lhe por que você não a havia trazido e me respondeu que contigo não iria nem à rua em frente. Devo supor que tiveram uma pequena discussão?
— A Segunda Guerra Mundial foi uma discussão ao lado disto, Joe. A nossa foi uma guerra nuclear. Não vê a nuvem de fumaça?
— A quer muito, não é?
— Sim, quero-a. Mas não me serve de nada...
Joe suspirou e cruzou as mãos no colo.
— Lembra o dia que conheci o Meredith — sacudiu a cabeça. — Meu Deus, passaram tantos anos após, e às vezes ainda me parece que foi ontem. Alguma vez te contei a história?
Mais de uma, mas River decidiu que Joe precisava contá-la outra vez, que precisava recordar os bons tempos.
— Não, e eu adoraria ouvi-la. Mas antes me deixe ir preparar um café.
River retornou da cozinha em uns poucos minutos.
— Aqui tem. Puro e com duas colheradas de açúcar, agora Ines não pode ver.
Joe elevou o olhar para ele e aceitou a xícara.
— Sim, Ines parece acreditar que vou fazer noventa anos em vez de sessenta.
— Ines se preocupa com ti, Joe. O check up médico que lhe fizeram faz seis meses deixou a todos muito preocupados. Tem o colesterol muito alto, sobrepeso, perdeu força muscular.
— Não te pedi que me faça a lista — replicou Joe, e suspirou. — E se esqueceu da depressão. Como se fosse possível não estar deprimido, maldita seja. Meredith...
— Sim — o interrompeu Joe rapidamente. — Ia me contar como se conheceram.
Joe sacudiu a cabeça.
— É bom para estas coisas, River. Surpreende-me que não seja capaz de falar com Sophie durante mais de dois minutos sem que estoure entre vocês uma guerra nuclear.
— Meu talento não chega tão longe — admitiu River. — Mas possivelmente possa aprender de você. Me diga, como conseguiu conquistar Meredith? Por isso eu sei, você foi um tolo e ela uma doce e delicada dama.
— Sim, era-o, sabe? Uma mulher doce e delicada. E, definitivamente, uma dama — olhou para River, que havia tornado a sentar-se no sofá. — Meredith teve um problema no carro. Graham e eu íamos trabalhar e, justo nos subúrbios de Sacramento, vimos seu carro parado na estrada. Meredith estava frente a ele e parecia tão indefesa como uma menina perdida no bosque. Mas era linda. Deus, era linda. Naquela época vestia uma minissaia. A de Meredith era azul, com algumas flores, embora não me fixei muito nela. Estava muito ocupado olhando suas pernas. Umas pernas longas, nuas, morenas. Estive a ponto de tropeçar pela vontade que tinha de ser o primeiro a chegar, mas Graham me impediu isso.
— Seu irmão é um pouco menor que você, certamente se moveu mais rápido — disse River quando Joe se interrompeu, evidentemente perdido na imagem de Meredith durante seu primeiro encontro.
— Sim, meu irmão foi muito rápido em muitos aspectos. Antes que me desse conta do que estava passando, eu tinha a cabeça metida no capô e estava tentando averiguar o que tinha acontecido enquanto ele lhe pedia seu número de telefone. Nessa mesma noite acertaram seu primeiro encontro.
— Vá — disse River, embora conhecesse a história, continuava desfrutando-a. — E não te pegou com seu irmão?
— Não, mas não porque não me ocorresse. Meredith pareceu surpreender-se de que fosse ele o que lhe pedisse o telefone. Estava olhando para mim, na realidade me olhava, e para ela foi uma desilusão que tivesse sido Graham o que lhe pedisse o encontro. Mas, graças a Deus, Graham o estragou tudo.
Joe bebeu outro gole de café e umedeceu os lábios ressecados.
— Já vê, Graham só pediu a Meredith o número de telefone porque para ele era um reflexo natural. Ver uma mulher bonita e lhe pedir um encontro. Essa mesma noite tinha um encontro com uma secretária a que tinha conhecido durante sua última viagem à Sacramento. O caso é que saiu com a secretária, mas me prometeu voltar a tempo de encontrar-se com Meredith no vestíbulo do hotel às nove da noite.
— Isso dá um novo significado à expressão “um encontro duplo”.
— Naquela época, Graham era bastante irresponsável — admitiu Joe. — E sabe?, tampouco eu o conhecia muito bem. Quando nossos pais morreram, o enviaram a viver com meus avós e eu fiquei aqui, com os McGraths. Voltamos a recuperar o contato quando eu lhe pedi que se incorporasse a meu negócio.
River assentiu, guardando sua opinião para si. Ele sabia que Joe tinha sido rechaçado por seus avós maternos porque estes pensavam que o alcoolismo do pai de Joe tinha sido o causador da morte de sua filha e da sua própria em um acidente de carro.
River sabia que Joe, que se parecia fisicamente a seu pai, tinha sido rechaçado, enquanto que Graham, muito mais parecido com sua mãe, tinha sido criado em um ambiente de luxo até que o dinheiro tinha desaparecido e, de repente, Graham se lembrava de que tinha um irmão. Um irmão ao qual as coisas foram bastante bem. River adorava Joe porque sabia que também ele tinha sido rechaçado. Joe lhe tinha contado sua história quando ele ainda estava no rancho Hopechest, e tinha ganho sua confiança.
Ao mesmo tempo, River não suportava Graham Colton porque o considerava um homem preguiçoso, oportunista e invejoso, embora Joe não fosse capaz de ver nenhum de seus defeitos.
Joe terminou a xícara de café e continuou com seu relato.
— Chegaram as nove da noite e Graham não apareceu. Meredith ligou para nosso quarto para ver se estava e, por fim, por fim, tive o sabor de tentar conquistá-la eu mesmo. Desci para o vestíbulo depois de deixar uma nota a Graham e fomos os dois jantar no restaurante do hotel.
Fechou os olhos e sorriu.
— Meu deus, River. Estivemos falando durante horas. Falou-me de seus estudos de professora, do muito que gostava dos meninos... Mas a verdade é que acredito que quase não a ouvia. Estava ensimesmado naqueles olhos castanhos e em seu luminoso sorriso.
— Sim, conheço a sensação — o interrompeu River.
— Para quando apareceu Graham, Meredith e eu já tínhamos marcado para nos ver no dia seguinte. Eu estava aterrorizado. Tinha vinte e sete anos e nenhuma idéia de como cortejar a uma mulher. Mas não importava. Meredith as arrumou para me fazer falar. De meus sonhos, de minha família, de minhas esperanças... De fato, quando Graham apareceu na primeira noite, sabíamos tanto um do outro e nós gostávamos tanto que foi como se ele não estivesse ali.
River se inclinou para frente, apoiando os cotovelos sobre os joelhos.
— Sempre me perguntei o que teria acontecido se Graham houvesse retornado a tempo ao hotel. Acha que ele também o pergunta?
Joe negou com a cabeça.
— Não acredito. Antes estava acostumado a brincar me dizendo que não só lhe tinha partido o coração, mas também eu não tinha começado a ter autênticos êxitos até que Meredith tivesse entrado em minha vida, e que se se tivesse casado com ela, possivelmente fosse agora ele o proprietário da Colton Enterprises. Mas não o diz a sério.
— Não, suponho que não — disse River, e mudou de tema. — Mas sabe, Joe? Nunca me contaste como disse a Meredith que a amava e como conseguiu que soubesse que estava sendo sincero.
— Ah, não? — Joe franziu o cenho e se esfregou o pescoço. — Suponho que nunca pensei muito nisso. A verdade é que soubemos desde o primeiro momento que estávamos apaixonados. Sempre soubemos que o amor estava ali, nos bons e nos maus momentos. E isso é algo que nunca esquecerei, River. Algo que não posso esquecer.
Depois de que Joe se fora, River decidiu tomar uma ducha. Precisava se lavar e esclarecer a cabeça sob um bom jorro de água quente.
E estava tirando a cueca quando se fixou em algo. A bolsa de plástico branco que Sophie se tinha negado a levar no dia que ele tinha comprado meia dúzia de testes de gravidez, tinha desaparecido.
Ele a tinha deixado sobre a cômoda, estava seguro.
Olhou no armário do lavabo e nas estantes do banheiro. Nada.
Procurou todo o apartamento, mas a bolsa seguia sem aparecer. Sophie tinha estado no banheiro no dia anterior. A teria levado ela? E no caso de que assim tivesse sido... por quê?
River apertou os olhos com força e se esfregou o pescoço. Essa era uma boa notícia ou uma má notícia?
Se Sophie não estivesse grávida, lhe resultaria mais fácil convencê-la de que a amava?
E se estivesse grávida, como demônios poderia convencê-la de que queria casar-se com ela porque a amava?
— Sexo seguro — disse, tirando a cueca e voltando para a ducha. — Não brincam quando dizem que é o único sexo inteligente.
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