Nove
Patsy Portman estava confortável na cabine telefônica numa vizinhança suspeita. Passara a maior parte da vida em locais deselegantes como esse.
Meredith Colton estava agitada, ansiosa.
O fato de elas ocuparem o mesmo corpo tornava a vida difícil. Por nove anos, ela se passava por Meredith Colton e colhia os benefícios - um marido rico, uma bela mansão, tudo o que sonhara.
Exceto segurança.
O plano perfeito de Patsy tinha algumas falhas...
Finalmente, uma voz grossa atendeu.
- Já a encontrou? - perguntou Patsy, furiosa.
- Caramba, mulher, estou procurando. Não é culpa minha se aquela vadia corre e se esconde feito uma profissional.
- Ela só tem 20 anos. Você é o único aqui que se supõe ser um profissional. Encontrou Liza?
Depois de uma pausa, o homem disse:
- Encontrei. Ela não sabe de nada.
- Mentiroso! - gritou Patsy.
- Não sou! Não falei com ela em pessoa, mas contratei um amigo. Ele falou com ela, mas um homem apareceu e ele teve que correr.
- Faça-o encontrá-la de novo!
- Ele tentou! Foi a Nova York até o apartamento dela, mas não estava lá. Ele irá encontrá-la. O Bulldog não desiste.
- Seu estúpido bastardo! E melhor que esteja certo. Não vou tolerar nenhum erro.
- Talvez eles pensem que tudo não passa de uma trama que as duas inventaram. Assim pararão de me procurar!
- Procurar por você? Por que estão procurando por você?
Mais silêncio.
Patsy o xingou com tudo o que aprendera em seu passado obscuro. Palavras que Meredith talvez nunca tenha ouvido.
- Ouça, seu idiota! Assegure-se de manter o dinheiro do resgate a salvo, cada centavo, entendeu? Ou seu cadáver aparecerá ao lado do de Emily. Vou pegar o dinheiro com você assim que puder dar uma escapada. - Ela detestava ter de deixar o dinheiro na mão daquele idiota.
Desligou o telefone e saiu da cabine. Nessa parte da cidade, ninguém olhava para ela. Não era seguro se meter nos assuntos de ninguém. Mesmo se rastreassem o telefonema para a cabine, o que era impossível, ninguém imaginaria que Meredith Colton conhecesse essa parte da cidade.
O único perigo era o de alguém ver seu carro antes de entrar na via expressa. Chegou até o carro, entrou e saiu lentamente do beco escuro.
Ela jamais perderia suas riquezas por causa de um bastardo que não conseguia seguir suas ordens. Patsy o mataria antes que isso acontecesse. Estava perto demais de conseguir tudo o que queria.
Alguém economizaria para ela o esforço de matar Joe. Aí, então, todo o dinheiro seria dela.
Na terça-feira, Nick estacionou o carro no que agora era seu horário normal. Antes de Liza aparecer, ele ficava mais tempo no consultório cuidando de detalhes do trabalho. Agora, deixava isso para os funcionários.
Não que estivesse sendo descuidado. Sua equipe era muito capacitada. Ele apenas não tinha problemas que exigissem sua atenção.
Até Liza aparecer em sua vida.
A convicção que sentia quando entrou em casa lhe alarmou um pouco, mas não o retardou.
- Olá, estou em casa - disse ele.
Em vez da bela voz de Liza, Bonnie o cumprimentou da cozinha.
- Onde está Liza? - perguntou, olhando para os lados.
- O meu dia foi ótimo, muito obrigada - respondeu Bonnie.
Nick levou um segundo para entender o sarcasmo da empregada.
- Oh, ah, sim, Bonnie, como foi o seu dia? E onde está Liza?
A empregada riu, parecendo entender a preocupação dele com a hóspede.
- Está descansando.
Nick franziu a testa.
- A esta hora? Ela está bem?
- Talvez tenha exagerado um pouco.
- Fazendo o quê?
- Catando folhas.
O coração de Nick bateu acelerado.
- Lá fora? Você a deixou juntar folhas no quintal? Alguém a viu?
- Não, claro que não. Mas ela implorou por algo para fazer e deixei que ela mexesse no quintal. Ela é uma ótima trabalhadora.
Nick sabia que Bonnie estava comparando Liza com Daphne, que só levantava a mão para chamá-la. Jamais cuidara do quintal.
- Ela é muito decidida.
Bonnie olhou para ele com uma expressão de impaciência.
- Isso é tudo o que você pode dizer? Oh, quando fui levar um chá gelado, ela estava cantando!
- Cantando? Ela não devia estar usando a voz!
- Não, não estava cantando, apenas cantando, sabe, cantarolando enquanto trabalhava... divertindo-se. Foi algo mágico.
Nick sabia que a voz de Liza estava se recuperando, visto que o corpo estava descansando bem e sendo bem alimentado. A tensão estava diminuindo. Aumentou no domingo, com a visita do detetive, mas ontem e hoje não houve nada que lhe dissesse que estava em apuros.
- Então ela está no quarto?
- Isso mesmo. E o jantar está quase pronto. Quer ir chamá-la?
Claro que sim! E logo deixou a idéia de lado. Não era seguro. Quando ela o abraçou e o beijou há dois dias, Nick quase perdeu o controle. Quase quebrara a promessa.
- Não. Diga-me o que fazer que termino aqui enquanto você vai vê-la. Não quero deixá-la embaraçada ao acordar.
Como se Liza tivesse ficado embaraçada quando ele a evitou no domingo à noite. Ela pensou que ele não queria beijá-la. Que inocência!
Na noite passada, a primeira vez que tiveram um bom tempo a sós depois do beijo, Liza tentou evitá-lo. Mesmo que suas ações tenham magoado Nick, ele achou-as sábias, então ficara quieto.
Nick listou todos os motivos pelos quais não existia um futuro entre eles.
Bonnie desceu poucos minutos depois, seguida de Liza. Nick já havia levado os peitos de frango assados, vagem e purê de batatas à mesa. Agora, esperava que os pães assassem.
- Boa noite, Liza. Como vai?
- Bem, obrigada, doutor - disse ela, sem olhar para ele.
- Fiquei sabendo que você trabalhou duro esta tarde. Isso chamou a atenção da moça. Primeiro olhou para
Bonnie e em seguida para Nick.
- Nem tanto. Juntei folhas por um tempo. Gostava de cuidar do jardim da casa de tia Meredith quando criança.
- Estava friozinho lá fora. Não gostaria que você pegasse um resinado. - Nick a fitou, estudando-a.
- Não peguei. Bonnie perguntou.
- Os pães já estão prontos, Nick?
Ele se esqueceu por completo dos pães desde que Liza apareceu. Correu para abrir a porta do forno e arrancou a travessa de lá. Os pães não estavam queimados, apenas escuros.
Evitando os olhares das duas, ele balbuciou:
- Bem a tempo.
- Se você gosta deles crocantes - disse Bonnie sorrindo.
Quando todos se sentaram, ele disse:
- Bonnie falou que você estava cantando hoje.
- Oh, querida, eu não quis criar problema para você, mas foi tão bonito que tive de contar para o Nick - disse Bonnie.
- Nenhuma das duas está encrencada - resmungou Nick, irritado por sua empregada tratá-lo como o pai de Liza. - Só queria saber como sua garganta estava.
- Não forcei a garganta. Cantei baixinho, mas foi muito bom finalmente soar normal. Parecia uma bênção. Obrigada por trazer minha voz de volta.
Pela primeira vez desde domingo ela abriu um sorriso para ele. Um sorriso que iluminava o mundo.
- Depois do jantar você cantaria algo para mim? -perguntou o médico. - Quero ver se há algum problema.
- Claro - respondeu Liza.
Nick ficou aliviado ao ver a determinação nos olhos dela.
Durante o restante do jantar ele não a questionou mais. Liza e a empregada conversaram sobre o dia. Elas pareciam se dar muito bem.
Depois que acabaram de comer, Bonnie implorou para que ele não deixasse Liza cantar até que ela terminasse de arrumar a cozinha. Liza reagiu ajudando-a na arrumação, apesar da recusa de Bonnie.
- Bonnie, hão estou cansada, apenas mexi em algumas folhas. Foi bom me movimentar - insistiu Liza.
Nick também ajudou e logo a cozinha ficou limpa. Em seguida, conduziu-os até a sala de estar onde havia um piano que pertencera a sua mãe.
- Não toco bem, mas... precisa de acompanhamento? - perguntou.
- Eu toco - respondeu Liza com toda calma.
- Você toca?
- Claro. Comecei com aulas de piano, depois violino e violão. Não sou uma especialista em nenhum deles, mas dá para o gasto.
Liza se sentou no banco e tocou algumas notas antes de olhar para Nick por sobre o ombro.
- O que você quer ouvir?
Nick não sabia o que pedir. Olhou para a empregada.
- O que você cantou hoje, querida? É uma das minhas favoritas.
Os olhos verdes de Liza brilharam e ela se virou, sorrindo. Nick jamais a vira tão bonita.
- As montanhas se alegram, com o som da música... - começou ela, com uma voz incrível.
Nick ficou surpreso. Já ouvira boas cantoras antes, mas ela era excepcional. A voz da moça tinha um brilho que lhe elevava a alma. Bem ali na sala dele.
Quando ela terminou, ele a fitou e se viu sem palavras.
Ela esperou, mas ele continuou imóvel.
- Foi tão mal assim? - perguntou Liza rindo.
- Foi incrível, Liza. Já tinha ouvido o quanto era boa, mas sua voz é fabulosa.
- Oh, sim, querida - disse Bonnie. - Você é melhor do que Julie Andrews.
Liza riu.
- Acho que a sra. Andrews não está muito preocupada comigo, Bonnie, mas obrigada pelo elogio.
Nick dissera a si mesmo que não tinha futuro com Liza Colton. Ele era velho demais. Queria um lar, uma família, nada do que a agenda de uma artista comportava. Mas no fundo ainda torcia, pois a atração que sentia era muito forte.
Mas Liza Colton, a fabulosa cantora Liza Colton, acabara de apagar aquela pequena chama de esperança.
O talento e a voz dela eram mais fortes do que as esperanças e os sonhos dele. Como ele seria capaz de negar ao mundo tal dádiva?
Nick ficou de pé.
- Bem, continue descansando a voz ao máximo, Liza. Você está quase boa, mas não queremos apressar nada. Agora, se me permitem, tenho trabalho a fazer.
E saiu.
Ambas olharam para Nick.
- Será que falei algo de mais? - sussurrou Liza.
- Não, querida. Ele deve estar um tanto quanto estupefato pela beleza da sua voz. É mesmo um dom e tanto.
- Também pode ser uma praga. Bonnie parecia surpresa.
- Como assim? Sua voz é tão especial. Você deve ser amada por muita gente!
- Isso não é amor, Bonnie. Eles admiram a voz. Ou querem ganhar dinheiro com ela. Querem a fama e o dinheiro que minha voz pode trazer. Mas amor? Isso não é parte do pacote.
Bonnie se levantou e foi até o piano abraçar Liza.
- Querida, você é muito mais do que uma voz. É uma pessoa doce, talentosa e repleta de vida. Mas imagino que algumas pessoas queiram se aproveitar disso.
- E você ainda não conheceu minha mãe.
O dia seguinte era quarta-feira, o dia que Emily prometera telefonar. Liza ficou nervosa o dia inteiro, embora a ligação devesse acontecer entre as quatro e cinco horas. Ela ajudou Bonnie nos afazeres da casa para passar o tempo, mas não adiantou muito.
Além da segurança de Emily, Liza se preocupava com o paradeiro do homem que aparecera no hospital. Ela gostaria de saber se a polícia de Nova York descobrira algo em seu apartamento. Meredith também a preocupava. Qual seria sua próxima ação?
E havia o atentado contra tio Joe. No aniversário de 60 anos dele, alguém tentou lhe acertar um tiro. Isso foi logo antes de a turnê começar. Liza pensou em cancelá-la, mas a mãe insistiu que ela fosse em frente.
Liza quis saber também a razão de Nick reagir daquela forma ao vê-la cantar. A maioria das pessoas apreciava sua música. Mas não Nick.
Ele a evitou durante o restante da noite. Nem ao menos olhou para Liza quando ela foi até o escritório dele dizer boa noite.
Liza já experienciara o desprezo de muitas pessoas antes, mas não esperava isso de Nick. Afinal, ele a protegera, cuidara dela, estivera presente quando ela mais precisara.
Não mais.
O silêncio de Nick era como uma ferida aberta. Liza disse a si mesma que superaria tudo isso. Era só uma questão de tempo. O que era ridículo. Conhecia o médico há apenas seis dias.
- Querida, você precisa se sentar e comer algo. Prometi a Nick que ficaria de olho em você hoje e não a deixaria se cansar.
- Não estou cansada, Bonnie. Além do mais, preciso me manter ocupada, do contrário ficarei louca. Estou esperando um telefonema de... uma amiga.
- Você ainda não recebeu um telefonema hoje, posso lhe garantir, pois eu ficaria preocupada em lhe contar. Nick é muito reservado com o que está acontecendo. Ele nem ao menos explicou a razão da vinda do policial no domingo.
Liza quase engasgou.
- Eu não sabia que você sabia.
- Quando ouvi a campainha, olhei pela janela - disse Bonnie. - Os carros que os policiais à paisana usam são muito fáceis de identificar. São sempre cinza, sem sinais, como carros do governo. - Abriu a geladeira e pegou um suco para Liza. - Perguntei a Nick sobre isso e ele disse que era melhor que eu não soubesse.
- Ah, talvez ele esteja certo.
- Então estou perdendo o sono? Para o meu próprio bem?
- Oh, Bonnie, sinto muito, mas isso não tem nada a ver com você. Temo ter trazido todos esses problemas para o Nick. Acho que é hora de ir embora.
- Acho que Nick ficaria muito triste se você fosse embora. - Bonnie pôs as mãos nos ombros dela. - Você está em apuros?
- Não exatamente, mas, bem, certas coisas aconteceram e um homem veio atrás de mim. Nick está ajudando a me esconder até que ele seja preso.
- Você quer dizer um assediador? Já li sobre celebridades perseguidas por esses loucos. Não se preocupe, querida, vamos cuidar de você.
Liza sorriu, mas não disse nada para corrigir a interpretação de Bonnie. Ela não precisava saber da novela assustadora em que sua família parecia estar envolvida.
O telefone tocou e Liza deu um pulo, correndo para atender. Logo se deu conta de que não tinha o direito de atender. Afastou-se e olhou para Bonnie.
- Vá em frente e atenda. Se não for sua amiga, pegue a mensagem.
Liza pegou o fone e com o coração acelerado ouviu a voz de uma mulher estranha, perguntando pela sra. Allen.
- Só um momento.
A empregada atendeu e respondeu à primeira pergunta.
- Oh, ela é uma espécie de sobrinha que veio fazer uma visita. - Falou por mais alguns instantes e desligou.
- Era Marie. Trabalha para outro médico. Almoçamos juntas uma vez por semana. Sugeriu levar você também - disse Bonnie.
- Sinto muito, gostaria mesmo de ir. Mas não seria prudente me mostrar por aí.
- Claro. Direi que você é jovem demais para almoçar com duas velhas. Podemos dizer que você foi às compras.
Liza concordou, embora acreditasse que estar ao lado de Bonnie era quase como ter tia Meredith de volta, a boa tia Meredith.
O barulho de um carro na frente da casa prendeu a atenção das duas. Bonnie correu para a janela.
- Meu Deus, Nick chegou mais cedo do que ontem. Fico feliz por não estar trabalhando tanto, mas gostaria de saber o que está acontecendo.
Liza pensou o mesmo. Como ele não mostrava interesse por ela, Liza não achou que a volta para casa tinha algo a ver ela.
Nick entrou na cozinha, franzindo a testa.
- Ela já ligou?
A emoção que tomou conta de Liza quase a fez chorar. A moça balançou a cabeça.
- Não. Estou o dia inteiro esperando.
- Foi o que imaginei. Vim logo que meu último paciente saiu.
- Obrigada, Nick. Eu...
O telefone tocou novamente. Desta vez Nick atendeu.
- Oh, oi, detetive Ramsey.
- Sim, entendo. Bom, obrigado... sim, pode deixar: -Nick desligou o telefone e se virou.
- Era o Ramsey. Como suspeitamos, seu apartamento foi invadido e revirado. Tinha algo de valor lá?
- Quer dizer dinheiro ou jóias? Não. Viajo tanto que guardo essas coisas em um cofre de banco. Ele... ele destruiu tudo? - Liza nunca se sentiu em casa no apartamento, mas gostava dele.
- Parece que ele fez algum estrago. O porteiro disse que ligará para os faxineiros. O homem deve ter usado luvas pois a polícia não encontrou digitais. Mas o porteiro reconheceu o retrato falado, disse que o homem estava entregando algo.
Liza suspirou.
- Gostaria que eles o tivessem capturado, para que eu pudesse voltar minha vida normal. - Ao dizer estas palavras, sabia que sentiria a falta de Bonnie... e do bom médico.
O telefone tocou pela terceira vez e Liza fechou os olhos, torcendo para que fosse Emily.
Prendeu a respiração quando Nick pegou o fone.
- Alô?
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