CAPÍTULO 9
Durante os dez dias anteriores, River não tinha se arrumado para os jantares da família Colton, mas aquela noite estava mais que decidido a que se notasse sua presença. Com as botas, os jeans limpos e uma camisa de manga cumprida branca como a neve, permanecia em frente da chaminé, com um braço apoiado no suporte. Pôs um colete de couro negro sobre a camisa e tinha deixado o chapéu de vaqueiro em um dos cabides da entrada.
Era o jantar de sexta-feira à noite e havia suficientes Colton no rancho para celebrar uma festa.
Tinham chegado Rebecca, e Liza tinha ido com seus pais, Cynthia e Graham, o irmão de Joe. Jackson Colton, o irmão mais velho de Liza, estava entre os ausentes, e não era surpreendente. Jackson passava muito tempo com seu pai na firma de advogados em que ambos trabalhavam, uma firma relacionada com as empresas Colton, e no que concernia a Jackson, o contato com seu pai já era mais que suficiente.
Amber, a filha caçula de Joe e de Meredith, tinha ido passar o fim de semana com umas amigas, mas Emmett Fallon, companheiro de Joe durante seus dias no exército e naquele momento uma peça chave nos negócios da família, tinha decidido a passar para tomar um drink com Doris, sua quarta esposa. River nunca tinha gostado de Emmett. Não sabia por que e imaginava que na realidade não havia nenhuma razão.
Emmett e Graham estavam conversando animadamente sobre algo relacionado com os negócios, como se não tivessem suficiente com o trabalho de cada dia. Os dois homens eram muito diferentes. Ambos eram da mesma altura, mediam aproximadamente um metro oitenta, e muito magros. Justamente o contrário de Joe Colton, que parecia encher uma sala assim que entrava nela. Entretanto, a principal diferencia entre Graham Colton e Emmett Fallon residia em que, enquanto Graham sorria constantemente, o petulante cenho de Emmett era permanente. Se formassem um casal teatral, Graham faria as brincadeiras e Emmett seria o palhaço sério. Embora, provavelmente, com a terrível competitividade que havia entre eles, nunca haveria momentos para brincadeiras.
De fato, era estranho vê-los juntos, posto que não era um segredo para ninguém que ambos competiam por ganhar o favor de Joe.
E durante sua longa carreira para converter-se na mão direita de Joe, os dois se esqueceram de ocultar que odiavam sinceramente a Joe pelos êxitos que tinha colhido.
E não era que Joe soubesse. De fato, nem sequer River tinha a certeza de que assim fosse. Mas o sentia. Quase podia cheirar o ciúmes e a ambição que emanavam de ambos os homens. Cada vez que os observava, perguntava-se quando seria Joe consciente de que seu êxito tinha convertido em inimigos a seu irmão e a seu velho amigo. A generosidade com que Joe os tinha incorporado a seu negócio só tinha merecido o ódio por parte de ambos.
River estaria mais preocupado se Graham e Emmett não se odiassem tanto, porque então poderiam estabelecer uma aliança e fazer a Joe um verdadeiro mal. Mas Graham e Emmett se desprezavam e desconfiavam um do outro.
River sorriu ligeiramente para ouvir que Graham levantava a voz e Emmett se ruborizava violentamente. Já estavam outra vez... Eram como dois galos, incapazes de estar na mesma sala durante mais de cinco minutos sem começar a tirar os olhos um do outro. River se separou da chaminé, perdendo o interesse naquele par de homens e observou Sophie enquanto esta entrava na sala.
Ia, vestida com uma blusa de cor rosa pálido, uma saia larga e uma corrente de ouro ao redor do pescoço. Usava sapatos baixos, porque o joelho ainda não estava preparado para os saltos, mas mesmo assim parecia um traje muito formal. Suas pálidas bochechas e o gesto de sua boca a faziam parecer como se estivesse preparando-se para um suplício. Pobrezinha. Tinha tanta vontade de estar ali como de encontrar uma mosca na sopa que provavelmente lhes tinha preparado Ines.
River se aproximou dela.
— Parece assustada — lhe disse, sorrindo. Naquele momento, teria gostado de rodeá-la com seus braços para protegê-la.
— Vá para o inferno.
— Para que? Para que você possa estar aqui, entrelaçando as mãos com tanta tensão que até tem os nódulos brancos, enquanto espera a que soe a campainha? Se me der permissão, posso lhe abrir eu e lhe dizer que mudaste para Austrália.
Sophie levantou a cabeça e o fulminou com o olhar.
— Como sabe que não morro de vontades de voltar a vê-lo?
River levantou a mão para arranhá-la cabeça.
— Nesse caso, tirarei-me do meio e voltarei para a chaminé, que sempre foi o melhor ponto de observação deste salão. Será divertido ver o reencontro.
— Odeio-te River James. Aborreço-te e te detesto, e ainda não sou capaz de entender por que te contei que Chet ia passar o fim de semana aqui — disse Sophie, entre dentes. — E se me deixar aqui só quando aparecer, nunca lhe perdoarei por isso.
River riu brandamente.
— Sabe, Sophie? Entendo os cavalos. Entendo a quase todos os animais, embora jamais tentaria raciocinar com um urso zangado nem nada parecido. Mas te juro que não consigo compreender às mulheres. Se ficar, odeia-me, se for, odeia-me. Como posso conseguir que me queira?
— Não pode consegui-lo — disse Sophie. Mas o agarrou com força no braço quando soou a campainha da porta e apareceu Ines, disposta a abrir. — Não te afaste de mim, e não lhe dê nenhum murro, por favor.
— Posso lhe pôr uma rasteira?
— Não, não pode lhe pôr uma rasteira — lhe advertiu Sophie.
Nesse momento, Meredith entrou na sala, envolta em um traje de seda verde esmeralda, e passou diante de Sophie, deixando em seu caminho uma esteira de perfume tão intenso que River estava seguro de que se podia mastigar. Sophie suspirou.
— E agora o que acreditará que está fazendo?
— Receber a seu convidado, suponho — disse River enquanto Chet entrava na sala e Meredith se aproximava para ele com os braços abertos para lhe dar um abraço.
— Assim que esta é as boas-vindas que Meredith dispensa a um homem ao qual você riscou de sua vida. Talvez não se lembre de que romperam o compromisso.
Sophie lhe dirigiu um olhar que poderia ter gelado a água do mar.
— Não me está ajudando muito, sabe? Oh, Deus, já vêm. Riv, se comporte.
Não foi fácil, mas River fez o que Sophie lhe pedia. Afastou-se para que aquele homem vestido com um traje de três peças, com os dentes mais brancos que a neve e um estudado corte de cabelo, cruzasse a sala, envolvesse Sophie em um delicado abraço e lhe desse um beijo na bochecha.
— Olá, querida — a saudou.
Apoiou a mão em seu ombro, retrocedeu um passo e baixou o olhar para seu rosto com uma expressão tão compassiva que River apertou os dentes e se perguntou se seria a própria Sophie quem lhe pegaria, lhe evitando a moléstia de fazê-lo.
— Como está, querida?
River elevou os olhos ao céu ante a necessidade da pergunta.
— Eu... estou bem, Chet — respondeu Sophie, e River afogou um grunhido. — Você... também tem bom aspecto.
— Tem bom aspecto? — repetiu Meredith. River se voltou e viu a mãe de Sophie deslizando o braço pela cintura de Chet. — Chet, cada vez que te vejo está mais bonito. Sophie é uma garota muito afortunada.
— Obrigado, senhora Colton — disse Chet, sem parecer absolutamente envergonhado por seus excessivos cuidados, ou pelo fato de que Sophie estivesse olhando-o com o mesmo interesse com que teria feito a um pescado que levava três dias apodrecendo-se.
River decidiu que tinha chegado o momento de divertir-se um pouco.
— Wallace! — exclamou, dando um passo adiante e lhe estendendo a mão tão rapidamente que Chet se sobressaltou e, involuntariamente, retrocedeu, antes de lhe estreitar a mão com desanimo. — Me alegro de ver que te afastaste durante uns dias do louco mundo da publicidade. Asseguro-te que vai passar uns dias maravilhosos. Temos tudo planejado, sabe? Todo um fim de semana de diversão no rancho. Agora mesmo tenho um dos cavalos mais tranqüilos da região te esperando no estábulo. Amanhã às seis podemos sair a montar, de acordo? Sophie e eu gostamos de começar logo a jornada com um bom passeio a cavalo.
— Montar a cavalo? Eu não sei montar — Chet tentou afastar a mão, mas River não o permitiu.
— Não monta? Vá, isso sim que é uma pena. Eu esperava te ver montando esse cavalo.
River soltou por fim a mão de Chet, e lhe concedeu alguns pontos ao ver que não fazia nenhuma careta apesar da força com a que a tinha apertado. Teve que fazer um esforço para não tornar-se a rir quando Sophie lhe deu dissimuladamente uma patada na panturrilha.
Joe Colton acabava de entrar na sala e se dirigiu para eles com a mão estendida para lhe dar a Chet as boas-vindas. Aquela era a primeira vez que River recordava ter visto Joe parecer tão artificialmente correto e com um sorriso tão falso.
— Que agradável surpresa. Me alegro de te ver, Chet — por seu tom, era evidente que Joe não estava à par do convite. Cada vez estava mais claro que Meredith era a única que estava encantada com a presença do publicitário.
— Estava a ponto de sugerir a Chet e a Sophie que fossem dar um passeio pelo jardim antes do jantar, Joe — lhe disse Meredith. — Sabe? Isto é como se tivessem que voltar a conhecer-se.
— Ah, sim? — Joe dirigiu a sua esposa um duro olhar. — Como está esta noite, princesa? — perguntou depois, voltando-se para Sophie e lhe dando um beijo na bochecha. — Parece um pouco cansada. Hoje tiveste que ir a reabilitação, não é? Sei que está trabalhando muito duro. Possivelmente deveria se sentar, para que descanse um pouco o joelho. Vamos, te acompanharei ao sofá.
Foi um movimento muito sutil e Chet não pôde fazer nada para impedi-lo. River sorriu de orelha a orelha enquanto Sophie e Joe se dirigiam para o outro extremo da sala.
— Meredith? — sugeriu River sem poder evitá-lo. — Não acha melhor mostrar a Chet o jardim antes que se faça noite — sugeriu.
Meredith entrecerrou os olhos e fulminou River com o olhar.
— Temo-me que não. Tenho que deitar Teddy e Joe — disse. A cor de suas bochechas parecia indicar que era consciente de que seu marido e seu filho adotivo estavam manobrando contra ela. — Se me perdoam — girou sobre seus calcanhares e abandonou o salão.
— Bom, ficamo-nos sozinhos — disse River alegremente. — Poderia te apresentar a todo mundo se não tivesse estado aqui o Natal passado. Mas, sabe? Tenho uma idéia melhor, Wallace? O que te parece que saiamos os dois a dar um passeio, assim podemos começar a nos conhecer um pouco melhor?
— Sei tudo o que quero saber sobre você, senhor James — replicou Chet.
Mas tinha que caminhar enquanto falava, porque River o tinha agarrado do cotovelo e o estava conduzindo para as portas que davam ao jardim.
— De verdade é necessário? — perguntou Chet, tentando parecer brusco, mas soava como um adolescente assustado. — Poderia havê-lo denunciado, sabe?
— Poderia, poderia — cantarolou River enquanto abria a porta e ajudava Chet a sair para o jardim. — Continua andando, Wallace, vamos para o outro lado da fonte, onde ninguém da família possa nos ver.
Chet fez o que lhe pedia, provavelmente porque era muito educado para montar uma cena. Ou possivelmente era um covarde. Na realidade, a River não importavam muito os motivos pelos que o obedecia enquanto o fizesse. Deteve-se quando chegaram à zona mais afastada da fonte.
— E agora quero deixar algo claro, James. Já sei que não gosta de mim. O céu sabe que o deixou suficientemente claro. Mas Sophie me quer e eu a quero, e não há nada que possa fazer para evitá-lo, entende? Estou aqui porque Sophie me pediu que viesse e não irei a menos que ela me diga que vá.
River olhou para Chet durante alguns longos segundos, depois, deixou cair ligeiramente a cabeça e o observou como se estivesse medindo a verdade de suas palavras.
— Sophie te convidou a vir?
Chet desviou o olhar, interrompendo o contato visual.
— Sim, ela me convidou. Bom, possivelmente não diretamente, mas a senhora Colton me assegurou que Sophie estava muito triste sem mim e precisava de mim.
River sacudiu a cabeça e riu brandamente.
— É um autêntico perdedor, não é, Wallace? Sophie te diz para que se afaste dela e te afasta dela. Depois, mamãe Colton te diz que apareça e te apresenta aqui imediatamente, como um periquito mulherengo bem treinado. Sabe?, essas roupas que está vestindo combinam muito bem com você, sobretudo tendo em conta que não parece ter músculos para agüentá-la.
Chet deu então um passo adiante, lhe mostrando os punhos com gesto ameaçador.
— Me deixe lhe dizer algo, James. Estou começando a me fartar de você — flexionou os ombros. — Me deu um murro uma vez, mas não conseguirá repeti-lo. Estive na equipe de boxe da universidade, suponho que lhe virá bem sabê-lo. Mas agora não penso brigar com você porque não tenho nada que demonstrar. Se estou aqui é por Sophie, porque a quero, e você pode ir para o inferno.
River o observou arqueando uma sobrancelha enquanto retornava de novo ao interior da casa.
— Vá, pelo menos é um consolo — disse a si mesmo. — Estava começando a pensar que Sophie não tinha gosto absolutamente. Esse tipo tem pelo menos um pouco de valor. Não vai servir-lhe de nada, mas, pelo menos, tenho que lhe reconhecer que não é um completo inútil.
River estava a ponto de tirar a camisa quando a porta de seu quarto, que estava em cima dos estábulos, abriu-se em um estrondo só.
— Como pudeste? — exigiu-lhe Sophie. — Maldito seja River James, como pudeste fazer algo assim!
— Boa noite, Sophie. É um pouco tarde para sair, não acha? Chet já foi para a cama? Suponho que a viagem o terá deixado cansado — comentou River, enquanto terminava de tirar a camisa e a colocava na cadeira mais próxima.
Sophie ignorou suas perguntas, deixando claro que tinha seus próprios motivos para lhe fazer aquela visita.
— Não tem direito! Não tem direito!
— Se você o diz, Soph — respondeu River com calma. Levou a mão ao cinturão, mas decidiu que já a tinha pressionado muito. — Só para me assegurar de que os dois estamos falando da mesma coisa, não tenho direito a quê?
Os enormes olhos de Sophie, os únicos capazes de fundir-se como o chocolate, converteram-se em duas fatias diminutas enquanto avançava para ele e lhe cravava o indicador no peito.
— Sabe condenadamente bem que não tinha direito a fazê-lo. Tirar o Chet e ameaçá-lo como um vaqueiro fanfarrão! — grunhiu exasperada e baixou as mãos. — E te ponha a maldita da camisa!
River apostou por uma solução intermediária. Pegou o colete de couro e o pôs.
— Assim está melhor? — perguntou, e dissimulou um sorriso ao ver que Sophie se ruborizava e se voltava, negando-se a olhá-lo. — Está bem, parece que não.
Sophie recuperou rapidamente a compostura, voltou-se para ele e o fulminou uma vez mais com o olhar.
— É insuportável, sabe? Não, não me responda. É obvio que sabe. Faz-o de propósito, não é? Você adora me tirar do sério e sabe exatamente que tecla tocar para consegui-lo.
— Isso é certo, ao menos em parte — reconheceu River. — Mas o do colete não sabia. Se não, o teria tentado antes. Você gosta, não é?
Sophie estava tão furiosa que poderia lhe haver saído fumaça pelo nariz.
— Odeio-te quando te põe assim, River James. Desde a primeira vez que te vi, estiveste me deixando louca, me tentando e se rindo de mim. Isso é a única coisa que sempre fui para você, Riv, o chiclete no sapato do qual não podia se desfazer, assim ao final decidiu me tolerar, e agora se comporta como se te pertencesse.
River, que até então estava sorrindo, ficou repentinamente sério.
— Isso não é verdade, Soph, e sabe disso. Foi você a que me voltava louco, recorda? Seguia-me noite e dia.
— Sim, bom... — Sophie fechou a boca e sacudiu a cabeça. — Oh, esquece — continuou ao fim de um momento. — Simplesmente, esquece. Desfrutamos de algo maravilhoso em outro tempo, mas isso pertence ao passado. Não sou uma menina e não está obrigado a ir a meu resgate. Nem com Chet nem com ninguém. Entendeu?
— Sim, Sophie, compreendi — disse River, mas estava falando sozinho, porque Sophie já tinha desaparecido.
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