Quinze
Embora Liza tivesse partido há duas semanas, Nick ainda se lembrava dela em seus braços como se estivesse em outro mundo. Lembrava-se de como tinha vontade de voltar para casa a cada tarde, de como estivera perto de viver a vida com a qual sempre sonhara.
Agora, quase não ria mais. De vez em quando Liza telefonava, embora tenha se tornado imprevisível. Nick não podia mais ficar em casa o dia todo apenas para ouvir a voz dela. De acordo com Bonnie, ela não falava mais por muito tempo. É difícil se ter uma conversa longa sem revelar algo de si.
Não que os dias de Nick tenham sido tediosos desde a partida de Liza. Ele foi atrás do repórter que entrevistara Daphne e lhe dissera que a informação que ela lhe dera era falsa. Então, telefonou para o editor do jornal e avisou que se publicasse mais uma das mentiras de Daphne, ele o processaria.
Seu advogado, certamente, andava bastante ocupado... além de estar enriquecendo também.
Nick enviou uma amostra de DNA, mas, como suspeitara, Daphne desapareceu sem deixar que a criança fosse testada. Nick nem ao menos chegou a ver o menino.
Então, contratou um detetive particular para encontrá-los.
Também quis contratar alguém para encontrar Liza, mas achou que isso poderia colocá-la em perigo. Além do mais, ela sabia onde ele estava, e não queria vê-lo. Ele achou que quando dissesse a ela que o homem que a perseguia estava morto, Liza voltaria. Mas, em vez disso, ela desligou o telefone na cara dele.
- Doutor?
Ele levantou a cabeça.
- Sim, Missy?
- Terminamos tudo por aqui. Não vai para casa?
- Sim, claro. Vá em frente e tranque tudo. Vejo você amanhã.
Missy se virou para ir embora, mas não antes de notar a preocupação nos olhos dele. O telefone tocou e ele atendeu.
- Nick, você vem para casa?
- Bonnie, claro que sim.
- Ótimo, pois Liza vai aparecer na TV!
- O quê? O que houve? - O coração dele bateu acelerado, temendo que algo pudesse ter acontecido com ela.
- Eu estava checando a programação da TV para essa noite e vi um programa beneficente para o Carnegie Hall. Ela vai ser uma das atrações.
- Ao vivo? - perguntou o médico, já pensando em quanto tempo levaria para chegar a Nova York.
- Não, diz aqui que é gravado.
- Tudo bem, estarei aí em alguns minutos.
Bonnie o esperava com o jantar pronto, mas ele não estava interessado. Pôs uma fita nova no aparelho de vídeo-cassete e andou de um lado para o outro, aguardando pelo início do programa.
Ele só se aquietou quando Liza, do alto de sua singela beleza, subiu ao palco. Seu coração derretia ao vê-la. Liza cantou uma das canções do primeiro álbum. Bonnie o havia comprado depois que Liza havia partido.
- É tão bom vê-la - disse a empregada.
Quando a moça terminou de cantar, entraram os comerciais depois do anúncio de que Liza cantaria de novo.
- Será o que ela vai cantar agora? - perguntou Bonnie.
Nick não respondeu. Não se importava com o que ela cantaria, tão logo pudesse vê-la. A única coisa melhor do que isso seria tê-la nos braços... para jamais largá-la.
Meredith assistia à produção na presença do marido. Ele geralmente não dividia o mesmo quarto com ela e jamais a cama. Não depois que ela anunciou a gravidez, sem se dar conta de que ele era estéril.
Quando Liza deixou o palco, ela sugeriu:
- Devíamos ligar para Liza e dar-lhe os parabéns. -Ela ainda não acreditava que Joe não sabia como encontrar a sobrinha.
- Eu não sei onde ela está - resmungou ele. - Ela telefonou de Nova York, mas não sei exatamente de onde. Aparentemente, não está mais vivendo em seu apartamento.
- Por que não?
- Por que a preocupação repentina, Meredith?
Ele a fitou, mas Meredith fingiu que estava tudo bem. Suas habilidades de interpretar eram ainda melhores do que as de Liza. Achava que a morte da sobrinha era uma necessidade, mas Liza não estava no topo das prioridades. Emily era a chave. Disse ao idiota que contratara para se concentrar em Emily.
- Vocês duas não se dão mais muito bem, não é mesmo? - a pergunta de Joe invadiu os pensamentos dela.
Meredith virou a cabeça. Sempre fique o mais próximo da verdade.
- Não, não muito. Isso acontece quando as crianças crescem. Elas se envolvem em suas próprias vidas.
E irmãs, também. Ela foi abandonada pela própria irmã. A verdadeira Meredith se casara com Joe e enriquecera, mas jamais se preocupou com a irmã gêmea. O que aconteceu com ela foi bem merecido.
O único problema era que estava perdida por aí. Será que ainda tinha amnésia depois de nove anos? Meredith queria muito saber onde a verdadeira Meredith se encontrava. Ela jamais perderia a posição, não importava o que precisasse de ser feito.
Fora até a cidade nesta manhã de novo para conversar com o homem que contratara para localizar Meredith. Não descobriu nada. Incapaz de suportar a tensão, despediu-o sem o menor tato.
Em seguida marcou uma visita com a melhor firma no país. Deveria tê-los contratado para encontrar Emily. Mas haveria muita investigação policial quando Emily fosse... eliminada. Quando sua própria irmã desaparecesse, ninguém notaria. Ninguém se importaria com uma velha mentalmente debilitada.
Recostou-se no sofá. Sim, logo teria tudo sob controle. E Liza não era nenhuma boba. Quando Emily aparecer morta, saberá que não deve dizer nada.
Mesmo se dissesse, ninguém acreditaria nela. Com um sorriso de satisfação no rosto, acomodou-se para assistir ao fim do show.
Liza assistiu ao programa na TV sozinha, enrolada nas cobertas em seu novo quarto de hotel. Estava ali desde o dia anterior, antes que alguém fosse lembrado da aparição dela no show que gravara há alguns meses. Embora o homem que a perseguia estivesse morto, ela não queria se arriscar a voltar para o apartamento, ainda.
Será que Nick estava assistindo? Será que sentia falta dela? O tempo que passaram juntos parecia tão real, parecia que duraria para sempre. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Se esforçava para não chorar.
Ela pensou na notícia da morte do homem. E pensou em retornar a Saratoga Springs. Mas não conseguia se decidir. Precisava se recuperar. Ultimamente, andava muito cansada e vomitava logo ao acordar pela manhã. Podia ouvir a voz de Nick avisando para que tomasse cuidado.
Motivada por esse pensamento, telefonou para uma clínica próxima e marcou uma consulta para a manhã seguinte.
Era perigoso demais fazer isso logo depois de aparecer na TV, mas com a peruca e os óculos escuros, não achou que fosse ser reconhecida. Certamente, não voltaria doente para Nick de novo. Se voltasse.
Liza se sentou em uma cadeira no consultório médico. Haviam feito vários testes com ela e tinha que esperar duas horas pelo resultado.
- Preciso de mais ferro, não é mesmo? - perguntou, tentando parecer animada, quando o que queria mesmo era ficar na cama e dormir por dias a fio.
O médico a fitou.
- Isso certamente estará incluído nas minhas prescrições. Entretanto, não é o... diagnóstico principal.
Algo na expressão dele a encheu de temor.
- Você quer dizer que... eu tenho câncer?
Ele pareceu surpreso.
- Oh, não, de jeito nenhum, sra.... - Parou para olhar na documentação. - Sra. Bonney, não é nada disso. Espero que a notícia lhe agrade. A senhora está grávida.
Liza não hesitou por um segundo sequer.
- Não, doutor, sinto muito. Você deve ter errado o diagnóstico. Eu não posso estar grávida.
- E por que diz isso?
Ela contou para ele sobre o diagnóstico que recebera dos dois médicos, anos atrás.
Em vez de sugerir mais testes, como ela esperava, ele balançou a cabeça.
- Sra. Bonney, eles nunca disseram que seria impossível. Nesse caso, milagres acontecem.
Liza olhou fixamente para ele enquanto digeria aquelas palavras.
- Você quer dizer que estou mesmo grávida? - A voz dela se levantou, a histeria tomava conta.
- Acalme-se. É importante que você permaneça calma e feliz. Queremos que esse bebê nasça saudável.
- Há algo de errado com o bebê? - perguntou, inclinando-se para a frente. Ela já achava o diagnóstico improvável, quanto mais um resultado feliz.
- Você é muito preocupada, não é mesmo? - perguntou ele. -Não vejo nenhuma dificuldade se você seguir as instruções.
- Claro que seguirei. Diga-me o que fazer. Faço o que for preciso. Eu... quando ele nasce?
- Você só está grávida há três semanas. Foi bom ter vindo logo. Tenho uns livretos que quero que leia. Além disso, receitarei umas vitaminas. Pode comprá-las na nossa farmácia. Precisa de ajuda para pagar?
- Não, posso pagar - disse ela, com a mente distante.
- Também temos uma loja ligada ao hospital com roupas doadas para mulheres grávidas. Você ainda não precisa disso, mas quero que saiba sobre a assistência que podemos lhe dar.
Liza o fitou. Roupas de grávida! Jamais achou que precisaria disso. Uma felicidade imensa a invadiu. Ela e Nick... Nick vai ter um filho.
E então se lembrou: ele já tinha um filho... e a essa altura uma esposa. Ultimamente não havia ligado muito, pois não tinha nada a dizer e também porque não queria ouvir sobre o casamento dele com Daphne.
Seu filho, seu precioso filho não terá um pai. Não um pai que vivesse com ele, que estivesse à sua disposição... que lhe ensinasse a pescar.
Seus olhos se encheram de lágrimas. Não importava, ela disse a si mesma. Amaria o filho mais do que qualquer mãe já amou. Ela...
- Sra. Bonney, está bem? - perguntou o médico. - Não tive a intenção de lhe aborrecer.
- Não, não, doutor, estou bem - disse, tentando conter as lágrimas.
- Que bom. Agora, aqui estão o livreto e a receita das vitaminas. Gostaria de revê-la em quatro semanas. Marque uma consulta com a enfermeira ao sair.
- Sim, obrigada, doutor. - Liza pegou os papéis com ele e tentou ficar calma enquanto escapava do olhar do médico.
Tantas emoções conflitantes dentro dela tornavam difícil estar sob controle. Estava muito feliz com o bebê. E devastada pelo fato de Nick não estar envolvido.
Sem pensar, acenou para um táxi logo que saiu do hospital. Precisa ficar sozinha o mais rápido possível.
- Para onde, moça?
Ela indicou uma esquina próxima ao hotel e se acomodou, mas sua mente girava com as possibilidades.
- Ei, você parece com uma cantora! - exclamou o motorista, chamando a atenção dela.
Ela tentou parecer calma.
- É mesmo? Já ouvi isso antes. Quem me dera.
- Você canta? - perguntou o rapaz.
- Não, nem um pouco. Se eu cantasse, acha que viria a este lugar? - disse ela apontando para o hospital.
Ele riu.
- Acho que não. Essas estrelas sempre têm quartos especiais, vários serviços. Nós, pobres mortais, temos que nos virar nas filas. Ah, que vida!
- É - concordou ela, olhando pela janela do carro.
Toby Atkins passou pelo antiquário de Annie Summers. Às vezes Emma trabalhava lá nos dias de folga do restaurante. Ele sempre lhe dizia que devia fazer algo divertido durante a folga. Mas ela disse que adorava antigüidades.
Ele franziu a testa. Essa era a única coisa incomum em Emma. Para uma mulher supostamente cheia de mágoas, ela era muito agitada.
Sempre que ele mencionava alguém estranho na cidade, ela fingia não ouvir, mas ficava paralisada até que ele identificasse a pessoa.
Ele deduziu que ela fosse uma fugitiva. Isso seria o menor dos males, ele pensou. Porque ele também suspeitava que ela fosse a mocinha meiga envolvida em roubos de carros em cidades vizinhas.
Mas não conseguia acreditar nisso... não quando estava perto de Emma.
Ele entrou e sorriu para Annie. Era uma mãe solteira, bonita, doce, mas não lhe enchia os olhos como Emma.
- Emma trabalha hoje?
- Oi, Toby. Sim, trabalha, mas saiu para olhar as porcelanas do sr. Yardley. Ele quer vendê-las e Emma sabe mais sobre porcelanas do que eu.
- Isso não é estranho? - perguntou ele sutilmente. Annie desviou o olhar. Deu de ombros e disse:
- Até que não. Muita gente sabe de coisas que você nem imagina.
- Quando ela volta?
- Já deve estar voltando. Saiu faz umas duas horas.
Naquele momento, a porta se abriu e Emma entrou, com as mãos repletas de caixas. Toby foi de encontro a ela para ajudá-la. Parará de se preocupar com o passado de Emma. Estava mesmo era aproveitando-a no presente.
Não foi nada fácil, mas Nick tirou um mês de férias. Normalmente, tirava uma semana quando se sentia muito cansado e logo voltava ao trabalho.
Entretanto, dessa vez, as férias não tinham a ver com cansaço. Tinha a ver com o desejo de encontrar Liza e de colocar a vida nos trilhos, junto da mulher que amava e com quem queria passar o resto da vida.
Resolvera a confusão com Daphne. O detetive particular que contratara a encontrou junto do menino e os fotografou. Também fotografou junto deles um homem que Nick não conhecia. O menino, Timmy, parecia com o homem.
Mas Nick não dependeu do que lhe disse os olhos. Contatou um advogado e exigiu um teste de paternidade. Ela concordou com o teste, mas implorou que Nick não a processasse.
- Tudo bem, nada de processo. Mas prossiga com os testes.
- Por quê? Você já sabe que ele não é seu - disse ela. - Não quero mais amolação.
- Prefere ir a julgamento? Para revelar o que você fez?
- Nick, você está sendo malvado!
- Isso mesmo. Então você vai mandar o DNA do menino?
- Ah, tudo bem!
Ele pegou o resultado na terça. Deu negativo, como esperava. Pediu a amigos que cuidassem de seus pacientes no mês seguinte e embarcou para Nova York naquela mesma noite.
Falou com o detetive Ramsey, mas ele não sabia de muita coisa. Rastrearam os telefonemas e descobriram que eram provenientes de telefones públicos ao redor da cidade. O detetive sugeriu que deixasse uma mensagem na secretária eletrônica de Liza dizendo para encontrá-lo.
Nick torcia para que desse certo.
Mas também pensava em contratar um detetive particular em Nova York que Ramsey recomendara.
Correu para casa depois do último paciente, muito empolgado. Disse a si mesmo que levaria tempo e que precisaria de muita paciência, mas pelo menos estava fazendo algo para trazer Liza de volta a sua vida.
O amor que sentia por ela continuava tão forte quanto da última vez que a vira. Acreditava que a mulher de sua vida era Liza Colton. Pensaria novamente sobre sua idéia de um futuro perfeito. Se ela quisesse continuar a carreira de cantora, ele estaria de acordo.
Contanto que ela sempre retornasse para ele quando terminasse a turnê.
Isso era o mais importante.
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