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Sunday, December 19, 2010

Arlene James - Desperately Seeking Daddy p.02

CAPÍTULO II

Jackson recostou-se na cadeira giratória, decidido a não olhar novamente para o relógio... Mesmo porque, só teria a confirmação óbvia de que Hellen estava atrasada.
— Ela virá — Jackson pensou em voz alta. — Afinal eu a chamei aqui para falarmos sobre seu próprio filho.
Ele suspirou profundamente. Claro que não tinha por que se preocupar. Dentro de alguns minutos a mãe de Cody Moore Swift chegaria e pediria desculpas pelos vinte minutos de atraso.
O tempo passava com uma lentidão angustiante.
Debatendo-se contra uma ansiedade crescente, Jackson viu os ponteiros do relógio indicarem oito e quarenta.
Assim não era possível! Quarenta minutos de atraso significa­vam, no mínimo, uma grande falta de consideração.
Onde estaria Hellen Moore àquela hora? Dormindo? Tomando café? Ou teria simplesmente se esquecido do compromisso?
Jackson passou a mão pelos cabelos negros, num gesto de ir­ritação e cansaço. Não queria duvidar novamente de Hellen Moore. Mas se ela não chegasse em poucos instantes, ele acabaria pen­sando o pior a seu respeito... E com toda razão!
— Droga — resmungou. — Eu só queria ajudar.
Bem, de nada adiantava ficar de mau humor, logo de manhã. O melhor que tinha a fazer era continuar esperando. Enquanto isso poderia planejar suas atividades durante as férias. Como, exatamente, pretendia desfrutá-las?
Poderia fazer algo divertido e agradável, como por exemplo reu­nir-se com os antigos colegas de beisebol.
Sim... Seria uma boa ideia oferecer-lhes um jantar, ou convi­dá-los para fazer um trekking ecológico pelo Parque Nacional, onde poderiam exercitar-se fisicamente e relembrar os velhos tempos.
Ou seria melhor viajar para mais longe? Poderia visitar os pri­mos que moravam na Califórnia... Ou então comprar uma barraca de camping e partir para o litoral, parando nas cidades que mais o agradassem e ficando por quanto tempo quisesse?
Todas essas opções eram ótimas, Jackson pensou... Exceto por um pequeno detalhe: ele não tinha a menor vontade de rever os atletas do Laker’s.
Desde que machucara o joelho, interrompendo abruptamente sua carreira como astro do beisebol, Jackson preferia recolher-se a sua solidão e evitar o contato com os antigos colegas
Tampouco sentia vontade de visitar os parentes, ou de acampar sozinho.
Jackson recostou-se na cadeira e fechou os olhos, pensando nos filmes que gostaria de ver, nos livros que pretendia ler e nas cartas que queria enviar.
Abrindo um bloco de anotações que estava sobre a mesa, decidiu fazer uma lista. Por onde deveria começar...? Pelos livros, talvez?
Havia muitos escritores e poetas de quem gostava. Era até difícil selecionar alguns, entre tantos preferidos. Enquanto pen­sava, Jackson deixava que a caneta corresse ao acaso pela folha de papel em branco, desenhando, escrevendo...
Depois de muito refletir resolveu começar por um livro de contos de Máximo Gorki, um escritor russo conhecido no mundo inteiro e autor de uma obra chamada O Vagabundo Original. Sim, Jackson decidiu. O primeiro livro que leria naquelas férias seria este.
Já ia anotar o nome do autor e da obra no alto da folha, quando deparou com um nome que ele próprio havia acabado de escrever, sem se dar conta:
— Hellen! — murmurou, entre surpreso e aborrecido.
Aquela mulher o estava perturbando bem mais do que Jackson gostaria de admitir.
Consultou novamente o relógio e uma onda de revolta o invadiu. Faltavam menos de dez minutos para as nove horas. Por que Hellen Moore não chegava?
O pequeno Cody estava sofrendo por ela, Jackson pensou, ir­ritado. Estava tentando preencher o vazio deixado pelo pai. A inocência daquele desenho pregado na porta da mercearia era co­movente. Alguém teria de ajudar o menino, dar-lhe apoio e carinho. Alguém teria de...
Jackson meneou a cabeça, interrompendo o fluxo de pensamen­tos. Quantas vezes já se dissera que seu trabalho era educar crian­ças e não resolver seus problemas familiares?!
Erguendo-se bruscamente pegou o desenho, a ficha de Cody e guardou-os no bolso. Saiu em seguida, fechando a porta. Tencionava dizer umas boas verdades a Hellen Moore... E nada no mundo poderia fazê-lo mudar de ideia.
O trânsito àquela hora era bastante movimentado. Mas Jackson trafegava no contrafluxo, no sentido cidade-bairro. Assim, ele não tardou a chegar ao condomínio Fairhaven Mobile Home.
Tampouco teve grandes dificuldades para encontrar a casa dos Moore, situada na rua paralela à do ônibus que fazia o trajeto do centro da cidade até o bairro.
Jackson estacionou em frente à casa e desligou o motor.
Uma brisa suave trazia o perfume das flores silvestres do bosque que circundava o condomínio.
A casa, tal como todas as outras, era cor de marfim, com janelas e portas tratadas com verniz fosco para conservar a genuína cor da madeira.
O jardim da frente era belo, mas precisava de alguns cuidados. Aliás, tudo ali parecia necessitar de mais atenção.
Uma ripa e um fio de nylon resolveriam o problema da roseira amarela perto da cerca, cuja haste poderia quebrar-se com um vento mais forte.
Uma boa mão de tinta viria a calhar nas paredes, cujo reboco estava se partindo em vários pontos.
Uma limpeza no telhado, onde muitas folhas se acumulavam, trazidas pelo vento, evitaria goteiras nas próximas chuvas. E ainda por cima as folhas serviriam de adubo. Bastaria misturá-las com terra e enterrá-las nos pés das árvores e demais plantas.
Jackson ergueu o vidro e desceu do veículo. Abriu o pequeno portão do jardim e entrou. Um caminho de pedras, quase total­mente coberto pela grama, conduzia à porta principal da casa.
Jackson pressionou a campainha e aguardou por alguns mo­mentos, mas não obteve resposta. Então bateu à porta. Do interior da casa vinha o som de um rádio ligado, mesclado a vozes infantis.
Jackson tornou a bater, dessa vez com mais força. Logo foi atendido por uma jovem morena, de longos cabelos crespos.
— Entre — ela convidou, deixando a porta aberta e afastando-se a passos largos. — O leite está quase fervendo e não quero que derrame novamente.
Jackson ia perguntar por Hellen, mas não teve tempo. A garota havia desaparecido no interior da casa e ele não viu outra alter­nativa senão entrar.
Fechou a porta e, hesitante, caminhou pelo corredor. Sentia-se como se estivesse invadindo o lar dos Moore.
— Ei! — chamou, apreensivo.
O corredor conduzia a uma sala pequena, mobiliada modesta­mente com um jogo de sofá e poltronas, uma mesinha de centro sobre um tapete com motivos florais e uma velha estante que mal parecia suportar um grande aparelho de TV, muito antigo.
— Já lhe disse para entrar, senhor! — A voz da garota morena vinha da esquerda, misturada ao som do rádio que transmitia o noticiário da manhã. — Estou aqui, preparando o café das crianças.
Jackson caminhou na direção da voz e saiu numa espaçosa cozinha, mobiliada no mesmo estilo da sala: com modéstia, mas ao mesmo tempo com tudo o que era necessário a uma razoável conforto doméstico: um fogão de quatro bocas, geladeira, um pe­queno freezer e armários embutidos, cujas portas de vidro deixa­vam à mostra um velho liquidificador.
— Deixei as crianças brincando no quarto — disse a garota morena, sem desviar os olhos da leiteira sobre o fogão. — Assim elas me dão um pouco de sossego, enquanto preparo o café da manhã. Pronto! —exclamou, desligando o fogo. — O leite já ferveu. — Só então pareceu dar-se conta de que Jackson era um estranho e, franzindo a testa com ar de desconfiança, indagou: — Quem é o senhor? O que quer aqui?
— Você deveria ter feito esta pergunta antes de me deixar entrar — ele retrucou, num tom seco.
— Acontece que o leite estava no fogo e eu não queria que se derramasse — a garota rebateu, encarando-o com ar de desafio.
— Isto não é exatamente um bom argumento — Jackson re­plicou, aborrecido. E advertiu-a: — Não se deve deixar estranhos entrarem em casa, menina... Em nenhuma circunstância.
— Tudo bem. — A garota sorriu, com ar irônico. — Suponho que o senhor não seja Jack o estripador, nem o Jason da Sexta-feira 13. Portanto...
— Portanto você trate de ter mais juízo, na próxima vez — ele interrompeu-a e apresentou-se: — Sou Jackson Tyler e gostaria de falar com a sra. Hellen Moore.
— E eu sou Betthy, babá das crianças. — A garota sorriu. — Ei, agora estou me lembrando de sua voz. O senhor não ligou para cá ontem, à procura de Hellen?
— Exato.
— E ainda não a encontrou?
— Sim, mas não tivemos tempo de conversar. E é por isso que estou aqui. Será que você pode chamá-la, por favor?
— Não — Betthy respondeu, simplesmente.
— Por que não? — Jackson perguntou, contendo a impaciência.
— Porque Hellen não está, oras. Ela não veio para casa, ontem à noite.
— Mas como? — Jackson reagiu, indignado.
— Ela não voltou — Betthy repetiu.
— E você não está preocupada?
— Por que deveria?
— Ora... — Jackson passou a mão pelos cabelos negros, num gesto de irritação e cansaço. De nada adiantava discutir com Bett­hy. Aliás, talvez Hellen costumasse dormir fora de casa, sem avisar.
A revolta tornou a crescer-lhe no íntimo. Agora estava certo de que Hellen Moore era uma mãe displicente e omissa. Sua sus­peita inicial estava correta. Aquela mulher não se importava com os filhos. Ainda assim, ele estava disposto a tentar uma vez mais:
— Por favor, deixe um recado para a sra. Moore, sim? Diga-lhe para me telefonar tão logo seja possível.
— Ela tem o seu número?
— Está na caderneta escolar de Cody — Jackson respondeu. — Agora, por favor, queira me acompanhar até a porta e trancá-la assim que eu sair.
— Deixe-a encostada, que eu trancarei assim que...
— Negativo, mocinha — Jackson a interrompeu, num tom firme. — Você vem comigo. Alguns segundos a mais ou a menos não vão arruinar o café da manhã.
— Tudo bem — a garota concordou, acompanhando-o. — O senhor é quem manda. A propósito, o senhor é professor de Cody?
— Sou o diretor da escola onde ele estuda.
— E o que foi que... — Betthy não teve tempo de completar a pergunta. No tapete da sala estava Davy, de dois anos, muito concentrado em espalhar o conteúdo de um frasco de xampu sobre a mesinha de centro. — Oh não! — ela exclamou, correndo na direção menino. — Davy, seu danadinho! Cadê seus irmãos?
— N-no quáito — disse o caçula dos Moore.
— Mas eles deviam estar tomando conta de você.
Um tanto surpreso, Jackson viu a garota tomar o frasco de xampu do menino com extrema delicadeza. Não esperava que aque­la jovem trapalhona fosse capaz disso.
— Você é impossível, mocinho. — Ela ergueu o pequeno nos braços e voltou-se para Jackson: — Não sei como ele conseguiu pegar o xampu lá do banheiro.
Antes que Jackson fizesse algum comentário, Hellen surgiu na sala.
— Você! — Ambos exclamaram, quase ao mesmo tempo.
— Ma-mãe — Davy sorriu, estendendo os bracinhos.
— Oi, meu amor. — Hellen deixou a bolsa sobre o sofá e pegou o filho no colo. Voltando-se para a babá, indagou: — Ele já tomou café?
— Ainda não.
Hellen beijou o filho e entregou-o à babá:
— Então vá com Betthy, querido. Ela vai fazer um mingau bem gostoso para você, está bem?
— Veja só o serviço que esse diabinho aprontou. — Betthy apontou o xampu, de cor esverdeada, espalhado sobre a mesinha de centro.
— Pode deixar, que eu mesma cuidarei disso — disse Hellen. Voltando-se para Jackson, convidou: — Sente-se e fique à vontade.
— Não quer que eu a ajude? — ele ofereceu, solícito.
— Não é preciso, obrigada. Limparei a mesinha num instante. Com licença, sr. Tyler.
Sozinho na sala, Jackson sentou-se no sofá e aguardou. Da cozinha vinha a voz de Betthy mesclada à do pequeno Davy e ao som do rádio, que agora tocava música pop.
Hellen retornou pouco depois, trazendo uma vasilha com água, esponja e um pano. Com uma habilidade admirável, limpou a mesinha de centro e o chão. Tornou a afastar-se e, quando voltou, estendeu a mão para Jackson num cumprimento polido e um tanto embaraçado:
— Devo-lhe um duplo pedido de desculpas, sr. Tyler. Em pri­meiro lugar, por nem sequer tê-lo cumprimentado quando cheguei. E, em segundo, por faltar ao nosso encontro na escola.
— É justamente por isso que estou aqui, sra. Moore — ele afirmou, num tom severo. — Talvez seja muito atrevimento de minha parte vir procurá-la em sua própria casa. Mas acho que o seu filho merece essa consideração.
Hellen uma mecha de cabelos que caía-lhe na testa e suspirou profundamente.
— O senhor tem toda a razão em me censurar.
— Ao menos concordamos neste ponto, sra. Moore — ele retru­cou, num tom irônico.
— Acontece que realmente não pude comparecer ao encontro — Hellen justificou-se, penalizada. — Eu ia mesmo fazer um turno duplo na creche, para ganhar umas horas extras. Mas acabei tra­balhando por três períodos, pois a colega que ia ocupar meu lugar a partir das quatro da manhã faltou. Daí, não tive outra alternativa senão substituí-la.
Jackson reagiu surpreso:
— Você trabalha numa creche?
— Sim; pego o turno das oito à meia-noite, logo depois de sair da Loja de Conveniências Peter Lore. Felizmente são só quatro horas de trabalho e ainda por cima tenho duas folgas por semana. Mas vez por outra faço um turno extra para tirar um salário maior no final do mês...
Uma onda de remorso invadiu Jackson. Mais uma vez havia feito mau juízo de Hellen Moore, julgando-a uma mãe displicente quando na verdade ela era apenas uma mulher lutando para sus­tentar a família.
Tomando o silêncio de Jackson como um claro sinal de repro­vação, Hellen afirmou num tom ríspido:
— A luta pela sobrevivência é muito dura, sr. Tyler. E nem todos podemos ser diretores de escola. Alguns de nós acabam tendo de fazer serviços mais humildes, como trabalhar em lojas ou creches.
— Todo trabalho merece respeito, sra. Moore, por mais humilde que seja — ele sentenciou com veemência.
— Ainda bem que o senhor pensa assim — ela comentou, um pouco mais relaxada.
— Deve ser muito desgastante trabalhar em dois empregos e ainda por cima dirigir uma família.
Desgastante não era a palavra exata para definir a rotina árdua que Hellen cumpria, incansavelmente, semana após semana. Mes­mo assim ela sorriu com modéstia:
— Enquanto eu conseguir dar conta de tudo isso... — A chegada de Cody à sala a fez interromper-se. — Bom dia, querido. — Ela beijou-lhe os cabelos, que eram cacheados e loiros como os seus.
— Bom dia, mamãe — o menino respondeu, com os olhos fixos em Jackson. — Sr. Tyler...? — disse, com uma expressão interrogativa. — Eu... Fiz alguma coisa errada lá na escola?
Jackson sorriu:
— No seu lugar, eu também estaria preocupado. Afinal, deve ser inquietante encontrar o diretor da escola em nossa casa, logo cedo — comentou, acariciando os cabelos do menino. Era incrível como ele se parecia com a mãe, pensou, antes de acrescentar: — Mas não se preocupe, Cody. Está tudo bem.
O menino fitou-o com um olhar incerto, como que recusando-se a acreditar naquelas palavras.
— Fique tranquilo, meu bem — Hellen recomendou, embora ainda não tivesse ideia do que, exatamente, trouxera Jackson Tyler até ali. Só sabia que o assunto dizia respeito a Cody.
Mas o menino continuava fitando Jackson:
— O senhor... Quer falar comigo? — indagou, mais relaxado, porém curioso.
— Já lhe disse que não há motivos para se preocupar, rapaz — Jackson reafirmou. — Na verdade, eu só vim para conversar com sua mãe sobre aquele anúncio que você colocou lá na mercearia.
Os olhos azuis de Cody arregalaram-se, numa demonstração de alegria e surpresa:
— Puxa! Então a minha ideia funcionou! Rapaz, eu não esperava uma resposta tão rápida como...
— Calma — Tyler interrompeu-o, com um sorriso amável. — Não tire conclusões precipitadas, mocinho.
— Ora, se o senhor veio por causa do aviso é porque...
— As coisas não são tão simples quanto você pensa, Cody. — Jackson tornou a interrompê-lo.
— Posso saber do que vocês estão falando? — Hellen interveio, confusa.
— Vejo que você não contou nada a ela — Jackson concluiu, com os olhos fixos nos do menino. — Certo?
— Ah, claro que não — Cody confirmou, sem hesitar. Com um sorriso cúmplice, acrescentou: — Mamãe jamais concordaria. Ela é muito auto-eficiente, sabe? E acha que pode fazer tudo sozinha.
— Auto-suficiente, você quer dizer — Jackson corrigiu-o.
— Isso mesmo. — Cody sorria, radiante. — Bem, já que o senhor está aqui, pode conversar com ela.
— Será que um de vocês teria a bondade de me dizer o que está acontecendo? — Hellen exigiu, impaciente.
— E exatamente esta a minha intenção — Jackson respondeu. — Mas gostaria de fazê-lo em particular.
— A só! — Cody gritou, exultante. — Como nos filmes!
— A sós — Jackson tornou a corrigi-lo Voltando-se para Hellen, sugeriu: — O que acha de tomarmos o café da manhã juntos?
Ela hesitou:
— É uma boa ideia, mas preciso ver se o desjejum que Betthy preparou é suficiente para nós todos.
— Estou convidando-o para sair, sra. Moore — ele explicou. — Se a senhora trabalhou até agora, deve estar exausta e faminta. Precisa ao menos alimentar-se de maneira adequada.
— O sr. Tyler tem razão, mamãe — Cody afirmou, piscando um olho para Jackson.
— Prometo que não tomarei muito o seu tempo e que a trarei de volta para cá, sra. Moore.
— Está bem — Hellen concordou. — Dê-me apenas alguns mi­nutos para lavar o rosto e pentear os cabelos.
— Isso mesmo, mamãe — disse Cody. — E trate de ficar bem bonita.
Hellen sorriu para o filho, com um misto de ternura e curiosidade:
— Gostaria de saber por que você está tão feliz. — Voltando-se para Jackson explicou: — Cody sempre fica muito ressentido quan­do não tomamos o café da manhã juntos.
— Mas hoje é um dia especial! — o menino exclamou, triunfante.
— Não grite assim, querido — Hellen censurou-o, num tom carinhoso. — E trate de trocar esse pijama, antes de tomar café.
— Está bem, mamãe.
— A propósito, onde está Priscilla?
— No quarto.
— Certo. — Hellen dirigiu-se a Jackson. — Com licença, sr. Tyler. Estarei de volta em poucos minutos.
Ele aquiesceu com um gesto de cabeça e despediu-se do pequeno Cody, que partiu em disparada pelo corredor.
Sentado no sofá, Jackson esperou pelo retorno de Hellen. Con­vidá-la para tomar o café da manhã tinha sido um golpe de gênio, ele pensou, com um meio-sorriso. Não apenas Hellen Moore teria oportunidade de fazer uma boa refeição num lugar calmo... como também ele poderia falar sobre o desenho de Cody, sem causar constrangimentos ao menino ou a ela.
"Bem, é claro que Hellen Moore ficará embaraçada", Jackson concluiu, mentalmente. "Mas ao menos estaremos a sós... E não na presença das crianças ou da babá."
Uma onda de orgulho invadiu o coração de Jackson, ao lem­brar-se da felicidade de Cody ao imaginar que ele fosse um provável candidato a marido de Hellen... Era bom saber que o menino o estimava a esse ponto, Jackson pensou, com um sorriso de ternura.
Pobre Cody... Um dia, quando adulto, ele acabaria descobrindo que as relações humanas eram muito complicadas. E compreen­deria, certamente comovido, quanto estivera enganado ao imaginar que poderia ganhar um papai através de um anúncio.
Hellen retornou cerca de dez minutos depois, trajando um ves­tido estampado com motivos florais e sandálias. Trazia nos braços um colete com o logotipo de Loja de Conveniências Peter Lore estampado nas costas. Um perfume suave exalava de seus cabelos dourados, ainda úmidos.
— Acabei tomando um banho — ela explicou. — Estava exausta e uma boa ducha sempre ajuda a relaxar.
— É verdade. — Jackson ergueu-se. — Podemos ir, agora?
— Sim — ela respondeu, pegando a bolsa que havia deixado sobre o sofá. — Já me despedi das crianças e de Betthy.
Hellen adiantou-se e seguiu pelo hall até a porta da casa. Abriu-a e deu passagem a Jackson:
— Por favor, sr. Tyler.
— Primeiro as damas, senhora — ele retrucou, com um sorriso que lembrava o dos antigos cavalheiros.
Hellen retribuiu o sorriso e saiu, pensando de passagem que já fazia muito tempo que não era tratada com tanta gentileza. Esperou que Jackson também saísse e trancou a porta.
— Eu sempre peço a Betthy para mantê-la trancada — explicou. — Mas essa menina, apesar de ter um ótimo coração e adorar as crianças, é uma cabeça-de-vento. Muitas vezes, quando volto do trabalho à noite, encontro a porta apenas encostada.
Jackson assentiu com um gesto de cabeça e confidenciou:
— Detesto parecer fofoqueiro, mas acho que é importante a senhora saber que aquela moça me deixou entrar sem nem sequer perguntar quem eu era, ou o que desejava.
— Essa menina não tem jeito — Hellen comentou, meneando a cabeça.
— Talvez a senhora devesse chamar-lhe a atenção — ele sugeriu.
Ela suspirou profundamente, com uma expressão de desalento:
— Já perdi a conta de quantas vezes recomendei a Betthy que não abrisse a porta para estranhos. Claro que, no seu caso, não havia perigo algum, mas...
— Foi exatamente isso que eu disse a ela — Jackson completou.
— E aposto que Betthy fez alguma brincadeira a respeito... Certo?
— Sim.
— As vezes tenho a impressão de possuir quatro filhos em vez de três... E parece que Betthy é a caçula. — Após uma pausa, Hellen acrescentou: — Enfim, o que posso fazer? Por mais absurdo que pareça, sei que Betthy ama as crianças e vice-versa... E isso não tem preço, sr. Tyler.
— Posso imaginar, sra. Moore — ele assentiu. — Vamos?
Ela aquiesceu com um gesto de cabeça e seguiu-o até o reluzente sedan azul, estacionado logo à frente de seu velho Escort.
— Se o senhor não se importa, eu o seguirei no meu carro. — E apressou-se a explicar: — É que não terei tempo de voltar para casa, antes do trabalho. Seguirei direto para a loja de conveniên­cias, depois do nosso café. Aliás, já estou atrasada.
Jackson disfarçou o aborrecimento, ao indagar:
— Quer deixar nossa conversa para uma outra ocasião, sra. Moore?
— De modo algum, sr. Tyler. Eu já liguei para a loja, avisando que chegarei atrasada.
— Ótimo — ele aquiesceu, aliviado. Seria mesmo lamentável adiar a conversa com Hellen Moore, depois de tanta espera.
— Bem, aonde iremos?
— Que tal ao Plaza-Café?
— É uma ótima sugestão, sr. Tyler... — Hellen respondeu e completou em pensamento: "embora um tanto cara".
De fato ela só fora uma vez ao Plaza, no tempo em que namorava Carmody Swift, quase dez anos antes. Desde aquela época Carmody já se mostrava totalmente inconsequente com relação a gas­tos... Bastava-lhe receber algum dinheiro para esbanjá-lo em coisas supérfluas ou jantares à luz de velas, em sofisticados restaurantes da região.
De qualquer forma, Jackson Tyler devia saber o que estava fazendo, ao convidá-la para o desjejum no Plaza. Aliás, o salário daquele homem como diretor da escola Happy Child certamente nem se comparava aos magros vencimentos que ela recebia por trabalhar em dois empregos.
Era sobre isso que Hellen refletia, ao aceitar o convite... Embora também pensasse que jamais vira olhos tão negros e profundos quanto os de Jackson Tyler.
"Ele não é apenas belo, mas gentil e educado", Hellen concluiu. "O tipo de espécie que está em extinção, no mundo atual."

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