CAPÍTULO 15
Qualquer um poderia pensar que ia celebrar-se um casamento na Fazenda da Alegria. Tinham disposto toda uma sala no andar de baixo com duas mesas enormes para exibir nelas os presentes que fossem chegando à casa dia a dia. Mas não havia torradeiras, nem liquidificadores no lote. Não, os presentes que se recebiam eram bandejas de prata, relógios, canetas de ouro, canetas-tinteiro e qualquer tipo de presente adequado para o senador Joseph Colton.
Sophie percorreu as mesas sacudindo a cabeça. A cadeira de montar tinha chegado no dia anterior e era um presente dos trabalhadores da rádio e da cadeia de televisão do Texas. Sophie sorriu ao recordar o comentário que tinha feito seu pai ao ler o cartão em que lhe desejavam felizes passeios naquela cadeira.
— Meu deus, qualquer um pensaria que vou me aposentar. A única coisa que vou fazer é fazer sessenta anos, que já é suficientemente mau.
Sophie tinha desfrutado desempacotando, colocando os presentes e tomando nota de quem tinha enviado cada um deles para poder preparar as notas de agradecimento que teria que enviar depois da festa.
Era divertido e, além disso, junto com as sessões de reabilitação em Prosperino e os exercícios que fazia em casa duas vezes ao dia, uma boa razão para manter-se ocupada e longe dos estábulos.
River lhe estava dando espaço. Espaço e tempo, e ela o adorava por isso. E também estava surpreendida, porque River nunca se caracterizou por sua paciência.
E também lhe enviava presentes. Um presente a cada dia. Um buquê de flores silvestres com um laço azul, uma cesta de vime com pastilhas de sabão, um livro sobre a cultura dos indígenas americanos... Os presentes apareciam em seu quarto, em cima da cama, todos os dias. Sophie tentava apanhar River, mas este elegia diferentes momentos do dia, de modo que a jovem sempre via os presentes, mas nunca via ele.
Era possível que River estivesse esperando que fosse para buscá-lo, mas a verdade era que Sophie o duvidava. Sabia que River se aproximaria dela quando decidisse que era o momento de fazê-lo.
E Sophie ainda não era capaz de imaginar o que ocorreria então. Especialmente depois do resultado de todos os testes de gravidez que tinha feito, depois de ter ido ver sua futura casa.
Sophie percorreu a mesa revisando os envios do dia, que ainda não tinham sido desempacotados. Havia seis caixas. Enquanto as abria, sorria pensando no querido e respeitado que era seu pai. Possivelmente aquelas amostras de afeto de seus amigos e colegas compensassem de algum modo a tristeza que encontrava em sua própria casa.
Antes de desempacotar a última caixa, que pesava mais do que parecia indicar seu tamanho, revisou a etiqueta com o nome do remetente.
— Chet? Chet lhe enviou um presente? — vacilou um instante, mas imediatamente abriu a caixa e descobriu um peso de papel em seu interior.
Levantou o globo de cristal e sorriu ao ver o dólar de ouro do ano mil novecentos e sessenta que tinham encravado no cristal. Sim, era um presente muito próprio de Chet. Procurou no interior da caixa e descobriu um cartão: feliz aniversário, senador. Não poderei ir a sua festa, mas estou convencido de que será o acontecimento do ano.
Chet tinha assinado o cartão com seu nome e debaixo tinha posto: Wallace Enterprises, Ltd.
— Ainda não teve tempo de que seque a assinatura do cheque que lhe assinei e já está encarregando os gastos dos presentes à empresa.
Uma vez terminadas as tarefas do dia, Sophie recolheu as caixas e guardou os papéis de presente. A única coisa que ficava por fazer era levar aqueles restos à lixeira de reciclado e depois poderia começar com seus exercícios diários.
Depois de decidir que a lixeira mais próxima era a que estava atrás do jardim, Sophie saiu para o terraço e deixou as caixas no chão. E estava a ponto de fechar as portas atrás dela quando ouviu vozes. Alguém se estava aproximando da sala dos presentes.
Como as portas do terraço estavam no lado mais ensolarado da casa, Meredith fazia colocar persianas que cobrissem o cristal. Naquele momento estavam fechadas, mas através das frestas, Sophie pode ver o interior da sala sem que ninguém a visse ela.
Na realidade não tinha intenção de escutar às escondidas, mas se fosse a sua mãe a que chegava, alegrava-se de que não pudesse vê-la. Ainda não estava preparada para suportar outra sessão das mudanças de humor de sua mãe.
Estava a ponto de terminar de fechar a porta para evitar que pudessem inteirar-se de que estava ali, quando ficou paralisada para ouvir que seu tio Graham dizia:
— Se o souber, Meredith, matará aos dois, e sabe.
— O que quer dizer, Graham? Faz-te falta que sele meu segredo com sangue? — perguntou Meredith irritada. — Não o vai averiguar, pelo menos por minha culpa. Você é o único que parece incapaz de manter a boca fechada.
— De acordo, de acordo, talvez esteja um pouco nervoso, mas isso é tudo. Mas é que tornou a aparecer outra vez pelo escritório, está mostrando de novo interesse.
— Suponho que a culpa disso seja a volta de Sophie para casa — disse Meredith. A voz se ouvia cada vez mais perto e Sophie retrocedeu temendo que sua mãe pudesse ouvi-la. — Assim que se inteirou de que tinha sido ferida, ficou em funcionamento. Como se pudesse fazer algo para evitar o que tinha ocorrido a Sophie. E agora volta a interessar-se outra vez pelo mundo. Por seus filhos, pelo negócio...
— Exatamente! É como se algo o tivesse sacudido. Não estava seguro do que era, mas sua explicação tem sentido. Quando Michael morreu, esteve a ponto de voltar-se louco, culpava a si mesmo do ocorrido. Esteve afastado do negócio durante algum tempo, e aqueles foram os anos mais felizes de minha vida. O problema de Sophie parece lhe haver feito voltar para a vida. E me deixe te dizer algo, Meredith, não preciso o ter todo o dia me controlando, observando tudo o que faço. Isso já me parece suficientemente insuportável. Mas se em algum momento averiguasse que eu...
— Meu deus, Graham, é um autêntico linguarudo — lhe disse Meredith, interrompendo-o. — Só te falta alugar um espaço publicitário anunciando o que tem feito.
— De acordo, de acordo, tem razão — disse Graham. — Será melhor que deixemos o assunto — se fez um curto silêncio. — Viu como está isto? Deve haver mais de cem presentes. E me vai custar uma pequena fortuna superar a todos estes presentes.
— Se preocupa pelas coisas mais estúpidas, Graham — disse Meredith com um frio sarcasmo que produziu calafrios em Sophie. — Assina um cheque para o rancho Hopechest. Já sabe o quão sensível é com todos esses pirralhos desajustados. Seguro que até lhe agradecerá isso.
— Boa idéia, Meredith. E nunca saberá a quantidade que doei porque no rancho não dão esse tipo de informação, não é?
Meredith soltou uma gargalhada.
— Eu não apostaria nisso, Graham. Ah, e por certo, atrasaste-te com o cheque deste mês, sabe? Para ser um homem que tanto se preocupa que o descubram, atrasa-te muito em pagar suas faturas.
As vozes começaram a afastar-se e Sophie abriu a porta ligeiramente e olhou para o interior bem a tempo de ver que Graham entregava a Meredith um pedaço de papel retangular enquanto os dois se dirigiam ao vestíbulo.
— Sabe o que diz o refrão, Graham? — perguntou-lhe Meredith enquanto guardava o cheque. — A única forma de que duas pessoas guardem um segredo é que uma delas morra.
— Se está me dizendo que deveria te matar, Meredith, — grunhiu Graham Colton, afundando as mãos nos bolsos — não acha que não me ocorreu.
Meredith jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada quase histérica.
— Não teria coragem, Graham. Nunca o tiveste.
E saíram da sala fechando a porta atrás deles. Sophie entrou de novo e se deixou cair na cadeira mais próxima. As pernas não a sustentavam.
Aquela era sua mãe? Aquela horrível mulher era sua mãe? E seu tio Graham... que sentido tinha tudo aquilo? Que demônios estava ocorrendo?
Sophie não podia ir contar a seu pai. Não podia repetir o que tinha ouvido. Além disso, nada do que acabava de ouvir parecia ter sentido.
Poderia contar-lhe a River. Mas não, não seria uma boa idéia. River já desgostava o suficiente de seu tio e, além disso, era reacia a ir lhe contando uma nova história sobre a estranha conduta de sua mãe.
De modo que se encontrava sozinha e completamente confusa, porque não tinha a menor idéia do que estava ocorrendo, nem do que estavam discutindo exatamente sua mãe e seu tio Graham.
— Mas não posso permitir que isto continue. Simplesmente, não posso — disse a si mesmo. Saiu ao jardim de novo e levou as caixas de cartão à lixeira. — Esperarei até depois da festa. Afinal, só faltam uns dias. Depois falarei com o River, e possivelmente também com Rand e com Drake. E todos nós falaremos com papai e o convenceremos de que mamãe necessita de ajuda profissional.
River estava sentado no banco do exterior do estábulo, com a cabeça encurvada e concentrado no que estava fazendo, de modo que não ouviu que Rand se aproximava até que seu irmão o saudou.
— Um cisne? Isso é um cisne? — perguntou a River, assinalando a barra de sabão que ele estava esculpindo com muito cuidado com a navalha. — Sim, claro que é um cisne. É incrível, Riv. Está fazendo um bom trabalho.
— Obrigado — disse River, que guardou cuidadosamente a navalha e deixou o sabão a um lado.
Estava trabalhando no pescoço do cisne. Aquela era a parte mais delicada da talha e não queria cometer um engano por falta de concentração. Em qualquer caso, esperava que Rand não pensasse ficar muito ali, porque queria terminar o cisne para deixá-lo no quarto de Sophie antes do jantar.
— Ultimamente vem muito por aqui. Esteve faz umas semanas e agora volta outra vez.
— Sim, parece que não consigo me afastar da costa. Ainda não voltei para Washington desde a última vez que estive aqui. Estive vendo alguns clientes em Los Angeles e a outro de Sacramento. Suponho que poderia ter retornado já para Washington, mas como falta tão pouco para a festa de papai, pensei que podia me economizar a moléstia e ficar no rancho até então. E você, que tal vai, River? Como vão a casa e o rancho?
— Bem, muito bem — River se levantou e guardou a navalha no bolso dos jeans. — Estava pensando em sair a montar? — perguntou ao fixar-se na camisa e mos jeans velhos que Rand usava.
Rand riu brandamente.
— Isso parece, não é? Mas não, estava limpando o escritório que utilizo quando estou por aqui e não há nada que solte mais pó que os livros de direito.
River sorriu de orelha a orelha
— Não peça a ninguém que faça algo por ti a não ser que não possa fazê-lo por ti mesmo.
— Sim, suponho que essa frase o resume — disse Rand, encolhendo-se de ombros.
Rand era um homem alto, media quase um e noventa, de cabelo escuro e uns profundos olhos azuis. Parecia-se muito com Joe quando tinha sua idade. E, provavelmente, essa fosse a razão pela qual River confiava instintivamente nele e estava orgulhoso de ser seu amigo.
— Mas é uma pena, porque estava a ponto de te oferecer algo que provavelmente deveria fazer por ti mesmo.
— Ah, sim? — perguntou River, dirigindo-se para o pequeno refrigerador que tinha dentro de estábulo. — E o que é isso que ia me oferecer que deveria fazer por mim mesmo?
Rand esboçou um sorriso zombador.
— Dizer a Sophie que a quer. Esse cisne é para ela, não é? O cisne, o livro, os doces... Ines adora falar, River, e depois Maia fala com o Drake, e entre os Colton as notícias viajam à velocidade da luz. Se estivesse em Washington em vez de no rancho, a estas alturas Drake já teria enviado centenas de faxes. Realmente, acredito que deveriam pôr a esse menino em ativo antes que se converta em colunista de fofocas da sociedade. Mas me diga, Sophie sabe?
— Que a quero? Claro que sabe — respondeu River, voltando para seu lado e lhe estendendo uma garrafa de água. — E lhe estou dando tempo para que comece a acreditar. Passei muitos anos lhe afastando de meu lado, sabe? Muitos anos estive a ponto de perdê-la.
Rand sacudiu a cabeça.
— Nunca a perdeste, River. Eu sou o único com o qual Sophie falou realmente de nosso amigo Chet Wallace. Na realidade nunca o quis. O seu noivado ia ser um compromisso puramente empresarial. Possivelmente o compromisso fosse uma forma de despertar, de te sacudir. Não posso estar seguro, e duvido de que a própria Sophie saiba. A única coisa que sei é que estava mais que disposta a romper com Chet, deixar seu trabalho e retornar ao rancho a escrever um livro. E o fato de que você esteja aqui provavelmente tenha muito que ver com isso. Eu diria que é noventa e nove por cento de suas razões.
— Você acha?
— Claro que acredito. Perdoa, mas está seguro de que é o autêntico River James? Porque o River James que eu conheço teria seqüestrado a minha irmã faz uma semana e não a teria deixado escapar até que o tivesse escutado.
— Genial, assim agora tenho que receber conselhos do mais famoso mulherengo do oeste.
— Muito bem, aceito-o. Mas Soph é minha irmã, Riv, assim, de algum jeito, corresponde-me a honra de converter sua vida em um inferno.
— Confia em mim, Rand, a cabeça-dura de sua irmã não necessita da ajuda de ninguém para converter minha vida em um inferno. Mas te direi uma coisa, quando Joe levantar sua taça no dia de seu aniversário, Sophie já terá aceitado casar-se comigo.
— Muito bem, eu já brindo por isso — disse Rand, levando a garrafa de água à boca, mas se deteve no meio do caminho e franziu o cenho ao ver o carro que se dirigia naquele momento para a casa. — O que está fazendo aqui?
River olhou para o carro e depois para Rand, que tinha empalidecido e apertava a boca com força.
— Emmett Fallon? Por que não ia vir? Talvez tenha que falar com o Joe de algo que aconteceu no escritório.
— Ora, não importa. Afinal, não posso acusá-lo de nada, não tenho nenhum motivo racional para não confiar nele. Mas não confio, River. E quanto mais me faço, menos confio nele. Inveja a papai porque acredita que deveria ter direito a uma percentagem maior dos lucros da empresa.
— Assim Emmett não é seu tipo favorito, né?
— É algo pior que isso, Riv. Levo suficiente tempo trabalhando para reconhecer a um psicopata assim que o vejo. Emmett beija por onde papai pisa, finge ser um fiel e leal amigo e companheiro, e o odeia com toda sua alma. E o tio Graham é inclusive pior. Sabe? Papai vivia em Washington quando era mais jovem, estive investigando, fazendo perguntas, e tenho descoberto algumas coisas sobre seus pais e sobre nosso querido tio Graham.
— De verdade?
— Claro que de verdade — respondeu Rand. — Só vou te contar a versão curta, mas o caso é que o pai de papai, Teddy, era um advogado de Washington. Não era muito bom advogado, mas adorava as festas, de modo que tinha muitos amigos. Casou-se com Kay, nossa avó, que tinha dinheiro, mas não a mesma categoria social que Teddy. Suponho que tenha sido um casamento de conveniência. Ele sempre quis ter dinheiro para viver como pensava que merecia um homem com sua impecável linhagem.
— Sim, há muitos casos parecidos — replicou River.
— O caso é que Teddy e Kay tiveram Joe, e cinco anos depois, Graham. Ao cabo de vários anos, Teddy e Kay bateram contra uma árvore ao retornar de uma festa. Joe e Graham foram então viver na casa de seus avós, mas os parentes ricos da avó não gostavam de Joe porque se parecia muito ao bêbado de seu pai, que era o culpado de que tivesse morrido sua filha. Assim enviaram Joe a este rancho, para que vivesse com um antigo companheiro do exército de Teddy, Jack McGrath.
— Sim, conheço essa parte. Joe se sentiu abandonado, mas certamente isso foi o melhor que pôde lhe ocorrer. Jack e Maureen o acolheram e, embora tivessem seus próprios filhos e não muito dinheiro, conseguiram transformá-lo em um homem. Essa é uma das razões pelas quais Joe me acolheu no rancho. Mas a história de Graham não a conheço.
Rand bebeu o que ficava de água e atirou a garrafa ao cesto de papéis antes de continuar.
— Pobre Graham. E pobres Ed e Betty. Por uma parte, equivocaram-se na hora de escolher o neto, porque Graham podia parecer-se muito com Kay, mas no fundo era igual a Teddy. Além disso, Ed e Betty acabaram por perder todo seu dinheiro e essa foi a razão pela qual Graham voltou a aparecer na vida de Joe quando já era um homem rico. Depois de ter passado anos sem ter praticamente nenhum contato com ele, apareceu atrás dele dizendo: olá, irmãozinho, o que te pareceria que nos uníssemos?
— E sendo Joe como é, — concluiu River — responderia-lhe: claro, tudo o que é meu é teu, irmão.
— Exato. E isso foi também o que disse a Emmett Fallon, só porque tinham participado juntos em um pequeno projeto. E agora Emmett acredita que tem direito a um bom pedaço do bolo da Colton Enterprises. Se meu pai for culpado de algo, River, é de ser tão condenadamente bom, amável e crédulo.
— Eu não lhe perco de vista. Nem eu nem nenhum dos que vivemos aqui. Pode contar com isso, Rand.
— Faço-o, Riv — disse Rand lhe estreitando o ombro com carinho. — Essa é a razão pela qual vim te ver, e pela qual estou empenhado em te converter em meu cunhado.
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