CAPÍTULO 5
River não sabia onde pôr as mãos. Enquanto Sophie chorava, dava tapinhas em seus ombros, esfregava-lhe as costas.
Mas desejava mais. Muito mais.
A bengala de Sophie tinha caído no chão e esta se inclinou contra ele. Os soluços tinham ido cedendo enquanto ele murmurava ridículas palavras de consolo que Sophie nem sequer ouvia, sabendo que provavelmente no dia seguinte odiaria a si mesmo.
Quando tinha sido a última vez que Sophie tinha chorado em seus braços? Realmente não era difícil recordá-lo, porque Sophie raramente chorava. Sempre tinha sido a pessoa mais valente do mundo.
River sabia perfeitamente. A última, a única vez que tinha chorado, tinha sido na noite daquele maldito baile de formatura.
River não teria ido ao baile de sua própria classe. Teria sido absurdo. Nunca se tinha integrado em sua classe da escola e, se não tivesse sido porque Meredith e Joe que lhe haviam dito que seria muito triste para eles perder aquele marco tão importante na vida de seu filho adotivo, nem sequer teria assistido à formatura.
De modo que tinha aceito ser o par de Sophie no baile. Vestiu-se com traje e gravata, prendeu o cabelo em um rabo-de-cavalo e inclusive tinha comprado para Sophie uma orquídea, apesar do muito que lhe repugnava tudo aquilo.
Repugnava-lhe sim, até que tinha visto Sophie entrar no salão com um vestido branco que deixava seus ombros descoberto e se deslizava por seu corpo mostrando todas aquelas partes de sua anatomia cuja existência tinha estado tentando ignorar River com tanto afinco.
— Sei que cuidará dela, filho — lhe havia dito Joe aquela noite, enquanto se dirigiam ao hotel Prosperino onde se celebrava a festa. Tinha sido uma petição. E ao mesmo tempo uma ordem.
E tinha sido também uma promessa. Uma promessa que River estava condenado a romper.
Sophie parecia ter preparando toda a noite: com aqueles cachos que se curvavam contra seu esbelto pescoço, com aquele vestido que mostrava a suave plenitude de seus seios... Com aquele perfume limpo, que cheirava a flores silvestres... Com seu sorriso... Com sua forma de abraçá-lo e de apoiar a cabeça contra seu peito enquanto dançavam...
River a tinha beijado. Como não ia beijá-la? Como ia deixar que se fosse de seu lado sem beijá-la pelo menos uma vez?
Mas então Sophie se pôs a chorar, tinha-lhe suplicado que lhe dissesse que não partisse. Tinha-lhe suplicado que lhe dissesse que a amava tanto como ela amava a ele.
Deus. E quanto desejava então River lhe dizer tudo o que ela estava desejando ouvir.
E o que podia querer ouvir Sophie depois de tantos anos? Que a amava? Que sempre a amaria?
Não acreditaria. Era impossível que acreditasse em um momento no qual parecia ter perdido toda sua confiança em si mesmo. Nem sequer o olharia, nem sequer lhe deixaria ver seu rosto. Sophie estava ferida, física e mentalmente. Se lhe dissesse que a amava, odiaria-o. E ele não poderia culpá-la por isso.
— Eu... sinto-o — disse Sophie, afastando-se dele e agachando-se para levantar sua bengala. Tomou o lenço que River lhe oferecia e assoou o nariz. — Não quero fazer isto, Riv, nunca quis fazê-lo. E entretanto, é o que estive fazendo durante todo o dia.
— Tinha que ocorrer em algum momento, Sophie.
Sophie elevou a cabeça para ele.
— Por quê? Por que tinha que acontecer?
River se sentia tão impotente como um homem tentando chamar a assobios um cavalo selvagem.
— Como por quê? Porque lhe assaltaram, Sophie. Porque está ferida, porque rompeu seu noivado, porque...
Sophie elevou a mão e voltou a cabeça, como se quisesse proteger-se de suas palavras.
— Não. Tudo isso já sei. Já sei o que aconteceu. O que quero saber é por que ocorreu, por que teve que ocorrer a mim.
River estava desconcertado. De todas as perguntas que poderia lhe haver feito, aquela era a última que lhe teria ocorrido a ele.
— Por que não você? — respondeu. O tinha suportado uma infância tão infeliz que fazia muito que tinha deixado de surpreender-se quando o mundo não funcionava como parecia fazê-lo nas séries de televisão. — Crê que tenha algum tipo de imunidade contra esse tipo de coisas?
Sophie o olhou em silencio durante longos segundos, pestanejou e sacudiu a cabeça.
— Como é possível que possa fazê-lo parecer tão fácil? Suponho que para ti só sou uma chorona estúpida. A pobrezinha da Sophie.
— Não é nenhuma estúpida, Sophie — respondeu River, estreitando-a nos ombros. — Lhe têm feito muito dano. O que tem que fazer agora é tentar te tranqüilizar, recuperar forças e te dar algum tempo para sarar. E antes que se dê conta, estará de novo em ativo.
— Não sei — disse Sophie, suspirando. — Me sinto tão horrível, tão indesejável. Até minha própria mãe diz...
— Ao diabo, Sophie — disse River. Estreitou-a contra ele, desejando sacudi-la, despertá-la, lhe fazer superar seu desespero. — De verdade acha que não é uma mulher desejável?
Posou sua boca sobre seus lábios e a agarrou pelos ombros para que não pudesse separar-se dele. Beijava-a com fúria, com um desejo contra o que tinha estado lutando desde que podia recordar, com uma fome que atravessava todo seu corpo.
Sophie se esticou, resistiu, mas só durante um instante. Imediatamente depois, a bengala caiu no chão e rodeou River com seus braços. Abriu sua boca sob os lábios de River e este afundou nela sua língua ao tempo que deslizava a perna entre suas coxas, como se pretendesse fundir-se com ela.
Sophie tinha deixado que seu pai a consolasse. Tinha permitido que os médicos a tranqüilizassem. Mas a única forma de esquecer o que via no espelho, de esquecer as palavras com as quais Meredith a tinha fustigado tão dolorosamente era lhe demonstrar o quão desejável era para ele. O muito que sempre a tinha desejado.
River não foi delicado. Sophie não necessitava que a tratassem como a uma inválida. Precisava saber que era uma mulher, uma mulher a que aquele homem desejava.
River a beijou uma e outra vez; e cada um de seus beijos era mais longo e mais profundo que o primeiro. O coração lhe pulsava com força e sentia um zumbido na cabeça que eliminava qualquer possível pensamento, que lhe impedia de recordar os anos e as circunstâncias que os tinham separado.
Sem deixar de beijá-la, levantou Sophie em seus braços e a levou para o interior do estábulo. Passou por diante dos cavalos até o feno fresco.
Uma vez ali, ajoelhou-se, deixou Sophie sobre a palha e a seguiu enquanto ela o abraçava, apertava os olhos com força e entreabria os lábios tentando recuperar o ritmo normal da respiração.
Mas River não queria que recuperasse a respiração. Porque então poderia pensar. E aquele não era um momento para pensar. Aquele era um momento no qual os atos tinham que tomar o lugar das palavras, o momento no qual o desejo durante tantos anos reprimido tinha que aflorar para dominar a situação.
River voltou a beijá-la enquanto procurava os botões de sua blusa. Sua boca abandonou os lábios de Sophie para viajar através de seu corpo. Deslizou-se entre seus seios e caminhou até seu ventre enquanto River pressionava o fecho dianteiro do sutiã. E uma vez liberados seus seios, River os reclamou com seus lábios e suas mãos. Sentia que Sophie se erguia contra ele para que pudesse acariciá-la, e sentia seus seios encher-se contra sua palma e esticar-se contra sua língua.
Sophie o abraçava com força, cravava as unhas em suas costas e tirava sua camisa desejando sentir o calor de sua pele.
Ao ver que não conseguia, River se incorporou, agarrou ambos os lados da camisa, rasgou-a e a atirou para um lado. Sophie gemeu e começou a desabotoar seu jeans enquanto River se desabotoava o cinturão e se desprendia das calças e a cueca.
Estavam às escuras. Em uma ardente, tensa e ofegante escuridão. Abraçavam-se com uma urgência que apagava todas as inibições e revelava o coração do desejo, um desejo quase animal, impossível de negar.
Até que River sentiu cair sobre si o tardio mas implacável peso do senso comum. Sophie demorou alguns segundos em dar-se conta de que River estava completamente paralisado entre seus braços e que, lentamente, estava começando a separar-se dela.
— O que aconteceu? Ocorreu algo? — perguntou Sophie, buscando-o na escuridão.
River esfregou a cara com as duas mãos.
— Eu... não estou preparado — ao ver que Sophie ficava calada, River tentou escrutinar seu rosto em meio da escuridão, mas lhe resultava impossível vê-la.
Entretanto, a escuridão não lhe impediu de ouvi-la.
— Que não vai... Oh, Riv, isso é maravilhoso.
Sophie se sentou completamente e apoiou a bochecha contra suas costas.
— Assume-o, Riv, teria sido muito menos maravilhoso se levasse um montão de preservativos na carteira, como se estivesse esperando ter sorte todas as noites da semana.
River inclinou a cabeça, deixando cair o cabelo sobre seu rosto.
— Só você, Sophie, é capaz de considerar o ocorrido como algo bom. Mas, sabe? Eu também acredito que o é. Porque nem sequer deveríamos estar aqui.
Sophie se separou dele e o empurrou brandamente com ambas as mãos.
— Diz-o a sério, Riv? O que acontecei? Continua pensando que a filhinha de Joe Colton não pode ter nada com seu pobre irmão adotado? Porque se for isso, estou começando a me fartar.
— Eu nunca disse...
— Não, não o disse — se mostrou de acordo Sophie, agarrou-o pelos ombros e o fez voltar-se para ela. — Mas eu sabia, Riv, sempre o soube. Poderia ter estado a meu lado durante todos estes anos. Poderia ter sido meu primeiro e único amor. E agora, quando por fim nos encontramos aqui, tombados no feno como adolescentes, tem que te inventar outra desculpa. Alguma vez te ocorreu pensar que na verdade não me quer? Que com o que na realidade sonha é com o fruto proibido e que não pensa fazer nada a respeito? Eu fugi do rancho, Riv, eu sei. Mas você se escondeu. Escondeu-se e agora está aqui porque me compadece. Pois bem, me deixe te dizer algo, River James, não quero sua compaixão. E tampouco quero a ti.
Esticou a mão para alcançar sua blusa. De seus lábios escapou um soluço enquanto tentava localizar o sutiã.
River elevou as mãos, tentando apanhar algo que não era capaz de ver. Uma resposta, uma razão. Algo.
— Não me compadeço de você, Sophie — disse por fim. — Te desejo tanto que me dói.
— Ah, sim? De verdade? Pois tem uma maneira muito estranha de demonstrá-lo, porque não me senti menos desejada em toda minha vida.
— Desejo-te, Sophie, claro que te desejo.
— Então me demonstre isso. Perca a cabeça, perca o controle. Por uma vez em sua vida, faz algo sem preocupar-se com as conseqüências — Sophie se inclinou para frente e procurou seus lábios. — Não me deixe assim, Riv. Por favor, não me deixe assim.
River a envolveu em um abraço e aprofundou seu beijo enquanto juntos caíam novamente sobre o feno.
A doutora Martha Wilkes se recostou em sua cadeira e olhou para aquela pequena vizinhança do Mississipi, de ruas estreitas e bonitas casinhas baixas.
Não deveria estar ali, pelo menos não como psicóloga especialista em memória reprimida. Deveria estar em um gabinete muito mais impessoal, onde pudesse manter levantadas suas próprias defesas enquanto ia tentado derrubar as de seus pacientes, conseguindo que se abrissem, que falassem sinceramente com ela e procurassem a verdade através da bagagem acumulada durante toda uma vida. E, entretanto, ali estava, às sete da manhã, desfrutando da primeira xícara de café do dia e vestida da maneira mais informal, sem saltos nem meias, enquanto observava Louise Smith caminhando para ela.
A doutora Wilkes gostava de Louise. Gostava de verdade. Tinha chegado a seu consultório cinco anos atrás, assustada e carregada de problemas.
Louise era uma mulher atraente, uma mulher cujo rosto não refletia a verdadeira dimensão de seus problemas a não ser que alguém se fixasse atentamente em seus olhos castanhos. Qualquer um podia distinguir neles o profundo desespero que ainda açoitava de vez em quando aquela mulher.
Como aquela manhã, quando Louise a tinha telefonado para lhe pedir uma entrevista o mais rapidamente possível.
— Alguém precisa de mim, doutora Wilkes — lhe disse naquele momento, enquanto se aproximava dela. — Posso senti-lo. Alguém precisa de mim em alguma parte.
A doutora Wilkes suspirou. Algo que não deveria fazer diante de um paciente. Embora Louise fosse muito mais que uma paciente. Era uma amiga. As sessões tinham começado de forma estritamente profissional, mas sua relação foi se convertendo em algo muito mais profundo e pessoal.
E isso tampouco estava bem, a doutora Wilkes sabia. Tinha cruzado a linha ao deixar-se envolver pessoalmente nos problemas de Louise. E possivelmente aquele fora um dia para dar marcha ré e recuperar a antiga relação de médico-paciente.
— Sente-se, Louise — lhe pediu a doutora, assinalando uma cadeira. — Hoje vamos repensar, de acordo? — disse-lhe, enquanto esticava a mão para o histórico da Louise.
Louise se sentou e permaneceu muito erguida, com as mãos cruzadas no colo e as pernas cruzadas à altura dos tornozelos. Era a viva imagem de uma dama.
— Se acreditar que pode me ajudar, doutora, estou disposta a fazê-lo e, uma vez mais, quero lhe pedir desculpas por vir a incomodá-la em sua casa. Mas é que durante estes últimos dias os sonhos estão sendo tão reais...
— Sim, já me disse isso — a psicóloga abriu o histórico. — Vejamos, seu verdadeiro nome é Patricia Portman e nasceu na Califórnia, tem cinqüenta e dois anos.
— Ou pelo menos isso acredito — respondeu Louise, suspirando. — Não acredita que é estranho que em todos estes anos não tenhamos encontrado minha data de nascimento?
— Não só é estranho, Louise, é frustrante. Não me foi possível contar com nenhum outro dado além dos que aparecem em sua ficha de alta da clínica St. James.
— Nas duas fichas — a corrigiu Louise.
A doutora Wilkes sacudiu a cabeça, não para dissentir, mas sim porque aquele tinha sido o maior problema ao que estava enfrentando no processo de recuperação da memória da Louise. Aquela mulher tinha aparecido pela primeira vez no Jackson, depois tinha desaparecido e havia tornado a aparecer anos depois, sempre como ex-paciente da clínica St. James. A doutora sabia como tinha sido a vida da Louise durante os últimos trinta anos, mas não sabia nada da vida anterior a sua entrada na prisão.
E Louise se negava a permitir uma investigação que indagasse mais profundamente em seu complicado passado. Um passado que ainda jurava não recordar.
— Por que, Louise? Por que não quer que saiba nada mais sobre seu passado? Poderíamos encontrar algum parente teu que pudesse nos ajudar a compreender...
Louise elevou o queixo.
— Nos ajudar? Doutora Wilkes, estive em um psiquiátrico durante anos. Anos. E nenhuma só vez perguntou alguém por mim. Se tiver parentes, devem estar todos mortos. Ou possivelmente eu esteja morta para eles. Seguro que acreditam que eu matei Ellis Mayfair.
A doutora Wilkes pressionou a ponta do nariz com o indicador e o polegar.
— Louise, você matou Ellis Mayfair. Encarceraram-lhe por havê-lo matado e depois lhe levaram a St. James porque seu estado de saúde mental te impedia de continuar vivendo na prisão. Deram-lhe alta anos depois porque supostamente te tinha curado, mas voltou a aparecer ao cabo de uns anos ferida, desorientada e tendo perdido por completo a razão. Seis meses depois, trouxeram-lhe aqui, embora ainda segue sendo um mistério como te veio de Jackson para a Califórnia.
Louise apertou os olhos com força e sacudiu a cabeça.
— Não, isso é mentira, sempre foi mentira. Eu não matei esse homem. Nem sequer o conhecia.
Seria aquele o momento adequado para pressionar Louise? E até onde poderia pressioná-la sem correr o risco de voltar a enviá-la a esse escuro lugar no que tinha permanecido escondida durante os nove anos desde que tinha saído de St. James?
— Louise, teve uma filha ilegítima com Ellis Mayfair, uma filha que ele te tirou enquanto dormia depois de ter dado a luz no quarto de um motel. Uma menina a que matou ou vendeu. Jamais saberemos o que aconteceu porque, quando se inteirou de que a menina tinha desaparecido, foi tomada de um ataque de desespero e matou Ellis Mayfair.
Louise se inclinou para diante, cobrindo o rosto com as mãos.
— Oh, Meu deus, me ajude, por favor, me ajude. Minha pobre filha. Mas não me lembro, não me lembro de nada...
A doutora Wilkes apertou os lábios e olhou de volta a seu estudo. Seu olhar voou até uma escultura africana que representava em madeira uma mãe e um filho. A psicóloga não tinha filhos, mas podia reconhece o amor na expressão da mãe e distinguir nos soluços de Louise a dor de uma mãe a que lhe tinham arrebatado a seu filho.
— Quando me chamaste, me disse algo de uma menina. De uma menina que te necessitava.
Louise elevou a cabeça, tirou um lenço do bolso e secou os olhos.
A doutora Wilkes dissimulou um sorriso. Louise era uma dama da cabeça aos pés. Seus movimentos eram graciosos, refinados, sua postura sempre perfeita e sua higiene pessoal impecável. Uma autêntica dama. A doutora mostrava o mesmo refinamento e sabia que, além da sua educação, devia-o a uma especial forma de proteger-se. Não era fácil ser uma mulher em seu campo profissional. E não era fácil ser uma mulher negra em nenhum âmbito.
A doutora Wilkes tinha visto refletido muito de si mesma em Louise Smith, embora fossem ambas duas mulheres diferentes, procedentes de mundos muito distintos. Louise estava tentando, desesperadamente, encontrar a si mesmo, compreender-se, ajudar-se. E a doutora Wilkes aberto lenta e quase dolorosamente um espaço em sua profissão e trabalhava muito duramente, possivelmente também para proteger-se.
Sim, ambas as mulheres tinham muitas coisas das que proteger-se. Muitas coisas às que temer. E o medo era para elas um comum denominador.
— Louise, — disse a psicóloga ao cabo de uns segundos — alguma vez te disse o muito que te admiro?
Louise dobrou o lenço e o guardou no bolso.
— Me admirar? Por que ia admirar-me? Sou uma assassina, não se lembra?
— É uma sobrevivente, Louise — a corrigiu a doutora. — Veio aqui confundida e conseguiu fazer a si mesma. Trabalhaste muito duramente e inclusive alcançaste uma posição respeitável na universidade. Muita gente, a maioria das pessoas, de fato, consideraria-te uma mulher de êxito.
— A maioria das pessoas não suporta meus pesadelos — respondeu Louise, suspirando. Apertou os punhos com força. — Tornei a sentir que alguém precisa de mim. Alguém precisa de mim e eu necessito dele.
— A ele? Pensava que tinha vindo me falar de sua filha. Suas lembranças indicam que o que teve foi uma menina. — Sim, uma menina. Talvez mais de uma. Porque tenho lembrança de muitas crianças, de fato. É possível que fosse professora? Por que tenho a sensação de que há tantas crianças que precisam de mim?
— É uma forma de compensar uma carência — lhe explicou a psicóloga. — Sente falta de sua filha que Mayfair te tirou e das crianças não nascidas que teria gostado de ter. Teria sido uma mãe maravilhosa, Louise, e enche seus braços vazios sonhando com esses meninos aos quais nunca pudeste abraçar.
— E o homem? Sonho também com um homem, doutora. Um homem que se aproxima de mim em um jardim maravilhoso. Eu estou de joelhos, cavando no chão e ouvindo o barulho de uma fonte à distância. O sol brilha com força no chão e o cheiro da brisa salgada do mar. Ouço que esse homem se aproxima e me volto para vê-lo, protegendo os olhos da luz do sol. E ali está ele, alto, forte. Mas o sol me impede de ver seu rosto e se afasta antes que o reconheça. Grito-lhe que espere, mas ele se afasta.
Louise levou a mão à boca, como se estivesse contendo um grito.
— E depois acordo. O jardim desapareceu, o homem se foi e a única coisa que ouço é o batimento de meu coração. De um coração partido, vazio.
A doutora se levantou, serviu um par de copos de água e estendeu um a Louise.
— A hipnose, Louise. Já sei que não quer se submeter à hipnose, mas estamos perdendo muitas possibilidades. Quero saber quem vive dentro de ti. Porque você não está sozinha. Você sabe e eu sei. Trocaste de nome, mas continua sendo Patricia Portman. E tem que averiguar quem era Patricia Portman antes de poder fechar definitivamente essa porta e deixar que Louise ocupe toda sua vida. Ao trocar de nome, deste as costas a outra personalidade, possivelmente a mais de uma. Louise rechaçou o copo, levantou-se e começou a passear pela sala.
— Não posso acreditar nisso. Não posso acreditar que seja uma espécie de sibila que oculta múltiplas personalidades e pode chegar a converter-se em outra pessoa. Em alguém má inclusive.
— Você diz que não matou Ellis Mayfair, Louise. Que é incapaz de fazer algo assim. E, entretanto, na ficha da prisão se demonstra claramente que suas digitais estavam no abajur que utilizaram para deixá-lo inconsciente, e também nas tesouras que lhe cravaram no peito. E quando a polícia te encontrou, tinha manchas de seu sangue nas mãos.
— Não. Não fui eu. Não fui eu.
— Então quem foi, Louise? Quem está no interior de sua cabeça? Onde esteve depois de partir de Jackson? E como terminou por voltar à Califórnia? Tem que me ajudar a preencher todos esses espaços em branco, Louise. Tem que me dizer o que sabe.
Louise se sentou de novo na cadeira.
— Não sei nada. Só sei o que me contou e o que os históricos da prisão e de St. James dizem de mim. E se no interior de minha cabeça há outra pessoa, uma assassina possivelmente, não posso deixar que saia outra vez. Aceitei meu passado tudo o que me foi possível, embora não seja capaz de recordá-lo. Mas não posso permitir que a parte mais sombria de minha personalidade se apodere também de meu futuro. Assim, não, doutora Wilkes. Sinto-o, mas não vou me submeter à hipnose.
— E, portanto, ficaremos sem respostas — respondeu a doutora, suspirando. — Esses pesadelos, Louise, essas dores de cabeça que lhe impedem de te manter em pé, não vão desaparecer. Serão cada vez mais freqüentes, mais intensas. Suponho que é consciente de que algo terá que fazer. São medidas drásticas, sim, mas se tomam em um entorno completamente controlado. Jamais faria nada que pudesse te fazer mal, Louise. Não fomos já suficientemente longe como para que possa confiar em mim?
Louise elevou o olhar para a psicóloga, sua doutora, seu amiga.
— Por que não pode ser a outra parte de minha personalidade alguém melhor que eu? Certamente, não me importaria de me encontrar com alguém melhor.
— Você é o melhor de ti, Louise — respondeu a doutora amavelmente, posando uma mão em seu ombro. — Soubeste dobrar a uma personalidade desgraçada que destruiu seu passado. Já nem sequer precisa te medicar. Mas, querida, a menos que seja capaz de enfrentar o passado, a todo seu passado, temo que esses pesadelos nunca cessarão. Por favor, Louise, pensa pelo menos na possibilidade da hipnose.
Louise umedeceu os lábios ressecados e assentiu.
— Eu... pensarei nisso.
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