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Sunday, December 19, 2010

Arlene James - Desperately Seeking Daddy p.05

CAPÍTULO V

Hellen girou a chave na fechadura e entrou, to­mando cuidado para não fazer barulho.
Desde o hall percebeu a luz da televisão ligada, mas estranhou o fato de o volume estar tão baixo.
Esse não era o estilo de Betthy, ela pensou, deixando o avental e a bolsa sobre uma cadeira.
Caminhou até a cozinha para tomar um copo de leite antes de se recolher. E surpreendeu-se ao ver a mesa posta. Sobre a toalha xadrez havia pão italiano, geléia, queijo, iogurte e uma jarra de suco.
— Santo Deus — ela murmurou, gratamente surpresa. — Que tipo de milagre terá ocorrido com Betthy?
De fato a garota era uma ótima babá, mas péssima como co­zinheira e pior ainda como arrumadeira. Sabia apenas preparar os alimentos básicos. Fora isso, era uma verdadeira negação.
Hellen aproximou-se da mesa e provou o suco. Era de laranjas e estava delicioso. Acabou tomando um bom lanche, em vez do costumeiro copo de leite.
Retornou à sala e só então notou, na penumbra propiciada pela luz da televisão, que alguém estava dormindo no sofá. E ela nem tinha reparado!
"Será que Betthy adormeceu enquanto assistia à TV?" per­guntou-se, mas a pessoa que ali estava era grande demais para ser Betthy.
Pelos pés calçados em mocassins e apoiados no braço do sofá, ela reconheceu Jackson Tyler.
Com o coração pulsando descompassado, caminhou pé ante pé até o abajur do canto da sala e acendeu-o. Uma luz amarelada e suave espalhou-se no ambiente.
Hellen aproximou-se do homem adormecido e contemplou-lhe o rosto sereno, de traços fortes e perfeitos.
— Como é belo — murmurou, invadida por uma onda de calor. — E ressona de maneira tão suave, como se fosse um menino...
Tomada por um sentimento de ternura, Hellen esboçou um gesto de carícia. Mas controlou-se a tempo. Afinal o que Jackson Tyler pensaria dela, se acordasse naquele momento?
Hellen recuou um passo e continuou a fitá-lo. Um sorriso in­sinuou-se em seus lábios finos. Não tinha a menor ideia do que Jackson estava fazendo ali, naquele início de madrugada. Mas o fato era que sentia-se feliz com sua presença.
"Veja lá, Hellen..." Disse uma voz interior, que afinal não era outra coisa senão seu medo de sofrer novamente. "Você já amou uma vez, já abriu mão de sua vida e de seus projetos para entre­gar-se a um homem que quase a destruiu. Não se arrisque nova­mente, antes de saber em que terreno está pisando. Você não resistirá a uma segunda desilusão."
Hellen estremeceu. Que pensamento mais absurdo! Imagine se pretendia ter algum tipo de relação com aquele homem! Isso seria uma verdadeira loucura. Aliás, o próprio Jackson Tyler não seria maluco de ligar-se a uma mulher divorciada, mãe três filhos, per­tencente a uma classe social bem abaixo da dele.
Naquele momento Jackson remexeu-se no sofá e suspirou pro­fundamente. Em seguida abriu os olhos e sorriu ao deparar com Hellen:
— Olá.
Ela sorriu de volta:
— O que está fazendo aqui?
Ele passou a mão pelo rosto, afastando os cabelos negros que caíam-lhe na testa e sentou-se.
— Que horas são, Hellen?
— Quase uma e meia da manhã.
— Minha nossa! Eu nem vi o tempo passar. Estava assistindo a um filme e acabei adormecendo.
— Este sofá é muito desconfortável — ela comentou.
Jackson esticou a coluna ao máximo e por fim relaxou:
— Ora, não é tão mal assim. — Fixando em Hellen seus pro­fundos olhos negros, acrescentou: — Você deve estar cansada.
— Pode apostar que sim. — Ela deixou-se cair sobre a poltrona ao lado do sofá.
— Que tal fazer um lanche? Deixei a mesa posta na cozinha.
— Acabei de comer; estava uma delícia.
— Que bom que você gostou.
— Bem que eu imaginei que não era Betthy a responsável por aquela maravilha — Hellen gracejou. — A propósito, onde está ela?
— Saiu.
— Como assim? — Hellen estranhou.
— Uma amiga de Betthy telefonou por volta de nove da noite. Parece que ela estava numa terrível depressão, por causa de uma briga com o marido. Daí pediu a Betthy que fosse visitá-la. Eu me ofereci para ficar com as crianças e...
— Betthy aproveitou devidamente a oportunidade — Hellen completou, irônica. E explicou: — Essa amiga que telefonou cha­ma-se Josephine, não é?
— Parece que sim — Jackson respondeu, pensativo. E confir­mou: — De fato, é este o nome da moça.
— Pois Josephine costuma brigar com o marido pelo menos uma vez por quinzena. Daí entra em depressão, ameaça divor­ciar-se e sempre pede a Betthy para ir fazer-lhe companhia.
— Quer dizer que não se trata de nada sério?
— Quem pode saber? Josephine tem apenas dezenove anos e o marido não é muito mais velho do que isso... Os dois estão muito mais perto da adolescência do que da maturidade. Parece que se amam de verdade, mas brigam como gato e cachorro. — Hellen sorriu. — De qualquer forma, amanhã já terão feito as pazes... Com a ajuda de Betthy, naturalmente.
— Bem, fico feliz por isso.
Hellen fitou-o com um misto de carinho e admiração:
— Foi muito gentil de sua parte oferecer-se para cuidar das crianças, na ausência de Betthy.
— Ela me ajudou a colocá-las na cama, antes de sair — Jackson explicou. — No momento, os três estão dormindo como anjos.
Hellen riu:
— Pois só mesmo adormecidos é que podem parecer anjos. Quan­do despertos, porém, são uns verdadeiros capetinhas.
— Mas mesmo acordados eles têm qualquer coisa de angelical: Cody e o pequeno Davy, com aqueles cabelos encaracolados e olhos azuis... E Priscilla, com aquela carinha de boneca...
Jackson preferiu não contar a Hellen que Priscilla o havia tra­tado de maneira distante e até agressiva. A menina, que herdara do pai os cabelos ruivos e lisos, bem como os olhos castanhos e amendoados, era uma das crianças mais lindas que ele já vira... E mais geniosa também.
— Não fale assim de meus filhos — Hellen gracejou, interrompendo-lhe os pensamentos. — Já sou uma mãe-coruja incorrigível e desse jeito acabarei ficando muito convencida...
— Ora, só estou dizendo a verdade. — Jackson levantou-se, mas sentiu uma forte pontada no joelho esquerdo e acabou sen­tando-se novamente.
— O que foi? — Hellen ergueu-se de um salto.
— Oh, nada... — ele respondeu, com o rosto contraído de dor. — Esse joelho sempre me causa problemas quando não o trato como ele merece.
— Quer dizer que já sentiu isso outras vezes?
Se Jackson não estivesse com tanta dor, teria sorrido.
— Muitas vezes — ele respondeu, fechando os olhos por um instante. — Mas a culpa foi minha, sabe? Eu não deveria ter dormido aqui no sofá. Acabei ficando numa posição incômoda e agora estou condenado a passar os próximos dois dias tomando aspirinas e fazendo compressas com gelo.
— Aspirinas e gelo — Hellen repetiu, afastando-se a passos largos em direção à cozinha. — Acho que posso cuidar disso.
— Ei, não é preciso se preocupar! — disse Jackson, elevando a voz para que ela o ouvisse.
— Psiu! — ela recomendou, retornando à sala. — Quer acordar os anjinhos?
— Oh, desculpe. — Jackson recostou-se no sofá. — Mas você realmente não deve...
Antes que ele concluísse a frase, Hellen já havia saído da sala. Ela retornou logo depois, trazendo uma vasilha com cubos de gelo e uma toalha.
— Descubra o joelho — ordenou, abaixando-se em frente a Jackson.
Ele obedeceu, pensando de passagem que era uma sorte estar usando calças largas de algodão. Caso contrário, Hellen o faria despir-se ali mesmo.
Num gesto delicado, mas firme, ela aplicou-lhe a compressa gelada sobre o joelho, que estava bastante inchado.
— Segure a compressa, por favor. — Hellen afastou-se e voltou logo depois, trazendo um copo de água e uma aspirina. — Tome.
— Obrigado. — Jackson agradeceu.
A noite estava quente e os cubos de gelo derretiam-se com rapidez. Hellen preparou uma nova compressa e aplicou-a.
— Como foi que você se machucou, Jackson?
— Jogando beisebol.
— No clube aqui da cidade?
— Não; isso ocorreu lá em Chicago, já faz algum tempo.
— Não sabia que o beisebol era seu hobby — ela comentou.
— Na verdade não se tratava de um passatempo, mas de minha profissão — Jackson explicou. — Eu jogava no Laker's.
Hellen reagiu surpresa:
— É mesmo?
— Não fique tão impressionada — ele recomendou, com amarga ironia. — Essa é uma profissão como outra qualquer.
— Admiro sua modéstia, Jackson. Mas o Laker's é um dos maio­res times deste país.
— De Chicago e região, sem dúvida alguma — ele a corrigiu. — Mas dizer que está entre os primeiros do país é um pouco de exagero.
Hellen o fitava com indisfarçável admiração. Não queria ser indiscreta, fazendo perguntas que poderiam deixá-lo constrangido. Por isso, esperou que Jackson lhe contasse sobre o fato da maneira como bem entendesse.
E foi o que ele fez, após um prolongado silêncio:
— Minha história não é muito diferente da de vários outros atletas: eu era jovem, tinha algum talento e estava ganhando um certo destaque no time. Queria provar meu valor e tornar-me um astro... Acabei sofrendo uma contusão séria e o resto você pode imaginar.
— Você ficou impedido de jogar — ela concluiu com tristeza, enquanto trocava a compressa.
— Para sempre.
— Oh não — Hellen disse baixinho.
— Mandaram-me para o hospital para ser submetido a uma cirurgia, seguida de um intenso tratamento de fisioterapia. Os médicos tinham algumas esperanças quanto a minha reabilitação e fizeram tudo o que puderam... Mas não adiantou.
— E o que aconteceu, depois disso?
— Os diretores do Laker's cancelaram meu contrato, pagaram as contas do hospital e deram-me uma pequena indenização.
"E assim o sonho de ser um astro terminou", Hellen concluiu em pensamento, antes de comentar:
— Deve ter sido terrível.
— O pior veio depois — ele respondeu, com um suspiro.
— Como assim?
Jackson levou alguns instantes para responder. E quando o fez sua voz soou carregada de melancolia:
— As pessoas tinham uma grande expectativa a meu respeito. Parentes, amigos, conhecidos, vizinhos... Todos esperavam que eu fizesse grandes proezas, que conquistasse as maiores glórias, que tivesse o mundo a meus pés. Mas de repente esses sonhos caíram por terra... E passei muito tempo me sentindo culpado pela frus­tração das pessoas.
Hellen refletiu longamente sobre essas palavras, antes de comentar
— Acho que entendo o que você quer dizer, pois de certa forma já me vi numa situação semelhante.
Jackson fitou-a com curiosidade e ela explicou:
— Quando eu frequentava o curso secundário, era a primeira aluna da classe. Os professores tinham grande expectativa a meu respeito. Um deles, o sr. Mitchell, até chegou a me inscrever como candidata a bolsista numa universidade de Dallas.
— E você foi reprovada? — Jackson indagou.
— Pior — ela respondeu, com um suspiro. — Passei com boas notas, mas não me matriculei no curso.
— Por quê?
— Porque eu estava apaixonada por Carmody. E ele jamais permitiria que eu frequentasse uma universidade fora daqui. Tive de decidir entre o curso de Letras e o casamento com Carmody. — Ela fez uma pausa. — Os professores e colegas ficaram decepcionados comigo. Achavam que eu estava desperdiçando uma gran­de oportunidade e, de certa forma, tinham razão.
— E quanto a seus pais? Como reagiram?
Um sorriso amargo estampou-se nos lábios de Hellen:
— Meu pai já havia falecido, nessa época. E, para minha mãe, o fato de eu me diplomar no curso secundário já era uma grande coisa. Quanto à universidade, parecia-lhe um sonho remoto e inatingível.
— Se sua mãe a tivesse incentivado a seguir o curso de Letras...
— Quem pode saber o que haveria acontecido? — Hellen o interrompeu. — Eu hoje certamente não seria mãe de Cody, Priscilla e Davy... — Hellen sorriu. — Eles são minha maior riqueza; minha certeza de que a vida tem um sentido, afinal.
— Eu também não sei o que seria de mim, se houvesse conti­nuado a carreira de jogador — Jackson comentou, pensativo. Numa tentativa de gracejo acrescentou: — Esta cidade teria perdido um educador razoável, apaixonado por sua profissão.
— Razoável é muita modéstia de sua parte — Hellen retrucou, num tom suave. — Você é um educador como poucos, Jackson. A cidade inteira comenta o trabalho maravilhoso que sua escola tem desenvolvido com as crianças.
— Ora, não exagere...
— Estou apenas dizendo a verdade e você sabe muito bem disso. Além do mais, acho que ainda não o agradeci devidamente pelo fato de Cody ter ganho uma bolsa de estudos integral.
— Você não tem de me agradecer. O mérito foi todo dele, que fez um ótimo exame de aptidão.
— Você nunca aceita elogios, sr. Jackson Tyler? — ela gracejou.
— Só quando eles são verdadeiros — ele retrucou. — E agora vamos falar de você.
— De mim? — ela perguntou, sem entender, enquanto trocava novamente a compressa.
— Sim. Que tal voltar a estudar?
— O quê?
— Ora, você disse que queria frequentar uma universidade. Por que não presta um novo exame?
Hellen riu:
— Jackson Tyler, acho que essas compressas de gelo estão afe­tando seus miolos.
— Como assim?
— Ora, eu mal tenho tempo de respirar, trabalhando em dois empregos para sustentar minha família. Como quer que eu estude?
Jackson levou a mão à testa, como se de repente caísse na realidade. Aquela conversa íntima com Hellen o havia feito es­quecer do mundo ao redor. Por um momento tivera a nítida sen­sação de que ambos estavam sozinhos ali, naquela sala, na casa, na solidão da noite, no planeta Terra... No Universo!
— Desculpe — ele disse, por fim. — Acho que acabei falando uma grande bobagem.
— Quem sabe um dia, quando as crianças estiverem maiores, eu possa voltar a estudar. — Hellen suspirou, com uma expressão sonhadora. Em seguida meneou a cabeça, como se sorrisse daquela remota possibilidade. — Enquanto isso, o melhor que posso fazer é enfrentar a realidade e tentar vivê-la da melhor maneira possível.
— Tem razão — Jackson concordou, fitando-a no fundo dos olhos.
Os rostos estavam muito próximos. Tanto, que ambos podiam perceber a respiração um do outro...
Num gesto infinitamente suave, Jackson afagou os cabelos loiros de Hellen, atraindo-a para mais perto. Em seguida acariciou-lhe as faces, desenhando-lhe o contorno dos lábios.
Hellen sentiu o coração saltar-lhe no peito, como um pássaro assustado. Quis reagir, mas tudo o que conseguiu foi continuar ali, imóvel, como que hipnotizada por aqueles olhos negros que a fitavam como se lhe adivinhassem os mais secretos pensamentos.
— Hellen, eu não sei como explicar mas... — a voz de Jackson soava trêmula de emoção — algo muito importante está aconte­cendo entre nós dois.
"Você existe de verdade, Jackson Tyler?", ela quis perguntar, mas a voz não lhe obedeceu. Nunca, em toda a sua vida, conhecera alguém como aquele homem. Alguém que tinha coragem de falar sobre os sentimentos de maneira simples e franca. Alguém que a respeitava e admirava... E que não a olhava como se ela fosse um objeto desfrutável.
— Eu me sinto como... — Foi tudo o que pôde dizer, antes que Jackson a beijasse de maneira suave, como o leve esvoaçar de um pássaro em seu primeiro voo. Mas logo o beijo se intensificou, numa urgência que Hellen correspondeu sem hesitar.
Não sabia ao certo como as coisas haviam chegado àquele ponto. Só tinha certeza de uma coisa: Jackson era o homem mais fasci­nante que ela já conhecera. E a estava fazendo experimentar emo­ções totalmente novas.
Se aquilo era um sonho, Hellen não queria acordar nunca mais.
Os beijos se repetiam com uma intensidade crescente, que pa­recia não ter limites. Jackson acariciava as costas de Hellen sob a blusa de malha, enquanto a puxava para o colo, abraçando-a fortemente. A compressa de gelo estava esquecida sobre a mesinha de centro, ao lado do copo de água quase vazio.
O mundo exterior perdia aos poucos o significado. Nada mais importava senão aquele momento, que Hellen desejava prolongar por toda a eternidade.
— Ma-mãe... — disse uma voz distante e chorosa, que nem Hellen nem Jackson puderam ouvir. — Ma-mãe... — A voz repetiu. O chamado transformou-se num choro sentido e estridente.
Arrancada abruptamente do paraíso de emoções onde trafegava, Hellen desvencilhou-se dos braços de Jackson para contemplar Davy, que chorava em altos brados, encostado à parede do corredor.
Precipitando-se na direção do filho, ela o tomou no colo:
— Oh, meu querido... O que aconteceu?
— A luis-pagou — o menino respondeu, ainda chorando.
— Davy está doente, ou algo assim? — Jackson perguntou, preocupado e ainda ofegante.
— Está apenas assustado — Hellen esclareceu, aconchegando o filho nos braços. E explicou: — Davy tem pavor do escuro. Por isso nós sempre deixamos o abajur aceso, ao lado do berço dele.
— Então a culpa foi minha — Jackson reconheceu, com pesar. — Betthy bem que me falou para não apagar o abajur. Mas confesso que não levei a recomendação a sério. Se ela ao menos houvesse me explicado sobre esse medo de Davy...
— Não se condene — Helen o interrompeu. — Você não poderia adivinhar.
— Tem razão. — Jackson sorriu para o pequeno Davy: — Des­culpe, amiguinho. Prometo que da próxima vez seguirei à risca as recomendações de Betthy.
O menino já não chorava, mas continuava muito sério e ainda assustado.
— Será que ele está com fome? — Jackson cogitou.
— Davy não costuma comer a esta hora. No momento ele ne­cessita apenas de um pouco de carinho, até adormecer novamente.
— Bem, se você não precisa de mim, eu já vou indo.
— A esta hora? — Hellen retrucou, mas arrependeu-se no mo­mento seguinte. O que exatamente ela estava pensando em fazer? Convidar Jackson para dormir naquele sofá incômodo? Era mesmo preferível que ele fosse para casa, onde poderia repousar de ma­neira confortável e adequada.
— Já me sinto bem melhor — ele explicou. — E posso perfei­tamente dirigir até em casa.
— Está bem — ela aquiesceu. Voltando-se para o filho, que ainda mantinha aconchegado nos braços, sorriu: — Ei, Davy, que tal levarmos Jackson até a porta?
— Por-ta... or-ta — o menino repetiu.
— Isso mesmo, querido. — Hellen beijou-lhe os cabelos em desalinho. — Vamos agradecê-lo por tudo o que ele tem feito por nós?
Jackson sorriu, lisonjeado. Mas no fundo debatia-se contra um sentimento de frustração. Era como se tivesse entrado no paraíso por alguns instantes, para em seguida ser expulso de lá... Sonhara tanto em trocar aqueles beijos com Hellen! Na verdade, desejara provar o sabor de seus lábios finos e delicados, desde a primeira vez em que a vira. E quando finalmente conseguira fazê-lo...
Jackson meneou a cabeça, interrompendo o fluxo de pensamen­tos. Do que, exatamente, estava reclamando? De o pequeno Davy ter entrado na sala no momento em que ele estava beijando Hellen?
— Boa noite, Jackson — ela se despediu. — Obrigada por tudo.
— Boa noite. Eu a apanharei amanhã cedo.
— Está bem.
— Obrigado pelos seus serviços de enfermagem. — Ele sorriu, apontando o joelho esquerdo. Em seguida acariciou os cabelos de Davy: — Até logo, amiguinho. Durma bem.
— Té-ogo — o pequeno respondeu, para alegria de Jackson e Hellen, que sorriram um para o outro, fitando-se no fundo dos olhos, como se quisessem dizer algo que as palavras jamais po­deriam exprimir.
Meia hora mais tarde, o pequeno Davy dormia a sono solto. Hellen porém continuava desperta, tomada por uma profunda in­quietação.
Pé ante pé, ela saiu do quarto, depois de ajeitar as cobertas sobre Cody e Priscilla, que ressonavam suavemente, cada um em sua cama.
O abajur havia ficado aceso, ao lado do berço de Davy.
Hellen entrou em seu quarto, trocou as roupas por uma camisola de malha e atirou-se na cama. Estava exausta, mas seu coração exaltado falava mais forte, sobrepondo-se ao cansaço do dia, obrigando-a a ficar acordada e recordar cada momento de cada beijo trocado com Jackson. Eram duas e quarenta da manhã. E Hellen não tinha a menor ideia de como arranjaria coragem para levantar às sete em ponto, para trabalhar.

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