CAPÍTULO 7
Rand Colton pegou uma pequena pilha de papéis, arrumou-os contra a mesa do jardim e voltou a colocá-los em sua maleta.
— Assim que isso é tudo. Não sei como pude me esquecer destes documentos ontem. Enfim, um dia de trabalho perdido e outra árvore sacrificada no todo-poderoso nome das fotocópias. Percebeu? Estamos na era dos computadores, ou pelo menos isso dizem, e às vezes parece que a única coisa que servem os computadores é para imprimir mais papel, verdade, papai? Papai? Papai, está bem?
Joe Colton elevou a cabeça e olhou o mais velho de seus filhos.
— O que? Oh, sim, sim, estou bem. Rand? Sabe que Drake esteve saindo com Maia? Ines está muito zangada.
— Drake e Maia? De verdade?
— Sim, embora se supõe que ninguém sabe. É obvio, todos sabemos, embora procuremos não falar nisso.
Rand assentiu, fechou a maleta e a deixou no chão, ao lado da cadeira em que estava sentado.
— E qual é o problema? Eu acreditava que Ines gostasse de Drake.
Joe bebeu um gole de limonada e sustentou o copo gelado entre as mãos.
— E gosta. E também Marco. Mas estão preocupados porque não querem que sua filha sofra. Formar parte de um corpo especial do exército não é precisamente trabalhar de funcionário público, sabe? E tampouco tão seguro como trabalhar de advogado.
— Oh, nisso não sei se estou de acordo — repôs Rand com um sorriso. — Ser advogado pode chegar a ser muito perigoso. Pensa no que pode chegar a cortar o papel.
Joe sorriu e sacudiu a cabeça.
— Não me está ajudando nada, Rand. Agora a sério, acha que deveria tentar falar com Drake?
— E mamãe o que...? — interrompeu-se rapidamente. — Bom, isso agora não importa. Mas não, acredito que não deveria dizer nada. Drake e Maia são adultos e lhes digam o que digam, farão o que eles quiserem.
Joe deixou o copo de limonada na mesa e se inclinou contra o respaldo da cadeira.
— Isso é o que eu acredito. De acordo, passemos ao seguinte tema. Viu Sophie?
— Sim, vi-a ontem no almoço, não se lembra? Vi-a, falei com ela e me deixou muito preocupado — disse a seu pai. — Suponho que não estou acostumado a vê-la sem um sorriso no rosto. Acha que ficará bem?
— Dizem que não há ferida que o tempo não cure — assinalou Joe, suspirando.
— Por certo, esta mesma manhã acabo de ler o relatório da polícia sobre seu assaltante, mas pensei que deveria falar contigo antes de dizer algo a Sophie. O tipo encaixa na descrição proporcionada por Sophie salvo em uma coisa. Está completamente morto. Por overdose. Encontraram-no em um beco, a umas seis quadras de onde foi assaltada Sophie, mas a polícia demorou algum tempo em relacionar os fatos.
— Maldito seja — disse Joe, sacudindo a cabeça. — Não sei se isso é bom ou mau. É possível que Sophie quisesse enfrentar a ele ante um tribunal.
— Duvido-o, papai. Eu acredito que é melhor que não tenha que ir a julgamento. Desta forma, é como se se tivesse fechado uma porta a mais, como se tivesse outra razão para sentir-se a salvo e continuar vivendo sua vida. E, falando da vida de Sophie, que tal está River? Acha que desta vez serão capazes de entrar os dois em razão?
— Isso espero. Pedi a River que se encarregue de levar Sophie a reabilitação três dias à semana e não me disse que não. Assim é como estão as coisas agora. E se isso não funcionar, no pior os trancamos em um quarto durante vários dias, até que por fim averigúem o que já sabe o resto da família. Chet Wallace, por Deus, em que demônios estava pensando essa menina? Embora, para sermos justos, acredito que Chet já estava praticamente descartado antes do... incidente de Sophie.
— Provavelmente — se mostrou de acordo Rand. — Bom — começou a levantar-se. — Como ontem não ficou para almoçar conosco e eu hoje tenho que ir logo, suponho que deveria ir procurar a mamãe para saudá-la.
— Sim, seria muito amável por sua parte — disse Joe, levantando-se também. — Certamente estará falando no telefone, organizando a festa.
— Vai ser uma verdadeira festa, não é? E você está de acordo?
— Se isso fizer feliz a sua mãe... — respondeu Joe, seguindo a seu filho.
A uns dez metros dali, ao outro lado dos arbustos, uma janela se fechou lentamente. Meredith Colton se afastou da janela com um sorriso no rosto. Ia acontecer, sim. A festa ia se celebrar. Joe estava muito velho, muito cansado para enfrentar a ela, nem pela festa nem por nada. Mesmo assim, Joe Colton continuava sendo um problema. Um problema que não lhe resultava fácil controlar.
Meredith estava segura de que o assalto de Sophie tinha muito a ver com a mudança de atitude de Joe, que parecia ter recobrado nova consciência de quão insatisfeito estava com sua vida. Inclusive poderia tentar separar-se dela outra vez, como quando lhe havia dito que estava esperando Teddy. O comentário que tinha deixado cair a outra noite sobre que nem todos seus filhos eram seus tinha sido desprezível. E o que havia dito sobre sua loucura, tinha sido a gota d’água. Como se atrevia a questionar sua prudência? Se já antes estava segura, naquele momento o estava muito mais: tinha que fazer tudo o que estivesse em suas mãos para proteger seus filhos e para proteger a si mesmo.
Imediatamente, disse-se que devia pensar em Donna Karan para os desenhos de sua futura roupa de luto.
— Ainda não entendo por que tem que ser você — disse Sophie, aproximando-se tudo o que lhe era possível da porta de passageiros da caminhonete enquanto River a levava a Prosperino.
— Sim, eu também gostei — respondeu River muito tenso.
Sophie se voltou e o fulminou com o olhar. De todas as coisas que podia haver dito, sobre tudo tendo em conta que eram as primeiras palavras que lhe dirigia desde que o tinha deixado nos estábulos, tinha eleito precisamente as mais indicadas para enfurecê-la.
— Não era isso o que queria dizer, maldito seja.
— Sei, Sophie, mas em algum momento teremos que falar disso. Ou se supõe que devo desenvolver alguma espécie de amnésia?
— Não estaria mau. Por que não o tenta? — murmurou Sophie, erguendo as costas contra o respaldo do assento — Porque não vai voltar a ocorrer.
— Oh, é obvio que não. De fato, depois do ocorrido, fiz voto de castidade. Entretanto, te agradeceria imensamente que deixasse de se mover no assento e de se mostrar tão condenadamente sexy.
Sophie voltou a erguer-se e passou as mãos pelas calças.
— Sexy? Vestida desta forma, com o moletom que levo a reabilitação? Sabe, River? Estou começando a pensar que padece de uma espécie de desequilíbrio hormonal que lhe afeta a razão. Deveria pensar em tomar uma ducha fria.
— Ou possivelmente deveria pensar em te tombar sobre meus joelhos e te dar umas palmadas, como fiz quando tinha quinze anos e te surpreendi rondando por meu quarto.
Sophie elevou os olhos ao céu.
— Já te disse então que só estava tentando averiguar que tamanho de camisa usava para te dar de presente uma o dia de seu aniversário. E, por certo, seus açoites não me doeram.
River se voltou para ela sorrindo de orelha a orelha.
— Claro que lhe doeram. Tiveram que te doer com esse traseiro tão fraco. Algo que, por certo, com o tempo mudou.
— Está insinuando que estou gorda? Pois bem, me deixe te dizer, River James, que não há absolutamente nada em mim... Oh, esquece-o. Se limite a dirigir este maldito carro, de acordo?
River riu para si. Ambos continuaram em silêncio até que River estacionou o carro e se voltou para Sophie antes que esta pudesse sair e a agarrou pelo braço.
— Quanto tempo falta, Soph? — perguntou-lhe.
— Quanto tempo falta para que? Para que termine a reabilitação? Suponho que perto de uma hora.
— Não é isso o que te estou perguntando. Quanto tempo vou ter que esperar antes que possa me dizer algo?
Sophie baixou o olhar e se mordeu o lábio inferior.
— Não sei. Duas semanas mais ou menos, suponho. Faz algum tempo estive trabalhando em um anúncio sobre os testes de gravidez e se supõe que há alguns que lhe podem dar o resultado muito em breve com noventa e nove por cento de certeza — elevou a cabeça e o olhou fixamente. — Mas não vai acontecer nada, assim não tem por que preocupar-se.
River assentiu com os olhos semi-ocultos pelo chapéu de vaqueiro. Sophie saiu então do carro e se dirigiu para o centro de reabilitação.
Que não ia acontecer nada? Esperava ter parecido convincente. E se perguntava se River estaria suficientemente informado para dar-se conta de que lhe havia dito que teriam que esperar duas semanas, e que isso implicava admitir que tinham feito amor no momento de maior fertilidade do ciclo, provavelmente quando estava ovulando.
Deveria haver-se deitado com Chet. Se o tivesse feito, estaria tomando pílulas. Mas os encontros sexuais de sua vida se limitaram a uma noite durante o último ano de colégio e a uma breve aventura de fim de semana com um homem cujo sorriso recordava ao de River. De modo que nem sequer tinha tomado nunca anticoncepcionais.
Na realidade, Chet deveria havê-la pressionado para que fossem além das carícias e dos beijos. Mas não o tinha feito e não lhe tinha parecido mal. Para ser sincera, continuava pensando que tinha sido o melhor.
E, entretanto, acabava de comportar-se da forma mais irresponsável que podia imaginar-se. Fazia amor sem utilizar nenhum tipo de contraceptivo em meio ao ciclo e com um homem capaz de encurralá-la até obrigá-la a ir ao altar. Sophie empurrou as portas de vidro do edifício e entrou... Para sair uma hora depois carregada com um montão de papéis que explicavam os exercícios que devia fazer em casa, exercícios extremamente dolorosos, mas sem a bengala. O joelho já estava curado, tinham-lhe assegurado, mas teria que fortalecer os músculos da perna, que praticamente tinham desaparecido, com reabilitação.
Depois de cinco minutos na esteira, outros cinco subindo degraus, mais o tempo que tinha passado com John, o fisioterapeuta, subindo e baixando a perna e dobrando-a até terminar empapada em suor, estava esgotada, e a perna lhe pulsava de uma forma endiabrada. Queria entrar no carro, chegar em casa e afundar-se na banheira, mas não via a caminhonete de River em nenhuma parte.
— Maldito seja, Riv, disse-te que demoraria uma hora. É tão difícil de entender? — murmurou, olhando a seu redor.
O centro de reabilitação estava situado ao lado de uma galeria comercial, algo muito conveniente para aqueles pacientes que tinham que utilizar transporte público.
E era uma pena que não houvesse nenhum ônibus que pudesse levá-la ao rancho, pensou. Imediatamente, deu-se conta de que era uma idéia ridícula. Mas mais ridículo ainda era dar-se conta de que estava apoiada contra a parede, olhando a cada pedestre como se temesse que Jack, O Estripador estivesse procurando-a.
— Isto é uma estupidez — disse a si mesmo, ao ver-se retroceder assustada ante o passo de um grupo de adolescentes.
O que passou mais perto dela, voltou-se e lhe piscou um olho.
— É muito bonita, pequena — lhe disse.
Sophie teve que morder o lábio para reprimir um grito e lutar contra a necessidade de voltar de novo para interior do centro de reabilitação em busca de ajuda. Um suor frio cobria sua pele, o coração lhe pulsava com tanta força que lhe doía os olhos que tinha cheio de lágrimas de terror.
Era uma loucura. Aquilo era uma loucura. De acordo, não havia tornado a estar sozinha na rua depois da noite do assalto. Mas isso não era motivo suficiente para que se convertesse em uma paranóica estúpida. Eram três da tarde e não podia dizer-se que estivesse precisamente só em meio daquela multidão de compradores. Estava a plena a luz do dia, a salvo.
Sophie levantou deliberadamente os ombros, afastou-se da parede de tijolos e se aproximou da calçada, dirigindo-se para um poste ao qual pudesse se apoiar. Lutou contra o impulso de segurar o poste como se isso fosse a vida e se apoiou contra ele com toda a normalidade que pôde. Uma vez ali, dirigiu sua atenção para a entrada das lojas de departamentos, tentando fixar-se nas mães acompanhadas por seus bebês, nos adolescentes, nos anciões... todas elas pessoas completamente inofensivas.
Sim, tinha razão. Estava a salvo. Podia suportar a solidão daquele momento.
Mas quando sentiu que alguém a agarrava pelo braço, gritou aterrorizada.
— Ei, Soph, o que aconteceu? — disse River, lhe soltando o braço para abraçá-la. — Está bem?
Sophie se separou dele e começou a golpeá-lo no peito.
— Não volte a me assustar dessa maneira, River James! Onde estava? Levo horas te esperando.
River inclinou a cabeça e olhou o relógio.
— Segundo meus cálculos, senhorita Colton, só cheguei sete minutos atrasado. E lhe peço desculpas — com o polegar, jogou o chapéu de vaqueiro para trás e cravou nela seus olhos verdes. — Tomou um susto de morte, não é, Soph? Se olhe, está pálida, e tremendo, por quê?
— Não é nada. Não é nada — lhe disse Sophie, enquanto caminhava para a caminhonete. — Esquece o que aconteceu.
— Não acredito que possa esquecê-lo — respondeu River, uma vez estando sentado e colocando o cinto de segurança. — Estava assustada. E não me diga que esta é a primeira vez que sai sozinha. Porque em São Francisco também esteve indo a reabilitação, não é?
Sophie estava tendo problemas para atar o cinto de segurança por culpa das lágrimas que lhe dificultavam a visão.
— Sim, também ia à reabilitação em São Francisco, mas nunca fui sozinha. Papai contratou uma enfermeira para que me acompanhasse. Esteve comigo dia e noite até que retornei ao rancho.
— Era uma enfermeira, ou era um guarda-costas?
Quando por fim prendeu o cinto de segurança, Sophie se ergueu no assento e cravou os olhos no pára-brisa.
— Era minha enfermeira, Riv. Não interprete coisas que não disse.
— Não o estou fazendo — assinalou River, e acrescentou: — Tem medo de voltar a ter uma vida normal, não é, Sophie? Sabe Joe? Consideraste a possibilidade de falar com alguém sobre isto?
Sophie lhe dirigiu um olhar intimidante, pelo menos o teria sido para qualquer um, mas não para River. Ele continuava mostrando-se alheio a todas as suas advertências para que mantivesse a boca fechada e se metesse em seus assuntos.
— Não me faz falta falar com ninguém. E agora, se não te parecer mal, poderia pôr a caminhonete em marcha para que saiamos o quanto antes daqui.
— Sim, senhorita Colton, o que você diga — River girou a chave na ignição e se dirigiu para a saída da auto-estrada enquanto Sophie procurava uma emissora na rádio com a esperança de encher o silêncio com música e evitar qualquer conversa.
— E para de me chamar senhorita Colton, maldito seja, — disse ao fim de uns minutos, porque, apesar da música, não podia evitar que as palavras de River continuassem reproduzindo-se no interior de sua cabeça — é uma tolice.
— Sim, senhorita... Sinto-o — respondeu River sorrindo. — Só estou tentando averiguar que papel jogo agora em sua vida, Soph. De momento, já não sou seu irmão maior, nem adotivo nem de nenhuma outra classe, isso é evidente. Tampouco sou o herói das fantasias de sua infância. E, pelo que me acaba de dizer, tampouco devo me comportar como se fosse seu empregado. Assim, o que fica, Sophie?
— Não sei — respondeu Sophie. Estava muito afetada para continuar competindo verbalmente com ele. — Na realidade não sei, e você?
River assinalou então o assento de atrás com um assentimento de cabeça.
— Cheguei tarde porque não era capaz de decidir com qual ficar e ao final decidi ficar com todas.
Sophie se voltou e viu uma bolsa de plástico com o nome de uma farmácia impresso em tinta vermelha.
— O que é...? Oh, Meu deus, não pudeste fazer algo assim!
— A verdade é que também me custa acreditá-lo porque não me resultou nada fácil. A garota da caixa registradora corou e não parou de rir enquanto me enchia a bolsa com todos esses testes de gravidez.
Sophie afundou a cabeça entre as mãos.
— Não posso acreditar nisso. Fizemos amor uma vez, River. Uma só vez. E foi minha culpa, de modo que eu sou responsável por tudo o que possa ocorrer. E fui eu a que te meti nessa maldita confusão. Praticamente te desafiei.
— Sim, ainda me dói o braço onde o retorceu — respondeu River, tentando acrescentar uma nota de humor, mas sua voz tinha um quê de desafio que advertia a Sophie que não estava longe de se deixar dominar pela fúria. — Se por acaso não o notaste, diz muitas vezes “maldito”, Sophie. É uma palavra muito comum no mundo da publicidade?
— “Maldito” é a palavra que utilizamos no mundo da publicidade para dizer “caramba”, assim suponho que não quererá saber por que palavra substituímos “maldito”. A única coisa que estava fazendo era tentar me manter a sua altura. Além disso, é uma palavra que encaixa perfeitamente em uma conversa contigo.
— Malditos sejamos pelo que fizemos, maldito seja se soubermos o que vai acontecer a seguir, maldito seja se estiver grávida e maldito seja se não o está, é isso Sophie?
— Só sinto o que ocorreu, isso é tudo — replicou Sophie, retorcendo as mãos no colo.
— Pois eu não — respondeu River. — E espero que esteja grávida, porque quero me casar contigo, Sophie, e estou disposto a fazer qualquer coisa para consegui-lo.
— Seu sentido de oportunidade aflora — Sophie voltou a cabeça e fechou os olhos com força. — Vá para o inferno, River James. Vai para o inferno.
Sophie se sentou em uma das espreguiçadeiras do jardim, perto da piscina, com uma bolsa de gelo sobre o joelho, enquanto via como avançava a escuridão e começavam a sair as estrelas. Era uma noite tranqüila e estava em um canto suficientemente afastado para pensar e deixar escapar uma ou outra lágrima.
Casar-se com River? Aquele homem tinha a ousadia de querer casar-se com ela? Como se atrevia!
E ela que pensava que o pior que lhe podia ocorrer era encontrar compaixão em seus olhos quando visse a cicatriz de seu rosto. Até que ponto se tinha equivocado. Porque aquilo tinha sido pior, muito pior. River queria casar-se com ela porque pensava que podia estar grávida.
Ele era um homem de honra. Queria cumprir com seu dever.
Pois tinha tido sorte de que não lhe partisse um vaso de barro na cabeça!
É obvio, tudo sem pronunciar a palavra amor. Pelo menos, conservava parte de seu sentido comum.
Mas... Deus, quão tentada tinha estado ela de fazê-lo. Aquilo tinha sido o pior: que lhe tinha dado vontade de lhe tirar o chapéu, lhe dizer que sim e ignorar que estava sendo objeto de sua compaixão, de seu sentido de responsabilidade. Que era uma mulher destinada a receber propostas matrimoniais por seu dinheiro, como no caso de Chet, ou por ser uma perdedora patética.
— Bom, acredito que por hoje já tivemos o bastante — sussurrou Sophie enquanto se inclinava para frente e tirava a bolsa de gelo do joelho.
— Sophie, está falando sozinha? Posso me sentar contigo?
— Rebecca? — Sophie se voltou, levantou-se e abriu os braços. — Oh, me alegro tanto de te ver.
Rebecca era outra de suas irmãs adotivas, tinha já trinta anos, era professora e trabalhava principalmente com meninos que tinham problemas de aprendizagem.
Alta e esbelta, com um corpo de bailarina, Rebecca levava o cabelo negro preso em uma trança e tinha os olhos azuis mais amáveis que Sophie tinha visto em sua vida. E, segundo rumores na família, era a virgem viva mais velha de todo a Califórnia.
Rebecca devolveu o abraço a Sophie, as duas se sentaram sem soltar as mãos e, durante alguns segundos, olharam-se em silêncio.
— Não me diz nada? — perguntou Sophie, enquanto se sorriam a uma à outra. — Já sei que não há muita luz, mas o que te parece?
Rebecca esboçou um lento e doce sorriso.
— Parece-me que tenho seis anos mais que você e que sempre os terei. Continuará te alegrando tanto de me ver quando começar a ter cabelos brancos? Ou o cabelo cinza fará que mude sua opinião sobre mim?
— Sempre soube o que dizer em um momento determinado, não é, Rebecca? — disse Sophie, relaxando. — E acredito que já tenho que deixar de fazer isto. É como se tivesse que fazer a todo mundo uma prova sobre minha cicatriz antes de poder relaxar. Deveria me haver dado conta de que não tinha que me preocupar com o que pudesse pensar.
— Possivelmente, mas eu deveria ter feito algo mais que pensar em ti desde que soube de seu... incidente. Eu mais que nenhum outro. Mas não o tenho feito e quero me desculpar por isso.
Sophie sacudiu lentamente a cabeça.
— Do que está falando?
Rebecca se encolheu de ombros e suspirou.
— Pensava vir esta noite ou amanhã ao rancho para te dar as boas-vindas, pensamos que era preferível que fosse nos vendo pouco a pouco. Todos juntos podemos chegar a resultar um pouco intimidantes, não acha?
— Sim, claro — respondeu Sophie com receio. — Continua.
— Sim, bom, como te disse, ia vir de todas as formas. Mas River me disse que poderia estar sofrendo algum problema e não quis atrasar mais nosso encontro.
Sophie levou as mãos às têmporas e tentou evitar que sua cabeça explodisse.
— Ele não tem direito a...
— Está equivocada, Sophie? Tem medo? Olha todo mundo e teme que alguém possa vir sobre ti com uma navalha? É capaz de confiar, Sophie? Até que ponto confia agora na decência e na bondade dos homens?
Sophie secou os olhos com o dorso da mão e suspirou.
— Conhece as respostas, não é, Rebecca? Você também já passou por isso.
— Sim, ainda conservo as cicatrizes que podem demonstrá-lo. E, desgraçadamente, apesar de todos os psicólogos aos quais Meredith e Joe me levaram, ainda não estou completamente recuperada. Entretanto, estou muito melhor do que estava, muito melhor do que esperavam que pudesse chegar a estar. Sou capaz de funcionar no frio e cruel mundo de fora, inclusive fui capaz de voltar a vê-lo como um lugar quente e amável outra vez. Não quererá passar o resto de sua vida te sobressaltando assim que vê uma sombra, Sophie. Tem que me fazer caso: tem que enfrentar a seus medos, manter a cabeça bem alta e não deixar que nada nem ninguém dite como tem que viver durante o resto de sua vida.
Sophie assentiu, mostrando seu acordo.
— Acredito que o que mais odeio é que... é que alguém me tenha roubado a confiança. Que tenham mudado minha forma de ver a vida. Ninguém deveria ter esse tipo de poder sobre nós. Sobre nossos corações, sobre nossas mentes, sobre nossas reações.
— Então está zangada? Isso é bom. De fato, provavelmente já tenha a metade da batalha ganha. Te zangue, continua zangada, briga. Recupera sua vida, sua independência. Recupera o direito a caminhar sem medo pelas ruas, a viver sem medo. Com mais cuidado, é obvio, mas não deixe de sair. Não deixe que um só homem te roube a liberdade. Esse homem não pode ter tanto poder sobre ti, não pode deixar que tenha esse tipo de poder sobre ti. Te zangue, chore, perca o controle... e depois continua vivendo.
— Esse homem... está morto — disse Sophie, soluçando e secando as lágrimas. — Papai me disse isso esta noite depois do jantar. Morreu de uma overdose de heroína uma semana depois do ataque, mas ninguém o relacionou com o que me tinha ocorrido. Desapareceu. Já não pode voltar a fazer mal a ninguém.
Rebecca lhe apertou a mão.
— E nunca conseguiu fazer mal a você, Sophie. Pelo menos não no que de verdade importa.
— Ei, estão aqui!
Sophie e Rebecca se voltaram e viram Emily e Liza aproximando-se delas. A última levava uma bolsa de plástico de uma vídeo locadora.
— Estamos em busca de mulheres com vontades de chorar — disse Liza, balançando a bolsa ante elas. — Alugamos três filmes e nos deram de presente um pacote de pipocas para microondas. Quem se topa?
Rebecca olhou para Sophie e esta assentiu.
— Por que não? — disse, enquanto se levantava. — Uma boa choradeira é justo o que o médico me ordenou. O que te parece, Rebecca?
— Parece-me um bom plano — respondeu Rebecca.
Dirigiram-se as quatro para a parte posterior da casa, dispostas a desfrutar de uma longa sessão de cinema e conversa salpicada de risadas.
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