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Sunday, December 19, 2010

Arlene James - Desperately Seeking Daddy P.06

CAPÍTULO VI

Eram oito horas quando Jackson estacionou em frente à casa de Hellen.
Estava meia hora adiantado e pensou em esperar por ela no carro. Mas a tentação de revê-la era maior e, assim, ele saltou do veículo e abriu o pequeno portão, que rangeu por falta de uma boa lubrificação nas dobradiças.
Quando estivesse melhor, Jackson se ofereceria para fazer al­guns reparos na casa. Mas, no momento, não podia nem pensar nisso. Havia passado uma noite péssima, não apenas por causa do joelho dolorido, mas também por sentir-se inquieto e angustiado.
Sua relação com Hellen estava tomando um rumo muito sério. Era incrível como aquela mulher ganhara uma importância fun­damental em sua vida, em tão pouco tempo.
Bem, já não tinha dúvidas de que a amava. Mas a questão era: haveria uma possibilidade de ser correspondido nesse sentimento?
Um sorriso insinuou-se nos lábios de Jackson, que se aproxi­mava da porta. Pela forma como Hellen correspondera a seus bei­jos, na noite anterior, ela não lhe era totalmente indiferente. Mas o que, exatamente, sentia por ele? Atração... Amizade... Ou amor?
O coração de Jackson pulsou acelerado. Se Hellen o amasse ele seria o mais feliz dos homens.
Rindo de si mesmo e desses pensamentos românticos, Jackson bateu à porta. Hellen o atendeu momentos depois:
— Oh, bom dia, Jackson.
— Bom dia — ele sorriu, um tanto preocupado com a fisionomia de Hellen, que lhe parecia um tanto pálida. — Cheguei cedo de­mais, não é?
— Tudo bem. — Ela sorriu de volta. Profundas olheiras mar­cavam-lhe o rosto de traços delicados. — Eu... Estou resolvendo um pequeno problema e... — Um grito vindo do interior da casa a fez interromper-se. — Entre — disse, voltando-lhe as costas e afastando-se a passos largos.
Jackson entrou, fechou a porta e logo ouviu o som de vozes infantis em meio a uma acirrada discussão. Sem pensar duas vezes, ele correu para a cozinha. Talvez Hellen precisasse de sua ajuda, afinal.
Encontrou-a diante do fogão, esquentando uma mamadeira em banho-maria. Sentados à mesa, Cody e Priscilla estavam a ponto de se atracar.
— Você é um idiota! — A menina acusava o irmão. — E ainda por cima mentiroso.
— Eu não minto nunca, está ouvindo? — Cody se defendia, indignado, com as faces avermelhadas pela raiva.
— Então jure pela vida da mamãe que você não tomou o meu chocolate!
— Escutem, eu já mandei vocês pararem com essa briga — Hellen advertiu ambos. — Se continuarem assim, vou colocar os dois de castigo.
— Jure! — Priscilla exigiu do irmão, ignorando a advertência de Hellen.
— Não ligue para ela, sr. Tyler — disse Cody, voltando-se na direção de Jackson. — Minha irmã é uma tonta, mesmo.
— Tonto é você! — Priscilla rebateu.
— Onde está Davy? — Jackson perguntou a Hellen.
— Dormindo — ela respondeu, com um suspiro. — Mas acabará acordando assustado, com esse barulho todo — acrescentou, com um olhar de censura para os dois filhos.
— E quanto a Betthy? — Jackson quis saber.
— Ainda não voltou — Hellen respondeu, desalentada. — Se ela não chegar até às oito e meia...
— A culpa foi dele, que deixou Betthy sair — disse Priscilla, lançando um olhar agressivo a Jackson.
— Não ligue para o que essa bobona está dizendo, mamãe — Cody interveio. — O sr. Tyler até que foi legal, deixando a Betthy visitar a amiga dela. E ele cuidou muito bem de nós.
— Mentira! — Priscilla protestou e apontou para Jackson com um gesto acusatório: — Ele é mau e eu o detesto.
— Filha! — Com uma expressão de espanto, Hellen repreendeu a menina. — Isso são modos de falar com o sr. Tyler, depois dele ter sido tão bom para nós?
— Ele não é bom — a menina retrucou, com lágrimas nos olhos. — Ele é ruim! — Dirigindo-se a Jackson, ordenou: — Vá embora!
— Priscilla! — Hellen reagiu, atônita. — Você já está passando dos limites. Peça desculpas ao sr. Tyler agora mesmo!
— Não!
— Priscilla, eu estou começando a perder a paciência...
— Deixe, Hellen— Jackson interveio, num tom conciliatório. E sorriu para a menina, ao dizer: — Priscilla está apenas um pouco nervosa, nesta manhã... Não é mesmo, princesinha?
Mas Priscilla não respondeu. Apenas continuou a fitá-lo com raiva. Jackson perguntou-se o que, exatamente, teria feito para que aquela criança o rejeitasse daquele modo. Mas logo concluiu que ele tinha muito pouco a ver com a atitude da menina... Na verdade, ela estava sentindo demais a falta do pai. E naturalmente temia que ele ocupasse o lugar de Carmody.
— Estou esperando, Priscilla — Hellen tornou a repreender a filha, num tom severo. — Peça desculpas ao sr. Tyler agora, ou...
— Oi! — disse o pequeno Davy, surgindo à porta da cozinha. Estava descalço, ainda vestindo pijamas, e trazia nas mãozinhas um frasco de vidro.
— Oh, Deus... — disse Hellen — onde foi que você encontrou esse vidro de álcool, Davy?
O menino sorriu e levou o frasco à boca. Aflito, Jackson gritou:
— Não beba isso, Davy!
Assustado, o pequeno soltou o frasco, que se espatifou no piso de cerâmica, lançando estilhaços para todos os lados.
Hellen precipitou-se para o menino, que já começava a chorar, e tomou-o no colo. Priscilla e Cody voltaram a discutir. Jackson pôs-se a recolher os cacos do chão.
— A culpa foi dele de novo! — Priscilla exclamou, elevando a voz sobre o choro do irmão caçula. — Ele gritou com Davy e o assustou!
— Cale a boca! — Cody ordenou, no mesmo tom. — O sr. Tyler só queria ajudar.
Mortificado, Jackson continuava a juntar os cacos do chão num saco de papel, que em seguida colocou dentro de uma sacola plás­tica, para que ninguém se cortasse. Por fim pegou alguns pedaços de papel toalha, umedeceu-os e passou-os pelo chão, à procura de estilhaços.
O caos parecia ter se instalado na cozinha dos Moore, naquela bela manhã de verão. Hellen tentava acalmar o pequeno Davy, dando-lhe sua mamadeira matinal. Cody e Priscilla continuavam a discutir. Eram oito e vinte da manhã.
Quando por fim as coisas pareceram voltar à ordem, Hellen sentou-se à mesa e tomou uma xícara de café com torradas. Em seu colo, o pequeno Davy terminava a mamadeira. Cody e Priscilla pareciam ter chegado a um acordo e agora dividiam o resto de chocolate em pó que havia na lata e que fora o motivo inicial da briga.
— Tome uma xícara de café, Jackson — Hellen convidou.
Ele agradeceu e sentou-se à mesa... Fornecendo sem querer o pretexto para que tudo recomeçasse:
— Ele não é da nossa família — Priscilla protestou. — Por que está comendo junto com a gente?
— Porque é nosso convidado — Hellen sentenciou. — A pro­pósito, você ainda não pediu desculpas ao sr. Tyler, lembra-se?
— Eu quero a Betthy — a menina queixou-se, choramingando.
— Não mude de assunto, Priscilla.
— Quero a Betthy — a garotinha repetiu.
— Alguém está me chamando? — Betthy entrou na cozinha.
Chorando, Priscilla correu para os seus braços e ela confortou-a.
— O que foi, meu anjinho?
— Ela está tentando se livrar de um pedido de desculpas que deve ao sr. Tyler — disse Cody.
— Filho, por favor, não ponha mais lenha na fogueira, sim? — disse Hellen. Em seguida virou-se para a babá: — Você quase me fez perder a hora, sabia?
— Perdoe-me — Betthy desculpou-se. — Acabei dormindo na casa de Josephine e perdi a hora.
— Bem, ao menos eu já posso sair. — Hellen apoiou o rosto no queixo. — Santo Deus, são quase oito e meia da manhã e já me sinto exausta. Como farei para aguentar um dia inteiro de trabalho?
— Pode deixar que eu cuidarei de tudo por aqui — Betthy prontificou-se.
— Está bem. — Hellen ergueu-se, ainda com o pequeno Davy no colo, e aproximou-se da filha: — Priscilla, por favor, não torne o dia da mamãe mais difícil do que já está. Seja uma boa menina e peça desculpas ao sr. Tyler por sua indelicadeza.
— Não! — Priscilla gritou, correndo para fora da cozinha.
— Mas o que foi que deu nessa menina? — Betthy surpreen­deu-se, pegando Davy dos braços de Hellen.
— Ela está com ciúmes de mamãe com o sr. Tyler — Cody explicou, em sua inocência e simplicidade que, afinal, davam-lhe uma visão bastante exata da situação.
— Já basta, Cody — Hellen interveio. Elevando a voz, chamou: — Priscilla, venha até aqui.
— Não! — A menina respondeu, da sala, com um grito angustiado.
Hellen perdeu de vez a paciência.
— Agora chega!
— Por favor... — Jackson pediu, constrangido — não vá castigar a menina.
Mas Hellen não lhe deu ouvidos. Saiu a passos largos em direção à sala, disposta a dar uma boa lição em Priscilla.
Jackson seguiu-a, bem como Cody e Betthy, levando no colo o pequeno Davy, que brincava com a mamadeira vazia.
Priscilla chorava aos gritos, recusando-se obstinadamente a obe­decer a mãe, que àquela altura já não podia voltar atrás:
— Estou pedindo pela última vez, Priscilla...
— Mas que diabos está acontecendo aqui? — Carmody surgiu na sala, vindo pelo hall de entrada, com uma expressão confusa e ao mesmo tempo irritada. — Isso está parecendo uma casa de loucos!
— Papai! — Priscilla correu para Carmody, como se lhe pedisse proteção. — A mamãe quer me bater!
— Você sabe muito bem que eu nunca bati em você, mocinha, e esta não seria a primeira vez! — Hellen gritou, totalmente fora de controle. — Eu apenas estava exigindo que...
— Você ameaçou Priscilla? — Carmody a interrompeu, num tom de ameaça. Exalava álcool e parecia bastante descontrolado.
— Está fazendo isso apenas porque ela se parece comigo, não é?
— De onde você tirou essa ideia absurda? — Hellen retrucou, tão furiosa quanto perplexa.
— Ouça bem, doçura... Eu não vou permitir que você maltrate minhas crianças.
— Suas? — Hellen retrucou, indignada. — Ora, tenha a santa paciência, Carmody! Se nossos filhos dependessem de você para viver, já teriam perecido há muito tempo.
— Você está fugindo do assunto. Quero saber o que está acon­tecendo aqui... E agora!
— Ele é mau, papai. — Priscilla apontou Jackson. — Ele fez Davy chorar e...
— Mentira, papai! — Cody apartou, gritando. — O sr. Tyler só queria ajudar!
Afastando Priscilla de si, Carmody encarou Jackson:
— E então, amigo? Parece que você anda causando problemas por aqui...
— Deixe-o fora disso — Hellen ordenou, antes que ele pudesse intervir.
— A mim pouco importa o que você faz de sua vida, doçura — Carmody retrucou, com os olhos fixos em Jackson. — Mas daí a permitir que seu amante maltrate meus filhos... É demais!
— Amante?! — ela repetiu, com o rosto rubro de cólera. — Você pensa que sou tão promíscua quanto você?
Carmody riu, sarcástico:
— Ora, não me venha bancar a inocente, a esta altura.
— Senhor, não fale assim na frente das crianças — Betthy pediu, assustada.
— Cale a boca, menina — Carmody ordenou, num tom áspero. — A conversa ainda não chegou na cozinha. — Voltando-se para Jackson, exigiu: — Você me deve algumas explicações, amigo. Es­tou separado de Hellen, mas ainda sou o homem desta casa.
Jackson cerrou os punhos e tentou se controlar. Era claro que Carmody o estava provocando, esperando que ele perdesse a pa­ciência e partisse para a briga... O que seria uma grande loucura. Em primeiro lugar, porque as crianças ficariam traumatizadas. Isso sem contar Hellen e Betthy, que estavam pálida como se fossem desmaiar. Além do mais, aquela casa pertencia aos Moore. E se ele agredisse o ex-chefe da família, acabaria tendo complicações com a polícia.
— Perdeu a língua, garotão? — Carmody continuava a pro­vocá-lo. — Ou sua coragem só vale para amedrontar crianças indefesas?
Jackson tomou fôlego, fazendo um esforço sobre-humano para vencer a indignação. E sua voz soou estranhamente calma ao dizer:
— Não tenho medo de você, Carmody Swift... Pessoas do seu tipo só conseguem me causar desprezo e uma certa pena. Mas em consideração a sua família, vou fingir que não ouvi as imbecilidades que você acaba de dizer.
— Tome cuidado com a língua, rapaz — Carmody deu um passo à frente.
— Parem com isso, pelo amor de Deus — Hellen pediu, colo­cando-se entre ambos. Voltando-se para Carmody, acrescentou: — Por favor, vá embora... Sua presença aqui está complicando ainda mais as coisas.
— Só sairei depois de ouvir uma explicação decente sobre o que vocês fizeram a minha filha.
Priscilla havia parado de chorar e assistia à discussão com ar assustado.
— Deixe, papai — ela interveio, com a voz trêmula de medo. — Não brigue mais com a mamãe, tá bom?
— Cale a boca, sua pestinha — Carmody ordenou, asperamente. — Você causou tudo isso... Agora aguente.
— Não fale assim com ela — Hellen o repreendeu. — A pro­pósito, o que foi que você veio fazer aqui?
— Devolver-lhe o carro. — Mudando de tom, Carmody acres­centou. — Os negócios foram por água abaixo. Estou saindo do ramo da corretagem. Ontem fiquei furioso com um provável com­prador da propriedade... Daí desisti.
Hellen não fez nenhum comentário e ele prosseguiu:
— Achei que você ficaria contente se eu lhe trouxesse o carro agora cedo, para que pudesse trabalhar.
— Na verdade, eu contava com a carona de Jackson para ir à loja de conveniências. Mas já que você chegou...
— Na hora errada — ele apartou, olhando de Hellen para Jack­son com um sorriso de malícia: — Vocês com certeza não esperavam serem flagrados em plena...
— Chega! — A voz de Jackson elevou-se, peremptória. — Você está passando dos limites, Carmody.
— Experimente me fazer parar, amigão...
Hellen tornou a colocar-se entre ambos. Mas dessa vez era a Jackson que ela se dirigia:
— É melhor que você vá embora, antes que essa discussão termine de maneira trágica.
— Mas...
— Pelo amor de Deus, Jackson — ela insistiu, à beira do de­sespero. — Vá para casa e deixe-me resolver as coisas por aqui.
Ele hesitou. A última coisa que desejava naquele momento era sair deixando Hellen, Betthy e as crianças à mercê daquele homem inescrupuloso.
— Tem certeza de que você ficará bem? — perguntou.
— Sim — ela assegurou. — Esta não é minha primeira discussão com Carmody e certamente não será a última. Com lágrimas nos olhos, suplicou: — Vá, Jackson... Vá.
— Está bem — ele cedeu, ainda a contragosto.
— Obrigada — ela agradeceu, indiferente à lágrima furtiva que escorria-lhe pelo rosto. Voltando-se para Betthy, ordenou: — Pegue as crianças e leve-as para dar um passeio. Eu e meu ex-marido precisamos conversar.
— Assim é que se fala, doçura — Carmody aprovou, deixando-se cair sobre a poltrona com uma expressão arrogante.
— Se precisar de mim, Hellen, estarei na escola — disse Jackson, já de saída. — Por favor ligue para lá assim que tudo isso terminar e me dê notícias.
— Está bem — ela assentiu, num fio de voz.
Foi com as mãos trêmulas que Jackson acionou o motor do sedan azul. Estava arrasado e não sabia ao certo como lidar com aquela sensação de fúria impotente que dilacerava-lhe o peito. Sempre fora contra qualquer tipo de violência. Mas por pouco não perdera o controle com Carmody.
"Ah, Hellen, eu queria tanto o seu bem e, no entanto estou transformando sua vida num inferno", pensou, com amargura. "Sua filha me detesta, seu filho caçula tem medo de mim e seu ex-marido me odeia... Parece que apenas Cody ainda continua do meu lado. Estou começando a lamentar que o desenho dele tenha caído em minhas mãos.
A depressão ameaçava dominar Jackson, que dirigia com cui­dado pela avenida já movimentada àquela hora da manhã.
Pela primeira vez ele considerou a possibilidade de afastar-se de Hellen. Mas anulou-a logo em seguida. A paixão que sentia por aquela mulher era forte demais para ser questionada. Já não dependia de sua vontade. Ele precisava de Hellen como de ar para respirar. Por ela, seria capaz de suportar a rejeição da pequena Priscilla, ou o ódio de Carmody. Seria capaz de tudo.
Mas... E quanto a Hellen? Será que a relação de ambos estava sendo benéfica para ela? Ou, o que era mais provável, só havia feito seus problemas aumentarem?
Com um profundo suspiro, Jackson compreendeu que de nada adiantava tentar raciocinar naquele momento. Era melhor acal­mar-se e só então refletir longamente, para chegar a uma conclusão sábia. De uma coisa, no entanto, tinha absoluta certeza: precisava tomar uma atitude que fosse benéfica para ele, para Hellen e as crianças... E rápido!
Com uma ansiedade crescente, Jackson chegou à escola e foi direto para sua sala. A todo momento olhava para o telefone, esperando notícias de Hellen... Que não vieram.
Por volta de onze horas ele resolveu procurá-la. Não aguentava mais ficar andando de um lado a outro da sala, nervoso como uma fera acuada. Precisava saber como estava Hellen, ou seu coração acabaria explodindo de angústia.
Um grupo de crianças cumprimentou-o, ao vê-lo sair da escola:
— Olá, sr. Tyler!
— Estamos indo brincar no parquinho. — Era assim que as crianças chamavam o playground que Jackson deixara aberto ao público, desde o início das férias.
— Tenham um bom divertimento. — Ele acenou para as crian­ças e atravessou a rua em direção ao sedan, que deixara estacio­nado à sombra de uma árvore.
Cerca de dez minutos depois Jackson chegava ao centro da cidade, onde ficava a Loja de Conveniências Peter Lore.
Hellen não estava no caixa. Em seu lugar havia uma moça de cabelos longos, presos num rabo-de-cavalo.
— A sra. Moore não veio trabalhar? — ele indagou, no tom mais calmo que conseguiu.
— Ela ligou para cá avisando que está com enxaqueca, senhor. Mas deverá vir no período da tarde, lá pelas duas horas.
— Obrigado. — Jackson agradeceu e saiu. Podia imaginar muito bem o tipo de enxaqueca da qual Hellen estava sofrendo naquela manhã: uma enxaqueca chamada Carmody Swift e seus modos lamentáveis.
Parado à porta da loja de conveniências, ele se perguntava o que fazer. Deveria procurar Hellen? Mas e se complicasse ainda mais a vida dela, com sua presença? Seria melhor esperar um pouco mais, para vê-la. Afinal, a moça o havia informado de que Hellen chegaria por volta de duas horas. Mas, até lá, como lidar com a angústia que ameaçava sufocá-lo?
— Jackson, que surpresa vê-lo por aqui! — uma voz feminina saudou-o, interrompendo-lhe as cogitações.
Ele voltou-se e deparou com Vivian Martin, esposa de Richard Martin, seu melhor amigo no time do Laker's, em Chicago. Fazia muito tempo que não a via, mas reconheceu-a imediatamente.
— Vivian! — exclamou, sorrindo e abraçando-a calorosamente. — O que está fazendo, aqui em Lake City?
— Passeando. — Ela apontou um luxuoso BMW amarelo, de estilo esportivo, com a capota levantada, estacionado a poucos me­tros do sedan azul. — Estou a caminho de Dallas e resolvi parar um pouquinho, para conhecer a cidade e comprar algumas gulo­seimas para as crianças.
—Crianças? — Jackson repetiu, surpreso.
— Sim. Tenho gêmeas de três anos; estão com Richard em Dallas, passando o verão.
— Quer dizer que você mandou a família viajar e resolveu tirar alguns dias de folga sozinha? — Jackson gracejou.
Vivian era uma mulher alta e esguia, do tipo atlético. Aliás, fora campeã de natação em Chicago, durante dois anos seguidos. Tinha cabelos castanhos, curtos, e um rosto que não era exata­mente belo, mas irradiava simpatia.
— Na verdade, eu e Richard estamos separados — ela confessou, com um suspiro. — Ele mora em Dallas e, eu, em Austin. Mas continuamos amigos e nos apoiamos sempre que podemos. Hoje, por exemplo, vamos jantar juntos.
— Oh, Vivian — Jackson lamentou, com sinceridade. — Eu sinto muito.
— Eu também. Você sabe como eu e Richard éramos unidos... Creio que ainda somos. Mas os sonhos de uma vida em comum se acabaram. Enfim, conseguimos criar duas criaturinhas mara­vilhosas que se chamam Sylvia e Helga. E agora vamos tentando seguir adiante, cada um no seu caminho.
Jackson mal podia acreditar no que acabava de ouvir. Vivian e Richard sempre tinham sido, para ele, o modelo de casal perfeito. Como era possível que tivessem se desentendido tanto, a ponto de chegarem ao rompimento definitivo?
— Ei, não me olhe assim — Vivian tentou brincar, mas seus olhos traíam uma profunda tristeza. — Os casais vivem juntos por algum tempo e depois se separam. Mas isso não é exata­mente o fim do mundo... Ao menos é isso que dizemos a nós mesmos, quando nos vemos privados da companhia da pessoa que mais amamos.
— Eu sempre considerei você e Richard como meus irmãos — disse Jackson, sem conseguir conter a emoção. — Confesso que essa notícia me pegou de surpresa... Mas saiba que continuarei amando vocês da mesma forma.
— Nós também amamos você, querido. — Vivian forçou um sorriso e mais uma vez quis gracejar: — Agora, vamos parar com essas declarações de amor, está bem? Senão, vou acabar chorando... Agora é minha vez de perguntar: o que você está fazendo em Lake City?
— Eu moro aqui.
— É mesmo?
— Sim. Mudei-me para cá há alguns anos. Sou diretor de uma escola particular e tenho desenvolvido um trabalho bastante gratificante com as crianças.
— Que beleza! — Vivian exclamou. — Você sempre quis tra­balhar na área da Educação não é mesmo, Jackson?
— É... Essa era uma de minhas grandes paixões.
— Que bom que você a está realizando, Jackson. — Vivian tirou um lenço de papel do bolso do jeans e enxugou o suor do rosto. — Santo Deus, como faz calor nesta cidade!
— Que tal um suco de frutas? — Jackson propôs.
— É uma ideia maravilhosa, Campeão.
Jackson sorriu. Era assim que Vivian o chamava, na época em que ele era um dos astros do Laker's.
— Seu Campeão não passa de um humilde educador, mocinha — ele comentou, com um sorriso que era a um só tempo divertido e melancólico. Abriu a porta do sedan e com um gesto convidou Vivian a entrar: — Vamos no meu carro. Depois, eu a trarei de volta.

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