CAPÍTULO IV
Hellen estava começando a perder a paciência. Carmody tinha resolvido aparecer justamente no seu horário de café, para conversar. E era óbvio que estava precisando de alguma coisa. Caso contrário, não teria ido procurá-la.
— Faz muito tempo que você não dá nada para as crianças — ela reclamou. — Não estou nem falando de ajuda financeira, mas de um pouco de carinho. — Hellen terminou o café e jogou o copo descartável no lixo. Estava sentada no banco junto à entrada da loja e deveria reassumir a caixa registradora em dez minutos.
Carmody era um homem alto, magro, de cabelos ruivos e lisos. Tinha olhos castanhos e muitas sardas no rosto ovalado. Não era belo, mas possuía um certo encanto... Que fora suficiente para cativar Hellen, quase dez anos antes. Agora, ela já estava devidamente imunizada contra a conversa agradável e as promessas de Carmody.
— Ando muito ocupado — ele justificou-se. — Por isso não fui visitar nossos filhos. Como estão eles?
— Todos bem, graças a Deus. — Num tom de amarga ironia Hellen acrescentou: — Mas aposto que você não veio até aqui apenas para perguntar pela saúde das crianças... Certo?
Carmody hesitou por alguns instantes.
"Deve estar preparando a bomba", Hellen pensou, com um suspiro. E logo sua suspeita foi confirmada:
— Na verdade, preciso de um favor seu.
— Que tipo de favor? — ela indagou, desconfiada.
— Bem... Você sabe que estou trabalhando no ramo da corretagem, não é?
— Como poderia, se você nunca me contou nada sobre isso?
— Oh, não me diga que me esqueci de lhe falar?! — Carmody retrucou, com uma expressão de exagerado espanto.
Mas Hellen não se surpreendeu. Conhecia de longe a lábia do ex-marido e sabia que ele mentia com a mesma facilidade com que respirava.
— Vá direto ao assunto, Carmody — ela exigiu, num tom severo. — Não tenho o dia todo para ouvir suas histórias.
Ele franziu a testa e fitou-a com curiosidade.
— Por que está me tratando tão mal? — indagou, ofendido.
A ironia estampou-se nos olhos azuis de Hellen:
— Estou apenas tratando-o como você merece, ou seja: com muito cuidado para não cair na sua conversa.
— Você não era assim, Hellen. — Ele fixou-a com seus olhos castanhos e amendoados. — Você mudou...
Ela sustentou-lhe o olhar. Ao menos nesse ponto, tinha de admitir que o ex-marido tinha razão. Desde o dia em que conversara com Jackson Tyler, desde o momento em que sentira sua auto-estima crescer devido à atenção daquele homem elegante e sensível... Algo nela havia mudado.
Fazia já uma semana que isso acontecera. E Hellen de algum modo passara a sentir-se diferente. Ganhara uma nova disposição, um jeito mais tranquilo de encarar as dificuldades. Até mesmo a dura rotina de trabalho parecia-lhe menos árdua. Em resumo, passara a sentir-se como um indivíduo, um ser humano digno de admiração e respeito... Aí estavam duas palavras das quais ela jamais conhecera o significado, ao menos enquanto vivera com Carmody. E, por mais incrível que pudesse parecer, ela sentira-se mais admirada e respeitada durante uma hora e meia de conversa com Jackson Tyler, do que nos quase dez anos de vida com Carmody.
— Escute, se você não disser logo por que veio me procurar, serei obrigada a deixá-lo falando sozinho — ela sentenciou, levantando-se. — Seja sincero e vá direto ao assunto.
Ele também se ergueu:
— Bem, eu ia explicar-lhe em detalhes o trabalho que pretendo desenvolver como corretor, a partir de hoje.
— Pensei que você já estivesse no ramo há mais tempo — ela comentou, ríspida.
— Na verdade, começarei dentro de uma hora... Isto é, se você me ajudar.
— Fale de uma vez, Carmody.
Ele tomou fôlego:
— Você conhece a propriedade da família Foreman, no caminho para Fort Worth?
— Está se referindo ao antigo hotel-fazenda do sr. Lewis Foreman? — Hellen indagou.
— Exato. Você sabe que ele tem uma filha que mora no Tennessee, não é?
Hellen assentiu com um gesto de cabeça. Carmody continuou:
— Pois o sr. Lewis Foreman decidiu morar com ela. Pretende mudar-se para lá tão logo consiga vender a propriedade.
— É mesmo? — Hellen comentou, surpresa.
A propriedade dos Foreman era um local paradisíaco, onde ela brincara muito, quando criança.
— Espero que quem comprar o hotel-fazenda dos Foreman saiba preservá-lo.
— A mim pouco importa que o comprador seja um amante da natureza, ou um amante do dinheiro — Carmody retrucou, com uma expressão arrogante. — O que eu quero é ganhar uma boa comissão.
— Agora entendi — disse Hellen. — Você vai atuar como corretor na venda da propriedade. É isso?
— Exatamente, doçura. O sr. Lewis andou espalhando pela cidade que está disposto a pagar até quinze por cento de comissão a quem conseguir vender aquele paraíso em forma de sítio... E nós vamos abocanhar essa pequena fortuna.
— Nós? — ela repetiu, com um olhar de dúvida.
— Sim, pois pretendo dividir o dinheiro com você.
— E o que eu terei de fazer, para isso?
— Um pequeno favor, oras. — Carmody fez uma pausa de efeito, antes de acrescentar: — Emprestar-me o carro até amanhã cedo, pois marquei hora com vários compradores interessados.
— Negativo — Hellen respondeu, sem hesitar.
— Mas você não compreende que esta pode ser a grande oportunidade de minha vida? — Carmody argumentou e corrigiu-se: — Quero dizer, de nossas vidas.
— Eu realmente gostaria de ajudá-lo, mas preciso do carro para trabalhar.
— Mas esse empréstimo será apenas por vinte e quatro horas, doçura. Por favor, tenha um pouco de compreensão e...
— Fui compreensiva durante muito tempo, Carmody — Hellen o interrompeu, num tom seco. — E isso não me ajudou muito.
— Acontece que já não sou o mesmo de antes. Estou a ponto de enriquecer. Será que você não entende o que isso significa?
Hellen ia responder, quando viu Jackson Tyler aproximando-se.
Trajando calças jeans e camisa de gola polo azul-clara, ele parecia mais belo do que nunca.
— Bom dia, sr. Tyler — ela o cumprimentou, com um sorriso.
— Jackson — ele a corrigiu e estendeu-lhe a mão. — Como vai, Hellen?
— Bem... E você?
— Tudo certo. — Jackson sorria e era como se a tarde se tornasse ainda mais luminosa. — Estava dando um passeio e resolvi passar para comprar um queijo do reino.
— Você encontrará diversos tipos de queijos na seção de frios, na última prateleira à esquerda, no final do corredor.
— Obrigado.
— Não vai me apresentar a seu amigo, Hellen? — Carmody interveio, lançando a Jackson um olhar intrigado.
— Oh, claro — ela aquiesceu, sentindo as faces levemente afogueadas. Não sabia por que, mas sentia um certo constrangimento pelo fato de Carmody e Jackson se encontrarem. Claro que essa sensação não tinha a menor razão de ser, ela decidiu em pensamento. E fez as apresentações: — Jackson, este é meu ex-marido, Carmody Swift... Carmody, este é Jackson Tyler, diretor da escola Happy Child, onde Cody estuda.
— Ah, olá sr. diretor. — Carmody cumprimentou Jackson com extrema cordialidade. — Espero que meu garoto não esteja lhe causando problemas.
— De modo algum, senhor — Jackson respondeu, num tom polido. — Cody é um ótimo aluno.
— Você ouviu o que ele disse, doçura? — Carmody piscou para Hellen com uma expressão cúmplice. — Isso significa que fizemos um bom trabalho com aquele menino.
Se dependesse de Carmody, o pequeno Cody nem sequer teria sido matriculado numa escola, Hellen pensou, com um suspiro. Entretanto, agora ele se comportava como um pai orgulhoso e extremamente dedicado.
"Tudo bem", ela disse para si, controlando o impulso de falar umas boas verdades ao ex-marido, ali mesmo, diante de Jackson e de quem mais quisesse ouvi-las. "Este não é o momento nem o lugar adequado para perder a paciência com Carmody. Além do mais ele tem uma incrível capacidade de ficar surdo de um momento para outro, sempre que a conversa começa a se tornar desagradável."
— Bem, com licença. — Com um aceno, Jackson entrou na loja.
A sós com Carmody, ela despediu-se:
— Desculpe, mas preciso voltar ao trabalho.
— Por favor empreste-me o carro, doçura... Só por vinte e quatro horas.
Hellen decidiu encerrar a conversa naquele momento. Caso contrário, Carmody acabaria tomando-lhe a tarde inteira.
— Escute, eu faria isso por você de bom grado, mas acontece que trabalho em dois empregos. Além do mais, caso você tenha se esquecido, eu e as crianças continuamos morando lá no Fairhaven Mobile Home... E não tenho como chegar em casa, a não ser de carro.
Um sorriso insinuou-se nos lábios de Carmody:
— Ei, doçura, eu acabo de ter uma ideia.
— Diga — Hellen pediu, sem nenhum entusiasmo.
— Tire uma folga.
— Como assim?
Apontando para o interior da loja, onde o sr. Peter Lore cuidava da caixa registradora e já lançava alguns olhares ansiosos na direção da porta, Carmody propôs:
— Diga a seu patrão que você não está passando muito bem e que precisa ir para casa. Eu a levarei até lá e em seguida irei cuidar de meus negócios.
Hellen cruzou os braços:
— Está tentando me dizer para pregar uma mentira no sr. Lore? É isso?
— Sim... Uma mentirinha inocente, que não fará mal a ninguém.
— E talvez eu deva também ligar para a chefe do meu segundo emprego e dar uma desculpa qualquer...?
— Exato, garota! — Carmody sorriu, com ar de aprovação. — Agora sim, você pegou o espírito da coisa!
— Às vezes me pergunto como foi que consegui viver tantos anos em sua companhia — Hellen comentou, como se para si, após um longo momento.
— Oh, nada de recriminações, querida.
Carmody ergueu a mão e tentou acariciar-lhe o rosto, mas Hellen desviou-se com um gesto brusco.
— Ei, o que houve? — ele perguntou, um tanto confuso.
— Você pensa que vou continuar sendo a mesma idiota de antes pelo resto da vida? Pensa que ainda caio nas suas conversas e projetos malucos de enriquecer da noite para o dia?
— Oh, não me venha com lamentações a esta altura — ele protestou, com ar entediado. — O que passou... passou, está bem?
— Está ótimo — ela aquiesceu, com firmeza. — Agora vá cuidar da sua vida e deixe-me trabalhar em paz.
— Hellen, você está começando a abusar da minha paciência.
— Eu?! — Um riso amargo brotou-lhe da garganta. — Decididamente, você não tem senso de limites, Carmody.
— Tudo bem. — Ele forçou um sorriso. — Vou pedir pela última vez.
— Está perdendo seu tempo, Carmody. Eu não vou emprestar-lhe o carro.
— Mas eu preciso dele!
— E eu também; caso contrário, ficarei impedida de trabalhar para sustentar os nossos filhos.
— Mas é só por um dia, doçura!
— Não!
— Desculpem-me por intervir... — disse Jackson, que tinha acabado de sair da loja e não pudera evitar de ouvir parte da discussão. Voltando-se para Hellen, ofereceu: — Se quiser emprestar o carro para seu ex-marido, pode contar com o meu.
— Como? — Hellen indagou, sem entender.
— Em outras palavras, estarei a sua disposição para levá-la aonde você quiser, até que ele devolva o carro.
— Que maravilha! — Carmody exclamou, aliviado. Com um sorriso radiante, comentou com Hellen: — Está vendo só, doçura? O problema acaba de ser resolvido. — Em seguida dirigiu-se a Jackson: — Obrigado, amigo. Ficamos lhe devendo essa.
— Um momento, senhores. — Hellen olhou de um para o outro. — Eu ainda não emprestei o carro.
— Ora, não faça mais drama, garota — Carmody protestou. — O amigo aqui já se ofereceu para levá-la até seu segundo emprego. O que mais você quer?
Ignorando a provocação do ex-marido, ela voltou-se para Jackson e explicou:
— O problema é que saio daqui às sete horas da noite e entro às oito na creche. Assim, tenho uma hora para chegar em casa, jantar rapidamente com as crianças e aprontar-me para ir à creche.
— Para mim, está bem — Jackson assentiu, simplesmente.
— Isto, sem contar que saio à meia-noite, vou para casa e acordo cedo no dia seguinte, para vir para cá — ela concluiu.
Jackson sorriu:
— Como já lhe disse, estarei às suas ordens.
— Mas não quero lhe dar todo esse trabalho, Jackson!
— Não será trabalho e sim um prazer. Estarei aqui às sete em ponto para apanhá-la. Agora, com licença. Preciso ir para casa e...
Antes que Jackson terminasse a frase, o sr. Peter Lore surgiu à porta.
— Sra. Moore, creio que seu horário de café já passou.
— Oh, perdoe-me, sr. Lore — Hellen desculpou-se, embaraçada. — Acho que me atrasei um pouquinho, mesmo.
— Vinte minutos, senhora... — O velho senhor retrucou, num tom severo. —- Vinte minutos!
— Está bem; eu já vou entrar — Hellen prometeu.
— E as chaves do carro? — Carmody perguntou.
— Estão na minha bolsa, ali no balcão. — ela apontou para o interior da loja. — Venha comigo, que eu as entregarei a você.
— Já vou, doçura.
— Bem, eu o aguardarei lá. Não posso esperar nem mais um segundo. — Hellen acenou para Jackson: — Até mais tarde e muito obrigada. — E entrou na loja.
A sós com Carmody, Jackson despediu-se:
— Boa tarde, senhor.
Já ia se afastando quando Carmody chamou-o:
— Sr. Tyler, posso fazer-lhe uma pergunta?
— Claro.
— O senhor é amigo de Hellen?
— Sim.
— Há quanto tempo?
Jackson encarou-o com ar de desagrado. E sua voz soou fria, ao dizer:
— Creio que não sou obrigado a responder esta pergunta, mas mesmo assim, vá lá: eu já a havia visto na escola, por ocasião das reuniões de pais e mestres. Mas conheci-a melhor há cerca de uma semana. — Jackson fez uma pausa e indagou num tom irônico. — Está satisfeito, agora?
— Não muito. O que, exatamente, significa conhecer Hellen melhor?
Jackson estava começando a perder a paciência.
— E o que, exatamente, o senhor pretende com essa espécie de interrogatório?
Carmody não se deixou intimidar:
— Ora, eu tenho o direito de saber com quem a minha esposa...
— Ex-esposa — Jackson o interrompeu. — E creio que o senhor não tem direito algum sobre ela. Agora com licença; não me sinto com paciência nem disposição para cenas desse tipo. — E afastou-se a passos largos em direção ao carro, ainda a tempo de ouvir Carmody resmungar.
— Que petulância! Só porque ocupa um cargo importante na escola, pensa que é superior!
Jackson não se importou em revidar. Estava feliz demais com a perspectiva de rever Hellen logo mais, à noite.
— Talvez eu devesse até agradecer a Carmody pela oportunidade — ele murmurou, sentando-se ao volante do sedan azul, que reluzia sob o sol forte da tarde.
Jackson sabia que não podia se atrasar. Caso contrário, atrapalharia todos os horários de Hellen.
Mas também não era preciso chegar tão cedo, ele censurou-se, ao consultar o relógio no momento em que estacionava em frente à loja. Faltavam vinte e cinco minutos para as sete horas.
Caminhando de um lado a outro diante da Loja de Conveniências Peter Lore, Jackson sentia-se como um colegial diante da perspectiva do primeiro encontro... Não saberia dizer quantas vezes já havia olhado para o interior do estabelecimento na esperança de captar um olhar de Hellen, que continuava atarefada, atendendo os clientes. Tal como ocorria todos os dias, aquela era a hora de grande movimento.
"Tanto melhor", ele pensou, com um suspiro. "Assim, posso observar Hellen longamente."
Seria capaz de ficar ali durante horas, sem se cansar, perdido na contemplação daqueles cabelos cacheados, que compunham a moldura perfeita para o rosto de traços delicados.
Decididamente, Hellen Moore era uma bela mulher. Mas não fora apenas esse fator que encantara Jackson. Ela também possuía uma força incrível, uma admirável capacidade de lutar.
Jackson sorriu. Como era possível que naquele corpo frágil habitasse uma alma tão forte, uma lutadora incansável?!
O coração de Jackson pulsava acelerado de emoção, a cada segundo que passava. Estava fascinado por Hellen Moore, não adiantava mesmo negar.
Tinha vontade de participar da vida dela, de protegê-la contra os males do mundo, de ouvi-la falar longamente, de oferecer-lhe todo o conforto material e espiritual de que fosse capaz.
Não poderia nunca anular o sofrimento de Hellen, no passado. Mas queria ao menos oferecer-lhe um presente menos árduo.
Afinal, ela bem que merecia uma vida melhor... Principalmente depois de ter sobrevivido às humilhações e dores que Carmody lhe causara.
Jackson fechou os olhos por um instante, assaltado por uma súbita lembrança: Lilliane Hopkins, que o fizera sofrer terrivelmente... Mas isso significava muito pouco, perto do que Hellen passara com Carmody.
— O senhor não vai entrar? — disse o velho Peter Lore, à porta da loja, interrompendo-lhe as divagações.
Jackson sentiu-se como um garoto flagrado em plena travessura. E teve de se controlar muito para não parecer excessivamente embaraçado, ao responder:
— Oh, sim, na verdade eu... Eu... Estou ansioso para comprar um iogurte gelado.
— Temos ótimos iogurtes aqui, senhor... Os melhores da cidade.
— Eu sei disso, sr. Lore. — Jackson assentiu, entrando. Escolheu um iogurte na prateleira de laticínios e pagou-o para Hellen, que sorriu ao avisá-lo:
— Estarei livre em dez minutos.
— Certo. — Jackson abriu o iogurte. — Está servida, Hellen?
— Não, obrigada.
Eram quase sete da noite quando um ônibus que trazia o logotipo de uma conhecida companhia turística parou em frente à loja. Um grupo de turistas ruidosos e muito risonhos entrou na loja. Eles vinham de Minessotta e estavam de passagem pelo Texas.
— Até que enfim encontramos uma loja de conveniências descente, neste fim de mundo — uma mulher vestida de maneira espalhafatosa exclamou, com exagerada ênfase.
— Este fim de mundo chama-se Lake City, senhora — Jackson não pôde deixar de dizer.
Mas a mulher já não o ouvia. Seguida por várias outras do grupo, parou diante da prateleira de biscoitos.
— Vejam só, meninas! Biscoitos diet!
— Vamos levar todos!
— Ora, não seja exagerada, garota. Bastam dez pacotes.
— Mas e se não encontrarmos essa marca lá em Fort Worth?
Se Jackson não estivesse prestando atenção ao grupo de turistas, certamente teria visto a expressão aflita de Hellen, que parecia lhe dizer:
— Pronto! Lá se foi meu horário de saída.
O grupo permaneceu na loja por cerca de meia hora. Hellen continuou em seu posto, trabalhando sem cessar. A moça que ia substituí-la, às sete, ocupou uma caixa registradora extra para apressar o atendimento.
Passava das sete e meia quando o ônibus de turistas partiu e Hellen pôde, finalmente, dar o dia por encerrado.
— Vou me trocar e já volto — ela disse para Jackson, a caminho do toalete, levando uma sacola plástica.
— Pensei que você pretendesse passar em sua casa, antes de ir para a creche.
— De fato, era esse o meu plano. Mas as coisas nem sempre correm como imaginamos. — Apontando a sacola plástica, acrescentou: — Como você vê, costumo ser prevenida e carregar o uniforme da creche comigo, para o caso de algum contratempo.
Jackson sorriu, mas no fundo sentia-se tomado pela compaixão.
Minutos depois ele a conduzia em direção à creche, após ter insistido muito para que jantassem ou ao menos fizessem um lanche. Hellen havia recusado a oferta, alegando que tomaria uma sopa com as crianças da creche.
— Você trabalha demais — Jackson comentou, durante o trajeto. — E se alimenta muito mal.
— Trabalho o quanto preciso. E não me alimento tão mal assim. — Ela olhou para si mesma e sorriu. — Sabe que, modéstia à parte, sinto-me uma pessoa bastante saudável?
Jackson desviou por um instante os olhos da avenida, para observar a mulher a seu lado. De fato Hellen possuía um corpo não apenas proporcional, mas incrivelmente belo. Os seios delicados deixavam-se adivinhar vagamente, sob o tecido da blusa verde-água que ela usava. A cintura bem delineada, a suave curva dos quadris sob a saia um tanto justa, as pernas bem torneadas... Aquela mulher tinha medidas perfeitas! Medidas que ele bem gostaria de conhecer intimamente.
— Sabe, eu não me importo de trabalhar além do horário, lá na loja de conveniências — ela comentou, interrompendo-lhe os pensamentos. — O que me aborrece é o fato de não poder jantar com meus filhos, antes de entrar no emprego da noite.
— A propósito, você ligou para sua casa avisando que não irá jantar?
— Não. Mas eu e Betthy temos um acordo: se não chego até às sete e meia, ela serve a refeição para as crianças.
— E não fica preocupada com você?
— Não. Betthy sabe que às vezes sou obrigada a seguir direto para a creche. — Num tom bem-humorado, Hellen acrescentou: — Ou você acha que ônibus cheios de turistas são muito raros, por aqui?
— Quer dizer que isso já lhe aconteceu outras vezes?
— Muitas — Hellen respondeu, recostando-se no assento.
— Quer que eu passe em sua casa depois de deixá-la na creche? — ele indagou, após alguns momentos. — Assim, verei como estão as crianças.
Ela sorriu, com uma expressão cheia de gratidão.
— Você já fez muito por mim.
— E você ainda não respondeu minha pergunta.
— As crianças devem estar bem. — Hellen suspirou profundamente e mudou de assunto: — A propósito, tive uma longa e linda conversa com Cody.
— E como foi que ele reagiu?
— A princípio, ficou ressentido. Mas acabou me prometendo que não espalhará mais aquele tipo de anúncio...
— Ele me parece o tipo do menino que costuma cumprir suas promessas — Jackson opinou.
— Você acertou em cheio — Hellen afirmou, com uma ponta de orgulho.
Faltavam cinco minutos para as oito horas, quando Jackson estacionou em frente à creche onde Hellen trabalhava.
— Até mais tarde. — Ele se despediu. — Virei apanhá-la à meia-noite.
— Agradeço, mas não é preciso. Tenho uma colega que mora no condomínio vizinho ao Fairhaven. Ela concordará em me levar até em casa, se eu pedir.
— Mas posso perfeitamente vir buscá-la — Jackson insistiu. — Aliás, isso já estava combinado, lembra-se?
— Obrigada, mas realmente não é necessário.
— E quanto a amanhã cedo?
— Terei de incomodá-lo novamente...
— Incômodo não é a palavra adequada para exprimir o imenso prazer que terei ao levá-la até a Loja de Conveniências Peter Lore — ele retrucou, com um largo sorriso. Em seguida assumiu um tom mais sério: — Desejo-lhe um bom trabalho, Hellen.
— Obrigada. — Ela sorriu e tomou a mão de Jackson entre as suas, numa espontânea demonstração de carinho. Então, como se de repente compreendesse que havia ido longe demais, enrubesceu violentamente e apressou-se a sair do veículo. — Boa noite.
— Boa noite, Hellen. — Jackson observou-a entrar na construção de tijolos à vista, cuja placa iluminada sobre a porta trazia a seguinte inscrição: Segundo Lar.
Teria sido impressão sua, ou Hellen havia corado como uma adolescente, ainda há pouco?
— Quem pode saber? — ele disse, baixinho, manobrando o carro para fazer o retorno. Se seguisse adiante por aquela avenida, acabaria encontrando um acesso rápido para o condomínio Blue Bird, onde morava. Mas Jackson tomou o caminho contrário, pois não pretendia ir direto para casa. Tinha acabado de tomar uma decisão e pretendia colocá-la em prática naquele exato momento.
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