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Sunday, December 19, 2010

Арлин Джеймс - Отчаянно ищу Папа P.06

CAPÍTULO VII

Havia bastante movimento no Plaza-Café, àquela hora. Era sempre assim no verão: ônibus lotados de turistas, grupos de adolescentes em férias, enfim, a frequência redobrava.
Jackson e Vivian escolheram uma mesa de canto, o mais longe possível do intenso burburinho.
Liz veio atendê-los, com sua costumeira simpatia. E trouxe ra­pidamente os pedidos: suco de laranja para Jackson, de uvas para Vivian. Como acompanhamento, apenas alguns biscoitos salgados, oferecimento da casa.
A conversa entre Jackson e Vivian fluía de maneira agradável, por vezes bem-humorada, por vezes melancólica. Jackson sentia-se como se houvesse feito uma viagem no tempo. Era como estivesse frente a frente com seu passado e tudo o que ele representara.
O assunto versava sobre os colegas do time, os amigos em co­mum, os passeios nos fins de semana, os filmes e peças de teatro... Ali estava sua vida, Jackson pensava, sendo repassada como um filme ao qual já assistira repetidamente, descobrindo novos deta­lhes a cada vez.
E foi inevitável que Vivian perguntasse, a certa altura:
— E quanto a Lilliane? Vocês...
— Nós nos separamos pouco tempo depois de eu ter saído do hospital... E de a diretoria do Laker's cancelar meu contrato.
— Não diga! — Vivian reagiu, espantada. — Mas vocês eram o Casal 20 da cidade...
— Enquanto eu estava no auge do sucesso — Jackson comple­tou, com amargura. Sorveu um gole de suco e acrescentou: — Na verdade, não era a mim que Lilliane amava.
— Como não? Ela vivia proclamando aos quatro cantos da terra que era apaixonada por você.
— E também pelo meu dinheiro, pelo sucesso que nos permitia frequentar as mais altas rodas e sair nas colunas sociais.
— Não acredito no que está me dizendo! — Vivian reagiu, perplexa.
— Na época, eu também me recusei a crer que Lilliane fosse uma mulher fútil e interesseira. Só mesmo quando me vi frente a frente com a verdade foi que acabei me convencendo. — Jackson fez uma pausa. — Ela começou a namorar Anthony quando eu ainda estava no hospital.
— Você está falando de Anthony Mills, que o Laker's contratou para substituí-lo?
— Isso mesmo. — Num tom de amarga ironia, Jackson concluiu:
— Como você pode ver, ele acabou ficando com o meu lugar não apenas no time, mas também no coração de Lilliane...
— Supondo-se que ela tivesse um — Vivian apartou, indignada. — Oh, Jackson, eu não sabia disso. Lembra-se que Richard foi contratado por um time de Atlantic City, pouco antes de você sofrer a contusão no joelho?
— Claro. E daí vocês foram morar lá e nós acabamos perdendo o contato.
Vivian sorveu um gole do suco de uvas. Após um breve silêncio, comentou:
— Ficamos sabendo do acidente através de uma revista espor­tiva. Escrevemos para você, mas nunca recebemos resposta.
— Nesse caso, devo-lhes desculpas — Jackson confidenciou. — Na época, eu recebia muitas cartas, mas nem sequer as abria. Estava deprimido demais, sabe?
— Eu compreendo — Vivian interrompeu-o, acariciando-lhe a mão num gesto de carinho e amizade. Em seguida sorriu: — Mas como você vê, o destino encarregou-se de nos aproximar novamente. Richard ficará feliz quando souber que nos encontramos.
— Mande-lhe um grande abraço e peça-lhe para entrar em contato comigo, qualquer dia desses. — Retirando a carteira do bolso, Jackson pegou dois cartões de visita e entregou-os a Vivian:
— Aqui está: um para você, outro para Richard.
— Obrigada. — Ela guardou-os na bolsa, de onde retirou uma foto e um cartão, que ofereceu a Jackson. — Este é seu. Como você pode ver, continuo no mesmo ramo.
— Vivian Sullivan... — ele leu, em voz alta. — Professora de educação física e instrutora de natação. — Com um sorriso, co­mentou: — Você continua em forma, hein?
— E como não poderia, se dou aulas de manhã à noite, quase todos os dias? — Ela riu e sorveu mais um gole de suco. Em seguida estendeu-lhe a foto: — E aqui estão minhas duas jóias...
— As gêmeas — ele concluiu, encantado, pegando o retrato onde duas garotinhas de cabelos cor de trigo e olhos brejeiros como os de Vivian sorriam para a câmera. Estavam vestidas de maneira diferentes: uma, de shorts e camiseta; a outra usava uma saia-jardineira, com o urso Panda bordado na altura do peito. Uma onda de emoção invadiu Jackson. — Elas são tão lindas!
— E endiabradas — Vivian afirmou, rindo. — Aposto que Richard está de cabelos brancos.
— Elas herdaram seus olhos. Mas os cabelos são idênticos aos de Richard.
— Tão parecidas... E com personalidades totalmente diferentes — Vivian comentou.
— Isso é bom. Você já percebeu que as pessoas sempre acham que os gêmeos devem vestir-se de maneira idêntica, portar-se e até sentir do mesmo modo?
— O que é uma grande injustiça — Vivian opinou. — Cada pessoa tem sua maneira de ser, que merece todo o respeito.
— Que bom que você pensa assim. Sabe, eu já lidei com casos de alunos gêmeos, lá na escola. Na verdade o problema não eram eles e sim os pais, que insistiam em vê-los como pessoas idênticas, em todos os níveis. — Ele devolveu-lhe a foto. — Custei muito até convencê-los de que cada pessoa tem uma alma e um caráter únicos, ainda que tenham nascido da mesma mãe, na mesma data.
— Você sempre gostou de crianças, não é, Jackson? — Vivian perguntou após um breve silêncio, depois de guardar o retrato na bolsa.
— Eu as adoro — ele confessou, com um sorriso.
— E você tem filhos?
— Ainda não... Mas pretendo viver essa experiência, algum dia. Aliás, é possível que eu já comece minha carreira de pai com três...
— Três... O quê? — Vivian indagou, sem entender.
— Filhos — Jackson respondeu, sem o menor embaraço.
— Como assim?
— Estou apaixonado por uma mulher divorciada que tem um menino de oito anos, uma menina de seis e um garotinho de dois — ele esclareceu, com a maior simplicidade. — Acha que isso é uma loucura?
— Certamente que sim — Vivian sentenciou, com uma expressão que era a um só tempo admiração e carinho. — Mas o amor desconhece as regras básicas da sensatez. Alguém já disse que "o coração tem razões que a própria razão desconhece", lembra-se?
— Sim. — Ele sorriu. Era a primeira vez que falava de seus sentimentos por Hellen com outra pessoa. E isso, longe de cons­trangê-lo, fazia com que se sentisse muito bem.
— Que tal me contar sobre sua musa? — Vivian pediu, inclinando-se sobre a mesa. Sem querer, bateu no copo de suco que ainda estava pela metade, entornando-o sobre si mesma. — Oh, Deus, como sou desastrada! — exclamou, erguendo-se de um salto.
— Liz! — Jackson levantou-se e chamou a garçonete.
A moça acorreu num instante, trazendo um pano de pratos e papéis-toalha. Mas nem mesmo a boa vontade de Liz foi suficiente para resolver o problema.
O suco de uva havia manchado parte da blusa cor de marfim que Vivian usava, bem como o jeans azul-claro.
— Vamos até minha casa — Jackson propôs. — Eu lhe em­prestarei algo para vestir.
— E você acha que suas roupas vão me servir? — Vivian re­trucou, desalentada.
— Claro que não, mas você poderá usá-las enquanto as suas estiverem sendo lavadas na máquina.
Vivian concordou com um gesto de cabeça:
— Obrigada, Jackson. E desculpe-me por esse transtorno.
— Ora, será um prazer mostrar-lhe meu apartamento... Mas tenho uma condição.
— Sim?
— Quero que você prometa que trará Richard e as meninas para me visitarem, qualquer dia desses.
— Isso, você nem precisava pedir, Campeão. — Vivian sorriu: — Ou você acha que vamos deixá-lo em paz, agora que o reen­contramos?
— Você não perdeu o senso de humor, hein?
— É bom saber rir, querido... Sobretudo de nós mesmos.
Minutos depois ambos seguiam no carro de Jackson, rumo ao condomínio Blue Bird, um dos mais luxuosos da cidade.
Hellen estacionou em frente à Loja de Conveniências Peter Lore à uma e quarenta da tarde.
Estava exausta, mas felizmente conseguira acalmar as crianças e deixá-las bem.
A discussão com Carmody fora longa, como sempre. O abismo da incompreensão continuava a separá-la daquele homem, por quem fora tão apaixonada no passado. Só que agora ela já não era a mesma menina ingênua de antes. Tornara-se uma mulher, dona de si mesma, e não estava mais disposta a suportar os abusos do ex-marido.
Enfim, só esperava que Carmody conseguisse encontrar seu próprio caminho e a deixasse em paz.
Com um leve meneio de cabeça, Hellen lembrou-se das pro­messas de Carmody no dia anterior: estava prestes a enriquecer com a venda de uma bela propriedade e daria metade do di­nheiro a ela!
Mais uma mentira, mais uma fantasia... Pois Carmody anun­ciara, sem a menor cerimônia, que tinha desistido do ramo da corretagem. Agora, pretendia tentar um emprego de garçom num restaurante recém-inaugurado na cidade, que pagava muito bem...
"Pobre Carmody", ela pensou, saltando do carro. "Sempre adian­do o momento de encarar a dura realidade da vida..."
Hellen tomou fôlego e abriu a porta da loja. Agora era hora de preparar-se para ouvir a reprimenda do sr. Peter Lore, que estava arrumando a prateleira de laticínios e recebeu-a com um olhar de censura:
— Boa tarde, sra. Moore.
— Bom tarde, senhor — ela respondeu, constrangida. — Peço-lhe desculpas por ter faltado hoje de manhã. Garanto-lhe que isso não acontecerá de novo.
— A senhora falou exatamente assim a respeito da última vez em que se atrasou.
— Eu sei, sr. Lore. — Hellen suspirou. — Mas realmente não pude chegar antes.
— Tive de telefonar para a casa de Jane e pedir-lhe que viesse substituí-la no caixa — o sr. Peter Lore reclamou. — E isso significa que terei de pagar horas extras para ela, entende?
— Claro — Hellen aquiesceu, baixando os olhos. — Bem, o senhor naturalmente deverá descontar esse atraso do meu salário. Assim, ao menos compensará o adicional que pagará a Jane.
Peter Lore meneou a cabeça:
— Sou um homem severo e até rabugento em certas ocasiões, sra. Moore, mas possuo um coração. A senhora sabe muito bem que não tenho coragem de descontar-lhe sequer um níquel, na hora do pagamento.
E era verdade. Hellen já conhecia de cor os intermináveis ser­mões de Peter Lore. Mas sabia também que ele lhe pagaria o salário integral no final do mês, independentemente de quantas vezes houvesse faltado ou chegado atrasada. E era por isso que se sentia tão culpada.
— Agradeço sua compreensão, sr. Lore. E peço-lhe desculpas mais uma vez.
— Está bem — ele assentiu, resmungando. — Vá assumir seu lugar e não se fala mais nisso.
— Certo. Com licença, senhor — Hellen caminhou em direção ao balcão do caixa e cumprimentou a colega de trabalho: — Olá, Jane, pode deixar que eu cuido do caixa, agora. E obrigada por me substituir.
— Por nada, Hellen. Está tudo bem com as crianças?
— Sim.
— E com você?
— Também. — Hellen sorriu. — Sinto-me apenas um pouco cansada.
— Ora, isso não é novidade — Jane gracejou.
— Alguém me procurou? — Hellen quis saber.
— Não... Por quê?
— Jackson não passou por aqui?
Em vez de responder, Jane voltou-se para as várias pessoas que aguardavam em fila o momento de pagar suas compras e anunciou:
— Bem, pessoal, vocês terão de esperar uns minutinhos, até serem atendidos.
— Não é necessário — disse Hellen. — Estou assumindo o caixa agora mesmo.
— Negativo, garota — Jane contrapôs. — Você vai comigo até a sala de estoque, cuidar daquele assunto... — Piscando-lhe um olho em sinal de cumplicidade, acrescentou: — Lembra-se?
Hellen não tinha a menor ideia do que Jane queria lhe dizer. Mas devia ser algo importante, já que a moça estava fazendo tanta questão de falar-lhe em particular.
— Está bem — ela assentiu, por fim. E anunciou: — Estarei de volta num instante, pessoal.
— Venha. — Jane trancou o caixa e literalmente arrastou-a em direção à sala de estoque.
— O que houve? — Hellen indagou, ao entrar. — Você está me deixando curiosa, com todo esse suspense.
Jane cruzou os braços e fitou-a com uma expressão penalizada.
— Eu não sei se deveria lhe contar, mas...
— Por favor, pare de rodeios e vá direto ao assunto — Hellen pediu, impaciente. — Se o sr. Lore vir o caixa abandonado, acabará me dando o cartão vermelho.
— Antes de mais nada, quero lhe fazer uma pergunta.
— Diga.
— Você está tendo alguma coisa com o sr. Jackson Tyler?
A pergunta, totalmente inesperada, pegou Hellen de surpresa.
— Alguma coisa? — ela repetiu, um tanto confusa.
— Sim. — E Jane explicou: — Quero saber se você está man­tendo um romance, um namoro com o tal sr. Tyler. Afinal, vocês têm sido vistos juntos, na cidade.
Hellen franziu a testa, em sinal de desagrado. Sempre fora uma pessoa discreta. Não costumava bisbilhotar a vida alheia e detestava que os outros se intrometessem em seus assuntos particulares.
— Ei, não me olhe como se eu fosse uma fofoqueira, garota, porque posso assegurar-lhe que não sou — disse Jane, com vee­mência. — Só lhe fiz esta pergunta por que gosto muito de você e não quero vê-la sofrer.
Hellen estava cada vez mais confusa e impaciente.
— Jane, pelo amor de Deus, fale de uma vez. Ainda há pouco eu lhe perguntei se Jackson havia estado aqui. Você não me res­pondeu e agora me vem com esse mistério todo...
— Está bem. — Jane suspirou. — Eu queria apenas amenizar o golpe, mas já que você insiste, aí vai a bomba: o sr. Jackson Tyler esteve aqui, sim...
— E por que não me disse logo? — Hellen a interrompeu, ir­ritada. — Jackson passou lá em casa hoje e... Bem, é uma longa história. Mas ele com certeza está preocupado comigo.
— Eu ainda não terminei de falar, amiga. — Jane fez uma pausa. — O sr. Jackson Tyler esteve aqui, sim. Perguntou por você e saiu em seguida... Para encontrar-se com outra mulher.
— O quê? — Hellen indagou, espantada. Em seguida assumiu uma expressão incrédula. — Se ele veio e saiu, como é que você sabe que foi encontrar-se com outra mulher?
— Muito simples... Os dois se abraçaram exatamente em frente à loja, para que todo mundo visse.
— Não é possível — Hellen murmurou, como se para si.
— Estou lhe dizendo isso porque sou sua amiga, e não para fazer fofocas. Tanto, que não vou comentar com ninguém sobre o assunto.
Hellen meneou lentamente a cabeça, tentando digerir o que acabava de ouvir. Aquilo não se enquadrava na imagem que tinha de Jackson Tyler. Ele decididamente não parecia o tipo de homem falso ou conquistador...
— Não sei quem é a tal mulher — disse Jane, interrompendo-lhe os pensamentos. — Creio que se trate de uma turista, ou de alguém que veio visitar a família... Mas tenho certeza de que ela é de fora, pois nunca a vi aqui na cidade.
— Lake City cresceu muito nos últimos anos, Jane. Já não é a mesma cidade pequena de antes, onde todos se conheciam.
— Eu sei, mas ainda assim posso jurar que aquela mulher não é daqui.
— Por que tem tanta certeza?
— Porque ela é uma pessoa em quem não se pode deixar de reparar... Entende o que quero dizer? — Antes que Hellen res­pondesse, Jane acrescentou: — É do tipo exótico: alta, esguia, sexy. E tem um carrão daqueles que a gente só vê em filmes do Elvis Presley.
Se não estivesse tão chocada, Hellen teria achado graça nas maneiras da amiga.
— Aliás, o carrão está bem ali, em frente à loja. Você não reparou?
Como poderia, Hellen pensou, com amargura, se. chegara tão apressada e preocupada com seus próprios problemas?
— O sr. Jackson Tyler parecia tão interessado em você... — Jane comentou, com sincero pesar. — O modo como a olhava, nas poucas vezes em que veio aqui, era comovente. E, no entanto... — Ela fez um gesto vago, sem saber como concluir a frase.
Hellen decidiu encerrar a conversa:
— Bem, Jane, agradeço sua consideração, mas agora preciso retornar ao trabalho.
A outra fitou-a com uma expressão admirada:
— Você é de fato uma pessoa muito forte, amiga. Acabo de lhe dar uma notícia ruim e você já está pensando em trabalhar!
Na verdade, Hellen tinha vontade de sentar-se no chão e chorar longamente. Mas sabia que isso de nada adiantaria.
— Não faço isso por heroísmo, Jane, mas sim porque não me resta outra opção — disse, com a voz ligeiramente trêmula. — Afinal, tenho três filhos para sustentar.
— E uma amiga com quem poderá contar sempre, nas horas difíceis. — Jane abraçou-a. — Escute, que tal tirar o resto do dia de folga? Eu posso substituí-la.
— Nem pensar — Hellen recusou a proposta, num tom firme. — Obrigada, mas prefiro realmente trabalhar.
— Está bem, eu só queria ajudar.
— Eu sei, e agradeço-lhe de coração.
Quando Hellen reassumiu seu posto na caixa registradora, a fila já havia aumentado bastante. Pela parede envidraçada da loja, ela pôde ver um reluzente BMW amarelo, de capota preta, estacionado junto à calçada em frente. Então aquele era o carro da namorada de Jackson... Constatou, com o peito oprimido pela angústia. E obrigou-se a não olhar mais naquela direção. Afinal, para que ficar se torturando?
Não sabia ao certo de onde estava tirando forças para atender as pessoas com a calma e simpatia de sempre, conversando sobre amenidades, gracejando... Enfim, portando-se como se nada de mais houvesse acontecido. Entretanto, estava arrasada.
Naquele pouco tempo de relação com Jackson Tyler, sua auto-estima crescera incrivelmente. Sentira-se bela, desejada, respei­tada, segura... Enfim, tornara-se uma nova mulher.
Os beijos trocados com Jackson na noite anterior haviam lhe provado que ela ainda era bonita e desejável, que merecia amar e ser amada.
E agora, como uma onda avassaladora que destruísse num ins­tante um castelo de areia, os sonhos que acalentara com relação a Jackson caíam por terra.
Ele tinha uma namorada e não fizera questão nenhuma de esconder esse fato. Bem, neste ponto ela não podia condená-lo. Era melhor saber a verdade desde já. Ao menos Jackson havia tido coragem de expor sua relação com outra mulher, para quem quisesse ver... Ao menos não fizera como Carmody, que jamais assumira suas relações extra-conjugais.
Hellen continuava atendendo os clientes de maneira automá­tica, mas sua mente estava cada vez mais inquieta, assaltada por terríveis cogitações.
Mas, pensando bem, ela não tinha exatamente motivos para condenar Jackson. Afinal, ele não lhe prometera nada e jamais propusera uma relação séria. Talvez pretendesse apenas ser um bom amigo, dedicado e prestativo.
Mas um amigo não a teria beijado daquela maneira ardente na noite anterior, Hellen pensou, com uma pontada de dor. Aqueles beijos haviam significado tanto para ela!
"Não seja idiota, Hellen Moore", recriminou-se, mentalmente. "Você derreteu-se como gelo ao sol quando esteve nos braços de Jackson... Mas isso não significa que ele tenha sentido o mesmo."
No meio da tarde, Hellen já havia chegado a uma conclusão.
De fato, Jackson não pretendia nada com ela, além de uma pro­funda amizade. Tanto que viera vê-la, certamente para saber se ela estava bem, depois da discussão com Carmody. Mas trouxera a namorada, talvez para mostrar-lhe que não deveria esperar nada da relação de ambos... E que os beijos trocados durante a noite tinham sido apenas um pequeno deslize.
Sim, ela decidiu. Agora entendia bem a situação.
Mas o que fazer com o sentimento poderoso que crescia-lhe no peito a cada dia? Como sufocar a paixão que aquele homem lhe havia despertado?
Eram quatro e meia da tarde quando o sr. Peter Lore veio ocupar o lugar de Hellen no caixa, para que ela pudesse tomar um lanche.
Como sempre fazia, Hellen serviu-se de uma xícara de café e foi saboreá-lo do lado de fora da loja, perto da porta de entrada.
Ia sorver o primeiro gole, quando viu o sedan azul de Jackson aproximando-se pela rua e parando logo atrás do BMW de estilo esportivo, do tipo que só se vê em filmes de Elvis Presley, como Jane havia dito.
Com a respiração suspensa, Hellen interrompeu o gesto de levar o café à boca. A mão direita erguida, a esquerda caída ao longo do corpo, ela parecia estar paralisada.
Um jovem casal de namorados entrou na loja, cumprimentando-a de passagem. Hellen não respondeu. Seus profundos olhos azuis estavam fixos em Jackson e na mulher elegante. Ambos haviam acabado de saltar do sedan e agora se abraçavam.
Ela fechou os olhos por um instante, tentando suportar a dor que dilacerava-lhe o peito. Podia imaginar Jackson beijando a na­morada longamente, como fizera com ela na noite anterior.
Se ao menos tudo não passasse de um sonho ruim... Se ao menos ela acordasse para descobrir que havia tido um pesadelo!
Mas quando Hellen tornou a abrir os olhos, Jackson e sua na­morada continuavam lá, do outro lado da rua... A mulher mano­brava o BMW enquanto Jackson acenava-lhe em despedida.
Momentos depois ela partia, passando bem em frente à loja.
O BMW desapareceu na distância.
Jackson atravessou a rua e sorriu ao ver Hellen:
— Ah, que bom encontrá-la aqui. Eu estava preocupado com você.
— Bem, como você pode ver, eu estou bem — ela retrucou, fazendo um intenso esforço para não demonstrar a dor que sentia.
— Passei uma manhã péssima. Fiquei na escola esperando por notícias suas. Em seguida vim para cá e, como você ainda não havia chegado, pensei em ir até sua casa. Mas desisti, pois não queria causar-lhe problemas.
— Foi muita consideração de sua parte — Hellen comentou, com uma ironia que Jackson não percebeu.
Longe de supor a terrível angústia que a dilacerava, ele indagou:
— As crianças ficaram bem?
— Sim.
— E quanto a você? — Jackson fez menção de acariciar-lhe os cabelos loiros.
Hellen desviou o rosto bruscamente e, com a mão direita que ainda segurava a xícara de café, tentou afastar a de Jackson. Nesse movimento, acabou entornando a bebida sobre a blusa.
— Oh não — lamentou-se, com os olhos rasos de lágrimas. — O que mais falta me acontecer?
— Parece que hoje o dia está propício a acidentes desse tipo — Jackson tentou gracejar. — Aconteceu o mesmo com Vivian, lá no Plaza-Café. Tanto que...
— Desculpe, mas tenho de entrar agora — Hellen o interrom­peu. — Preciso me lavar e voltar ao trabalho.
— Posso vir apanhá-la às sete?
— Não.
— Ei, o que há com você? — ele indagou, desconcertado.
— Oh, nada. — Hellen riu, com amarga ironia. — Eu estou ótima, como você bem pode ver.
— Parece aborrecida comigo...
— Impressão sua, sr. Tyler. — E ela entrou na loja, antes que Jackson pudesse replicar.

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