Onze
- O que houve?
Liza o fitou. Para um homem que confessara desejá-la há poucas horas, Nick parecia um tanto confuso.
- Nada - disse ela calmamente, notando o peito nu do médico por baixo do roupão. Entrou no quarto e fechou a porta.
Ele se afastou.
- Liza, você não deveria estar aqui.
Caramba, esta foi estranha! Liza pensou que ele descobriria o que ela queria ao vê-la. Será que precisava falar?
Aparentemente, sim.
- Nick, pensei muito sobre... sobre esta tarde.
- Você deveria tomar um copo de leite. Isso ajudaria você a dormir.
Ela o fitou.
- Sono não vai resolver o meu problema.
- Está doente? Fale o que está errado.
Ela ficou tão irritada que pensou em voltar para o quarto. Mas adorava esse cabeça-dura. Talvez não tivesse futuro com ele, mas teria lembranças... se ele cooperasse. Em vez de falar, desamarrou o cordão de seda do robe e deixou-o cair no chão, ficando apenas com uma fina camisola.
Nick deu mais um passo para trás e engoliu. Com a voz ofegante, disse:
- Liza, eu lhe avisei que não tenho tanto controle quanto pensava. Você precisa ir para o seu quarto e eu chamarei Bonnie para...
- Não quero Bonnie - disse ela com o nariz empinado. - Quero você.
- Não, você... O que você disse?
- Será que tenho que implorar?
- Você me quer? Quer dizer...
- Eu deveria andar com um anúncio pendurado no pescoço para você entender...
- Querida, eu disse que não temos... não podemos... droga!
Para alivio dela, ele parou de falar e a pegou nos braços. Ela se apertou contra ele, enfiando a mão dentro do roupão, deslizando-a por seu peito nu. Ela adorava tocá-lo.
- Tem certeza?
Ela gostava da forma como se comunicavam, sem palavras. E o beijou.
Ele entendeu.
Em poucos segundos, ele a levou até a cama, colocou-a deitada e se deitou ao lado dela. Seus beijos eram profundos, duradouros, quentes e desesperados, tudo o que ela apreciava. Liza tentou fazer jus àquele ardor.
- O seu roupão - reclamou Liza, quando emergiu para respirar. Ela tentou removê-lo.
- Liza, eu durmo nu - sussurrou ele, ruborizado.
O rosto dela se acendeu. Perfeito. Ela partiu para a faixa. Antes que pudesse soltar o nó, ele disse:
- Acho que você deveria se juntar a mim.
Pelo menos ele não resistia mais. Ela tirou a camisola, mas manteve o olhar sobre ele, observando-o livrar-se do roupão.
E então se abraçaram com tanta rapidez, com tanta fúria, que ela viu que ele falava sério quando disse que a desejava. O coração de Liza cantava enquanto ela explorava o corpo dele e ele, o dela.
Bem quando ela achou que não pudesse mais esperar pelo ápice das carícias, ele se afastou.
- O quê? - perguntou ela, quase não conseguindo falar.
- Não estou preparado!
- Mas você disse que me queria.
- Droga, Liza, não tenho camisinha. Eu não... Faz muito tempo...
Liza fechou os olhos para que ele não pudesse ver a dor que a dilacerava. Mas ela sussurrou:
- Tudo bem. Estou protegida.
Para felicidade da moça, Nick não hesitou depois de ouvir aquilo. Ele realizou cada fantasia dela sobre compartilhar intimidades com o homem que amava. Se não tivera certeza sobre isso, acabou tendo momentos depois, ali deitada ao lado dele, respirando profusamente, ainda envolta na união que compartilharam.
- Nick - sussurrou.
Ele jogou o braço por cima dela e a beijou suavemente. Em seguida, com a voz grave, disse:
- Durma, querida.
Para surpresa dela, foi o que fez.
Quando o alarme tocou na manhã seguinte, Nick rapidamente o desligou. Dormira melhor do que o havia feito há anos e a vontade de se aconchegar em Liza e voltar a dormir foi enorme.
Mas se Bonnie não ouvisse o barulho do chuveiro, logo subiria para ver o que tinha acontecido. Deduziu que Liza ficaria embaraçada se a empregada a visse em sua cama.
- Temos que levantar? - balbuciou Liza.
- Sinto muito, querida. Eu preciso, mas você pode dormir até mais tarde - disse Nick e em seguida beijou-lhe os lábios.
Ela abriu os olhos antes de fechá-los novamente ao sentir o beijo dele.
- Liza, não tenho muito tempo - disse ele ao final do beijo. - Esta noite...
- Então se apresse - disse ela, antes de beijá-lo mais uma vez.
Com essa oferta, ele não hesitou, ainda mais quando só o fato de tê-la nos braços o deixava excitado.
Momentos depois, deixou-a na cama cochilando e correu para o chuveiro. Foi difícil deixá-la ali, depois de se vestir. Só de vê-la deitada, fez com que um sorriso tomasse conta do seu rosto.
Quando ouviu Bonnie subindo as escadas, não teve escolha. Chegou no topo da escada ao mesmo tempo que ela.
- Estava procurando por você. Os ovos estão esfriando - disse a empregada.
- Tudo bem. - Pensou em avisar Bonnie para que não se ocupasse com seu quarto hoje, mas sabia que isso a deixaria curiosa. Decidiu não falar nada e torceu para que acordasse antes que Bonnie começasse a faxina no andar de cima.
Liza se sentia mais calma, mais segura e querida do que jamais se sentira em sua vida. Passou o dia ajudando Bonnie na limpeza e mais tarde foi para a sala onde estava o piano.
Quando mais jovem, antes de gravar o primeiro álbum e começar as turnês, escrevera algumas músicas. Nos últimos anos, essas músicas haviam desaparecido. Mas, hoje, fervilhavam dentro dela.
Curiosa e feliz, quis explorar o que estava acontecendo. Brincou com as músicas que rolavam pela sua cabeça, adicionando palavras que falavam de amor, com a imagem de Nick em mente.
Ainda tocava quando ouviu a voz dele. Deu um pulo e correu para a porta de trás, jogando-se nos braços do médico.
Nick a abraçou e o medo que Liza sentiu durante todo o dia de não ser mais desejada por ele se dissipou.
- Senti sua falta - sussurrou ele.
- Temi que você se cansasse de mim - disse ela, tocando o pescoço dele com os lábios.
Nick riu.
- Você está louca.
- Sim. Oh, Nick, vem aqui que vou lhe mostrar algo - disse ela empolgada, puxando-o pela mão.
Sentou-se ao piano e tocou e cantou sua nova canção com orgulho.
- Gostou?
- Adorei, mas nunca ouvi antes. Você já a gravou?
- Oh, não Nick, você não está entendendo. Escrevi hoje.
Ele pareceu surpreso.
- Em um dia?
- Às vezes é assim que acontece. Quando estou muito feliz, ou quando estou muito triste, ouço melodias na cabeça.
Ele a puxou do piano.
- Posso deduzir que foi felicidade o que lhe inspirou hoje? - sussurrou ele, abraçando-a.
- Claro - disse ela, erguendo os lábios para ele. Quando ele se afastou, sussurrou:
- Vamos subir.
- Bonnie não vai pensar...
- Eu cuido de Bonnie. Suba e me espere lá.
Liza ficou muito feliz por ele a querer tão cedo. Com um beijo rápido, ela sorriu para ele e correu para o andar de cima. Ela pensara nele o dia todo. Será que havia encontrado a pessoa a quem amar? Um homem que retribuiria o amor?
Ele disse que não tinham futuro juntos, mas ele a amara como se tivessem. Talvez ele viesse a se dar conta de como eram perfeitos um para o outro.
Nick entrou na cozinha. Gostava de Bonnie, talvez até como uma mãe, mas não deixaria que ela controlasse seu comportamento.
- Boa noite, Nick. Chegou cedo hoje. Quando vai querer jantar? - perguntou a empregada, sem tirar os olhos do que estava fazendo.
- Não vou querer jantar por um tempo, Bonnie: Liza e eu vamos subir. Desceremos quando estivermos prontos para comer. - Em outras palavras, não nos incomode. Ele torcia para que ela tivesse entendido.
Com um sorriso largo, ela fez um gesto positivo com a cabeça.
- Sem problemas.
- Você não vai falar mais nada?
- Se vocês estiverem felizes, eu também estarei. E já era hora. - Bonnie olhou para ele. - Amanhã, devo levar as roupas dela para o seu quarto?
Bem, isso certamente era ir direto ao assunto. Mas ele nem ao menos pensou no que responder.
- Sim, isso seria ótimo, se Liza quiser. E correu para o andar de cima.
Na sexta à noite, Bonnie foi ao cinema com a amiga.
Pela primeira vez, Nick e Liza ficaram a sós na casa. Mesmo com Bonnie não interferindo, eles tentavam sempre ser discretos.
Esta noite, Nick permitiu que Liza comesse, mas logo pegou-a pela mão e a conduziu até o andar de cima.
- Mas, Nick - protestou ela, parecendo escandalizada -, são apenas seis da tarde.
Ele a puxou para perto de si quando chegaram à base da escada e a beijou.
- Você não me quer?
- Claro que sim, seu tolo. Mas ainda está claro lá fora.
- Está escurecendo. Estamos quase no inverno. Você não se incomoda com o inverno, não é mesmo?
- Claro que não, adoro a neve.
- Ótimo. Pois os dias são curtos, o que é bom se você só gosta de fazer amor no escuro. O inverno será minha estação favorita.
Ele sorriu quando ela lhe deu um tapinha no ombro e reclamou:
- Seu tarado!
- Vamos logo, estou com pressa.
Mais tarde, estavam deitados na cama dele abraçados, satisfeitos por hora.
Acariciando suavemente a pele de Liza, ele murmurou:
- Acho que devo a você um enorme obrigado. Liza olhou para ele sorrindo.
- Bem, eu fui boa, devo admitir, mas você foi tão bom quanto eu. - A brincadeira dela atrasou um pouco a conversa, pois Nick não pôde resistir em beijá-la várias vezes.
- Não, digo por me devolver a crença na vida. Eu sonhava em ter um lar repleto de crianças e uma esposa amável, uma vida como a dos meus pais. Mas depois de Daphne... bem, não sabia se algum dia seria otimista sobre o que quer que fosse.
Como ela não se mexeu ou falou, Nick a encarou.
- Liza? Tudo bem?
- Sim - respondeu com a voz fraca. - Está com fome de novo? Bonnie comprou sorvete e ingredientes para fazermos um sunday.
- Daqui a pouco. Você já pensou em ter filhos? Sei que é mais jovem do que eu, mas...
- Pare de dizer isso! Você não é velho. - Em seguida ela subiu em cima dele e o encorajou a demonstrar sua força e virilidade.
Ele não pôde recusar aquele convite e, por isso, a conversa foi deixada de lado.
Mas ele voltou ao assunto quando tomavam sorvete, uma hora depois.
- Você não me respondeu. Já pensou em ter filhos?
- Já.
Ele franziu a testa. Não havia entusiasmo na voz dela. Quando ele abriu a boca para perguntar se algo estava errado, ela disse:
- Percebo que você quer filhos...
Nick sorriu, olhando para longe.
- Oh, sim. Os meus pais queriam muito ter netos. Minha irmã e um dos meus irmãos tiveram filhos antes de perdermos nossos pais. Mas eu gostaria de ter filhos. Para prosseguir com a família, sim, mas para mais do que isso. Quero ensinar meu filho a pescar, como o meu pai me ensinou. E adoraria uma menininha para abraçar, para levar a aulas de bale... para levá-la até o altar quando tiver de entregá-la. Mas é melhor que ele seja bom para ela! - disse Nick com firmeza.
Voltou a olhar para Liza. Ela não estava sorrindo.
- Liza?
- Mais sorvete?
Confuso, ele olhou para a tigela. Estava vazia.
- Acho que não. - Levantou-se e levou a tigela até a pia. Mas não tinha a intenção de deixar a conversa de lado. Era muito importante para ele.
Liza também se levantou e levou a tigela até a pia, embora ainda estivesse cheia de sorvete.
- Acho que vou subir para mergulhar numa banheira quente. Estou um pouco dolorida. - Liza deu um beijo em Nick e saiu, antes que ele pudesse se recompor.
Ele tem sido muito exigente nestes dois últimos dias. Quando descobriu que ela estava disposta a ficar com ele, não deu folga. Nick sentia-se culpado por ter exagerado um pouco.
Então deu a ela algum espaço. Talvez assitissem a um filme esta noite, uma comédia.
E mais tarde conversariam.
Liza deitou-se na banheira, com o rosto cheio de lágrimas. Será que em algum momento já pensou em ter filhos? Oh, sim. Mas quando tinha 18 anos e foi ao médico para pedir anticoncepcionais ele lhe dissera para não se preocupar com isso. Depois de um exame, disse a ela que com as cicatrizes da cirurgia pela qual passara quando criança seria quase impossível ficar grávida.
Liza chorou muito naquele momento. E em seguida procurou outro médico, para ter certeza. Recebeu o mesmo diagnóstico.
Ela teve uma pontinha de esperança baseada naquele quase, mas jamais tomou anticoncepcionais e continuou infértil.
Liza pensou ter aceitado o destino. Mas quando Nick começou a falar sobre filhos, a dor foi quase insuportável. Pois isso também significava o fim de suas esperanças. Se ela não podia dar a Nick os filhos que ele tanto queria, então não podia se casar com ele.
Nick devia ter tudo o que desejava. Era um homem bom, carinhoso. Seria um pai perfeito, do tipo que todo menino devia ter, do tipo que toda menininha sonhou.
Ela certamente sonhara com isso.
Tio Joe foi bom para ela, mas seu próprio pai não tinha muito interesse pela filha. Nem mesmo Jackson, seu irmão, conseguiu atrair o interesse do pai.
Quando Liza descobriu que o pai tinha um caso com Meredith - a nova Meredith, a mulher do seu próprio irmão -, que resultou no filho mais novo de Meredith, Liza parou de querer se relacionar com o pai.
Ela não tinha mais respeito por ele.
Liza guardou o segredo, mas apenas pelo bem de tio Joe. Seu pai nem ao menos desconfiava que ela sabia. Liza ouvira uma conversa entre ele e Meredith. Sua mãe não era perfeita, mas não tinha feito algo tão repugnante.
Mas Nick? Ele seria um pai perfeito.
Ela não podia negar-lhe seus sonhos.
- Você sempre soube que não tinha futuro - balbuciou baixinho. Mas isso foi antes de lhe dar o belo presente da paixão. Ele não disse que a amava, mas Liza acreditava que sim.
Assim como ela o amava.
Mas ele não conhecia os defeitos dela, especialmente o mais importante.
Houve uma batida na porta.
- Ei, você se afogou? Já está aí por tempo suficiente para ficar toda enrugada.
- É uma nova teoria dietética - disse ela, tentando disfarçar o choro.
- Como se você precisasse disso. Pensei em assistir a um filme, que tal Charada. É antigo, mas muito bom.
- Ótimo. Já estou saindo.
Ela não se mexeu enquanto não ouviu os passos dele se afastando da porta. Em seguida, esfregou água morna no rosto, torcendo para que ele não notasse seus olhos avermelhados.
Quando chegou na sala de camisola e robe, encontrou Nick lendo um periódico de medicina e uma tigela de pipoca e dois refrigerantes em cima da mesa de centro.
Nick levantou a cabeça.
- Você deve ser o ser humano mais limpo no planeta neste momento.
- É claro. É o que exijo da fama - disse ela, tentando sorrir.
- Bem, vem aqui para que eu possa lhe cheirar e fazer valer todo o esforço.
Ela não hesitou. Depois de vários beijos quentes, ela ficou surpresa quando ele a soltou.
- Vamos começar a assistir ao filme, do contrário ficaremos acordados a noite inteira. - Ele se inclinou e pegou o controle remoto.
Liza olhou para ele. Será que ele descobrira o que havia de errado com ela? Será que não a queria mais? Ela não podia reclamar, caso fosse isso, então deitou no ombro dele e esperou pelo início do filme.
Quando o filme acabou, ela concordou com ele. O filme fora maravilhoso. Ela gostaria até de apontar para o fato de o herói ter sido mais velho do que a heroína. E a heroína teve de trabalhar duro para convencê-lo que o queria, assim como tivera que fazer com Nick.
- Você gostou?
- Amei - disse Liza, sorrindo, mas sem falar nos detalhes.
- Ótimo. Pronta para ir para a cama?
Ela estava pronta para ele. Mas, depois da primeira noite, não precisou mais insistir.
Chegaram à cama sem conversa. Liza entrou debaixo das cobertas e esperou por Nick. Quando ele apagou as luzes e se juntou a ela, Liza se agarrou nele.
- Boa noite, Liza - murmurou Nick, virando de costas para ela.
Atônita, ela permaneceu ali no escuro e deu um tapinha no ombro dele.
- Acho que você esqueceu de algo - disse ela. Tudo bem, ela aceitava o fato de não terem futuro. Pelo menos tentava, mas isso não significava que tinha de dizer adeus esta noite.
- O quê?
- Você não me deu um beijo de boa noite.
- Hã, querida, não posso.
Isso a fez parar. Por que não poderia?
- Você está ficando gripado?
- Não.
- Então não me quer mais?
Isso fez com que ele virasse para ela. Agarrou a mão dela e a fez sentir por si mesmo o quanto a desejava naquele instante.
- Mas não entendo. Se você me quer...
- Você disse que está dolorida! Não sou um monstro para insistir em fazer amor se isso pode lhe machucar, querida. Estou tentando ser cavalheiro.
- Oh, Nick, eu só queria um banho de banheira. Já estou bem. Não quero um cavalheiro, quero você!
Nick jogou os braços em volta dela.
- Ei, você está dizendo que não sou cavalheiro?
Ela sorriu e o beijou. E disse:
- Estou afirmando que você é perfeito e quero você.
Ele não hesitou e fizeram um amor fenomenal. Talvez com mais paixão do que nunca, pois Liza sabia que uma hora teria de partir.
Quando Nick dormiu, ela ficou de olhos abertos na escuridão e derramou lágrimas silenciosas sobre o travesseiro.
O paraíso, com Nick, não era para ela.
Nem ao menos podia explicar o porquê. Por que ele negaria a si mesmo o sonho. Já o conhecia o suficiente para saber disso.
Então teria de ser forte e ir embora.
Mas não esta noite.
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