All content in this blog are under copyright and they are here for reference and information only. Administration of this blog does not receiveany material benefits and is not responsible for their content.

Sunday, December 19, 2010

Arlene James - Desperately Seeking Daddy p.09

CAPÍTULO IX

Pela janela aberta do quarto de Jackson era pos­sível ver a lua quase cheia destacando-se no céu, ofuscando a luz das estrelas.
Uma brisa suave soprava, refrescando a noite de verão. Mi­núsculas borboletas multicoloridas esvoaçavam ao redor dos lam­piões que ladeavam a janela.
Mas nem Jackson, nem Hellen, davam-se conta da bela noite enluarada.
Tomados pela magia de um sentimento poderoso, buscavam-se um ao outro em meio a carícias ousadas, palavras apenas sussurradas, promessas de amor entrecortadas por beijos e risos sufocados.
Hellen não saberia dizer ao certo em que momento dera seu consentimento para o ato de amor que agora se consumava. Tudo havia começado com um brinde... Depois, Jackson a abraçara e beijara longamente.
Como um fogo que corresse pela palha seca, a paixão tinha incendiado os corpos e corações, ditando os gestos e palavras sub­sequentes.
Jackson afastara-se apenas para abrir o vinho e servir as taças. E então a tomara nos braços novamente, para levá-la ao paraíso.
Da sala ao quarto de Jackson... Da relutância à entrega... Do recato à nudez. Tinham sido esses os passos que Hellen cumprira, cedendo a um desejo que era, afinal, mais forte do que ela própria.
A sensatez ia ficando para trás, dando lugar a um prazer cres­cente, a emoções que ela jamais experimentara.
Quem diria que seu coração, fechado há tanto tempo, acabaria pulsando de amor e desejo novamente?
Era isso que Hellen se perguntaria naquele instante, caso pu­desse raciocinar.
Seu corpo ansiava pelo de Jackson como uma flor necessitava de sol para viver. Aquele homem havia iluminado sua vida, dan­do-lhe um novo sentido. E agora a fazia sentir-se mulher: feliz, saciada, completa.
O amor acontecia em sua total plenitude, em seu eterno ciclo, levando os amantes ao clímax... Para então ceder lugar a uma paz intensa, a um sono reparador.
Jackson e Hellen agora pertenciam um ao outro. E nada no mundo poderia mudar esse fato.
Uma chuva forte caiu ao amanhecer, refrescando a terra se­denta. Mas, como sempre acontecia no verão, o sol saiu logo depois, prometendo um dia radiante.
Um arco-íris estendeu-se no céu de Lake City, oferecendo um belo espetáculo aos moradores que acordavam cedo para enfrentar mais um dia de trabalho.
Hellen abriu os olhos e levou alguns instantes para com­preender onde estava. Era a primeira vez, em muitos anos, que dormia fora de casa.
O contato quente do corpo de Jackson contra o seu foi a resposta perfeita para sua breve inquietação. Num relance, as imagens dos momentos passados nos braços daquele homem desfilaram-lhe pela mente.
Então não fora um sonho... Tudo havia acontecido de verdade. Ela e Jackson tinham realizado, enfim, o que tanto desejavam.
No final do arco-íris você encontrará um pote de ouro
Assim falava uma antiga lenda, que Hellen conhecia desde criança. Bem, ela não saberia dizer se isso era verdade. Mas tinha certeza de que havia sido premiada com um bem de valor incal­culável: fora escolhida por Cupido para pertencer ao mundo das pessoas felizes no amor.
Desviando os olhos do arco-íris, Hellen contemplou o homem adormecido a seu lado. Como era belo, em seu sono sereno e sem sobressaltos.
— Se soubesse o quanto te amo — ela disse baixinho, voltando a aconchegar-se em Jackson, que com um murmúrio sonolento atraiu-a para si.
Hellen fechou os olhos, invadida por uma sensação de bem-estar.
Ah que vontade de ficar assim indefinidamente, sem pensar em nada, sem ter de fazer nada, sem...
Abrindo os olhos de repente, ela interrompeu o fluxo de pen­samentos, que já ia arrastando-a de volta para o território dos sonhos.
Se lá fora havia um arco-íris, era porque já amanhecera... E se já era dia, então...
"Santo Deus", Hellen pensou, sobressaltada, caindo de súbito na realidade. Que horas seriam? Teria perdido o horário de entrar no trabalho? E quanto às crianças e Betthy... Como estariam? Certamente pensavam que ela havia dobrado o turno na creche, substituindo alguma colega.
Uma sensação de culpa ia aos poucos se instalando no íntimo de Hellen, que se esgueirava para fora da cama, tomando cuidado para não acordar Jackson.
Como pudera esquecer-se de tudo e de todos? Que misterioso feitiço Jackson possuía, a ponto de torná-la cega de amor?
"Ei, Hellen Moore..." Ela se repreendeu, em pensamento. "Não seja tão dramática. Você sabe muito bem que esse arrebatamento, essa cegueira momentânea que nos acomete fazendo-nos esquecer do mundo exterior, é uma das características principais da paixão. Portanto, nada de recriminações..."
De fato, era inútil censurar-se, àquela altura dos aconteci­mentos. Mesmo porque, não cometera nenhum ato do qual de­vesse se envergonhar. O melhor que tinha a fazer, no momento, era tomar um banho e ir para casa a fim de ver as crianças, antes de trabalhar.
Hellen encontrou suas roupas espalhadas pelo carpete, mistu­radas às de Jackson. Pegou-as e fitou-as com ar de desagrado. Seus jeans estavam amarrotados, bem como a camiseta e o avental que usava na creche. Esticou-os o mais que pôde e fez o mesmo com as roupas de Jackson, ajeitando-as sobre uma cadeira.
Agora, precisava de um banho. Mas só depois de ver as horas.
Encontrou seu relógio de pulso ao lado do de Jackson, no criado-mudo.
— Oh não — murmurou, aflita. Eram quase oito da manhã. Isso significava que não teria tempo de passar em casa, antes de entrar na Loja de Conveniências Peter Lore.
Hellen tomou uma ducha rápida e enxugou-se com uma toalha felpuda que encontrou no armário do banheiro contíguo ao quarto.
Vestiu-se o mais rápido que pôde e estava calçando os sapatos quando Jackson acordou.
— Bom dia, querida. — Ele sorria e era como se todo o quarto se iluminasse.
— Bom dia, Jackson.
— Aonde é que você vai?
— Trabalhar. Estou super atrasada.
— Venha cá... — ele pediu, abrindo os braços.
— Não posso, querido.
— Ora, um pouco de carinho não vai fazê-la atrasar-se muito mais...
— Jackson, não me olhe desse jeito...
— Só um abraço, Hellen... — ele insistiu, fitando-a com aqueles olhos negros que tão bem sabiam enfeitiçá-la. — Por favor.
Com um suspiro, ela atirou-se nos braços do homem que tanto amava:
— Você vai acabar me fazendo perder o emprego.
— É mesmo? — Ele beijou-a longamente, acariciando-lhe as costas por sob a camiseta.
— Jackson, não faça isso. Eu realmente preciso...
— Eu também preciso, meu amor... De você.
Apesar dos protestos de Hellen, as carícias foram se intensifi­cando, chamando a força poderosa do desejo, que novamente vinha cobrar seu tributo.
O mundo lá fora tornava a perder o significado. Nada mais existia, senão a busca dos corpos que se fundiam numa só alma, num só coração.
Mais uma vez Hellen chegou ao paraíso, experimentando emoções arrebatadoras, descobrindo sutilezas que pareciam não ter fim.
Ela cedeu... E como não poderia?
Era inútil lutar contra uma força tão gigantesca quanto a paixão que a unia àquele homem.
Mas Hellen não cedeu ao sono que se seguiu ao ato de amor. Com gestos delicados, mas firmes, desvencilhou-se dos braços de Jackson e disse baixinho:
— Detesto fazer isso, querido, mas realmente preciso trabalhar. Se eu continuar aqui, acabarei ficando o dia inteiro.
— Hum... — ele murmurou, de olhos fechados. — Isso seria maravilhoso, sabe?
— Concordo plenamente, mas não posso...
— Está bem. — Jackson abriu bem os olhos, fazendo um intenso esforço para não ceder ao sono. Então anunciou: — Vou levá-la até sua casa.
— Não dá mais tempo. Terei de seguir direto para a loja de conveniências.
— Mas as crianças não ficarão preocupadas?
— A esta altura, devem estar pensando que dobrei o turno na creche.
— E talvez seja melhor assim — Jackson comentou, com um suspiro. — Não gosto de mentiras, mas posso imaginar como Priscilla se sentiria, se soubesse que você passou a noite comigo.
— Vou acabar contando tudo a ela, na hora certa. — Hellen levantou-se. — Bem, agora preciso me aprontar e sair.
— Irei com você até a loja de conveniências.
— Não, Jackson. — Ela inclinou-se e beijou-o suavemente nos lábios. — Fique aqui e descanse.
— De modo algum. Faço questão de levá-la. A propósito, nós deveríamos tomar um café.
— Não dá tempo.
— A maioria das pessoas costumam se alimentar, quando acor­dam — ele afirmou, num tom bem-humorado. — Mas parece que você vive de brisa, Hellen Moore.
— Eu estou muito bem alimentada... De amor. — Ela riu e correu para o banheiro. — Durma, Jackson. Irei sozinha para o trabalho.
— De jeito nenhum. — Ele levantou-se e dirigiu-se à porta. — Vou tomar um banho na suíte de hóspedes.
Dez minutos depois, Jackson e Hellen estavam na sala do apar­tamento, prontos para sair.
— Já disse que você não precisa me levar — ela afirmou. — Posso perfeitamente ir no meu carro.
Ele riu:
— Você se esqueceu que viemos no meu carro?
— Oh, é mesmo. — Hellen levou a mão à testa. — Que cabeça, a minha! Santo Deus, será que todo mundo fica assim, no mundo da lua, quando está apaixonado?
Jackson enlaçou-a pela cintura, atraindo-a para si.
— Eu, para dizer a verdade, nem sei em que planeta me encontro...
— No planeta dos sonhos, talvez?
— Não. — Ele sorriu, beijando-a levemente nos lábios. — Fe­lizmente tudo isso é muito real.
— Jackson... — Ela desvencilhou-se com delicadeza. — Não comece a me encantar de novo, por favor.
— Está bem. — Ele ergueu a mão direita, num gesto exageradamente solene. — Eu prometo.
— Então, vamos.
— Não é melhor você ligar para sua casa antes de sairmos?
— Tem razão. Eu ia fazer isso lá da loja do sr. Lore, para não me atrasar ainda mais. Só que ele não gosta que ninguém use o telefone.
— Então, ligue daqui mesmo. — Jackson apontou o telefone sobre um console, próximo ao sofá. — Fique à vontade. — E afas­tou-se em direção à cozinha.
— Aonde é que você vai?
Ele voltou-se e sorriu:
— Estou tentando deixá-la à vontade para falar com seus filhos.
— Fique aqui mesmo — ela pediu, pegando o fone do gancho. — Não vou demorar nem um minuto. — Digitou o número de casa e logo foi atendida: — Alô... É você, Betthy?
— Hellen! — a moça exclamou, do outro lado da linha. — Graças a Deus você está viva!
— Ora, é claro que estou — Hellen retrucou, surpresa. — Por que toda essa aflição?
— Porque achamos que alguma coisa ruim houvesse lhe acon­tecido, — O alívio era evidente na voz de Betthy.
— Como assim... Achamos?
— Bem, quando recebemos aquele telefonema às cinco e meia da manhã, ficamos muito preocupados. Felizmente Davy dormiu até agora há pouco. Mas Priscilla e Cody acordaram e entraram em pânico, achando que você... — Betthy interrompeu-se. — Nem quero pensar!
— De que você está falando? — Hellen indagou, confusa. — Que história é essa de telefonema às cinco da manhã?
— Cinco e meia — Betthy corrigiu-a. — Um funcionário da creche ligou para cá, dizendo que seu carro estava lá, mas que você havia saído por volta de meia noite. E imagine só como me senti!
— Oh, Betthy... — Hellen lamentou-se. — Sinto muito por tê-la deixado preocupada.
— Preocupada? — a garota repetiu, elevando a voz. — Eu fiquei desesperada, isso sim! Comecei a chorar como uma louca e acabei acordando Cody e Priscilla.
— Quer dizer então que eles...
— Entraram em pânico, tal como já lhe disse.
— Você contou a eles sobre o telefonema?
— Claro! O que queria que eu fizesse, Hellen? Estava totalmente fora de mim e...
— Está bem — Hellen a interrompeu, exasperada. — E o que foi que aconteceu, então?
— Bem, Cody e Priscilla só se acalmaram quando Fanny chegou, dizendo que você estava bem e que logo chegaria. Claro que ela só falou isso para acalmar as crianças...
— Betthy, você chamou a minha mãe... As cinco e meia da manhã?
— Claro, oras. Eu tinha de tomar uma providência, não? Aliás, foi ela quem me recomendou que chamasse também a polícia.
— Polícia!? — Hellen repetiu, perdendo o controle. — Mas que absurdo, Betthy!
— O que houve? — Jackson indagou. — Você está começando a me deixar assustado, Hellen.
— O que foi que você disse à polícia, Betthy? — ela perguntou, com voz trêmula.
— Ora, a verdade: falei sobre o telefonema que recebi da creche e...
— E daí? — Hellen a interrompeu. — O que foi que eles fizeram?
— Saíram à sua procura. Agora mesmo há dois guardas aqui, bem perto de mim. Mas já vou tranquilizá-los.
— E quanto às crianças?
— Davy acabou de acordar e está brincando com o cordão das botas de um dos guardas. Cody e Priscilla estão na casa da vizinha, a sra. Lang.
— E minha mãe?
— Saiu para fumar um cigarro. Eu disse a ela que você detesta que fumem aqui dentro.
Um riso nervoso sacudiu Hellen. Em meio àquele caos, os ci­garros que Fanny Moore fumava seguidamente pouco importavam.
— O delegado também já avisou o sr. Peter Lore de seu desaparecimento — Betthy anunciou, interrompendo o pensa­mento de Hellen.
— Acontece que eu não desapareci! — ela gritou, à beira do desespero. — Por favor ligue para o sr. Lore agora e avise que está tudo bem comigo.
— E digo que você está onde?
— Esqueça — Hellen respondeu, com um suspiro. — Eu mesma falarei com ele.
— Certo. Espere um momento, por favor...
Após alguns segundos que a Hellen pareceram uma angustiante eternidade, Betthy voltou a falar:
— Carmody está aqui do meu lado, perguntando se você precisa de alguma coisa.
— Oh não! Você chamou Carmody também?
— Na verdade, ele estava dormindo na casa de sua mãe e daí ficou sabendo de tudo.
Hellen passou a mão pelos cabelos loiros e cacheados, num gesto de tensão e desespero.
— Diga-me, Betthy: quem mais está aí em casa?
— Alguns vizinhos ansiosos por notícias... — A garota inter­rompeu-se. — Ah, sua mãe acaba de entrar. Quer falar com ela?
— Não. Eu estou indo para aí. — Hellen desligou o telefone.
— O que houve? — Jackson indagou, assustado.
— Betthy anda vendo filmes policiais demais na TV... — ela disse, num fio de voz. — Ou será o funcionário da creche o culpado de tudo?
— Culpado de quê? — Jackson tomou-lhe a mão entre as suas. — Pelo amor de Deus, Hellen, conte-me o que aconteceu.
— Somos um caso de polícia, sr. Jackson Tyler — ela sentenciou, com amarga ironia. — A cidade inteira está a minha procura.
— Do que você está falando? — Jackson perguntou, visivelmente nervoso.
— Eu lhe contarei no caminho — ela respondeu, dirigindo-se à porta. — Você pode me levar até perto de minha casa, por favor?
— Claro.
— Veja bem, Jackson: eu disse perto e não em casa. Compreen­deu a diferença?
— Não.
— Quero você fora disso — ela afirmou, como se para si.
Minutos depois, com uma perplexidade crescente, Jackson tomava conhecimento dos fatos ocorridos na noite em que fora tão feliz.
Estava tenso e apertava com tanta força o volante do carro que os dedos lhe doíam.
— Como é possível que um ato de amor provoque consequências tão desastrosas? — ele comentou, no final da narrativa de Hellen.
— Não adianta indignar-se, meu querido. Nós sempre temos nossa parcela de culpa nas situações difíceis. A minha foi esquecer que alguém poderia estranhar o fato de ver meu carro estacionado em frente à creche. Esse pequeno, mas fatal deslize, acabou de­flagrando o caos em que agora nos encontramos.
— Mas como você poderia adivinhar que...
— Passaríamos a noite juntos? — ela completou. — Não poderia. Mas quem quer saber disso?
— Bem, vamos enfrentar essa circunstância de um modo calmo e lúcido. Em primeiro lugar, não somos culpados de nada. Em segundo, tudo o que temos a fazer é esclarecer o mal-entendido e pronto.
— Parece tão simples, não é mesmo? — Hellen comentou, com amargura. — Mas espere só para ver o que é um caos totalmente armado, sobretudo com mamãe e Carmody na liderança...
— Escute, você não está sendo exageradamente pessimista?
— Realista — ela o corrigiu. — Por favor, pare no próximo quarteirão.
— Por quê?
— Porque estamos perto de minha casa e, como eu já lhe disse, quero você fora dessa enrascada.
Ele voltou-se por um instante e sorriu:
— Você não está pensando que vou deixá-la enfrentar essa loucura sozinha...?
— Não — ela respondeu, num tom firme. — Estou exigindo que você faça isso.
— Negativo — ele discordou, num tom que não admitia réplicas. Apontando na direção da casa de Hellen, acrescentou: — Veja só quanta gente aglomerada perto do portão. Segure-se, sra. Moore, que aí vem chumbo grosso.
— Estou lhe implorando pela última vez, Jackson Tyler: vá embora e me deixe cuidar disso sozinha.
— Por quem você me toma? — Ele estacionou o sedan. — Por um covarde, ou coisa parecida?
— Eu desisto. — Hellen tomou fôlego e abriu a porta do veículo. — Vamos lá, herói. E depois não diga que não o avisei.
— Veja só, pessoal! — alguém ergueu a voz em meio às dezenas de pessoas paradas em frente à casa. — A sra. Moore acaba de chegar!
— E veio acompanhada...
— Não está com jeito de quem sofreu um assalto...
— Deus é grande! Eu sabia que ela acabaria aparecendo, mais cedo ou mais tarde.
— Vamos, dêem licença para a sra. Moore passar.
Hellen abriu caminho entre a pequena multidão, ansiosa por entrar em casa o mais depressa possível. Voltando-se, viu Jackson ser abordado por um repórter do jornal local. Pensou em voltar para salvá-lo daquele embaraço, mas naquele momento Davy sur­giu na soleira da porta de entrada:
— Ma-mãe! — gritou, com uma expressão radiante no rostinho corado.
Hellen correu para abraçá-lo:
— Oh, meu anjo, como é que você está?
Entrou em casa, levando o filho no colo... E viu-se cercada pela mãe, Fanny Moore, por Betthy, Carmody e os dois guardas. Todos a interpelavam ao mesmo tempo, deixando-a atordoada. Não pa­reciam interessados nas respostas, mas sim em fazer suposições, seguidas de novas perguntas.
— Chega! — Hellen gritou a certa altura, apertando o filho contra o peito. — Vocês querem me deixar falar, por favor?
— Senhora, não há motivo para ficar nervosa — disse um dos guardas, num tom severo. — Sua família está muito aflita e...
— E fazendo mil perguntas ao mesmo tempo, sem me dar chance de esclarecer a situação — Hellen completou, ríspida. Em seguida, esforçando-se para assumir um tom mais calmo, explicou: — Está tudo bem, pessoal. Eu... Saí logo depois de deixar o trabalho na creche e acabei perdendo a hora.
— Perdendo a hora? — Fanny repetiu, com as mãos na cintura. — Você ficou fora a noite inteira, minha filha!
— Quer me deixar terminar, por favor? — Hellen exigiu. E continuou: — Saí com o sr. Jackson Tyler e...
— Ele forçou-a a acompanhá-lo, senhora? — o outro guarda indagou.
Hellen fitou-o com espanto:
— O senhor não conhece Jackson Tyler, diretor da escola Happy Child?
— Infelizmente não, senhora. Sou novo na cidade.
— Dá para perceber — ela comentou, irritada. — Caso contrário, saberia que Jackson não é capaz de fazer mal a uma mosca, quanto mais de forçar alguém a entrar no carro dele!
— Então foi isso — Fanny concluiu, estreitando os olhos.
— Não me olhe assim, mamãe — Hellen defendeu-se. — Tenho vinte e seis anos e sou dona de mim mesma.
— Por mim, você pode fazer o que quiser... Desde que não deixe as pessoas aflitas por sua causa. — Com um gesto teatral, Fanny apontou Betthy: — Se você soubesse quanto esta pobre criatura ficou desesperada!
— E depois sou eu o inconsequente! — Carmody exclamou, num tom dramático.
— Hellen não teve culpa — Betthy opinou. — O problema foi o tal funcionário da creche, que viu o carro dela parado e, natu­ralmente, achou que alguma coisa ruim houvesse acontecido.
— Obrigada pelo apoio, Betthy — Hellen agradeceu, comovida.
— A propósito, você já ligou para lá, avisando que está tudo bem?
— Claro — Betthy assegurou. — Foi a primeira coisa que fiz, depois que você ligou para cá.
— Ótimo. — Hellen passou Davy para o colo de Betthy e pediu:
— Será que você pode preparar a mamadeira dele?
— Era isso mesmo que eu ia sugerir, Hellen. E você também deve estar faminta... A menos que já tenha tomado café com o sr. Tyler.
— Não seja ingênua, garota — Carmody fitou Betthy com uma expressão sarcástica. — Minha ex-esposa agora é uma mulher fina, do tipo que come caviar de manhã cedo.
— Não diga tolices, Carmody — Hellen repreendeu-o, ofendida. — Para seu governo, eu nem sequer tive tempo de tomar um copo de água... — Interrompeu-se e encarou o ex-marido com uma ex­pressão de desafio. — Mas por que estou lhe dando satisfações? — Voltando-se para Fanny, acrescentou: — E isso vale para você também, mamãe... Para todos vocês, aliás. Ficaram preocupados comigo? Muito obrigada... Mas agora, que já sabem o que aconteceu, tenham a bondade de me deixar em paz para cuidar de minha vida, está bem? — Estendendo a mão a um dos guardas, despe­diu-se: — Agradeço sua atenção, senhor... — Em seguida cumprimentou o outro: — Muito obrigada por tudo e até qualquer dia.
— A senhora pode assinar isto? — o segundo guarda esten­deu-lhe um papel impresso.
— Trata-se de um boletim de ocorrência — ela constatou, depois de ler atentamente o documento.
— Exato. Precisamos entregá-lo ao delegado.
— Mas aqui diz que eu estava desaparecida — Hellen protestou.
— E não foi isso que aconteceu.
— Assine de uma vez, garota — disse Carmody.
Ignorando o aparte, Hellen pediu ao guarda:
— Por favor, acrescente que tudo foi esclarecido e que nada de mal me aconteceu.
— Como quiser, senhora.
— Ah, eu quero, sim — Hellen assegurou. — Não me agrada nem um pouco a ideia de meu nome entrar na lista dos desaparecidos.
O guarda fez algumas anotações no documento e tornou a en­tregá-lo a Hellen.
— Agora sim — ela aprovou. — Pode emprestar-me sua ca­neta, senhor?
Minutos depois os guardas saíam. Hellen seguiu-os até o por­tão e, erguendo a voz, anunciou às pessoas que continuavam aglomeradas ali:
— Como vocês podem ver, eu estou muito bem. Tudo já foi esclarecido. E agora, se me derem licença, preciso trabalhar... E sugiro que façam o mesmo, pessoal. — Erguendo-se na ponta dos pés, Hellen procurou Jackson entre as pessoas, mas não o encon­trou. Teria ido embora? Perguntou-se, preocupada.
— Estou de saída, doçura.
Ela voltou-se e deparou com Carmody, que com ar superior recomendou:
— Tenha mais juízo da próxima vez.
— Olhe só quem fala!
— Eu cometo meus pequenos deslizes — ele admitiu, irônico. — Mas não ponho a cidade inteira em alvoroço, por isso.
— Dispenso a piada, Carmody.
Ele sorriu:
— Tudo bem... Não era minha intenção ofendê-la. Tenha um bom dia, doçura. A propósito, você sabe que eu estou trabalhando como garçom, naquele restaurante de que lhe falei?
— Que ótimo. Tomara que você se firme nesse novo emprego.
— Ah, eu estou muito bem, mesmo. Tanto, que ontem o maitre me pediu para fazer umas horas extras e eu aceitei. Foi por isso que resolvi dormir na casa de sua mãe, pois ganhei uma carona até lá.
Hellen fitou o homem que durante anos fora a grande paixão de sua vida. Sentia carinho por Carmody, a despeito de todas as tolices que ele havia cometido... E como não sentiria, se aquele homem era pai de seus filhos?
— Desejo-lhe sorte, Carmody. — Ela sorriu.
— O mesmo para você, doçura. — Ele afastou-se e, abrindo caminho entre o grupo que já começava a se dispersar, anunciou:
— Vocês ouviram o que ela disse, pessoal. Está tudo bem. Vamos cuidar da vida e esquecer o susto, certo?
Hellen voltou sob seus passos. Aquele pesadelo estava chegando ao fim. Mas ainda restava-lhe a nítida impressão de que sua vida fora colocada numa vitrine, para quem quisesse ver...
Entrou em casa e ao chegar à sala encontrou Jackson, Cody e Priscilla.
— Mamãe! — Os dois correram para abraçá-la.
— Olá, meus amores. — Hellen abaixou-se e aconchegou-os contra o peito.
— Resolvemos entrar pela porta dos fundos — Jackson anun­ciou. — Assim, escapamos do assédio dos curiosos.
— E a ideia foi minha! — Cody afirmou, orgulhoso.
— Mamãe, eu descobri uma coisa — disse Priscilla, num tom sério.
— É mesmo? — Hellen sorriu. — E o que foi?
— Que o sr. Tyler não é tão mau assim... Quero dizer, que ele é bonzinho demais, sabe? E se você casar com ele, eu...
— De onde você tirou essa ideia, Priscilla? — Hellen interrom­peu a filha, visivelmente embaraçada.
— Foi o Cody quem falou que você e o sr. Tyler...
— Bem, já chega — Hellen tornou a interrompê-la. Suas faces estavam coradas de vergonha. — Isto não é assunto para crianças. — Num tom mais ameno, acrescentou: — Mas fico feliz por saber que você agora gosta do sr. Tyler.
— Gosto! — a menina, repetiu, radiante. — Ele ficou brincando comigo e com Cody até agora, lá na casa da sra. Lang.
— Ela foi a minha salvadora — disse Jackson, com um largo sorriso. E explicou: — Logo que chegamos, o repórter do jornal local me abordou, pedindo uma entrevista.
— Isso eu vi — Hellen afirmou. — Mas o que aconteceu depois?
— Eu tentava me desvencilhar do tal repórter, mas não con­seguia. Olhei ao redor, como se buscasse uma saída, quando vi uma senhora debruçada na janela de uma casa. Ela acenou para mim e eu me aproximei. Então ela se apresentou como a sra. Lang e disse: "Você parece estar em apuros, rapaz. Se quiser correr para cá..."
Hellen riu:
— Esse é bem o estilo da sra. Lang.
— Ela parece uma fadinha, daquelas que existem nos contos infantis e que surgem nas horas certas para salvar os aflitos — Jackson sentenciou, divertido. E prosseguiu: — Bem, eu aceitei o convite e entrei. O repórter bateu à porta, mas a sra. Lang dis­pensou-o com uma classe admirável. Foi então que descobri que Cody e Priscilla estavam ali.
— E tudo terminou bem! — Cody exclamou, exultante. — Puxa, mamãe, a nossa vida está parecendo aqueles filmes que passam na TV!
Hellen riu para o filho e em seguida voltou-se para Jackson:
— E uma delícia ser criança, não acha?
— Ser adulto também não é nada mau... — Ele fitou-a com intensidade, como se evocasse os momentos maravilhosos que ti­nham passado juntos.
A conversa foi interrompida por Fanny, que veio da cozinha.
— Davy já tomou a mamadeira e Betthy acabou de passar um café — anunciou. Em seguida cumprimentou Jackson com um gesto de cabeça: — Como vai, sr. Tyler?
— Ora, eu não sabia que vocês se conheciam — Hellen comen­tou, surpresa.
Jackson estendeu a mão para Fanny:
— De fato, eu ainda não tive o prazer...
Ela aceitou o cumprimento e explicou:
— Eu também nunca o tinha visto pessoalmente. Mas a cidade inteira já sabe que o senhor tem andado por aí com minha filha.
— Mamãe! -— Hellen a repreendeu, chocada. — Isso são modos de falar?
— Ora, estou apenas dizendo a verdade. — Voltando-se para Jackson, afirmou: — Eu sou muito franca, sr. Tyler.
— Vovó, o sr. Tyler ficou brincando com a gente até agora — Priscilla interveio inocentemente.
— É mesmo, gracinha? — Fanny sorriu para a neta e tornou a encarar Jackson: — Vejo que o senhor já está conquistando as crianças. Assim, elas não estranharão muito quando o virem chegar todas as noites...
— Para quem se diz tão sincera, a senhora está fazendo insi­nuações bastante maldosas — Jackson retrucou secamente.
Mas Fanny não se intimidou.
— Não sou do tipo que manda indiretas, senhor. E saiba que só não estou sendo mais explícita em consideração às crianças. — Antes que Jackson pudesse replicar, ela voltou-se para Hellen e disse: — Quero ter uma conversa particular com você.
— Depois — Hellen retrucou, ríspida. Estava furiosa com a mãe e não fazia questão alguma de esconder esse fato.
— Tem de ser agora — Fanny insistiu.
— Bem, eu já estava mesmo de saída. — Jackson beijou Hellen nos lábios. — Nós nos falaremos mais tarde?
— Claro.
Ele despediu-se das crianças, deixou lembranças para Betthy e para o pequeno Davy.
— Você me acompanha até a porta, Hellen?
— Naturalmente.
— Nós também vamos levar o sr. Tyler lá fora! — disse Cody.
— Até o carro! — Priscilla acrescentou, acompanhando o irmão.
Hellen e Jackson entreolharam-se, como se dissessem: "Lá se vai a chance de desfrutarmos alguns momentos a sós."

No comments: