Quatorze
Na manhã seguinte, Liza se vestiu e foi tentar encontrar uma cafeteria próxima ao hotel. Como aprendeu a lição sobre refeições, forçou-se a comer, mas o prato ainda estava pela metade quando pagou a conta e saiu para se misturar à multidão nas ruas.
Pegou um ônibus sem nem ao menos saber para onde ia. Precisava telefonar para Bonnie, a fim se saber se Nick pusera a culpa na empregada. Quinze quarteirões depois, desembarcou e encontrou um telefone público.
- Bonnie? - disse ela quando a empregada atendeu. - É Liza.
- Deus me ajude, eu sei, querida! Onde está você? Está bem?
- Estou bem. Nick não... não ficou zangado com você, ficou?
- Não, querida, ele foi maravilhoso. Culpou a si mesmo por não ter me dito o quanto a situação era séria. Ele é um homem muito bom. E quer falar com você.
Liza prendeu o choro.
- Eu... eu não posso, Bonnie. Começaria a chorar. Isso apenas o deixaria preocupado. Juro que estou bem. Talvez... talvez depois que o homem for preso, faça uma visita.
- Ligue se precisar de algo, entendeu? Qualquer coisa. Ligue quando quiser.
- Tudo bem.
E pegou o ônibus de volta para o hotel. Perto de lá, foi até uma loja e comprou caneta e papel para que pudesse escrever música. Isso era a única coisa que evitaria que enlouquecesse.
Nick pensou que o pior havia acontecido quando Liza partiu, mas na manhã seguinte ficou sabendo de algo mais.
Quando desceu para o café-da-manhã, Bonnie tinha uma estranha expressão no rosto.
- O que houve?
Ela apontou para o jornal ao lado do prato. Ele se sentou e esticou a mão para pegá-lo quando a campainha tocou.
- Sente-se - disse Bonnie. - Não vamos atender.
Nick afundou na cadeira, olhando fixamente e boquiaberto para sua carinhosa empregada.
- Por quê?
Apontou para o jornal novamente.
- Você vai ver.
Desdobrou o jornal e viu uma foto sua, ao lado de uma foto publicitária de Liza.
- Entende agora? - perguntou Liza.
- Descobriram que Liza estava aqui?
- Sim, e há vários repórteres do lado de fora.
- Droga! - Nick se levantou e ergueu um pedaço da persiana para olhar pela janela. Bonnie estava certa. Havia vários homens munidos de câmeras encostados em seus carros. Foi até o telefone e ligou para o detetive.
- Detetive, está cheio de repórteres do lado de fora da minha casa. Algo pode ser feito?
- Bem, senhor, podemos movê-los para a calçada. É o melhor que podemos fazer. Talvez você queira falar com eles, dizer que ela ficou até se recuperar e partiu. Pode dizer que não faz idéia de onde ela esteja agora. Talvez isso faça com que eles desapareçam mais rápido do que qualquer coisa que eu faça.
Nick agradeceu. Depois de explicar para Bonnie o que ia fazer, seguiu a sugestão do detetive. Para sua surpresa, depois de várias perguntas, para as quais deu a mesma resposta, voltou para dentro e da janela observou-os partir.
E sentou-se.
- O café está pronto?
- Quer comer? - perguntou a empregada, surpresa.
- Claro que sim.
- Está pronto - disse ela ao retirar uma tigela do forno. - Você não vai ler a matéria?
- Como o título diz "Cantora Famosa em Ninho de Amor com Médico", duvido que isso vá me fazer bem. - Mastigou os ovos e pensou no porque de parecerem papelão.
Bonnie também se sentou para comer, em silêncio. Na noite passada, contara a ele sobre o telefonema de Liza.
Sobre sua recusa de falar com ele. Nick se revirou na cama a noite toda, com o estômago repleto de algo parecido com ácido de bateria.
Torcia para que Liza não visse a matéria. Certamente, os jornais de Nova York tinham assuntos mais importantes a publicar do que uma historieta dessas. Também torcia para que seus vizinhos não lessem.
Uma hora depois, soube que todas as pessoas que conhecia haviam lido. Porque parecia que todos tinham resolvido ligar para ele.
Nick suspirou. Não podia viver com aquilo. Contudo, as coisas não podiam piorar mais. Ele simplesmente esperou que o burburinho cessasse.
Até que Missy apareceu na porta do consultório.
- Doutor, tem uma moça no telefone exigindo falar com você.
- Nada de telefonemas, Missy.
- Mas ela diz que é sua ex-mulher.
Bem, talvez as coisas pudessem piorar, sim.
- Tudo bem, Missy, em que linha ela está?
- Linha 3, doutor. - Missy saiu e fechou a porta.
- Daphne, o que você quer? - resmungou ao telefone.
- Bem - disse ela irritada -, é bom ouvir sua voz, também, Nick querido.
Ele não respondeu.
- Você não está sendo muito amigável - disse ela.
- Você tem cinco segundos antes de eu desligar.
- Se quiser ver seu filho não fará isso.
O coração de Nick bateu em descompasso.
- Meu o quê?
- Lembra da última vez que tivemos um romance?
Ele se lembrava. Tiveram quartos separados por seis meses, até que ela invadiu seu quarto e o seduziu.
A reação dele não foi a que ela esperava. Na manhã seguinte, dissera a ela que queria o divórcio.
- Eu me lembro - disse ele.
- Bem, daí surgiu o pequeno Timmy. Ele tem três anos e dois meses. Sabe somar, querido?
Nick sentiu como se tivesse levado uma pancada. Um filho? Mas como podia ter certeza. Afinal, aquela era Daphne. Ele não confiava nela... nunca confiara.
- Já fez o teste? - perguntou. - Darei o meu DNA a um laboratório para ter certeza.
- Duvida de mim? - ela pareceu afrontada. - Acha que mentiria sobre algo tão importante?
- Por que não? Tem mentido para mim por anos.
- Querido, você está zangado comigo. Achei que fosse melhor esperar até que se acalmasse. Mas não esperava que fosse encontrar alguém. Esteve sozinho por todo esse tempo...
Nick logo soube o que a tinha feito telefonar. Daphne não o queria, mas também não permitiria que alguém mais o tivesse.
Mas ele não tinha a intenção de aceitar as palavras dela assim tão fácil. Mentira muitas vezes, particularmente sobre suas atividades enquanto estivera casada com ele. Houvera vários homens na vida de Daphne.
Ele queria provas.
- Bem, se você insiste, faremos o teste, querido, mas isso leva tempo e já andei falando com um repórter muito charmoso hoje de manhã. Temo que você perca clientes se eles souberem que você não está cuidando do seu filho.
- Que droga, Daphne, faremos os testes. E se provarem que o filho é meu, pagarei pensão. Mas não quero você na minha vida.
- Então está apaixonado pela cantorazinha? Ela não é meio sem graça? Você pode encontrar coisa melhor, meu querido.
- Não posso não. E, Daphne, se o teste apontar que não sou o pai você vai se ver com os meus advogados por difamação. - E desligou, cobrindo o rosto com as mãos.
Liza encontrou a matéria enterrada na página do New York Post. Sua foto publicitária estava ao lado de uma foto de Nick. Querendo guardar a foto do médico, ligou para a recepção para pedir uma tesoura emprestada. Enquanto esperava por ela no quarto, leu a matéria.
E parou de respirar.
Nick tinha um filho? Do qual ela não sabia? E sua ex-mulher queria reatar com ele?
Quando o funcionário bateu na porta, Liza atendeu sem se dar conta que estava chorando.
- Moça, você está bem?
- Estou - disse ela soluçando. Deu uma gorjeta ao rapaz, pegou a tesoura e fechou a porta.
Finalmente, admitiu que esperava voltar para Nick quando estivesse segura. Esperava que ele se casasse com ela, mesmo não podendo ter filhos. Talvez ele considerasse adotar uma criança. Liza só conseguira dormir durante as quatro últimas noites dizendo a si mesma que eles ainda tinham um futuro juntos.
Mas Nick já tinha um filho. E uma chance de ensiná-lo a pescar. Um filho com quem dividir os momentos importantes da vida e para quem prover um lar de verdade, uma mãe e um pai.
Liza não podia mais mentir para si mesma. Não havia futuro para ela e Nick juntos.
Uma forte batida na porta lhe tomou a atenção.
- Madame? Madame, por favor, abra a porta! Madame?
Ela não podia imaginar o que havia de errado, mas abriu a porta depois de olhar pelo olho mágico. Era o gerente do hotel.
- Sim?
- Madame, a senhora está bem? - O homem olhava para ela dos pés à cabeça, com uma expressão preocupada.
- Estou bem - disse ela, tentando fechar a porta.
- Madame, sabe que está chorando?
- Claro que estou chorando - disse ela, incapaz de tirar Nick da cabeça.
- Mas a senhora disse que estava bem.
- E estou! Deixe-me em paz!
Mais uma vez ela tentou bater a porta, mas o homem a segurou com o pé.
- Hã, madame, já acabou de usar a tesoura?
- Então é por isso que você veio? Precisa da tesoura de volta?
- Não, madame... mas quando alguém está zangada... bem, não dá para dizer o que ela pode fazer.
Liza o fitou. E de repente se deu conta do que o gerente falava: ele estava com medo de que ela se suicidasse com a tesoura.
- Eu não vou... aqui está a droga da tesoura - disse ela, agarrando a tesoura e socando-a nas mãos dele com força. - Agora, vá embora!
- Sinto muito - murmurou ele, saindo do quarto.
Liza bateu a porta e caiu na cama. Em seguida, teve uma longa conversa consigo mesma, relembrando-se da promessa que fizera há dias: ela sairia da vida de Nick e permitiria que ele realizasse o sonho de ter filhos.
Quando o telefone tocou, Bonnie correu para atender. Talvez fossem aqueles repórteres bisbilhoteiros, mas também poderia ser Liza.
- Posso falar com Liza, por gentileza? Bem, essa era nova.
- Não vai ajudar em nada perguntar por ela. Você sabe que ela não está aqui.
- Espere! Eu sou... ela me deu esse número. Quando ela partiu?
Bonnie pensou no que fazer. Finalmente, disse:
- Quem é? Silêncio.
Quando ia desligar o telefone, a mulher falou.
- Sou Emma Logan.
- A prima dela?
- Sim. Por favor, diga-me quando ela foi embora.
- Há alguns dias. Acho que foi na sexta-feira. Alguns repórteres descobriram que Liza estava aqui e ela teve de se esconder de novo. Você está bem?
- Sim. Mas ela disse que telefonaria quando... se ela fosse embora.
- Ela ligou dizendo que estava em segurança.
- Ela está em Nova York?
- Sim, mas... - ouviu a porta se abrir e viu que Nick havia descido. - Só um minuto. - E passou o telefone para Nick. - É a prima de Liza.
- Emily, você está bem?
- Estou bem, mas e a Liza? Ela disse que me telefonaria se tivesse de partir.
Nick ficou preocupado com o tom das palavras de Emily. Soava nervosa.
- Tem certeza que você está segura? Creio que a polícia manteria seu paradeiro em segredo se precisar de ajuda.
- Não! Não, estou bem, mas quero que Liza também esteja. Não é seguro ligar para o apartamento dela...
- Mas ela também não está lá - disse Nick. - Já ligamos. Tudo o que sabemos é que ela está em um dos vários hotéis da cidade.
- Por que ela foi embora?
- Ela decidiu que não podia ficar. Os repórteres a descobriram no hospital e ela não quis trazê-los aqui.
- No hospital? Ainda está doente? Eu pensei...
- Ela está bem. Estava fazendo trabalho voluntário na creche, usando uma peruca.
- Aquela longa que a mãe dela a fez comprar?
Nick achou que pudesse ter descoberto uma chave para o disfarce de Liza.
- De que cor era?
- Quase da mesma cor natural dela, mas chega até o meio das costas.
- Não - respondeu ele calmamente -, estava usando uma peruca loura.
- Se ela telefonar, pode pedir que me telefone?
- Claro. Mas você faz o mesmo? Diga a ela para me telefonar - pediu.
- Conversarei com ela.
Essa foi a melhor resposta que podia conseguir. Ele sabia que Emily não contaria a ele onde Liza estava se e quando descobrisse. Mas não podia acreditar que Liza se esquecera de sua prima. Nada era mais importante para ela do que a segurança da prima.
Ficou ainda mais preocupado com Liza.
Emily retornou ao restaurante, pois seu intervalo já havia acabado. Toby Atkins, bebendo café em seu banco favorito, logo perguntou:
- O que houve?
Preocupada com Liza, Emily se esqueceu da presença de Toby.
- Oh! O quê? Nada. Não houve nada.
- Achei que talvez você tivesse más notícias. Sobre os problemas de família.
Ela havia inventado uma história sobre a morte do noivo e a necessidade de ir embora.
- Hã, não. Estava ligando para a minha... irmã. Ela esta gripada. - Abriu um sorrido amarelo.
- Entendo. - Em seguida ele a surpreendeu tocando-lhe a mão sobre o balcão. - Você sabe que posso lhe ajudar com qualquer coisa, não sabe, Emma?
Ela sabia. No começo achou que isso fosse bom. Mas agora se deu conta de que tinha ido longe demais. Toby estava gostando dela. Mas o sentimento não era recíproco e não queria dar a ele idéias erradas.
O que era uma pena. Mas por alguma razão homens decididos lhe atraíam. Provavelmente porque o seu pai era assim. Joe Colton estava sempre no comando.
- Eu sei, Toby, e aprecio muito isso. Mas estou bem. Mais café?
Ele balançou a cabeça.
- Acho que já vou trabalhar. - Levantou-se e pôs o chapéu de caubói, parte do uniforme que usava. - O xerife quer que eu entregue alguns mandados.
- Tenha cuidado - disse ela sorrindo. Rezava para que Liza fizesse o mesmo.
Embora Liza acreditasse que não tinha futuro com Nick, não conseguia pensar em outra coisa. Andou pela cidade usando diferentes telefones públicos para checar as mensagens e para ligar para Bonnie. Sofreu ao ignorar a mensagem de Nick, que ligara como um médico checando o paciente, sem dúvida temendo colocá-la em apuros ao ligar de qualquer outra forma. Ela não teve coragem de ligar para ele ou até mesmo para perguntar a Bonnie sobre o filho de Nick... ou de sua ex-mulher.
Bonnie lhe dissera que detestava Daphne, mas Liza sabia que a empregada suportaria qualquer mulher pelo bem do filho de Nick.
Liza passou a ligar todos os dias por volta das dez da manhã, quando Nick estava no trabalho. Jamais ligava nos fins-de-semana.
Ouviu o primeiro toque do telefone com o coração acelerado pela proximidade de Nick. Quando ele atendeu o telefone, ela quase começou a chorar. Adorava o som da voz dele.
- Alô? Alô? Liza, é você?
- Nick - disse ela sussurrando.
- Liza, volta. Eu não consigo...
- Nick, não posso. Seria perigoso demais para você. Quero que você e Bonnie estejam seguros.
- Ramsey telefonou. O homem voltou ao seu apartamento. A polícia o perseguiu e ele correu para o meio da rua. Foi atropelado por um táxi... Liza, ele está morto.
- Eles têm certeza disso? - perguntou, sem acreditar que pelo menos parte do perigo havia acabado.
- É verdade. Eles me mostraram uma foto. Era ele. Volta, Liza.
- Não posso. Tem outros... preciso pensar! - O estômago dela revirava e sabia que ia passar mal.
Ela desligou o telefone, mas antes de pensar para onde ir, vomitou. Mesmo embaraçada, pegou um lenço e limpou a boca.
Torcia para não estar doente. Tinha que decidir o que ia fazer da vida. Amava Nick, mas não podia fazê-lo desistir do filho. E temia que a ex-mulher exigisse dele o casamento como preço pela criança.
A primeira coisa que tinha a fazer era mudar de hotel, só como precaução. Depois pensaria no que fazer.
Liza saiu do hotel para ligar para Emily durante o intervalo de trabalho da prima. Depois de uma breve conversa, Liza ligou para a casa do tio em Prosperino. A empregada atendeu.
- Inez, é Liza. Tio Joe está?
- Menina, todos estão preocupados com você! Onde você está? Até sua mãe já ligou procurando você.
- Eu sei. Estou em Nova York. Chame o titio.
- Só um minuto, querida. Vou ver se o encontro. Liza esperou pacientemente pelo tio.
- Liza? É você? - A voz forte e grave do tio lhe encheu os ouvidos e ela suspirou aliviada.
- Sim, tio Joe. Você está bem?
- Levando em conta as circunstâncias, acho que sim. E você? E quem é esse médico?
- Só um médico, tio. Nada de mais.
- Ainda está na turnê?
- Não, fiquei tão preocupada com Emily que não me cuidei. Vai levar um tempo até que eu possa cantar novamente. - Mudou de assunto. - O que eles descobriram sobre a pessoa que tentou lhe matar?
- Quase nada. Estou mais preocupado com Emily... temo que a tenhamos perdido - disse ele, num tom de lamento.
Liza se sentiu mal por deixá-lo sofrer quando sabia que Emily estava bem... por enquanto.
- Não perca as esperanças, tio Joe. Nós a encontraremos.
- Volte para casa, Liza. Se não estiver em turnê, você pode...
- Não, não posso. Você conhece mamãe.
- Tudo bem, mas ligue novamente, está bem?
- Ligarei. Cuide-se.
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