CAPÍTULO 12
Aquilo era um erro, um completo erro.
Mas lhe parecia tão maravilhoso.
Sophie sentiu que River a levantava em seus braços e não protestou. Era difícil protestar quando tinha os lábios selados pelos de River e afundava convulsivamente os dedos em seu cabelo.
Sentiu depois que a deixava delicadamente na cama, que roçava com as costas a suavidade da colcha. River continuava a seu lado, enquanto lhe rodeava com os braços, incapaz de deixá-lo partir.
Aquilo não era amor. Era necessidade. Aquela era uma forma de liberar o medo, a tensão emocional e a dor. Aquilo era desejo, desejo de ser abraçada, de sentir-se desejável, de fazer desaparecer todos os pesadelos. Isso era o que ela necessitava. Necessitava que tudo desaparecesse, que as carícias de River o fizessem todo em pedacinhos. Que seus beijos, o calor de suas mãos e sua força a protegessem.
Mas também havia uma fome mais profunda no interior de Sophie. Uma fome que nunca tinha deixado aflorar à superfície, pelo menos não com tanta intensidade. Desejava devorar e ser devorava.
River deslizava as mãos por seu corpo, riscava pequenos caminhos de fogo sobre sua pele. Lhe cravava as unhas nas costas, tentando alcançar sua pele através do tecido da camisa. Faminta.
River afundou a língua nas profundidades de sua boca; Sophie sentiu o roçar de seus dentes contra os seus como se estivesse cercando um duelo com ele, batalhando pelo domínio do momento, por tomar o que tanto queria, o que tão desesperadamente necessitava.
As roupas de ambos desapareceram; não saíram ilesas daquela batalha, mas não importava. A roupa se podia substituir, e naquele momento só era uma barreira, um impedimento para seu desejo. Se fosse por ela, poderiam continuar nus durante os cinqüenta anos seguintes. E se isso não era possível, ao menos durante os minutos seguintes. Minutos, segundos, momentos fugazes, breves como um batimento do coração. Instantes velozes que devoravam o tempo para poder sustentar, conservar aquele momento.
Sophie gemeu quando River abandonou seus lábios. Mas imediatamente sentiu sua boca sobre seus seios, saboreando e lambendo seus mamilos.
— Sim — sussurrou com voz rouca e os olhos fechados por medo de que a realidade se atrevesse a olhá-la, se atrevesse a destruir aquele instante com a mais sutil insinuação de sensatez. — Sim, River... por favor.
Algo ardente e selvagem formava redemoinhos em seu ventre, arrastava-a à vida enquanto River amamentava seu seio. Sophie estava disposta a deixar-se moldar atendendo a seus desejos. A renunciar a tudo, a qualquer coisa, contanto que não se detivesse.
Sua mente girava em espiral, completamente fora de controle enquanto River a beijava. Enquanto beijava seu ventre plano, seus quadris...
“Me ajude a esquecer”, suplicava-lhe Sophie mentalmente. “Não quero sofrer nunca mais, não quero ter medo. Me ajude a esquecer. Me ame, River, me ame”.
River despertou lentamente. Ao mover-se, fez uma careta. Sentia-se como se tivesse passado uma semana montando a cavalo. Tinha todos os músculos doloridos, débeis, e mesmo assim, sentia-se satisfeito.
Sentiu o calor de Sophie contra seu corpo; dormiram abraçados, sentia a curva de suas costas contra seu ventre. E continuava abraçando-a... Um de seus braços descansava sob seu corpo enquanto o outro a rodeava protetoramente sua cintura.
River se moveu ligeiramente para frente e afundou o rosto em seu cabelo. Sophie cheirava tão bem. À flores silvestres. Era uma mulher silvestre, selvagem. Uma mulher que se entregou até o esgotamento, e uma mulher que lhe tinha arrebatado tudo o que ele tinha, e inclusive mais.
E sem dizer uma só palavra de amor.
River esboçou uma careta enquanto afastava o braço de debaixo dela, e não pela dor provocada pela tensão de seus músculos, mas sim pelo que lhe causava saber que o que tinham compartilhado não demonstrava nada, salvo que eram dois seres humanos com uma intensa paixão.
O pior era saber que Sophie o odiaria quando despertasse, quando abandonasse o sonho e fosse consciente de tudo o que tinha feito, de tudo o que tinha permitido.
Porque tinha ido procurá-lo doída, desesperada, e ele se aproveitou de seu sofrimento para levá-la a sua cama e abrir-se até ela através de sua dor.
A primeira explosão de paixão tinha arrastado aos dois, mas, uma vez sufocada, Sophie se tinha ficado horrorizada. E sabia que naquela segunda ocasião também o abandonaria, também fugiria de seu lado.
Mas ele não estava disposto a permitir-lhe. Não podia permitir-lhe.
Mas estava seguro de que na manhã seguinte o odiaria. Embora não soubesse nada mais sobre Sophie, tinha a certeza de que o odiaria porque a havia visto vulnerável. Droga. Sairia fugindo de seu lado sem saber o que necessitava, mas sabendo que estava ferida e que ele podia aliviar sua dor.
De modo que seria delicado com ela. Falaria com ela, a acariciaria, utilizaria todas suas habilidades, toda sua experiência para tranqüilizar a animais assustados, animais enérgicos e ao mesmo tempo feridos. Ganharia sua confiança e depois voltaria a amá-la; a seduziria lenta, delicadamente, até que se derretesse entre seus braços para terminar ficando profundamente dormida.
Não, isso não era certo. O que Sophie sabia era que ele não podia arrumar as coisas. Que não podia estalar os dedos e conseguir que Meredith fosse a mulher que em outro tempo tinha sido. Dizer umas palavras mágicas e fazer que aquela casa voltasse a ser um lugar para a alegria. Não podia fazer desaparecer sua cicatriz, nem volatilizar seus pesadelos, nem demonstrar que havia outro caminho que podia afastar o da tristeza e levá-la para o sol.
Apoiado sobre um cotovelo, River afastou uma mecha de cabelo da bochecha de Sophie, deixando descoberto aquela cicatriz que não significava nada para ele e, entretanto, significava tanto para ela. Chegaria o dia no qual Sophie se desse conta de que aquela cicatriz era muito menos importante que sua maneira de ver a si mesmo? River odiava que escondesse aquela ferida com seu cabelo, ou que inclinasse a cabeça ou a voltasse quando alguém a olhava.
River não podia abraçá-la e lhe dizer que a amava porque ela não acreditaria. Como ia acreditar? Acaso tinha ido procurá-la quando tinha abandonado o rancho? Tinha-a seguido à cidade? Havia-lhe dito uma só palavra quando tinha aparecido no rancho com o anel de noivado que lhe tinha dado Chet Wallace?
Não, não tinha feito nada. Uma e outra vez, tinha-a deixado partir. Porque não tinha nada que lhe oferecer, salvo seu amor e seus sonhos. Porque tinha um passado escuro, muito orgulho e os bolsos vazios.
River tinha tido que lutar contra seus próprios demônios, contra seus próprios pesadelos. Contra a perene sensação de não ser querido, de ser rechaçado por aqueles que amava. Tinha tido que dominar a raiva que o sustentava.
E, sobretudo, tinha tido que reconhecer que era um filho adotado, que devia a Joe e Meredith Colton tudo o que tinha... E aquele dever o obrigava a conseguir o que fosse o melhor para sua filha.
Sophie o tinha açoitado até a indigestão quando era uma adolescente apaixonada, e o tinha enlouquecido ao crescer e converter-se na mulher mais bonita sobre a que tinha posto os olhos, tanto física como espiritualmente.
De algum jeito, tinha-o feito tudo por ela; tinha-a afastado de seu lado, tinha-a obrigado a partir, a estudar, a crescer.
Mas jamais tinha pensado que se apresentaria no rancho com um anel de noivado no dedo.
Tinha sido então quando River se aproximou por fim de Joe, com a carta do banco no bolso, e lhe tinha pedido que lhe vendesse umas terras para levantar nelas uma casa e seus próprios estábulos. Porque precisava ter algo próprio para poder dar tudo a Sophie. Precisava ser um homem independente, um homem que pudesse olhar Joe Colton nos olhos quando pedisse Sophie em casamento. Um homem que pudesse lhe prometer que sempre cuidaria dela, que a protegeria, que a manteria a salvo... E que seria capaz de cumprir sua promessa.
River sorriu enquanto desenhava o perfil do ombro nu de Sophie com as gemas dos dedos, perguntando-se o que pensaria ela se pudesse ver a casa que estava construindo e os estábulos já terminados, que só estavam esperando a chegada dos cavalos.
Estava convencido de que se alegraria muito por ele. Mas lhe acreditaria se lhe dissesse que tinha feito tudo aquilo por ela? Acreditaria que tinha passado as noites sonhando em que Sophie estaria esperando-o cada vez que saísse daqueles estábulos? Acreditaria que lhe bastava fechar os olhos para ver-se montando com ela a cavalo, ou sentado a seu lado no balanço que pensava colocar no alpendre, ou sorrindo ao ver o pequeno que entre os dois criariam?
O sorriso de River se tornou em um sorriso de pesar, mas sacudiu a cabeça e riu com ironia. Claro. Acreditaria em tudo o que lhe dissesse. E depois o fustigaria. Porque tinha perdido sua oportunidade.
Sophie se estirou a seu lado. River a observou abrir os olhos e viu imediatamente o horror que refletia seu olhar enquanto seu corpo inteiro se esticava pela impressão.
— Oh, meu deus — gemeu Sophie, e enterrou seu rosto contra o travesseiro. — Oh, Sophie, tornaste a fazê-lo. Uma vez não tinha sido o suficiente? E como lhe pensa explicar isso nesta ocasião?
Evidentemente, pensava que estava sozinha.
— Bom dia, Sophie — disse River. Sophie voltou a gemer. — Dormiu bem?
— Vai para o inferno — balbuciou ela. Agarrou o travesseiro, e o atirou à cabeça e começou a lhe dar patadas. — Sai daqui, sai daqui!
River fez uma careta que em qualquer outro momento Sophie teria encontrado divertida.
— Sabia — disse River, levantou-se da cama e estendeu a mão para o seu jeans. — Os remorsos da manhã seguinte. Se não fosse tão previsível Sophie, acredito que me sentiria ofendido.
— Não me importa que se sinta ofendido — replicou ela com a voz amortecida pelo travesseiro. — Sai daqui e bata a porta para que eu possa saber que se foi.
— De acordo. Quer um café? Ovos com bacon?
— Não.
— Nesse caso, acredito que me irei montar um pouco.
— Sim, é o melhor — disse Sophie com veemência.
Da porta, River a viu levantar-se da cama arrastando o lençol e envolver-se nele como se fosse uma túnica.
Sophie se deteve a meio caminho do banheiro. Ficou muito rígida e o fulminou com o olhar.
— É um rato imundo!
— E você é linda — respondeu ele. — Tão rosada, tão cálida, com o cabelo revolto emoldurando seu rosto... Suponho que não gostará...
— Exato, não — lhe confirmou Sophie.
Mas a seu pesar, apareceu em seus lábios um sorriso. Um sorriso que desapareceu no momento no que levou a mão à bochecha. Sem dizer uma palavra mais, desapareceu no interior do banheiro. O som do ferrolho soou no cérebro de River como o disparo de uma bala.
— Não pudeste encontrar a ninguém mais, né? — disse River, abrindo a porta da caminhonete para que Sophie, com a cabeça bem alta, pudesse entrar.
— E não será porque não o tenha tentado — respondeu Sophie em um sussurro. E fixou o olhar à frente enquanto ele fechava a porta e rodeava a caminhonete para chegar à porta do condutor.
Era segunda-feira pela manhã e Sophie passou a maior parte dela pedindo a todo mundo, suplicando, que a levassem a Prosperino à sessão de reabilitação.
Nunca se teria imaginado que toda sua família pudesse estar tão condenadamente ocupada, ou que pudessem ter tantos motivos para não ajudá-la durante duas horas.
— Já sei que te levei na semana anterior, Sophie — lhe havia dito Emily — mas tenho que ir a Hopechest ajudar a Rebecca. O prometi. Além disso, supunha-se que River é quem tinha que te levar.
Quando tinha batido na porta do dormitório de Amber, esta a tinha aberto com sua juba loira envolta em uma bolsa de plástico.
— Sinto-o — lhe havia dito. — Estou me pondo umas mechas. Não posso te acompanhar assim, porque senão todo mundo se daria conta de que meus reflexos supostamente naturais necessitam de vez em quando da ajuda de uma tintura. Além disso, supunha-se que quem tinha que te levar era River.
Quando seu pai se desculpou lhe dizendo que não podia acompanhá-la porque estava esperando uma importante chamada internacional, ele, um homem que fazia séculos que não emprestava atenção a seus negócios, e tinha terminado sua negativa com um “além disso, supunha-se que quem tinha que te levar era River”, Sophie tinha começado a compreender que estava sendo vítima de um complô.
Mas, é obvio, não ia dizer isso a River. Porque não falaria com ele embora lhe estivesse ardendo a garganta e ele tivesse o único recipiente de água nos próximos cinqüenta quilômetros.
Fechou a boca e continuou em silencio durante... durante quinze compridos e insuportáveis minutos.
— Foi você, não é? Foi você que disse a todo mundo que procurasse algo para fazer para que tivesse que me trazer você — o acusou, voltando-se no assento e fulminando-o com o olhar. — Admite-o, tem-no feito, não é? Pois quero deixar clara uma coisa — acrescentou com calor — prefiro vir andando até aqui a que tenha que me trazer para reabilitação.
— Se pudesse vir andando a reabilitação, Sophie, não necessitaria de reabilitação — assinalou River. Diminuiu a marcha e se dirigiu para o acostamento. — De todas as formas, se quer tentar...
— Não se atreva a parar! — explorou Sophie, e apoiou a cabeça no assento. — Oh, rendo-me. Rendo-me, Riv. Sei que é absurdo discutir contigo. Não joga limpo. Nunca jogaste limpo.
— Eu jogo para ganhar, Sophie — respondeu ele, enquanto aproximava a caminhonete do estacionamento. — Você, entretanto, não joga nada absolutamente.
— A vida não é um jogo,
— Não, querida, — disse River enquanto estacionava — definitivamente não. Ambos sabemos, não é? E, entretanto, a vida é para ser vivida.
— O que pretende dizer com isso? — perguntou Sophie, desejando não sentir-se tão impelida a perguntar.
— O que quero dizer é que agora não está vivendo nada absolutamente, Soph. Está se escondendo. Esconde-se das pessoas por culpa de sua cicatriz. Porque esse assaltante te tem feito desconfiar de qualquer um que meça vinte centímetros mais que você e não seja da família. O que quero dizer é que está guardando o segredo de Meredith não porque ela lhe tenha pedido isso, mas sim porque tem medo do que possa acontecer se Joe e o resto da família por fim virem a verdade, e a verdade é que Meredith está perdendo lentamente a cabeça. Quero dizer, Sophie, que entre você e eu há algo verdadeiro, algo que não pode ignorar por mais que queira e que, antes ou depois, também terá que te enfrentar a isso. E agora vai para reabilitação. Voltarei dentro de uma hora.
Sophie pestanejou para conter as lágrimas enquanto alargava o braço para a porta.
— E a ti quem te disse que está qualificado para dar uma consulta de psicólogo, doutor James? Grande psicólogo... Nem sequer é capaz de dirigir sua própria vida.
Sophie abriu a porta, mas River a agarrou pelo braço, lhe impedindo de sair da caminhonete.
— Oh, não, não vai, Soph. Não pode deixar sair algo assim e depois partir. O que é o que te parece mal de minha vida?
Sophie se voltou, fulminou-o com o olhar e lhe dirigiu um sorriso perverso.
— Está brincando, não é?
— Sophie...
— Oh, de acordo. Me diga uma coisa, lobo solitário. Quando deixou pela última vez que alguém se aproximasse de ti? Alguém que não seja sua irmã, né? Fala de confiança, River, mas você não confia em ninguém. Sempre está esperando que a gente te abandone, e quando não lhe abandonam, afasta os outros de seu lado. Sua mãe morreu e te abandonou, sua avó levou Rafe e Cheyenne, mas não a você. Seu pai te pegava, assim que as autoridades lhe tiraram sua tutela, e seu pai nunca retornou, nunca tentou corrigir-se. Diabos, inclusive é possível que se alegre de te haver perdido de vista, não é?
— Sophie, não me faça isto...
— Que não te faça isto? Por que não? Ultimamente te vejo muito ocupado em me dizer as coisas que não vão bem em minha vida. Por que não podemos falar das que foram mal na sua? Chegou ao rancho furioso e irritável, e todo mundo andava te contemplando, tentando te conceder seu próprio espaço. Pobre River. Oh, pobre River. Todo mundo tinha que tomar cuidado com ele. Eu estive a ponto de me romper o pescoço tentando estar perto de ti e a única coisa que fez foi me afastar de seu lado.
— Precisava partir. Precisava ter novas experiências. Tinha que ir à universidade, tinha que ver realizados seus sonhos.
— E você não? Você alguma vez sonhaste comigo, Riv? Alguma vez me desejaste?
— Sabe que sim.
Sophie sacudiu a cabeça violentamente.
— Pode dizer a ti o que quiser, Riv, mas não minta para mim. Todo mundo no rancho tinha medo de você. É solitário, o adolescente com problemas, o homem duro... Mantinha a todos à distância. Sim, fazia-o então de uma forma muito óbvia, e agora continua fazendo-o, embora de maneira muito mais sutil. Tem trinta anos, Riv. Quando vai te dar conta de que a gente te quer, de que não vamos te abandonar? Quando vai deixar de ter medo de mim? Não é que não possa me amar, Riv. É que não sabe como amar a ninguém.
River lhe soltou o braço e Sophie o olhou durante uns longos segundos, sendo testemunha da dor que refletiam seus olhos. Uma dor que ela tinha posto ali.
— Não te incomode em me esperar. Já sou uma mulher adulta. Sei como chamar um táxi.
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