CAPÍTULO 14
Sophie irrompeu nos estábulos, perguntando-se se ainda deveria fazer uma lista de todas as razões pelas quais deveria colocar River James em uma lata de alcatrão, cobri-lo de plumas e expulsa-lo da cidade.
Podia começar pelo fato de que seis dias atrás a tinha deixado sozinha depois da sessão de reabilitação. Claro que lhe havia dito que se fosse, mas por que tinha tido que lhe fazer caso?
A razão número dois era que tinha estado ignorando-a desde que ela lhe tinha ocorrido abrir sua boca para lhe dizer todas aquelas coisas horríveis. De acordo, algumas podiam ser verdade, ao menos do ponto de vista de River, mas ambos sabiam que só estava tentando lhe machucar.
E a terceira era que não lhe tinha dado oportunidade de desculpar-se, maldito fora. Na terça-feira pela manhã se tinha ido a uma exibição de cavalos e não havia retornado até quinta-feira de noite. Mas não tinha aparecido por casa nenhuma só vez depois.
Era desprezível! E não era que ela quisesse ir aos estábulos enfrentar-se com ele. Era que River a estava obrigando a fazê-lo! River tinha que saber que não suportava o quão mal tinham ficado as coisas entre eles.
Seria essa a quarta razão? Havia quatro, e dez, e milhares de razões para estar zangada com ele.
E um milhão de razões para estar zangada consigo mesma, e envergonhada de si mesmo. Embora aquele não fosse o momento de pensar nisso. Porque, se o fizesse, perderia sua coragem e iria esconde-se em seu quarto.
— Drake? — perguntou ao ver seu irmão. — Esteve nos estábulos? Sabe se River está lá?
— River? Não, Sophie, acredito que está na casa.
— Não, em casa não está. Eu venho de lá.
— Ah, sim? E o que te pareceu? É pequena, mas vai ser muito parecida com a casa principal. Com dois pisos, uma zona central e duas alas para os quartos.
Sophie olhou para seu irmão com expressão zombadora.
— Do que está falando?
— Da casa. Da casa de River — disse Drake. Sorriu lentamente ao dar-se conta de que Sophie não sabia do que lhe estava falando. — Não tem a menor idéia do que te estou falando, não é?
Sophie negou com a cabeça, incapaz de articular uma palavra.
— Pergunto-me por que não te haverá... Bom, mas isso não é meu assunto, não é? — continuando, Drake lhe falou das terras que River tinha compra, dos estábulos que tinha construído e da casa que estava fazendo. — E não lhe disse isso?
— Não — respondeu Sophie, contendo as lágrimas. — Eu... suponho que ia ser uma surpresa. Oh, não importa. Obrigado de qualquer forma pela informação, Drake. Nunca gostei muito de surpresas — adiantou a seu irmão e se dirigiu para os estábulos.
— Aonde vai, Sophie? Já lhe disse, Riv não está lá.
— Vou montar. O fisioterapeuta me disse que já posso fazê-lo, assim vou dar uma volta.
— E já sabe aonde vai?
— Oh, claro que sim, — murmurou para si enquanto assentia — claro que sei.
Louise estava sentada em sua cadeira favorita, mas não parecia cômoda. Tinha os pés firmemente apoiados nos tijolos do jardim e os joelhos muito juntos. E se aferrava com tanta força à cadeira que tinha os nódulos brancos.
— Louise, relaxe — lhe disse a doutora Wilkes, levantando-se de seu assento e colocando-se frente a seu paciente. — Não vou indagar muito, prometo-lhe isso.
— Sei — disse Louise, suspirando e olhando a fonte que permanecia silenciosa no pátio. — Mas o que ocorrerá se voltar alguma lembrança má? Ou se voltar meu outro eu...?
— Louise, ainda não estamos seguras de que tenha múltiplo personalidade, lembra? Essa é a razão pela qual quero te hipnotizar, te fazer voltar para o passado, procurar em sua memória. Porque isto poderia ser unicamente um caso de amnésia induzido por algum trauma ou por alguma ferida. Durante todos estes anos, conseguimos fazer alguns progressos, mas não muitos. Sobre tudo porque te aconteceste a maior parte desses anos lutando contra mim, apesar de que me pedia ajuda. Estamos chegando ao final da terapia e provavelmente esta seja a única porta que fica por abrir. Agora, a única questão é, confia em mim, Louise?
— Sabe que confio em ti, Martha. Está certo, vamos tentar. Ligue-a.
Martha estendeu a mão para a fonte e conectou o interruptor que a punha em funcionamento. Manteve o rosto deliberadamente inexpressivo ao ver que Louise se encolhia ante a vista e o som da água.
— Muito bem, Louise. Fixe o olhar na água. É muito tranqüilizadora. E é muito bonita, não é?
— Sim, é bonita — confirmou Louise começando a relaxar.
— Sim, assim relaxe. Está relaxando, não é, Louise? Todas suas preocupações vão desaparecendo pouco a pouco. Se fixe no som. É adorável. É como estar ouvindo a chuva na primavera enquanto está ainda na cama. Tem sono, Louise? Pesam-lhe as pálpebras. Por que não fecha os olhos, Louise? Isso. Fecha os olhos e escuta a água. Escuta a água e a minha voz. Não há nada mais, Louise, nada salvo o som da água e minha voz.
Louise piscou um instante, mas voltou a fechar os olhos. A doutora Wilkes também os fechou, tentando tranqüilizar seus nervos. Ela e Louise tinham estado trabalhando técnicas de relaxamento durante toda uma semana, de modo que não lhe ia resultar difícil levar a sua paciente aonde pretendia.
— De acordo, Louise — disse ao final de uns segundos. — Agora vamos retroceder. Vamos voltar para outro jardim, à outra fonte. Vê-os? Pode ver o jardim? Vê a fonte?
Louise assentiu e disse fracamente:
— Sim, sim, vejo-os.
— E você está ali? Está no jardim, Louise?
— Sim.
— Magnífico. E o que está fazendo?
— Estou cantando — disse Louise, e apareceu em seus lábios um sorriso. — Estou cantando. As duas estamos cantando... É uma canção infantil.
— Uma canção infantil, quem está contigo? Uma menina?
Louise franziu o cenho e fechou os olhos com força.
— Uma menina pequena. E se parece comigo — disse com a voz quebrada pela tristeza. — Se parece comigo...
— Mas não é você, verdade, Louise? Quem é essa menina? Pode lhe perguntar como se chama?
Louise inclinou a cabeça, como se estivesse tentando ouvir algo.
— Eu... não posso ouvi-la. Mas ainda está cantando. É uma canção muito graciosa. Nos duas estamos rindo.
— E agora está cantando, Louise? Segue cantando? — perguntou a doutora Wilkes ao final de uns segundos ao ver que desaparecia o sorriso de sua paciente.
— Como te chama, pequena? Por que me olha assim? Por que estamos cantando?
Louise tinha começado a fazer suas próprias perguntas e a psicóloga conteve a respiração, sabendo que se a incomodasse naquele momento podia por tudo a perder. Assim esperou e observou Louise enquanto esta escutava e assentia.
— É um bonito nome. Tem sorte de ter um nome tão bonito. Esse era o nome de minha avó.
A doutora Wilkes arqueou as sobrancelhas surpreendida. Não só sabia o nome da menina, mas também o da avó. Aquele sim que era um autêntico progresso.
— Louise, pode perguntar a essa menina quem é e por que está contigo no jardim?
Deu-se conta de seu engano assim que as palavras saíram de sua boca. Louise se esticou como se estivesse ficando em guarda. Estava pressionando-a muito.
— Louise, não o pergunte, ainda não. Continua no jardim, cantando com essa menina. Desfrute do momento.
Louise abriu os olhos e a doutora Wilkes pôde ver o medo em suas profundezas.
— O que aconteceu? Onde está a menina? Não quero que esteja aqui. Não quero que esteja. Não, você não!
— Louise! — disse a doutora, com sua forte voz, tentando voltar a controlar sua paciente. — Já é hora de voltar. Tem que abandonar o jardim.
— Minha mãe diz que não fale contigo — continuou. — Diz que está louca, que temos que te esquecer. Eu não quero, mas é o melhor, não é? Isso era o que você queria. Eu queria dizer a ele, mas nunca encontrei o momento oportuno e agora é muito tarde. Está morta. Tenho a carta que me enviaram do lugar onde estava, a carta o diz. Disseram-me que estava morta. Não me olhe assim. Não suporto que me olhe assim! Me fale, Patsy. Patsy, o que está fazendo em meu jardim!
— Louise, Louise! — repetiu a psicóloga, e desconectou a fonte. — Já está bem. Estamos sozinhas você e eu. Me escute. Agora tem que voltar.
A doutora continuou com todo o procedimento e suspirou aliviada ao ver que Louise pestanejava várias vezes, abria os olhos e perguntava:
— O que aconteceu? Disse algo?
— Não, nada importante — respondeu a doutora Wilkes, sabendo que aquele não era o momento de dizer-lhe. Só visitamos um jardim, isso é tudo. Vamos muito devagar, Louise.
Louise assentiu, levantou-se e foi para a mesa para servir um copo de limonada para cada uma delas.
— Como se chamava sua avó, Louise? — perguntou a doutora, com fingida indiferença.
Louise continuou servindo a limonada.
— Sophie, por quê?
— Não, por nada — disse a doutora, e esperou que Louise se desse conta do que acabava de lhe dizer.
Não demorou muito em fazê-lo.
Um dos copos de limonada transbordou e a limonada terminou empapando o chão. Louise, alheia ao ocorrido, voltou-se para a doutora.
— Como posso saber algo assim? Mas se não recordava nada de minha família!
— Às vezes, depois de uma sessão, surgem inesperadamente algumas lembranças e desta vez demos sorte. Mas não é algo de que tenha que preocupar-se. Quer que te ajude a arrumar esse desastre?
Louise franziu o cenho ao ver a limonada no chão.
— Oh, nem sequer me tinha dado conta. Vou procurar umas toalhas de papel.
A doutora assentiu, mas permaneceu onde estava, tentando repassar todo o ocorrido.
Sophie. A menina se chamava Sophie. E Louise havia tornado a referir-se a “ele”. Um homem que tinha tido um importante papel na vida dela, mas quem podia ser?
E o mais importante, como tinha aparecido Patsy naquele jardim? Uma Patsy completamente adulta, se tinha interpretado bem o que havia dito Louise. Mas Patsy era o verdadeiro nome de Louise... Além disso, Louise tinha comentado que Patsy estava morta. Inclusive tinha insinuado que tinha recebido uma carta em que lhe anunciavam sua morte.
Teria visto Louise a sua outra personalidade naquele jardim? Ou teria visto a si mesma, o seu lado mau, aquele que estava tentando esquecer? Aquele diagnóstico lhe parecia mais verossímil que o das múltiplas personalidades, mas ainda não podia estar segura. Ainda não.
Mas fosse o que fosse o que Louise tivesse visto, Martha Wilkes sabia que por fim se estavam aproximando. E sabia que, como tinha prometido a Louise, não podiam parar até que tivessem todas as respostas.
River caminhava de quarto em quarto, surpreso pela velocidade com a que tinha avançado a obra durante as duas semanas que tinha passado sem vê-la. Não tinha querido aproximar-se por ali estando seu futuro no ar e tendo que enfrentar a tais mudanças de atitude de Sophie que não sabia se lhe contar da casa era o melhor ou quão pior podia fazer. Encontrar o momento oportuno era o fundamental. E se tivesse pedido o empréstimo a Joe no ano anterior, provavelmente a essa altura Sophie e ele já estariam casados.
E, em troca, por sua falta de decisão, Sophie tinha estado a ponto de ser assassinada, tinha rompido seu compromisso com Chet Wallace e possivelmente estava grávida dele e o odiava com toda sua alma.
River subiu os degraus de dois em dois para aproximar-se da suíte principal. Bom, não era exatamente uma suíte, mas sim o maior dos três dormitórios e o único que tinha banheiro próprio. Os encanamentos eram brancos. A banheira e a ducha tinham sido colocadas semanas atrás e acabavam de instalar a pia dupla, de cor verde pálida, os armários de madeira branca, o toalheiro de bronze e a cerâmica que rodeava a banheira e a ducha. Também tinham instalado os grifos de cobre, e todos eles funcionavam.
Tinha ficado muito bom. Melhor do que esperava. Ele não estava muito convencido de que teria que colocar uns ladrilhos especiais ao redor da banheira, duas dúzias de ladrilhos com um colorido desenho de flores silvestres, mas o construtor lhe havia dito que às mulheres gostava dessas tolices.
River imaginou Sophie inundada naquela banheira, rindo e lhe falando enquanto ele se barbeava na pia. Ela quereria que se barbeasse cada noite antes de deitar-se, para que não arranhasse sua tenra pele quando a beijasse, quando fizesse amor com ela.
River sacudiu a cabeça, tentando apagar aquele pensamento e desceu de novo para o térreo. Faltavam só umas semanas para que pintassem as paredes e envernizassem a madeira do chão, pensou enquanto se dispunha a sair da casa.
— Eu gosto.
River se voltou bruscamente e deixou cair a chave com a que estava a ponto de fechar a porta.
— Sophie? — perguntou surpreso, ao vê-la apoiada contra um dos pilares do alpendre. — Como soube?
— Um passarinho me disse. Um pato, para ser exata. Já sabe o quanto gostam de grasnar.
— Foi Drake. Sabe, para ser um tipo que se supõe que está acostumado a guardar secretos por seu trabalho, tem uma boca muito grande.
— Tem sorte de que me tenha passado parte do aborrecimento vindo até aqui. Por que não me contou nada? Quando pensava em me dizer isso?
River não respondeu. Recolheu a chave que tinha caído e voltou a abrir a porta.
— Quer que lhe mostre a casa?
— Claro, por que não? Já estive vendo os estábulos. Não são tão grandes como os do rancho, mas estão muito bem.
— Obrigado — disse River, e imediatamente fez uma careta. Estavam falando como se fossem só dois conhecidos, em um tom amável e ridiculamente educado — Veio à cavalo? Quem te disse que pode voltar a montar? — perguntou, tentando levar a conversa a um nível mais pessoal.
Sophie passou por ele para entrar na casa.
— Meu fisioterapeuta, e se tivesse estado em casa, teria-te informado. Deu-me permissão depois da sessão da quarta-feira. Na quinta-feira de noite, Ines me preparou meu bolo favorito para celebrá-lo. Mas, é obvio, essa noite tampouco jantou em casa
— Quer seguir jogando sal na ferida? — perguntou-lhe River, seguindo-a enquanto passava do salão à sala de jantar, e dali à cozinha. — Sinto muito, não sabia.
Sophie se aproximou da pia para apreciar a janela que tinha em cima.
— Uma vista magnífica. A pia de minha casa está em frente de uma parede branca, odeio isso. E o chão também gosto. É autêntico?
— Quase — respondeu River. — Tem o aspecto de tijolo, é mais forte que o tijolo e se limpa facilmente. Uma boa idéia, tendo em conta a quantidade de porcaria que trago sempre para casa.
— E alguma vez te ocorreu tirar as botas antes de entrar em casa? — perguntou Sophie, deslizando o dedo pelo dispensador de gelo do congelador. Afinal, apoiou-se contra o mostrador, olhou River, desviou o olhar e umedeceu os lábios. — E o que tem no andar de acima?
— Você, — respondeu River quedamente — é a única coisa no que penso. Só penso em você, Sophie.
Sophie fechou os olhos e suspirou.
— Sim, claro. Bom, suponho que o piso de acima terá que esperar para outra ocasião. Prometi a Rebecca e a Emily que... que iria ver um filme com elas esta noite. Assim, vou indo.
Só pôde dar dois passos antes que River a agarrasse pelo braço.
— Temos que arrumar isto, não acha, Sophie?
— Possivelmente, — respondeu Sophie, evitando seu olhar — mas não até que não saiba...
— Já fez algum dos testes?
— Não, — replicou Sophie, e elevou os olhos ao céu — não fiz nenhum desses testes. E só porque haja... — interrompeu-se bruscamente, mas River terminou a frase por ela.
— Só porque tenha tido um atraso. É isso o que ia dizer, Sophie?
Sophie atirou o braço, tentando escapar de River.
— Isso não significa nada! Sofri um trauma. Minha vida virou de cabeça para baixo em mais de um sentido durante as últimas semanas. Você, mamãe, todo o desastre do rancho. É impossível que um corpo submetido a tanta tensão se comporte normalmente, não se dá conta?
— Poderia estar grávida, Sophie, não é certo?
— Não, não posso!
— Sim, claro que pode, admite-o. Por que não faz então algum desses testes?
— Como pode me fazer uma pergunta tão estúpida? Se fizesse um desses testes, como poderia saber... como poderia estar segura de que você...? Oh, maldito seja, me deixe em paz!
— Se case comigo, Soph, por favor, se case comigo. Não faça o teste, não o averigüe, se case comigo e viremos os dois a viver aqui.
Sophie sacudiu a cabeça.
— Não posso, de verdade, não posso. Assim não.
Voltou-se e começou a afastar-se, e River lhe permitiu partir. Sempre lhe deixava partir, mas aquela vez, não permitiria que fosse muito longe.
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