Quatro
Ele percebeu a tensão aumentar sem ao menos precisar tocá-la. Ele quis dizer que ela esquecesse da pergunta, pois o mais importante era relaxar. Mas também queria saber se não estava ajudando Liza a quebrar alguma lei. Então esperou.
- Você prometeu que não falaria nada - ela lembrou.
- Não vou ajudar você a burlar a lei, Liza.
Liza sacudiu a cabeça.
- Eu não estou... eu não faria isso.
- Então responda a minha pergunta. Liza hesitou e disse:
- Acho que é Emily.
- Sua prima? A prima que você acha que foi seqüestrada? Por que não contou à polícia?
- Eu... é complicado.
- Como assim?
- Não tenho certeza que seja ela, e se for, não sei qual a situação dela no momento.
- Como a situação dela ficaria pior se a polícia soubesse? Certamente, você não acha que a polícia faria algum mal a ela, acha?
- Não - sussurrou -, mas eles podem fazê-la voltar para casa.
A resposta dela o fez parar e ainda levantou mais dúvidas.
- Então, você acha que alguém na família causou o problema?
Ela deu de ombros e desviou o olhar.
- Liza, o que você diz não faz sentido.
Ela olhou para ele com os olhos cheios de lágrimas.
- Esse é o problema. Ninguém vai acreditar nela se... se o que acho que aconteceu for verdade. Ninguém.
- Você vai.
- Doutor...
- Acho que é hora de você me chamar de Nick, Liza. Já fomos muito além do relacionamento médico/paciente.
- Sei que me tornei um problema, Nick. Aprecio muito tudo o que fez por mim.
- Sim, bem, vamos voltar ao assunto. Por que você é a única que acredita em Emily?
- Porque a história dela não faz sentido.
- Veja bem, Liza, estou tentando ajudá-la, mas você não está me ajudando - disse ele, frustrado.
- Você está certo. Sinto muito por ter tomado seu tempo. Telefonarei para seu consultório para deixar um endereço para o envio da conta.
- Você quer que eu vá embora?
- Eu não posso lhe explicar a situação e entendo o porquê de você não querer se envolver.
Nick se levantou e pôs as mãos nos bolsos.
- Tudo bem. Tenho certeza que você... que droga, Liza, o que você vai fazer? Não posso deixá-la aqui sozinha. E se aquele homem voltar? Quer que eu ligue para o detetive Ramsey e peça para enviar um policial?
- Não! Eu... eu me viro sozinha.
- Sei disso! Você e os seus 45 quilos - balbuciou ele.
- Eu peso mais que isso - retrucou ela.
- Vai voltar para Nova York?
- Acho que não.
Ele a observou, tentando descobrir o que fazer. Lentamente, ele disse:
- Acho que você devia desaparecer.
- O quê?
- Se você tivesse para onde ir e não ser achada, exceto por Emily, pressupondo que a sra. Tremble seja mesmo Emily, seria o melhor a fazer, não acha? Só por alguns dias.
- Mas não conheço um lugar assim - disse ela com a voz fraca.
- Mas eu conheço. Um lugar onde você estará segura e terá alguém para ficar de olho em você até que se sinta melhor.
- Onde? - perguntou Liza.
- Na minha casa.
Com os olhos arregalados, ela tentou se afastar dele.
- Eu não vou morar com você. Você tem sido bom para mim, mas eu não... Sexo não faz parte desse negócio, dr. Hathaway.
Liza fitou aquele belo homem sentado ao lado dela e, de repente, sentiu-se muito mais vulnerável. Ela havia tirado a calça para dormir, mas agora estava arrependida.
A reação dele às palavras dela foi interessante. Chegou a ficar ruborizado.
- Não foi o que eu quis dizer! - disse ele. Liza empinou o nariz.
- Eu tenho uma empregada, a sra. Allen, além de uma casa enorme, que estou reformando. Há muito espaço e Bonnie - a sra. Allen - sempre reclama de tédio. Você podia ficar no quarto de hóspedes e ter alguém com quem conversar.
- Não, obrigada. - Ela tentou não demonstrar a reação do corpo. Há muito tempo não se interessava pelo sexo oposto. Fora noiva uma vez, certa de ter encontrado o amor verdadeiro.
Até que sua mãe pagou para que ele saísse de sua vida.
Robert achou que 1 milhão de dólares no bolso era melhor do que a esperança de um dia vir a herdar a fortuna dos pais de Liza.
Desde então ela passou a pensar que amor verdadeiro não existia e não quis mais se relacionar com homens. Até que o dr. Hathaway veio ao seu encontro. Ela nem ao menos sabia a razão dele ter se tornado tão importante assim, mas o fato de o médico despertar nela algum interesse já era mais que um aviso.
- Então, você vai para outro hotel? Se tiver metade da fama que minha enfermeira diz que você tem, será reconhecida.
- Vestirei um disfarce e usarei outro nome.
- Com cartões de crédito com seu nome verdadeiro? Como pagará as contas?
- Tiro dinheiro num caixa eletrônico - disse Liza.
- Isso pode funcionar por algum tempo. Exceto se a sra. Tremble for sua prima e telefonar de novo. Onde você vai dizer que estará? Você não tem tempo.
- Pare! Você está... você está sendo difícil! - ela exclamou frustrada. Liza sabia que agia por impulso, por isso não planejava nada. Sua mãe não parava de lembrá-la o quanto era importante para a carreira dela, por ela jamais saber planejar as coisas.
O problema era que a carreira era mais importante para a mãe do que para ela. Agora, o médico bom que a protegera desapareceu e se tornou alguém insistente, assim como sua mãe. Ele pareceu surpreso quando ela lhe disse isso.
- Não sou, não... Bem, talvez eu seja, mas para o seu próprio bem.
- É o que minha mãe diz. Nick parou para pensar e disse:
- Eu não quis aborrecê-la. Por que não se veste e vamos para a minha casa? Quando você conhecer a sra. Allen, não terá dúvidas sobre minhas intenções.
- Tenho que esperar pelo telefonema de Emily.
- Então ligarei para Bonnie e você fala com ela. - Ele se esticou para pegar o telefone.
- Não! Não quero você no telefone. Emily pode ligar.
- Eu poderia descer e pegar o meu celular no carro, mas não é necessário. - Discou zero. - Operadora, minha amiga, sita. Colton, está esperando uma ligação importante. Você poderia interromper se eu estiver fazendo uma ligação local? - Ele parou e em seguida completou: - Ótimo, muito obrigado.
Desligou o telefone e olhou para ela.
- A operadora prometeu que me interromperá caso alguém ligue para você. Posso ligar para minha empregada agora?
- E se houver uma emergência? - ela não pôde deixar de perguntar.
Nick abriu o paletó e revelou o pager.
- Eles conseguem minha atenção assim.
Liza notou que ele esperou pela aprovação dela antes de pegar o telefone de novo, deixando a escolha para ela. Algo que sua mãe nunca havia feito.
Ela concordou, sem falar nada. Toda aquela conversa deixava sua garganta irritada. Além disso, se ela começasse a falar, talvez não tocasse em outro assunto a não ser a gratidão que sentia pelo comportamento dele. Comportamento normal. Isso revelaria a ele como o relacionamento com sua mãe era difícil.
Nick cumprimentou a pessoa que atendeu com carinho. Em seguida, explicou rapidamente que um amigo estava preocupado em dar trabalho ficando na casa dele. Pediu à empregada que confirmasse que ela não se importava e entregou o fone a Liza.
- Alô? - disse ela com a voz rouca.
- Alô, sou a sra. Allen, empregada de Nick. Ficarei muito feliz em recebê-lo aqui. Nunca tenho muito o que fazer.
- Mas ele disse...
- Você é uma mulher! - exclamou a empregada, interrompendo Liza.
- Sim - disse ela, esperando pela explicação da empregada.
- Sinto muito, mas tem sido tão... digo, adoraríamos tê-la conosco.
Então o doutor também tinha lá os seus segredinhos? De alguma maneira, aquilo a fez se sentir melhor, embora devesse tê-la preocupado.
- Sra. Allen, sou paciente do dr. Hathaway, não uma amiga. Espero que isso não lhe incomode...
- De jeito nenhum, querida. Aqui é muito tranqüilo. Você descansará bastante. Espero que ele tenha dito que estamos reformando a casa. Mas há um intervalo nas obras no momento. As chuvas atrasaram o trabalho dos pedreiros e eles não voltarão por umas duas semanas. Estará bem tranqüilo aqui.
- Entendo. Tem certeza que não se importa?
- De jeito nenhum. Você estará... ah, o quarto de hóspedes é muito privado.
Liza sabia exatamente o que a mulher queria saber. E queria ter certeza de que não haveria nenhum mal entendido.
- O quarto de hóspedes será perfeito, obrigada, sra. Allen.
- Ótimo. O que eu devo fazer para o jantar? Há algo que você não come? - A voz da mulher estava repleta de entusiasmo.
- Oh, sinto muito, tenho que ficar aqui até que receba um telefonema, então é melhor não contar comigo para o jantar. Mas eu como de tudo.
Nick pegou o telefone e sua mão, quente e enorme, cobriu a dela. Ela deu um pulo com o toque dele. Já havia descoberto que gostava. Até demais.
- Bonnie, pode arrumar uma cama para Liza? - Depois de mais alguns detalhes, desligou o telefone. - Tudo bem?
- Eu lhe pagarei o que...
- Eu é que deverei lhe pagar. Bonnie está tão empolgada por ter companhia. Ela fica muito sozinha. - Nick sorriu e um calor confortante invadiu o corpo dela.
- Certamente você está exagerando. - Ela desviou o olhar.
- Vou pára a sala. Vista-se e desceremos até o restaurante para comermos algo enquanto aguardamos pela sra. Tremble.
- Não! Talvez eles não...
- Diremos à operadora que transfira a ligação para lá.
Nick parecia estar no controle de novo. Mas ele não se mexeu até que ela concordasse. Um gesto pequeno, mas uma grande mudança se comparado às técnicas de sua mãe.
Nick andava de um lado para o outro na sala da suíte. O que ele estava fazendo? Por que estava se envolvendo nesse cenário tão complicado?
Porque ela precisava de ajuda, talvez? Porque era linda? Porque ele estava entediado com sua vida? Esse pensamento o surpreendeu. Fazia-o soar um tanto quanto a sra. Allen. Como se cuidasse de um ferimento, ele examinou essa idéia de ângulos diferentes.
Nick amava o trabalho, amava ajudar as pessoas. Mas, na verdade, a maioria dos seus casos não era assim tão interessante. Ocasionalmente, ele viajava para obter opiniões de outros médicos, mas nos últimos tempos não tivera nem um caso desafiador. Tudo bem, ainda assim ele curava as pessoas.
Por outro lado, Nick não tinha uma vida social. De vez em quando jogava golfe com os amigos, e nenhum deles se preocupava em lhe arrumar uma namorada. Talvez porque ele recusara tanto quando eles se ofereceram logo depois do divórcio.
Ele tinha sonhos de uma vida tranqüila em Saratoga Springs, vivendo com uma mulher amável, criando uma família, assim como foi com os seus pais. Ambos já haviam morrido, mas ele tinha dois irmãos e uma irmã vivendo por perto, todos com suas famílias.
Nick estava sozinho e pretendia permanecer assim. Daphne o curara de suas fantasias sobre a vida. A realidade era... Não, ele ainda não era tão cínico assim. Amor verdadeiro ainda existia, ele tinha certeza. Mas talvez não para ele.
O choque de adrenalina que tomou conta de Nick quando Liza o acusou de esperar por sexo voltou. Tudo bem, amor talvez não seja uma possibilidade, mas sexo com certeza era. Ele não desejava uma mulher há um bom tempo.
Talvez porque você se escondeu da vida, ele pensou.
Nick fez uma expressão de desgosto. Não precisava de auto-analise agora. Tudo bem, Liza era linda. E, de acordo com a enfermeira, talentosa.
A porta do quarto se abriu.
- Está enjoada? - perguntou.
- Não. Um pouco cansada, o que é ridículo, mas...
- A recuperação leva mais do que uma boa noite de sono e um cochilo, Liza. Vou ligar para a operadora novamente para pedir que transfira qualquer telefonema para o restaurante.
Liza concordou e se levantou, esperando que Nick terminasse. Em seguida, tirou um cartão de visita do bolso e escreveu nele um número.
- Aqui está o número para dar à... à pessoa que vai ligar, se você quiser.
- Obrigada - disse ela. Pegou o cartão e o colocou na bolsa. - Estou pronta.
Nick a conduziu até a porta, pois ela ainda estava fraca.
Sentados no restaurante ainda quase vazio - pois era cedo para o jantar - ele explicou para o garçom que Liza estava aguardando um telefonema importante. O rapaz assegurou-os de que traria o telefone à mesa se alguém ligasse.
- Quem é a sra. Tremble? - perguntou. Ela olhou para ele surpresa.
- Eu lhe disse...
- Não, quero dizer, o nome significa algo para você. Como você soube... - Nick olhou ao redor; não havia ninguém por perto. Antes que ele pudesse explicar, ela respondeu:
- Uma boneca com a qual Emily brincava. Foi o único brinquedo que ela levou ao se mudar para a casa do meu tio.
- Eles a adotaram?
- Sim, quando tinha dois anos. Tia Meredith e tio Joe a tratavam como se fosse uma filha biológica. Tinham um lar maravilhoso.
Nick percebeu um tom melancólico na voz de Liza.
- Você gostaria de morar lá em vez de sair em turnê?
- Não - disse ela balançando a cabeça. - Eu não posso... quero dizer, as coisas mudaram um pouco.
O garçom retornou à mesa com copos d'água e pegou os pedidos. Liza pediu uma salada Caesar de frango. Nick a persuadiu a tomar uma sopa antes da salada.
Em seguida, pediu um bife com salada e uma batata assada e percebeu que Liza o fitava.
- Não vai me dizer que é contra carne.
- Não. Na verdade eu gostava muito. Mas mamãe... ela geralmente decide o que eu como.
- Por que você a deixa fazer isso?
- Detesto admitir. Sinto-me como uma tola.
- Fale-me.
- Eu desisti. É mais fácil comer o que ela determinar do que brigar. Eu também não me importo muito com o que como.
- E ela faz muita questão?
Liza fez que sim com a cabeça e tomou um gole de água.
- Mas você é quem tem o talento. Ela não pode nada sem você.
Liza desviou o olhar.
- Eu sei, mas não tenho alternativa. Adoro música. Até gosto de cantar. Pelo menos gostava. Mesmo agora, enquanto estou no palco, tudo é mágico. Mas a imprensa, as viagens e a pressão estão me matando. Achei que se cooperasse minha mãe amoleceria. Tinha apenas 16 anos quando comecei. Eu precisava disso - tia Meredith também - eu queria fugir.
A explicação de Liza gerou mais dúvidas do que respostas. Nick já havia percebido a tendência teimosa dela. Por que ela não a revelara para a mãe? A mulher era difícil, mas por que Liza desistiu tão facilmente? Por que quis fugir?
Nick estava prestes a perguntar quando o garçom retornou com a salada dele e a sopa de Liza.
Ela parecia empolgada com a sopa e Nick resolveu esperar. Liza precisava recompor às forças.
Mas ele era o único preocupado com isso.
Segundos depois de Liza começar a comer, uma mulher idosa se aproximou.
- Você é Liza Colton? É, não é? - disse a mulher, esticando-se para tocar na diva.
Nick quis impedir que a mulher tocasse nela, mas Liza sorriu e esticou a mão para cumprimentá-la.
- Sim, sou eu mesma.
- Oh, querida, ouvi você cantar há poucos dias. O meu marido me levou como presente de aniversário de casamento. Oh, como chorei; sua voz é muito linda.
- Fico feliz por você ter gostado - disse Liza.
- Oh, parece que você está gripada. Que tristeza! Ainda consegue cantar?
Nick já havia perdido a paciência.
- A srta. Colton está tentando aproveitar o jantar. Obrigado por vir até aqui, mas ela precisa...
- Oh, claro! - disse a mulher, e Nick respirou aliviado. Mas em vez de ir embora a mulher começou a mexer na bolsa.
- Ah! Aqui estão a caneta e o papel. Posso lhe pedir um autógrafo? - sorriu para Liza.
Quando Nick estava prestes a ficar de pé, Liza o parou apenas com um olhar. Assinou o papel rapidamente e sorriu de novo para a mulher.
Quando a mulher finalmente partiu, Nick soltou um suspiro.
- Você foi muito paciente. Liza abriu um sorriso amarelo.
- Eu sei. Mas ela não fez por mal.
- Precisa comer enquanto a sopa está quente.
Sem argumentar, Liza continuou a tomar a sopa. Nick imaginou se ela comparava as ordens dele com as da mãe. Essa idéia não o agradava, mas alguém precisava cuidar dela!
Comeram em silêncio até que ele não pôde mais suportar.
- Eu soei como sua mãe? Não quis passar por cima de você, mas quero que se recupere logo.
- Eu sei.
Ela não respondeu à questão.
- E então?
Liza olhou para ele e sorriu.
- Não, não soou como minha mãe. E a sopa está uma delícia.
O garçom os interrompeu.
- Srta. Colton, telefonema para você. - Deixou o telefone sem fio com ela e se afastou.
Nick percebeu a tensão nela.
- Alô?
Os ruídos no telefone foram claros para Nick. Ele quis atirar o telefone para longe dali.
- Não, mãe, ainda não estou bem. O médico insistiu que eu descansasse por duas semanas.
Os ruídos continuaram.
- Não, vou para o apartamento de Nova York, mas não atenderei a porta ou o telefone. Se for algo importante, deixe uma mensagem. Do contrário, não ligue.
O protesto da mãe foi longo e difícil, mas Liza ouviu sem interrompê-la. E disse:
- Sinto muito, mãe, mas essas são as ordens do médico e não vou arriscar minha voz.
O protesto continuou. E Liza disse:
- Preciso ir agora, mãe. Falo com você em duas semanas. - Desligou o telefone e acenou para o garçom. O rapaz se aproximou e pegou o aparelho.
Liza olhou para Nick.
- Obrigada pelas suas excelentes ordens.
- Elas são mesmo necessárias, Liza. Sua voz é sensível e precisa de descanso.
- Eu sei - sorriu. - Mas acho que parecia a Lauren Bacall essa noite. Você não acha?
Ele adorava o jeito dela. Prestes a flertar com Liza, para sua surpresa, foi interrompido mais uma vez pelo garçom.
- Srta. Colton, outra ligação.
Se fosse a mãe mais uma vez, ele atiraria o telefone para longe. Mas pelo olhar de Liza era outra pessoa.
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