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Friday, December 17, 2010

Kasey Michaels - Adorado Lobo – um intruso no eden p.04

CAPÍTULO 4
Sophie tinha fugido para seu antigo quarto e se derrubou sobre a cama a chorar. Tinha sido uma verdadeira tormenta de soluços, gemidos e uivos. Não chorava assim desde os anos da adolescência.
Na noite em que River a tinha rechaçado.
Os comentários de Meredith lhe tinham feito tanto dano como aquela horrível navalha. Mais possivelmente. Não havia palavras que pudessem explicar até que ponto se desmoronou Sophie, como se tinha entregue por fim à desolação de ver como todas as coisas que andavam mal em sua vida pareciam unir-se de repente contra ela, ameaçando destroçá-la. Depois dos primeiros dias que tinha acontecido o assalto, uma vez desaparecidos as piores dores, Sophie tinha conseguido exercer um rígido controle sobre suas reações e seus pensamentos. Não podia permitir que seu pai se desse conta de quão assustada estava. De que se sentia violada, humilhada.
Era consciente do impotente que se sentia Joe por não ter sido capaz de proteger sua filha, de mantê-la a salvo de todo perigo. Tinha estado a seu lado durante duas semanas, a primeira no hospital e a segunda quando Sophie tinha retornado a seu apartamento, preocupando-se em todo momento por ela e assumindo o papel de pai e mãe de Sophie na ausência de sua esposa.
Sophie tinha tragado as lágrimas quando tinha compreendido, pouco a pouco, que Chet lhe tinha tomado a palavra. Não a chamava por telefone e tampouco se apresentou em sua casa com intenção de vê-la. Embora sim, era certo que lhe tinha enviado uma nota lhe dizendo que a queria e que estava esperando que entrasse em razão.
Aquilo lhe tinha doído. Entrar em razão? Isso era o que pensava? Que tinha perdido a cabeça? Como era possível que não a compreendesse? Que ninguém a compreendesse? Tinha perdido muito mais que a razão.
Quando seu pai tinha entrado procurando-a em seu dormitório e a tinha consolado com seu abraço, Sophie lhe tinha contado o que Meredith lhe havia dito. Não deveria havê-lo feito, sabia. Mas a dor que sentia era tão assustadora que não tinha sido capaz de ocultar de seu pai que sua própria mãe pensava que tinha o rosto completamente desfigurado.
— Sua mãe está doente, pequena — lhe havia dito Joe. — Está doente do acidente. Algo lhe ocorreu então que a mudou. A única coisa que tem que fazer é te lembrar de como era antes, Sophie. Todos temos que recordar à antiga Meredith, nos lembrar do muito que nos amou.
Tinha sido então quando Sophie havia tornado a recuperar o controle sobre si mesmo. Não podia suportar a desolação que refletia a voz de seu pai, a profunda tristeza que tinha estado destroçando-o lentamente durante os últimos nove anos.
Sophie o tinha abraçado e lhe tinha prometido que o recordaria, que conservaria as lembranças daqueles dias, e tinha escutado com paciência enquanto lhe dizia que em só uns dias começaria a reabilitação no Prosperino e que a preparação para a cirurgia, para a qual só faltavam cinco meses, e que eliminaria praticamente a cicatriz.
Sophie se tinha mostrado de acordo com ele em tudo, tinha-lhe assegurado que tinha razão e minutos depois o tinha observado partir arrastando ligeiramente os pés.
Ao ver seu pai, envergonhou-se de seu plano de abandonar o rancho no dia seguinte. Como podia abandonar seu pai? Como podia ter estado afastada dele durante tanto tempo? Por causa de Meredith? Possivelmente sim.
Mas havia outra razão e ela sabia.
Sophie viu essa mesma razão caminhando para ela através dos círculos de luz projetados pelos faróis de gás de ao redor dos estábulos.
Caminhava com a cabeça encurvada e o rosto escondido sob o poeirento chapéu de vaqueiro que parecia formar já parte dele. Com as mãos afundadas nos bolsos dos jeans, parecia um lobo solitário fazendo sua ronda noturna.
Ao vê-lo aproximar-se da casa, os músculos do estômago de Sophie se esticaram. River era um homem alto, magro, de ombros largos, cintura e quadris estreitos e umas musculosas pernas embainhadas em uns jeans desgastados. Movia-se com elegância, alheio à graça natural de seus movimentos.
Quando Sophie era menina, maravilhava-lhe sua cabeleira negra como a noite e a perfeição de seu rosto moreno, seus faiscantes olhos verdes e as covinhas que apareciam em suas bochechas nas estranhas ocasiões nas que sorria.
River tinha aparecido em todos seus sonhos desde que Sophie pôde recordá-los. Aquela criatura rebelde era a única pessoa do rancho que não a tinha querido imediatamente, que não parecia acreditar que fosse maravilhosa e não estava disposto a fazer algo para agradá-la.
Sophie se havia sentido imediatamente fascinada pelas sombras da vida de River, por seus segredos. River falava com os cavalos e eles pareciam escutá-lo. Era um menino selvagem, assombroso, e Sophie teria feito qualquer coisa para merecer um de seus sorrisos, uma só palavra de estima. Para conseguir que se fixasse nela, que lhe falasse, que lhe permitisse participar de uma mínima parte de sua vida.
Não, Sophie sabia que se tinha mantido afastada do rancho não porque sua família tivesse mudado. Tinha permanecido longe era porque River não a queria.
Tudo o que tinha feito depois da noite em que River a tinha beijado e depois lhe havia dito que se afastasse de seu lado, tinha-o feito para fazer River sofrer. A escolha de sua carreira, seu compromisso com Chet Wallace...
River sempre tinha sido forte. Muito mais forte que ela.
Observou-o enquanto ele levantava a cabeça e a via sentada no banco. Seus passos pareceram vacilar um instante, mas imediatamente continuou avançando para ela e se sentou a seu lado, no espaço que Sophie tinha deixado a sua direita, para que não pudesse lhe ver a cicatriz.
Na realidade, não era tampouco muito o que podia distinguir de seu rosto sob a luz artificial do farol, mas Sophie se sentia mais cômoda mantendo a bochecha escondida.
— Boa noite, Sophie. Bem-vinda a casa — a saudou River com voz suave, doce.
Era uma voz que podia acalmar a um cavalo assustado, uma voz capaz de fazer sonhar a uma adolescente enquanto narrava histórias dos nativos americanos, ocorridas antes da chegada do homem branco. Uma voz que tinha sido capaz de sussurrar o muito que aquele homem a desejava.
Sophie se limitou a assentir. Tinha a boca tão seca que parecia incapaz de mover a língua. River cheirava a sabão, a creme de barbear e a algo mais, algo indefinível, mas definitivamente viril.
— Estão te esperando em casa — disse River, estirando as pernas ante ele e inclinando a cabeça de tal maneira que a asa do chapéu continuava ocultando seu rosto. — O jantar já está preparado.
— Sei, Riv — respondeu Sophie, perguntando-se se seria possível formular frases mais concisas que as de River. Parecia que não tinha vontade de falar com ele. — Pedi a Ines que me guarde algo na geladeira, se por acaso tiver fome mais tarde. Riv, por que me disse para ir embora?
No momento em que aquelas palavras escaparam de seus lábios, Sophie se levou a mão à boca. Acaso teria se tornado louca? Como lhe ocorria perguntar algo assim?
River não se alterou. Parecia ter estado esperando aquela pergunta, desejando-a possivelmente.
—Tinha chegado o momento de que fosse — respondeu, tirando o chapéu e colocando-o a seu lado no banco. — Tinha que crescer, ver o mundo, averiguar quem era Sophie Colton — se voltou para ela e inclinou a cabeça enquanto a olhava através da escuridão. — A encontraste? Você gosta da mulher que encontraste, Sophie?
— Acreditava que sim — respondeu ela com sinceridade. — Quanto mais te odiava, mais eu gostava de mim mesma.
River se pôs a rir.
— Essa é a minha Sophie. Uma mulher capaz de pôr o mundo a seus pés.
Sophie sorriu quase sem pensar.
— Lembra-te disso? Lembra-te de que queria conquistar o mundo?
— Governar o mundo — a corrigiu River. — Justo depois de voar até Marte, encontrar a cura para o câncer e inventar um creme contra a acne que realmente funcionasse. Mas antes tinha que ganhar o prêmio Pulitzer. Sim, claro que me lembro. Tinha grandes sonhos, Sophie. Sonhos que eram muito maiores que este rancho.
— Era uma menina — respondeu com aborrecimento. — Que demônios podia saber eu da vida?
— Não, não sabia nada da vida, não é, Sophie? Mas merecia ter a oportunidade de averiguar o que estava ocorrendo fora daqui.
Sophie sacudiu a cabeça.
— O que havia fora, Riv, era um mundo muito maior, muito mais forte e muito mais difícil do que eu podia imaginar — lhe faltou ligeiramente a voz. — Me destroçou, Riv. O mundo lá fora me destroçou.
— E por isso agora voltaste para casa outra vez. Maldita seja, Sophie, como pode estar tão cômoda aí sentada, com o rabo entre as pernas?
Sophie se voltou para ele e o fulminou com o olhar.
— É um filho de... Maldito seja, Riv, cala a boca! — como se atrevia? Como era capaz de enfurecê-la até esse ponto?
— Mas voltar para casa não tem suposto nenhum milagre, não é? Joe me contou as boas-vindas que Meredith te deu. Encantadora. Muito própria dela.
— Não vou permitir que me faça mal — declarou Sophie, tentando acreditar em suas próprias palavras, tentando dizer-se que as palavras de sua mãe já não lhe doíam. — Está doente, isso é o que diz papai. O acidente de carro lhe deve ter ocasionar algum dano no cérebro que lhe mudou a personalidade. Ou possivelmente... bom, possivelmente seja a idade. Algumas mulheres sofrem transtornos muito graves com a menopausa.
— A empresa para a que trabalha não tem um anúncio sobre um tratamento hormonal substituto? — disse River com um sorriso irônico. — Seria magnífico que pudéssemos acreditar de verdade o que prometem os anúncios. Basta utilizar um produto para conseguir tudo. Realmente, o trabalho dos publicitários resulta elogiável.
Sophie apertou os punhos.
— Se já riu suficientemente de minha carreira...
— Suficientemente? Não, ainda ficam algumas quantas coisas das que rir, mas suponho que de momento é melhor deixá-lo. De qualquer maneira, admite-o, Sophie, consegui que se esquecesse dessa bochecha que estava tentando me ocultar faz uns segundos.
Sophie levou rapidamente a mão à bochecha e voltou a cabeça.
— Nunca jogou limpo, não é, Riv? — perguntou-lhe, fixando o olhar na noite e lutando contra as lágrimas. — Eu... não sabia que te tinha desiludido a carreira que escolhi.
— Foste trabalhar em uma das emissoras do Texas, depois pensava trabalhar em uma das cadeias de televisão ou em um dos periódicos da família Colton. Queria ser como seu pai, um dos poucos políticos que de verdade ajudaram às pessoas. E de repente, inteiro-me de que está inventando slogans para pastas de dente... Vá, não me parece uma grande contribuição à humanidade.
— Não o compreende — respondeu Sophie, esquecendo-se uma vez mais da cicatriz — Esses eram sonhos, Riv. Sonhos de uma adolescente.
— E de verdade você gosta de seu trabalho?
— Claro que eu gosto de meu trabalho! — explorou Sophie, agarrando sua bengala e se levantando. — Eu adoro o que faço!
— Que estranho. Não é isso o que me disse Rand.
Sophie voltou a sentar-se.
— Rand? Não sei o que quer dizer.
— De não é? Sabe, Sophie? Antes nunca mentia para mim.
Sophie se mordeu o lábio um instante e perguntou:
— O que te contou Rand?
— Rand me contou que o tinha procurado pouco depois de ter se comprometido com Wallace, porque Wallace queria que deixasse essa agência e montassem uma entre os dois. Disse-me que não estava muito entusiasmada, em parte porque Wallace estava falando de formá-la a partir de sua experiência e seu dinheiro, mas também porque estava pensando em deixar o mundo da publicidade.
— E em vir aqui a escrever um livro — terminou Sophie por ele. Supunha-se que era um segredo, mas, ao que parecer, todo mundo sabia.
— De não é? Quer escrever um livro? Rand não me disse nada.
— Não deveria lhe haver contado nada de nada — estalou Sophie, tentando dissimular sua vergonha. — O consultei como advogado, não como irmão.
— E Rand me contou isso porque sabe que me importo — respondeu River com aquela voz capaz de tranqüilizar à besta mais selvagem, mas que em Sophie desatou uma nova onda de fúria.
— Que te importo? Oh, por favor, Riv — disse com amargura. — Se realmente te importasse, nunca teria deixado que... Oh,maldito seja.
— Parece que voltamos ao começo, não é? — perguntou River, lhe acariciando o braço.
— Sim, suponho que sim. Fui porque me disse que era melhor que me afastasse e agora volto e o primeiro que faço é vir te buscar. Dez anos, Riv, e parece que não aprendi uma maldita coisa.
River permaneceu em silencio durante um longo momento e Sophie começou a relaxar, recordando aqueles cômodos silêncios que estavam acostumados a compartilhar, aqueles momentos nos quais estar com Riv sob o céu estrelado, compartilhando seu mundo, era mais que suficiente.
— Meredith é uma estúpida, sabe? — disse River por fim. — É uma mulher linda. Inclusive com os olhos inchados e todas as feridas e arranhões que cobriam seu rosto, continuava sendo a mulher mais bonita que nunca conheci.
Sophie fechou os olhos, tentando assimilar suas palavras.
— Esteve lá? Viu-me?
— Levei seu pai a São Francisco assim que nos inteiramos do que te tinha passado. De modo que sim, vi-te. Vi-te e rompi o nariz desse estúpido do Wallace por ter deixado que fosse sozinha para casa. Não lhe contou isso ele?
— Não, não sabia — respondeu Sophie.
Recordava vagamente a visita de Chet, e sim, era possível que levasse uma atadura sobre o nariz. Mas a verdade era que estava tão preocupada com seu próprio aspecto e tão zangada com ele, que praticamente não o tinha visto direito.
— Deu-lhe um murro, River? De verdade lhe deu um murro?
— Suponho que precisava pegar a alguém. E seu apaixonado me pareceu a pessoa mais conveniente.
— Mas ele não teve a culpa do que aconteceu — disse Sophie, perguntando-se pela primeira vez se, possivelmente, só possivelmente, essa fosse a razão pela qual ela não tivesse querido vê-lo... e pela qual Chet tampouco tivesse mostrado intenção de ver a ela. — Fui eu a que decidiu ir do restaurante.
— Mas ele deixou que partisse.
— Sim, isso é verdade. Mas não foi ele o primeiro homem que me deixou partir, não é? Em qualquer caso, não quero seguir falando disto — disse Sophie, esfregando o braço para se proteger do frio — A única coisa que quero é esquecer tudo o que ocorreu.
— Estupendo — se mostrou de acordo River. Voltou a colocar o chapéu de vaqueiro, levantou-se e lhe tendeu a mão. —Vamos, podemos falar desse livro que pretende escrever.
— Possivelmente em outro momento — respondeu Sophie, embora aceitou sua mão e permitiu que a ajudasse a levantar-se. — Ainda é só uma idéia, Riv, e eu gostaria de conservá-la em segredo.
— Antes me contava tudo, inclusive todas essas tolices que um adolescente não quer ouvir. Lembra-te de que até pretendia me ensinar seu primeiro sutiã?
Sophie baixou a cabeça e sorriu.
— Era um autêntico pesadelo, não é? Bom, pois te prometo que não voltarei a te perseguir, de acordo?
River se voltou para ela e lhe levantou o queixo com o indicador.
— Não sei. A verdade é deixou de ser muito aquele pesadelo permanente. Sobre tudo porque se converteu em uma mulher linda.
Sophie voltou a cabeça para que não pudesse lhe ver a cicatriz e se separou dele.
— Não faça isso, Riv — lhe suplicou. — Não minta para mim. Você nunca mentiu para mim.
River a agarrou pelos ombros e a obrigou a olhá-lo.
— De que demônios está falando?
— Pelo que sou... Pelo amor de Deus, Riv. Olhe minha cara! Não sou a Sophie que você conhecia, essa estúpida que pensava que o sol saía para te iluminar. E tampouco sou uma executiva, nem a menina mimada de Meredith. Nem sequer me reconheço. Assusto-me até de minha sombra e tudo o que esperava, tudo aquilo em que acreditava, morreu nesse maldito beco. E sobre tudo, já não sou uma mulher bonita.
— Sophie — murmurou River, envolvendo-a em seus braços, embora ela se retorcesse para liberar-se dele. — Não deixe que isso te supere. Não pode deixar que um tipo sem escrúpulos te vença.

— Meredith? Posso entrar?
Joe Colton permanecia na porta do dormitório de sua esposa, recordando a época em que compartilhava com Meredith não só o dormitório, mas também a vida inteira.
— Joe, ah, é maravilhoso! — exclamou Meredith, caminhando para ele, com o corpo apenas oculto por uma bata de seda branca. — Agora mesmo estava pensando em ti.
— De verdade, Meredith? — perguntou Joe, consciente de que aquilo não tinha por que ser uma boa notícia.
— Sim, Joe, de verdade — replicou Meredith. Sorriu, embora parecesse estar fazendo um sério esforço por dominar seu mau humor. — Para ser mais precisa, estava pensando em sua festa de aniversário. O dia de seu aniversário de sessenta anos, temos que celebrar, fazer uma festa memorável.
— Todos meus aniversários foram memoráveis — lhe recordou Joe. — Sempre organizamos uma festa...
— Não acredito que assar um porco e comer em pratos de papel possa ser considerado uma verdadeira festa, Joe — respondeu Meredith, elevando os olhos ao céu. — Esta vez será uma festa de verdade. A festa do sexagésimo aniversário do senador Joe Colton.
Voltou-se para sua escrivaninha e tomou várias folhas de papel.
— Olhe quem vai vir: membros do congresso, o governador da Califórnia, e os membros mais seletos da sociedade local. Será uma festa de smoking, Joe, definitivamente. Eu já olhei a um modelo Versace, e Frank quer me tingir o cabelo de...
— Está louca? — soltou Joe, sem poder conter-se.
Meredith abriu os olhos como pratos e sua boca se transformou em uma dura linha.
— Não diga isso, Joe Colton. Não volte a dizer isso jamais — lhe advertiu entre dentes. — Sou a mãe de seus filhos, recorda?
— Sim, é a mãe de meus filhos — respondeu Joe. — Embora não todos sejam meus.
Meredith elevou os braços e se sentou no tamborete de sua penteadeira.
— Lá vamos nós outra vez, não é? Um pequeno engano e fui condenada para sempre. E um engano que no fundo foi tua culpa. Não havia tornado a me tocar desde....
— Queria que te tocasse, Meredith? — perguntou Joe, odiando a si mesmo por continuar amando aquela mulher, por continuar recordando toda a felicidade que tinham compartilhado.
— Seu filho me fez isto — disse Meredith, mudando de assunto e lhe mostrou um pequeno vaso decorado com margaridas. — Não é uma gracinha? Embora, é obvio, não penso deixá-lo aqui.
Joe passou as mãos pelo cabelo.
— Sim, é lindo, Meredith. Realmente bonito. Olhe, a respeito da festa...
Meredith baixou o vaso e se voltou de novo para Joe.
— Te vai encantar, Joe. Todos os nossos meios de comunicação cobrirão o acontecimento. Quero que tudo seja perfeito, embora isso signifique ter que agüentar que essa terrível Sybil venha de Paris. Não a suporto, mas não nos fará nenhum mal contar que teve convidados que vieram de Paris à festa...
— Está muito iludida com a festa, não é? — perguntou Joe, perguntando-se quanto teria chegado seu esgotamento até o ponto de que não fosse mais capaz de lhe negar nada a sua esposa para não ter que enfrentar a seus protestos.
— Vamos celebrar essa festa, Joe — disse Meredith. — Vai ser um aniversário muito especial, prometo-lhe isso — se levantou e colocou o braço nos ombros dele. — Tenho tantos planos, Joe! Resultaria-te impossível acreditar todos os planos que tenho.
Joe sentia frio com a proximidade de sua esposa. Quando esta elevou o rosto para ele para que a beijasse, deu-lhe um beijo na bochecha e se separou dela.
—É tarde — lhe disse. — Mas eu gostaria de te falar de Sophie.
— De Sophie? Pobrezinha...
— Sophie não é nenhuma pobrezinha, Meredith. É sua filha. Como te atreve a lhe dizer que está horrível?
Uma vez mais, Meredith elevou os olhos ao céu.
— Acaso lhe disse algo que não lhe esteja dizendo o espelho? Não acredito. E agora tenho que explicar a Joe e a Teddy por que tem esse aspecto, tentando não assustá-los. Bom, e agora vê, Joe. Estou cansada e quero me deitar.
— Simplesmente, procura não te aproximar muito de Sophie, de acordo? Se não é capaz de apoiá-la, pelo menos se afaste dela.
Meredith se despediu dele com um gesto de mão enquanto se dirigia para o closet e Joe abandonou o quarto no qual tinham sido concebidos todos seus filhos; o quarto no qual tinha amado e rido, em que em outro tempo se acreditou o homem mais feliz sobre a terra.
Poderia divorciar-se de Meredith; tinha pensado em fazê-lo quando Meredith tinha voltado para casa grávida. Mas sabia que essa não era a solução. Estava falando de Meredith, a mulher a que amava. E ela estava doente. Era uma pessoa mentalmente instável que não queria procurar nenhum tipo de ajuda. Poderia forçá-la de algum jeito a procurá-la?
Joe fez uma careta e sacudiu a cabeça. Não, não podia pensar nisso. Além disso, Meredith melhoraria. Sophie tinha voltado para casa e isso a ajudaria. Celebrariam a festa de aniversário e Meredith se sentiria feliz.
E se isso não funcionasse?, perguntou-lhe a voz de sua consciência. O que ocorreria se a festa não mudasse nada, ou se Meredith piorasse? O que faria então? Quanto tempo pensava esperar para fazer algo?
— Então farei o que tenha que fazer — disse em voz alta. — Mas, por favor, Meu deus, ainda não. Meredith é minha esposa. Minha mulher. Não posso renunciar a ela ainda. Simplesmente, não posso.

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