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Sunday, December 19, 2010

Арлин Джеймс - Отчаянно ищу Папа p.08

CAPÍTULO VIII

Jackson recostou-se no sofá da sala de estar de seu luxuoso apartamento e acionou o controle remoto da televisão.
As imagens de um antigo faroeste, dirigido pelo mestre John Ford, estamparam-se na tela. O filme chamava-se No Tempo das Diligências e fora rodado na década de 30.
Jackson já o assistira uma vez, mas como gostava do gênero, decidiu vê-lo novamente.
Certa vez um crítico de cinema dissera que John Ford tinha a incrível capacidade de sequestrar a platéia e levá-la para o mundo de seus filmes... E era exatamente isso que Jackson esperava: esquecer de seus próprios problemas e viajar No Tem­po das Diligências.
Uma angústia crescente o vinha dominando, nos últimos dias. Algo parecia ter se quebrado, desde a tarde em que fora procurar Hellen na loja de conveniências. Ela o tratara de maneira tão fria e distante!
A princípio, ele apenas julgara que Hellen estivesse cansada e tensa. Mas depois, quando voltara a procurá-la, a situação ficara ainda pior. Hellen o recebera de maneira ainda mais agressiva, como se estivesse furiosa com ele.
Por quê? Essa era a pergunta que Jackson mais se fizera, desde a semana anterior. Por que Hellen havia mudado tanto?
O que, exatamente, ele lhe fizera para causar-lhe tal reação?
Se ao menos Hellen lhe desse alguma explicação, ou a chance de conversar... Tudo ficaria mais fácil. Entretanto, ela se recusava a qualquer tipo de contato. Era como se de repente passasse a sentir repulsa por ele.
Jackson assistiu ao filme até o final e desligou a televisão.
Eram onze e meia da noite. O silêncio reinava no apartamento, fazendo com que Jackson sentisse duramente o peso da solidão.
Estava com trinta anos, já havia amado uma vez e sofrerá uma grande desilusão. Depois desse golpe, tivera apenas relacionamen­tos superficiais, com várias outras mulheres. Nunca mais sonhara em casar-se... Até conhecer Hellen.
Era incrível, mas o fato de ela possuir três filhos em nada abalava seus sentimentos. Amava aquela mulher com toda a força de seu coração e estava disposto a pagar qualquer preço para conquistá-la.
Na noite em que a beijara tivera a confirmação de que Hellen também se sentia atraída por ele. O que haveria acontecido se o pequeno Davy não interrompesse aquele momento mágico, pleno das mais incríveis emoções?
A resposta era muito fácil: os beijos teriam se transformado em carícias mais ousadas e intensas... Até que o desejo viesse cobrar seu tributo final, na forma de um contato cada vez mais íntimo que desaguaria num ardente ato de amor.
Jackson suspirou profundamente. Se pudesse modificar o pas­sado, teria mudado os acontecimentos daquela noite. Teria feito com que Davy dormisse tranquilo até o amanhecer... Dando tempo para que ele e Hellen pudessem se amar com a intensidade que seus corpos e corações pediam.
Jackson riu de si mesmo, chamando-se de incorrigível so­nhador... Onde já se viu modificar o passado? E, além do mais, quem poderia garantir que ele ainda era correspondido em seu amor?
A brusca mudança de Hellen nos últimos dias era uma prova bem clara de que ela não o queria... Mas então por que corres­pondera aos seus beijos daquele modo intenso?
Pronto. Aí estava a mesma pergunta se repetindo infinitamente...
Será que Hellen se arrependera por aqueles beijos trocados durante a noite? Será que ela queria mostrar-lhe que o via apenas como amigo e que era melhor esquecer qualquer nova tentativa de aproximação?
"Ou, pior ainda..." Ele pensou. "Será que Carmody ameaçou Hellen, obrigando-a a afastar-se de mim?"
Jackson arregalou os olhos negros, numa expressão inquieta. Essa última hipótese explicaria a súbita mudança de Hellen.
— Santo Deus — ele murmurou, passando a mão pelos cabelos negros num gesto de desalento e cansaço. — Vou acabar enlou­quecendo, se não tirar essa história a limpo.
O antigo relógio cuco da parede indicou onze horas e quarenta e cinco minutos.
Jackson preparou-se para mais uma noite de insônia, angústia e pensamentos sombrios. A ideia de passar as próximas horas andando de um lado a outro do quarto, ou de adormecer já na alvorada para ser colhido por terríveis pesadelos era-lhe insupor­tável. Não aguentava mais viver assim. Precisava tomar uma ati­tude e rápido.
Mas o que poderia fazer para mudar a situação?
Muito pouco, na verdade...
Tudo estava nas mãos de Hellen. Se ela lhe explicasse o motivo daquele súbito afastamento, ele teria uma chance de defender-se, ou ao menos de entender por que estava sofrendo.
— Tenho de tomar uma atitude — ele pensou, em voz alta.
Cinco minutos depois saía do condomínio Blue Bird, dirigindo seu carro. Talvez estivesse cometendo uma loucura; talvez Hellen não houvesse ido trabalhar naquela noite. Fosse como fosse, valia a pena arriscar. Afinal, o que tinha a perder?
Contrariando o velho hábito de dirigir em velocidade mé­dia, Jackson pisava firme no acelerador, correndo pela ave­nida que conduzia à creche onde Hellen trabalhava no período de oito à meia noite. Só esperava que ela não estivesse de folga naquela noite.
Foi com um sentimento de alívio que Jackson viu o velho Escort de Hellen parado próximo à creche.
— Cheguei a tempo — concluiu, recostando-se no assento.
Hellen saiu logo depois e parou ao ver o sedan. Em se­guida caminhou a passos largos até o Escort, já com as chaves na mão.
— Ei! — Jackson chamou-a, saindo do carro. — Será que po­demos conversar um pouco?
— Estou muito cansada — ela respondeu, abrindo a porta do veículo. — Vamos deixar para uma outra ocasião, está bem?
— Negativo — ele discordou, com firmeza. — Vamos conversar agora, Hellen Moore.
— Acontece que não temos nada a nos dizer, Jackson Tyler — ela retrucou entre os dentes.
— Será que não? — Ele agora a fitava com uma expressão quase de súplica. — Hellen, eu não sei o que está acontecendo. Não entendo por que você mudou tanto com relação a mim.
— Não entende... — Ela repetiu, com amarga ironia. – Pobre sr. Jackson Tyler! Não sabe o que fez para que a imbecil da Hellen de repente começasse a tratá-lo do jeito que ele merece!
Jackson fitou-a com um misto de mágoa e incredulidade:
— Você não é essa pessoa sarcástica e ferina que está tentando parecer. Onde está a doce Hellen que conheci?
— A doce e estúpida Hellen acordou, entende? E agora, se você me der licença, eu preciso ir embora.
Ela entrou no carro e sentou-se ao volante, mas Jackson segurou a porta.
— Vou lhe dizer uma coisa, Hellen... Não tenho a menor ideia do que fiz para causar-lhe tanta raiva. Mas pode ficar certa de que não a deixarei ir embora enquanto você não esclarecer este assunto.
— Você está me ameaçando? — ela o desafiou.
— Entenda como quiser. — Ele continuava a manter a porta do carro aberta. — Prometo que a deixarei em paz, depois que você me der uma explicação.
Naquele momento um grupo de funcionários saiu da creche. Dois deles acenaram para Hellen, que respondeu ao cumprimento e então voltou-se para Jackson:
— Escute, eu não quero fazer uma cena aqui, diante do local onde trabalho.
— Concordo plenamente. Que tal conversarmos em outro lugar? O Plaza-Café, por exemplo...?
— Nada de lugares públicos — Hellen o interrompeu. — Estou exausta e sem a menor disposição para ir a restaurantes ou bares.
— Então, o que você sugere?
— Que deixemos a conversa para amanhã ou depois...
— Não, Hellen — ele replicou, num tom decidido. — Quero esclarecer nossa situação agora.
— Então, deixe-me fechar esta maldita porta e siga-me no seu carro até minha casa.
— Não quero arriscar uma nova cena com Carmody.
— Fique tranquilo; ele não aparece por lá desde aquela manhã em que discutimos. Ouvi dizer que conseguiu mesmo o emprego de garçom que tanto desejava. Tomara que seja verdade e que ele se dê bem.
— Tomara — Jackson repetiu, com um suspiro. No fundo, não desejava mal a Carmody. Ao contrário: queria que ele encontrasse um rumo, pois era um homem ainda jovem e tinha boa parte da vida pela frente. — Bem... — Jackson abaixou-se em frente a Hellen. O movimento causou-lhe uma pontada de dor, que ele suportou fechando os olhos por um momento e contraindo os lábios.
— Pelo visto, teremos de conversar aqui mesmo.
— Seu joelho deve estar doendo — ela concluiu.
— Isso não é nada, comparado ao sofrimento de meu coração — ele retrucou, fitando-a no fundo dos olhos.
Hellen sustentou-lhe o olhar. Sob a luz de mercúrio do poste de metal, Jackson parecia mais belo do que nunca, apesar da expressão de cansaço e tristeza que turvava-lhe o semblante.
— O que você quer de mim, afinal? — ela perguntou, num fio de voz.
— Quero você — ele respondeu, simplesmente.
— Para quê?
— Ora... — Jackson sorriu. — Para amá-la, para trocar com você os melhores momentos de minha vida, enfim...
— Você não espera que eu acredite nisso — ela o interrompeu, indignada.
— Por que não? Acha que eu estou mentindo?
Hellen fitou-o longamente, antes de dizer:
— Sabe de uma coisa, Jackson? Sua crueldade chega a ser espantosa. Se eu não tivesse visto com meus próprios olhos, che­garia a pensar que Jane estava enganada.
— Crueldade? — ele repetiu, confuso. — Do que você está fa­lando? Que história é essa de se eu não tivesse visto com meus próprios olhos...? Visto o quê?
— A sua namorada! — ela quase gritou. — Droga, como é que você pode ser tão hipócrita?
Jackson estava atônito:
— Hellen, você enlouqueceu?
— Sim! — ela exclamou, furiosa. — Eu devia estar mesmo fora de mim, quando acreditei que...
Hellen não concluiu a frase e ele insistiu:
— Fale, por favor.
— Que os beijos que trocamos significassem algo para você, além de um mero divertimento ou passatempo — ela concluiu, com voz trêmula.
— E o que a faz pensar que eu estava me divertindo a sua custa? — ele indagou, perplexo. — De onde você tirou essa ideia absurda?
— Do fato de você aparecer com sua namorada bem diante do meu emprego, sem nem sequer imaginar quanto isso poderia me ferir. Mas por que você se preocuparia comigo, não é mesmo, Jackson?
— Ei, espere um momento... — ele tentou apartar.
Hellen não lhe deu ouvidos. Com os olhos rasos de lágrimas, prosseguiu:
— Afinal, você não me prometeu nada. E além do mais eu não sou tão fina, nem tão rica ou bonita como sua namorada. Tenho três filhos, um ex-marido problemático, venho de uma família pobre...
— Hellen, quer me ouvir, por favor?
— Não, Jackson. — Ela enxugou as lágrimas com um gesto nervoso. — Quero apenas que você me deixe viver em paz, sem ilusões. Sabe, nesse pouco tempo em que nos conhecemos você fez com que eu me sentisse confiante, desejada... Mas agora o sonho acabou. Está na hora de aterrissar no planeta Terra e na dura realidade que é minha vida.
— Terminou? — ele indagou, contendo um sorriso.
— Posso saber qual é a graça? — ela retrucou, ofendida.
— Bem, eu estou com uma incrível vontade de rir... Rir de pura alegria, sabe? E tenho dois ótimos motivos para isso. O pri­meiro é que acabo de descobrir que você ficou com ciúmes de mim... O que por sinal é maravilhoso, pois significa que você se importa de verdade comigo.
— Se você gosta de se deliciar com o sofrimento alheio...
— E o segundo motivo é que finalmente poderei esclarecer o mal-entendido.
— Como assim? — ela indagou desconfiada.
Calmamente, Jack­son narrou o encontro com Vivian. Contou sobre os tempos de Chicago, o casamento de Vivian com seu amigo Richard, a perda de contato e finalmente o reencontro, bem diante da Loja de Con­veniências.
"Foi isso que Jane presenciou", Hellen pensou, experimentando um princípio de alívio.
Jackson continuava falando sobre os fatos daquele dia, contando inclusive sobre o que ocorrera no Plaza-Café, quando ele e Vivian saboreavam suco de frutas e relembravam os velhos tempos: ela entornara o suco na blusa e ele a convidara a ir até seu aparta­mento. Lá, emprestara-lhe um jeans e camisa, enquanto lavava suas roupas na máquina. — Depois, levei Vivian até onde ela havia deixado o carro...
— Em frente à loja — Hellen completou.
— Exato. Despedimo-nos com um abraço e... — Ele fez uma pausa. — Bem, o resto você já sabe.
— Sim. Eu estava tomando café e você veio falar comigo.
— E então você me tratou como se eu fosse o mais desprezível dos seres humanos — ele concluiu. — Bem, acho que agora está tudo esclarecido... Certo, sra. Moore?
Hellen suspirou. Uma onda de alívio a invadia, causando-lhe uma sensação de incrível bem-estar.
— Oh, Jackson, será que você pode me perdoar?
— Claro que sim. — Ele tomou-lhe a mão. — Mas da próxima vez que ficar aborrecida comigo, por favor exponha o problema. Assim, ao menos terei a chance de me defender.
— Tem razão. — Ela sorria docemente, esquecida do cansaço e do desgaste dos últimos dias. — Bem, para onde vamos?
— O convite para o Plaza continua em pé...
— Oh, olhe só para mim, Jackson. — Ela mostrava o avental que trazia bordado no bolso o logotipo da creche. — Não estou em condições de entrar num lugar como o Plaza.
— Bem, você pode tirar o avental.
— Minha camiseta não está em condições muito melhores.
— Sra. Hellen Moore, eu não vou deixá-la ir embora, assim, sem mais nem menos. Quero sentar-me com você num local tran­quilo, tomar um drinque e conversar um pouco.
— Eu também, Jackson — ela concordou, com um sorriso. — Apenas, não posso me demorar muito, pois tenho de trabalhar amanhã cedo.
— Muito bem. — Jackson levantou-se. — Acho que já resolvi o problema. Venha... — Gentilmente, puxou Hellen pela mão, fa­zendo-a sair do Escort. Em seguida tirou a chave da ignição e entregou-a a ela, juntamente com a bolsa. Bateu a porta do veículo e verificou se estava trancada. — Pronto! — disse, satisfeito.
— Posso saber o quer está fazendo, Jackson?
— Sequestrando você. E tente reagir, para ver o que acontecerá...
— O quê? — Hellen perguntou, sem entender.
Como resposta ele beijou-a longamente, como se quisesse re­cuperar o sofrimento dos últimos dias, causado por um lamentável mal-entendido.
— Jackson... — Hellen murmurou, quando os lábios de ambos por fim se afastaram. — Aqui não é o melhor lugar para...
— Concordo plenamente, sra. Moore — ele a interrompeu, abraçando-a e conduzindo-a até o sedan. — Na verdade eu nem pre­tendia namorá-la bem em frente ao seu local de trabalho, mas acontece que o desejo falou mais alto, entende?
— Você é impossível, Jackson Tyler — ela comentou, rindo.
— E você é a mulher mais fascinante que já conheci, Hellen Moore.
— Mesmo com todos os problemas que...
— Psiu — ele tocou-lhe os lábios com a ponta dos dedos. — Não diga bobagens, ou acabarei beijando-a novamente. — Jackson abriu a porta do carro e fez uma reverência cômica: — Por favor, madame, queira sentar-se.
— Obrigada, cavalheiro — Hellen respondeu, no mesmo tom, acomodando-se no banco de passageiros.
Jackson fechou a porta e, contornando o veículo, sentou-se ao volante.
— Importa-se de me dizer aonde vamos?
— A senhora está sendo sequestrada, madame — ele gracejou. — Portanto, nada de perguntas.
— Certo, sr. Tyler. — Hellen recostou-se no assento. — Apenas, não se esqueça de que devo trabalhar amanhã cedo. O senhor está de férias, eu não.
"Talvez, num futuro muito breve, você já não precise traba­lhar tanto", Jackson respondeu, em pensamento, enquanto acio­nava o motor do veículo. E compreendeu, surpreso, que pela primeira vez estava cogitando seriamente na possibilidade de casar-se com Hellen.
Cerca de quinze minutos depois Jackson entrava na garagem do condomínio Blue Bird.
— Seja bem-vinda a minha casa — ele disse, estacionando e desligando o motor.
Hellen sorriu, mas no fundo sentia-se inquieta. A perspectiva de ficar a sós com Jackson num apartamento era a um só tempo tentadora e perigosa.
— Ao menos aqui ninguém reparará em suas roupas de trabalho — ele comentou, saltando do carro.
Hellen não esperou que Jackson lhe abrisse a porta, para sair. Seu coração pulsava acelerado como o de uma colegial apaixonada. O amor parecia ter essa característica: a de reju­venescer as pessoas, fazendo com que se sentissem como ado­lescentes em suas primeiras incursões pelos misteriosos terri­tórios das emoções.
O apartamento de Jackson, tal como Hellen já havia imaginado, era decorado com extremo bom gosto.
Na sala em forma de L predominavam tons variados, que iam do bege ao marrom. Os móveis de madeira clara emprestavam um toque de leveza ao ambiente. Uma porta de vidro dava acesso à sacada, cheia de samambaias, folhagens e glicínias com flores multicoloridas.
— Que tipo de música você prefere? — Jackson perguntou, aproximando-se da estante modulada onde havia muitos livros, aparelho de som, vídeo e TV.
— Escolha você mesmo — ela sugeriu, deixando a bolsa sobre a mesinha de centro, cujo tampo era de mármore.
— Está bem. — Jackson escolheu um CD e colocou-o no apa­relho. — Espero que você goste.
Os acordes de Tender Is The Night soaram no ambiente. A canção falava de dois amantes encontrando-se numa noite calma e suave, que convidava ao romance e às juras de amor eterno.
Hellen estremeceu de emoção. Aquela era uma de suas canções prediletas.
— Como foi que você adivinhou? — ela perguntou, com um sorriso. — Eu adoro essa música.
— Eu também. — Jackson sorriu de volta. E levou-a para co­nhecer as outras dependências do apartamento.
A cozinha era equipada com tudo o que havia de mais moderno em matéria de eletrodomésticos.
O quarto de Jackson era o próprio retrato de sua perso­nalidade: decorado de maneira simples, mas de extremo bom gosto, com tons pastel e muito discretos, variando em torno da cor azul.
Havia também um quarto de hóspedes, que Jackson transfor­mara em biblioteca e escritório.
— Meus livros não cabiam na sala de estar — ele explicou. — E como eu raramente recebo pessoas aqui em casa, decidi apro­veitar esse espaço.
— Foi uma boa ideia — Hellen aprovou, percorrendo as lom­badas dos livros com a ponta dos dedos. — Puxa, você tem obras maravilhosas, aqui.
— Estão às suas ordens.
— Obrigada, mas a vida agitada que levo não me deixa tempo para ler. De qualquer forma, quando tiver uma oportunidade...
— Ela interrompeu-se e retirou um volume da prateleira. Fo­lheou-o e leu uma frase: — "Minha única estrela vive..." — Seu autor era um escritor francês chamado André Breton, criador da obra Arcano 17, que causara grande comoção na Europa e no resto do mundo.
— Breton é um de meus escritores preferidos — disse Jackson. — Você já percebeu que temos muitas afinidades?
— Sim — Hellen assentiu, sorrindo. — Sabe de uma coisa, Jackson? Às vezes tenho a nítida impressão de que o conheço há muito tempo.
— Eu também — ele confessou, um tanto surpreso. Ambos voltaram à sala e Jackson ofereceu:
— Que tal um drinque?
— Prefiro uma água.
— Mineral... Ou você quer um refrigerante?
— Mineral — ela decidiu.
— Com gás?
— Sim, obrigada.
Jackson abriu o frigobar situado a um canto da sala e retirou duas pequenas garrafas de água mineral. Colocou-as sobre uma bandeja, junto com os copos e guardanapos, e levou-as até a mesinha de centro.
— Pronto. Aqui está. — Ele serviu os copos e estendeu um a Hellen. — Saúde.
— Saúde — ela respondeu.
E os copos tilintaram.
— Bem, vou colocar um vinho para gelar.
Hellen quis protestar, mas ele afirmou:
— Levará apenas alguns minutos. — Abrindo um compartimento da estante, escolheu uma garrafa de Undurraga branco e colocou-a no frigobar.
— Como já lhe disse, não posso me demorar muito — ela afir­mou, inquieta.
— Claro.
— Mesmo porque, meu carro ficou lá em frente à creche.
— Sei disso perfeitamente, sra. Moore — ele gracejou. — Afinal, sou o seu sequestrador, não?
Hellen riu:
— Você é um homem maduro e, no entanto, às vezes brinca como um menino.
— Todos nós temos uma criança aqui dentro. — Jackson apon­tou o peito, na altura do coração. — E não podemos deixá-la es­quecida, sobretudo depois que nos tornamos adultos.
— Tem razão.
O CD havia chegado ao fim.
— Agora é sua vez de escolher — disse Jackson.
— Está bem. — Hellen observou os CDs e fitas cassete, ajeitados cuidadosamente numa prateleira. Por fim acabou se decidindo por um CD de Paço de Lúcia, mestre da música flamenca. Acionou o aparelho de som e os acordes de Adios Noniho invadiram o am­biente. — Que tal? — indagou, com um sorriso.
— Perfeito — Jackson respondeu, abraçando-a. — Ah, Hellen, que bom que você está aqui.

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