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Friday, December 17, 2010

The Colton Family - Ruth Langan - Nunca é Tarde para Amar p.14

Quatorze

As ruas estavam escuras e desertas enquanto Thad voltara para casa. Ele estacionou o carro e olhou para o relógio. Quase três da manhã.
O homicídio fora dos mais medonhos. O tipo de cena que deixava até os policiais enjoados. O pior, como sempre, vinha depois. Levava horas, às vezes dias, para lavar o cheiro da morte. Mas nada podia apagar de sua memória as imagens.
Abriu a porta e entrou. Acendeu as luzes e foi em direção ao corredor. Tirou o casaco e a gaveta, jogou na cama e foi ao banheiro. Ficou debaixo do chuveiro quente o mais que pôde, saiu e se enrolou numa toalha.
A última vez que comera foi pela manhã, mas não tinha fome. Afundou na cama e passou a mão nos cabe­los, pensando na mulher e duas crianças cujos corpos foram etiquetados e recolhidos.
Como profissional, devia ser imune a tais horrores. Mas como pai, jamais se acostumaria. Toda vez que via algo assim, tinha de lidar com aquele mundo de sombras outra vez.
Ele disse a Heather que havia lugares dentro de si nos quais ela jamais iria. E era verdade. Mas ele disfar­çava sua escuridão. Ela cobria seu coração como uma nuvem pesada bloqueando os raios solares. Ela o agar­rava e puxava para baixo, consumindo-o de depressão. A coisa toda não lhe deu sossego. Sem conseguir permanecer sentado nem deitado, fi­cou andando descalço de um lado para outro na cozinha, até pegar uma cerveja na geladeira. Abriu a lata e voltou a caminhar pelo apartamento vazio. Sem Brittany a casa ficava de um vazio insuportável.
E também tinha Heather. É claro que sabia que preci­sava dela ali. Mas não queria ela por perto quando estives­se do jeito que estava agora. Sabia que precisava se livrar daquela sensação antes que lhe derrubasse de vez, mas parecia estar dominado e sem forças para lutar.
Com a depressão piorando, andou de um lado a ou­tro no apartamento vazio, sentindo um peso na alma.
Onde estava com a cabeça ao trazê-la para casa? Ela podia enfiar o apartamento inteiro num dos quartos da fazenda do tio. E, apesar de nunca ter visto a casa da família dela em San Diego, fazia idéia de seu estilo de vida por lá.
Em que tipo de sonhos ele estava vivendo? O que lhe deu para achar que podia manter a atenção de uma mulher daquelas por mais de alguns dias?
Uma mulher daquelas.
Ela fora criada num ambiente de muito dinheiro. Não sabia o que era querer algo. Um carro novo? Um armário cheio de vestidos de grife? Um cavalo? Um estábulo? Podia ter o que quisesse, era só pedir.
Então por que uma princesa se interessaria por um pobretão? A resposta lhe veio como um flash. Porque jamais conhecera alguém como ele antes. Para uma mulher como Heather McGrath, um tira linha-dura na cama era uma novidade e tanto. Uma conquista para alardear quando estivesse bebendo vinho com amigas da época da faculdade, conversando sobre as birutices da juventude, antes de cada uma se casar com seu res­pectivo milionário.
E ele caíra tão facilmente.
Quando pensou no modo como agira, como um ele­fante na loja de porcelanas; sentiu-se um idiota.
Bebeu a cerveja toda. Sentiu que precisava canalizar a raiva que crescia. Jogou a lata contra a parede da sala e foi para o quarto.
Até a cama parecia zombar dele.
Apagou as luzes e ficou deitado no escuro, rezando para que a escuridão não lhe tragasse por completo.
A manhã pareceu levar uma eternidade para chegar.

Era um dia ensolarado em Jackson, no Mississípi, quando Louise Smith sentou-se na espreguiçadeira em frente à fonte de seu jardim, esperando pela doutora Martha Wilkes para mais uma sessão de terapia.
Já haviam feito aquilo tantas vezes que a sessão preliminar se tornara rotineira. Primeiro vinha a litania que Martha recitava para ajudar a relaxar. Quando elas começavam a operar sua magia, ela fechava os olhos v se deixava levar para um lugar tranqüilizante onde esvaziava a mente e se abria para as perguntas que a doutora fazia.
A doutora mantinha a voz calma e tranqüila enquanto conduzia a paciente pelo seu ritual diário. Pedaços e fragmentos do passado. Tramas no tecido da vida torturada e confusa da mulher que a doutora Wilkes conhe­cia apenas por Louise.
Aquele dia seria mais difícil que a maioria das vezes. Wilkes andava conduzindo sua paciente a seu destino j á havia algum tempo.
- Muito bem, Louise, agora quero que me leve ao dia do acidente.
A cabeça de Louise balançou preguiçosamente, ne­gando.
- Não quero voltar lá.
- Eu sei. - A doutora deu um tapinha na mão dela, depois se recostou à cadeira. - Mas preciso que me conduza por aqueles eventos novamente. Exatamente como se lembra.
Os olhos de Louise tremeram ligeiramente, abriram e fecharam. Sua voz ficou monocórdia.
- Eu estava dirigindo para Santa Cruz.
- Você se lembra por quê?
Louise lutou para ultrapassar a densa névoa que lhe bloqueava a mente.
l
- Encontrar alguém.
- Lembra quem?
- Uma mulher. De olhos escuros. Sorridente. Seu nome era... - Ela pensou, por um momento, ouvir uma voz, mas a impressão passou logo. - Não. Não lembro.
- E você estava sozinha no carro ao dirigir para Santa Cruz?
- Não.
A doutora levantou a sobrancelha e anotou.
- Tem certeza?
- Não estava sozinha. Havia... alguém comigo.
- Homem? Mulher?
Louise sentiu a névoa de sua mente engrossar.
- Nem homem, nem mulher.
- Uma criança, então? -A doutora viu que o rosto de sua paciente se contorcia.
- Talvez. Não lembro.
Vendo sua agitação, a doutora Wilkes manteve a voz cuidadosamente tranqüila.
- Muito bem. Você estava dirigindo. Então o que houve?
- Um carro vinha atrás de mim. Muito rápido. - A voz de Louise subitamente ficou mais animada e aguda. - Cuidado! Vamos bater!
- A quem está avisando, Louise? Ou está gritando consigo mesma?
- Não, com outra pessoa. - Altamente agitada, ela agarrou os braços da espreguiçadeira. - Com a pessoa que está atrás de mim, para evitar um acidente. Depois desviei. Lembro de gritar. Ao menos acho que é minha voz. Alguém também grita. Somos atiradas para fora da estrada, os pneus cantam, os freios guincham, tem um barulho de batida no metal. - Lágrimas rolaram por seu rosto enquanto ela balançava a cabeça, repetindo - Escuro. Só escuro. E vazio. Um vazio tão grande por dentro. E eu vejo... - Ela soltou um grito que parecia mais animal que humano. - Ah, meu Deus, eu vejo...
E começou a soluçar incontrolavelmente.
Alarmada, a doutora Wilkes lançou mão das pala­vras de sempre para trazer sua paciente de volta do tran­se hipnótico. Ficou observando a mulher, pálida e imó­vel, imaginando o que a estaria bloqueando.
- Sei que há segredos, Louise. - A doutora Wilkes segurou a mão da paciente com ambas as mãos. Segredos dolorosos que lutam para continuar trancados. Mas nós
vamos descobrir que segredos são esses, sei que vamos.
Quando a paciente foi embora, a doutora pegou seu gravador e começou a falar de modo claro e conciso.
- Paciente ainda traumatizada pela memória vivida do acidente. O último colapso sugeria que teria de pro­ceder com todo cuidado para evitar traumas ainda maio­res em seu frágil sistema nervoso. Do contrário, a pa­ciente poderia se perder para sempre.
-
- Oi, papai. O que está fazendo? - Brittany sentou-se de pernas cruzadas no meio da cama de Heather, segu­rando o celular que ela lhe passou para falar com o pai.
Em seu quarto, Thad mal podia levantar a cabeça do travesseiro. Ele se mexia tão rápido quanto uma lesma, forçando-se a sentar e pôr os pés no chão.
- Como vai minha menina?
- Ótima, papai. Heather acabou de me dar um banho de espuma. Daqui a pouco vamos tomar o café-da-manhã. Você vem também?
Ele passou a mão nos cabelos e olhou para o relógio ao lado da cama. Eram sete da manhã, ele havia dormi­do menos de meia hora. Ficou revirando na cama por horas, lutando contra tantos demônios. Estava simples­mente exausto.
- Não, querida. Tenho de ir à delegacia primeiro. Mas vou pegar você à tarde, certo?
Ela deu uma risadinha.
- Está bom, papai. Quer falar com Heather?
Ela passou o telefone. Os olhos de Heather brilhavam quando ela falou, com uma voz sensual.
- Bom dia, detetive Law.
Mas não havia som do outro lado da linha.
- Thad? - Ela ouviu, e percebeu que a ligação ha­via caído. Desconcertada, discou novamente, mas nin­guém atendeu.
- Que estranho. - Ela pôs o fone no bolso. - Seu pai deve ter entrado no chuveiro. Vamos, Brittany. Vamos comer agora e tentar falar com ele mais tarde.
Enquanto desciam, Heather pensou na manhã ante­rior, quando ela e Thad se olharam no espelho. Sentiu um calor lhe subir só de pensar.
Mal podia esperar para vê-lo outra vez. Aquele bre­ve tempo afastados só a fez perceber mais ainda como Thad Law era importante para ela. E ela tinha intenção de lhe dizer isto na primeira oportunidade. Assim que ficassem a sós.
Era meio-dia quando Thad terminou toda a papelada relativa àquele terrível assassinato. O clima estava pesa­do entre seus colegas. Ele pegou seu casaco e foi pegar o carro.
Ao dirigir para a fazenda dos Colton seus pensa­mentos estavam repletos de trevas e névoas. Jamais devia ter decidido ser policial como o pai. Não tinha estômago. Um homem precisava de nervos de aço para sobreviver nas ruas. E de um coração duro. Ele devia ler seguido carreira na área imobiliária ou financeira. Seria um jeito de fazer dinheiro sem perder o coração e u alma para a miséria a que tinha de assistir.
Heather dissera que ele era um homem bom e durão. Mas na verdade era um bobo. Um bobo que deu demais de si mesmo em nome do dever e quase nada teve de retorno.
Heather. Ele sabia que ela era a verdadeira razão por estar se sentindo estranho. Antes que ela entrasse na sua vida, ele jamais questionara suas escolhas. Era um policial. Dos bons. Era o que sempre quisera fazer. Mas eis que, de repente, queria mais. Não por ele mes­mo, mas por Heather.
O que faria com ela? Quanto mais tempo deixasse as coisas correndo mais tornaria o fim difícil, quando ela resolvesse sair da vida dele. E ela o faria, com cer­teza, quando enjoasse daquela relação.
Seria melhor terminar já. Seria doloroso. Mas seria imediato.
Imediato.
Ele trincou o queixo. Estava prestes a enfiar uma adaga no coração. O máximo que podia fazer era tentar tornar a coisa o menos sangrenta possível. Pelo bem de ambos.
- Mais bolhas, Heather. - Brittany bateu as mãozinhas.
- Quais as palavrinhas mágicas? - Heather segurou a garrafa de bolhas atrás de si.
- Por favor - disse a menininha, bastante dócil.
- Como posso dizer não a você? - Rindo, Heather fez uma série de bolhas, atrás das quais Brittany saiu correndo.
Ambas estavam rindo quando viram Thad chegar.
Heather rapidamente pegou a garrafa de bolhas, fe­chou e pôs no bolso da calça. Pegou a menina no colo e foram correndo até ele, que acabara de estacionar o carro.
- Papai! - Brittany abriu os braços e Heather a pas­sou para Thad. - Beijinho, papai.
- Com certeza. - Ele a abraçou forte e a beijou no rosto. - Como senti sua falta.
- Eu também, papai. Mas não fiquei com medo. Dormi na cama de Heather e ela me contou historinhas até ela dormir.
- Você quer dizer até você dormir.
- Não, papai. Heather dormiu primeiro. Aí eu fi­quei juntinho dela e dormi também. E hoje tomei ba­nho de espuma. Sente meu cheiro, papai. Estou com o cheiro da Heather?
Ele ouviu ao lado a risada quente de Heather, mas manteve a concentração na filha. Não seria sábio ficar olhando para a pessoa que estava para cortar de sua vida. Além do mais, tinha medo de perder a força e a coragem.
Respirou fundo e sentiu a dor aguda e intensa causada por aquele aroma.
- Sim. Você está muito cheirosa, meu bem.
- Eu sei. Eu gostei, papai. Estou com o cheiro da Heather. Eu disse a ela que quando crescer quero ser que nem ela. O que você acha, papai? Será que vou parecer com a Heather quando crescer?
- Não acho que seja possível, Brittany. Você tem que parecer consigo mesma. Além do mais, por que você quer parecer com alguém se é tão bonita?
Ela arregalou seus olhos azuis.
- Sou tão bonita quanto a Heather?
- Para mim, é.
Ela esfregou as mãos nos cabelos dele e beijou-a na lesta.
- Podemos ficar para jantar, papai? Heather disse que vai ter bife grelhado.
- Parece bom, meu bem. Mas precisamos ir para casa.
- Oba! Heather pode vir também?
Era isso que ele temia. E agora que estava aconte­cendo, tinha medo de não saber lidar com a situação.
- Não, meu bem. Hoje, não.
Heather tocou-o no braço.
- Do jeito que você fala, parece que o dia foi muito ruim.
Ele hesitou e se afastou um pouco.
- É. Podia ter sido melhor.
Desconcertada, ela pôs a mão sobre a dele, e ele a tirou. Era imaginação ou ele a estava evitando? E ele não havia olhado para ela ainda. Ela tinha pensado que fosse por saudade da filha, mas começou a sentir um frio na espinha.
- Se as coisas estão tão mal assim, você pode deixá-la aqui mais uma noite.
- Não. - A recusa saiu mais incisiva do que ele que­ria. Ele olhou para ela, viu a dor em seus olhos e deci­diu continuar de uma vez. - Nós já lhe tomamos tempo demais. Está na hora de voltarmos a viver nossas vidas.
- Tomaram tempo? - Agora a dor estava não só nos olhos, mas na voz também. - Como pode pensar uma coisa destas, Thad?
- Como? Simples. Você é linda e jovem e tem toda uma vida pela frente. A última coisa que precisa é se amarrar com um tira casca-grossa como eu, com uma filha. Quanto a Brittany e eu, nós nos bastamos. - Ele voltou-se para a filha, tentando evitar o misto de dor e confusão nos olhos de Heather. - Não é, meu bem?
- Hã-hã. - A menininha olhou para o pai e para ela novamente. - Mas por que Heather não pode vir também?
- Porque ela mora aqui, meu bem. Aqui é seu lugar. Ele viu que a filha estava quase chorando. Ele não ia agüentar se as duas começassem a chorar.
Virou-se para o carro, deixando Heather para trás.
Depois que ele pôs Brittany em sua cadeirinha no banco de trás, a menina acenou para Heather, dizendo:
- Tchau, Heather, até amanhã!
Ele sentou no banco da frente e ligou o carro. Sem dizer nada, manobrou e saiu, observando a figura para­da pelo retrovisor, cada vez menor, até desaparecer.
Ele achou que aquilo seria como enfiar uma adaga no coração.
Mas estava errado.
Foi pior. Bem pior.
Ele sentiu como se alguém tivesse arrancado seu coração do peito e jogado ácido na ferida.

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