
Adorado Lobo – um intruso no eden
Kasey Michaels
Saga Família Colton – vol. 03
Título Original: Beloved Wolf (2001)
Resumo:
River James considerava os Colton como seu próprio sangue, tanto como seus ancestrais índios. Havia sido joe Colton quem tinha tirado do inferno aquele jovem e lhe havia dado o paraíso: um lar, uma família e um futuro. Mas todo paraíso tem sua Eva. Nesse caso, esta era Sophie, a adorada filha de Joe.
River estava desconcertado pela incrível atração que sentia por ela, assim, que havia decidido que o mais conveniente seria evitá-la. Mas Sophie tinha voltado uma mulher feita e mais bela do que nunca... ainda que detrás desta beleza se escondesse uma enorme tristeza que River conhecia muito bem.
Estava seguro de que poderia ajudá-la, o que não sabia era se depois poderia se poderia protegê-la dele.
Tradução: Edna Márcia Miranda, Rosangela Nutri, Renata Designe
Revisão: Carina
Conheça os Colton, uma dinastia da Califórnia que compartilha um legado de privilégio e poder.
SOPHIE COLTON: Esta rica executiva parecia ter tudo... até que seu mundo foi brutalmente destroçado durante uma escura noite. Ao retornar a seu lar, só havia uma pessoa com a que podia contar, o homem ao qual em outro tempo amou com todo seu coração de adolescente.
RIVER JAMES: Este orgulhoso nativo americano compreendeu em uma ocasião que não era o homem adequado para Sophie Colton, mas seu coração continuava empenhado em pensar outra coisa...
JOE COLTON: O honorável patriarca da família. Durante a véspera de seu aniversário de sessenta anos, este magnata teve a sensação de que algo estava ocorrendo... Algo que ameaçava a essência da dinastia Colton.
Diário de Joe Colton
Não há nada como uma grande festa familiar em nossa casa, a Fazenda da Alegria, para que um homem se sinta orgulhoso. Toda a família Colton se reuniu para celebrar meu sexagésimo aniversário. Preocupo-me quando não tenho a meus filhos ao redor de mim, por alguns mais que por outros. Por exemplo, por minha querida filha Sophie. Fico com raiva cada vez que penso que alguém está tentando me tirar a minha doce Sophie, mas me alegro de que tenha retornado ao lugar a que pertence. E se isso significa pôr certa distância entre ela e esse caça fortunas com o que se prometeu, melhor. Pelo contrário, River James, meu filho adotivo, é um homem que merece o carinho de minha filha. No momento em que acolhi aquele menino rebelde em minha casa, tive a sensação de que havia algo especial entre os dois. E não me importa que eles o neguem, sei que têm que estar juntos. Como eu e meu Meredith. Ultimamente, as coisas não andam muito bem entre nós. Entretanto, nego-me a renunciar a ela... nem a nada do que me pertence. Embora algo me diz que nos esperam tempos muito duros...
CAPÍTULO 1
Nada, absolutamente nada, tinha saído bem a Sophie Colton durante aquele dia de abril em São Francisco.
O novo sistema telefônico contratado pelo diretor da agência de publicidade em que trabalhava lhe tinha feito perder em duas ocasiões a comunicação com um cliente de Tóquio.
O menino ao qual acabavam de contratar para realizar a campanha de um produto a nível nacional tinha eleito aquela semana para transformar sua voz angelical na quebrada voz de um adolescente e teria que ser substituído. Enquanto se dirigia para almoçar com outro de seus clientes, sua meia tinha desfiado e, para culminar o dia, acabava de ter uma discussão durante o jantar com Chet Wallace, seu prometido.
Bom, possivelmente não tivesse sido uma discussão. Possivelmente só tinham sido umas quantas palavras fortes. Um desacordo. Ela e Chet nunca discutiam. Normalmente, ele falava e Sophie escutava. E às vezes ela se perguntava por que diabos o escutava.
Chet queria que deixassem seus respectivos trabalhos na agência para a qual trabalhavam e montassem sua própria empresa. Mas Sophie não estava segura. Gostava de seu trabalho, havia-lhe custado muito consegui-lo, e a assustava embarcar em um matrimônio e na criação de uma agência publicitária ao mesmo tempo.
Pelo menos, isso era o que dizia a si mesma enquanto caminhava para sua casa depois de ter abandonado o restaurante e deixando Chet com a sobremesa.
Possivelmente isso fora o que realmente a tinha incomodado. Que Chet tivesse continuado bebendo placidamente o café e terminando a mousse de chocolate. Sim, era certo que Sophie vivia a só quatro quadras do restaurante, mas realmente fazia falta que mostrasse tanta indiferença para ela? Que lhe dissesse que tomasse uma ducha fria e que iria procurá-la em seu apartamento dentro de trinta minutos? Sophie odiava Chet quando se mostrava tão razoável, acaso não sabia?
Sophie se deteve na entrada de um beco, elevou a cabeça, suspirou e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. Pestanejou, ocultando por um instante aqueles olhos castanhos que tanto se pareciam com os de sua mãe, e voltou a suspirar. Dispunha-se a abandonar a calçada quando de repente alguém a arrastou para o beco.
— AH! — gritou, tentando escapar dos braços que a sujeitavam.
Empurraram-na contra uma das paredes do beco com tanta força que foi incapaz de dizer nada mais. Sua cabeça se chocou contra os tijolos e o ar pareceu abandonar por completo seus pulmões.
Aquilo não era real. Não, não podia estar lhe acontecendo.
Mas sim, era-o. Enquanto lutava para recuperar a consciência e se esforçava por dominar o pânico que alcançava em forma de bílis sua garganta, sentiu a ponta de uma navalha contra o pescoço.
— Se mexa e te racharei o pescoço, me entendeu?
Sophie não podia assentir. Sabia que a navalha se cravaria em seu pescoço se se movesse. De modo que pestanejou de maneira silenciosa a afirmação.
— Muito bem, muito bem — continuou dizendo aquela voz masculina.
Era evidente que seu atacante estava muito excitado, provavelmente tinha consumido drogas. Sophie não estava segura. Não podia está-lo. A única coisa que sabia era que o homem estava nervoso e, definitivamente, fora de controle.
A navalha se separou de sua garganta e a única coisa que soube a seguir era que estava no chão, de barriga para baixo, e o joelho estava a ponto de lhe explorar de dor.
Fechou os olhos, tentando vencer a dor, e tragou saliva.
— O que... o que é que quer? — conseguiu perguntar.
Não podia mover-se, porque o homem a imobilizava apoiando o joelho em suas costas.
— Tenho a carteira no bolso do casaco. Ali levo dinheiro, cartões de crédito...
— Não me escutaste, não é? — grunhiu seu atacante contra seu ouvido. Seu pútrido fôlego revolveu o estômago de Sophie. — Se se mexer é mulher morta.
Então Sophie sentiu suas mãos sobre seu corpo, apalpando-a através do casaco.
Era um maníaco. Aquele homem era um maníaco sexual. Não queria seu dinheiro. Queria a ela: queria seu corpo. Queria lhe fazer dano.
Sophie estava a só uns metros da rua principal, e mesmo assim, encontrava-se completamente indefesa. Aquele homem continuava sujeitando a navalha com a mão direita, enquanto a manuseava com a esquerda. E Sophie sabia que se gritasse morreria.
E ocorreria o mesmo se se movesse. Aquele homem estava completamente louco. Morreria em qualquer caso.
Mas, maldita fosse se morresse sem lutar.
Sophie pode ter se convertido em uma mulher da cidade depois de sair do rancho, mas em outros tempos tinha sido uma garota acostumada a brigar com seus irmãos, às vezes para divertir-se, e outras completamente a sério.
Seus irmãos... Oh, Deus. Michael tinha morrido; sua morte tinha estado a ponto de destroçar seus pais, e a toda a família de fato. Se ela também morresse... Não! Não podia ocorrer. “Mamãe, papai, não deixarei que me matem!”
Esquecendo da dor de Joelho, esquecendo do fio da navalha que ameaçava seu pescoço e da mão daquele homem que começava a deslizar-se por sua blusa, Sophie reagiu.
Cravou os cotovelos e o joelho sobre a calçada e corcoveou como um potro selvagem tentando desfazer-se de seus arreios. O medo lhe deu forças e o fator surpresa atuou em seu favor. O homem perdeu o equilíbrio e caiu de lado, permitindo pôr a Sophie um espaço precioso entre eles.
— Socorro! Socorro! — gritou com toda a força de seus pulmões. — Estou aqui, no beco! Me ajudem! — enquanto gritava, Sophie se aferrou a uma enorme lata de lixo e conseguiu levantar-se, apesar de ter a perna um pouco menos que inutilizada.
Tomou a tampa da lata, a jogou em seu atacante e procurou desesperada na lata de lixo a primeira arma que encontrou à mão, que resultou ser a rodela de um abacaxi.
Era uma arma ridícula, mas o que podia esperar em um beco situado detrás de um restaurante?
Sophie continuou o bombardeio com uma lata vazia de tomate triturado e dois punhados de verduras enquanto continuava pedindo ajuda a gritos.
O homem soltou uma maldição e saiu correndo segundos antes que dois homens muito bem vestidos fossem ao resgate de Sophie no beco.
— Oh, graças a Deus — exclamou ela, e se desabou contra um deles enquanto o outro corria a procurar à polícia.
A Sophie doía tanto o joelho que nem sequer se deu conta de que seu atacante lhe tinha feito uma ferida que ia da bochecha até o queixo e estava perdendo uma enorme quantidade de sangue. De fato, não se deu conta de nada absolutamente porque não demorou para cair em uma absoluta inconsciência.
Louise Smith se sentou bruscamente na cama. Tinha o corpo empapado em suor pelo calor da noite do Mississipi. E sabia que tinha ocorrido algo de ruim. Algo terrível.
Levantou-se da cama e caminhou com estupidez até o interruptor de luz. Depois, com as mãos apoiadas na cômoda, olhou-se no espelho. Viu ali uma mulher que, se não fosse por seus enormes olhos castanhos, nos que se encerrava toda a tristeza da idade, não aparentava os cinqüenta e dois anos que tinha. Passou a mão pelo cabelo, tentando dominar o pânico que continuava apoderando-se de suas vísceras.
“Vê? Não há ninguém. Está sozinha. Não podem te fazer machucar. Ninguém sabe. Ninguém. Nem sequer você.”
Tinha estado sonhando. O fazia muito freqüentemente. E todos seus sonhos eram confusos. Alguns eram bons a princípio, mas nenhum tinha um final feliz, nenhum lhe oferecia respostas.
Entretanto, aquele tinha sido diferente. Não podia recordá-lo exatamente. A única coisa que se lembrava era do medo e da segurança de que alguém necessitava de sua ajuda.
Uma menina. Uma menina pequena. Uma menina pequena que chamava a sua mãe.
Mas onde estava? Onde?
Louise abandonou o dormitório e foi à cozinha em busca de um copo de água, sabendo que não seria capaz de dormir o resto da noite.
Joe Colton saiu do elevador antes que as portas tivessem se aberto por completo e correu para o balcão da recepção, seguido por River James, seu filho adotivo. Tinham chegado em um avião pilotado por James do rancho de Prosperino.
— Quero ver minha filha, Sophie Colton — exigiu Joe. — Em que quarto está?
A enfermeira o olhou com estranheza.
— Colton? Acredito que não temos nenhuma Colton — girou-se na cadeira para perguntar à enfermeira que acabava de chegar. — Mary, há alguma mulher chamada Colton ingressada?
A enfermeira deu um passo adiante, olhando para Joe.
— Posso lhe perguntar quem é você, senhor?
— Sou seu pai, maldita seja! — explodiu Joe.
Naquele momento, sua enorme corpulência o fazia parecer mais ameaçador que fraternal. River tirou o chapéu de vaqueiro, posou a mão no ombro de seu pai e lhe sorriu à enfermeira.
— O senador Colton está um pouco afetado — disse, utilizando todo seu encanto e enfatizando a palavra “senador”, apesar de Joe já ter deixado aquele cargo anos atrás. — Sua filha foi vítima de um atentado de violação esta mesma noite.
Se fora pelo título de senador ou pelo sorriso de River, Mary saiu rapidamente de atrás do balcão e pediu aos dois homens que a seguissem.
— Sinto muito, senador — disse enquanto caminhava — mas sua filha foi vítima de um delito e temos que ser muito precavidos. Saiu da sala de cirurgia faz uma hora aproximadamente e é provável que esteja dormindo, mas posso lhe dizer que a operação aconteceu sem nenhum incidente. Foi informado já das lesões que sofreu?
— Oh, Meu deus...
Joe se deteve, levou a mão à boca e se separou da enfermeira. Evidentemente, aquela longa noite sem dormir o estava afetando. Isso, pensou River, e o fato de que Meredith Colton, a mãe de Sophie, não tivesse querido acompanhá-lo a São Francisco.
— Sim, fomos informados, mas nós gostaríamos que nos fizesse um resumo se pudesse — disse River, dando um passo adiante e relevando aquele homem que já tinha tido que enterrar a outro de seus filhos.
River sabia que não podia compreender tudo o que tinha sofrido Joe desde que tinham recebido a ligação da polícia, mas podia fazer uma boa idéia de que tinha passado um inferno, recordando a ligação que os tinha informado da morte de Michael e temendo que à sua filha tivesse ocorrido o pior.
River, entretanto, depois de ter falado com um responsável pelo hospital, que lhes tinha assegurado que as feridas sofridas por Sophie não representavam nenhuma ameaça para sua vida, estava mais furioso que assustado. Enquanto Joe Colton viajava em seu pequeno avião privado rezando por sua filha, River tinha estado a mando dos controles, desejando chegar o quanto antes a São Francisco para poder dar um bom murro em Chet Wallace.
Joe se recompôs e fez um gesto à enfermeira para que continuasse avançando.
— Sofreu muitas contusões, senador — informou Mary, detendo-se em frente ao quarto trezentos e cinco. — Quero que esteja preparado para o que vai ver. E também é possível que encontre a sua filha muito confusa quando despertar. Além disso, tem numerosas feridas provocadas pelo contato contra uma parede de tijolo e com o cascalho do beco. E tem algumas cicatrizes mais profundas no peito. São muito dolorosas, mas absolutamente sérias e já começamos o tratamento com antibióticos. Eu... sinto muito.
Aquele bastardo a tinha ferido? River não sabia aquela parte, e lhe teria gostado que Joe não soubesse.
Joe afogou um gemido e River apertou os punhos. Mary continuou.
— O ortopedista conseguiu corrigir o deslocamento do menisco, mas Sophie terá que caminhar com muletas durante cinco ou seis semanas e depois terá que fazer reabilitação. E, — acrescentou, suspirando — o doutor Hardy lhe costurou uma ferida que tem no rosto. Mais adiante, precisará submeter-se a cirurgia plástica, mas pelo menos não sofreu nenhum dano irreparável. Foi um milagre que a navalha não tenha atingido nenhum nervo. Mesmo assim, embora o corte não fosse muito profundo, a ferida requereu perto de cem pontos.
— Oh, Meu deus — exclamou Joe. — Minha menina, minha linda menina.
River apertou os dentes com tanta força que lhe doía a mandíbula. Sophie, a bonita Sophie arrastada até um beco. Atacada e ferida sem motivo. Sem nenhum motivo absolutamente. Só por estar no momento equivocado e no lugar equivocado. Por culpa de um canalha, sua vida ia mudar para sempre.
— Acredito que estamos preparados para vê-la — disse River, lhe indicando com um gesto à enfermeira que retrocedesse para que assim pudessem entrar ele e Joe no quarto. — E prometemos não incomodá-la.
— Certamente — respondeu Mary e se voltou para retornar ao balcão.
— Está preparado para entrar, Joe? — perguntou River, posando a mão no braço de seu pai adotivo.
— Não — respondeu Joe em voz tão baixa que River teve que aproximar-se para ouvi-lo. — Um pai nunca está preparado para ver seu filho na cama de um hospital — levantou a cabeça e tomou ar. — Mas será melhor que entremos.
River empurrou a porta, deixou que Joe o precedesse no quarto e o seguiu. Tampouco ele queria ver Sophie naquele estado: ferida, indefesa. Não era assim como a tinha visto quando tinha ido viver no rancho e ela o tinha açoitado até obrigá-lo a baixar o guarda e lhe deixar formar parte de sua vida. Sophie era quatro anos mais nova que ele, uma enorme diferença quando eram mais jovens.
Mas, de repente, Sophie tinha crescido.
Oh, Deus, claro que tinha crescido.
Sophie o tinha convencido de que fosse seu par durante o baile de formatura da escola. Tinham dançado juntos e tinham falado do trabalho que Sophie pensava iniciar no dia seguinte na emissora de rádio de Joe, antes de começar a estudar na universidade.
Aquela noite, Sophie o tinha beijado. E lhe havia devolvido o beijo. E assim uma e outra vez. River a tinha abraçado lutando para não dizer o que estava gritando por dentro: “Não vá, fica comigo. Me ame, Sophie”. Mas ele devia a seu pai adotivo, Joe Colton, algo melhor para sua filha que um filho de um bêbado. Assim se separou de Sophie, afastando-a de seus braços, de sua vida. Com uma frieza quase brutal, havia-lhe dito que partisse, que crescesse.
Durante os últimos dez anos, praticamente só se viram durante as reuniões familiares. E não haviam tornado a estar a sós desde aquela noite.
Tampouco o estavam nesse momento. Joe estava do outro lado da cama, com o rosto empapado em lágrimas enquanto sustentava a mão de sua filha.
— Ficará bem, Joe — lhe assegurou River, fazendo uma careta ao ver o rosto ferido de Sophie e o algodão que aparecia por debaixo das ataduras.
Tinha o aspecto de ter sido arrastada por um cavalo. A atadura maior cobria o lado esquerdo de seu rosto. E havia mais de cem pontos debaixo daquela vendagem. O joelho lhe poria bem. Joe se asseguraria disso ainda que tivesse que levá-la nos braços até que se recuperaram todos seus ligamentos e tendões. Os golpes e as feridas podiam sarar.
Mas seu rosto? Sophie nunca tinha sido vaidosa, mas era jovem, só tinha vinte e sete anos. E bonita. Como reagiria ao ver aquela cicatriz em seu rosto? Ao ver aquela cicatriz que lhe recordaria, cada vez que se olhasse no espelho, o terror que tinha sentido naquele beco?
Certamente, seu assaltante não a tinha ferido só fisicamente. River temia que tivesse destroçado também sua confiança. Que lhe tivesse roubado a liberdade de passear sem medo pelas ruas.
River passou a mão pelo cabelo, por aquele cabelo negro que lhe chegava até os ombros. Seus olhos resplandeciam por culpa das lágrimas que ameaçavam derramando-se por suas acobreadas bochechas.
Na cama, Sophie se estirou ligeiramente e gemeu. Parecia estar tentando abrir os olhos.
— Eu... vou chamar à enfermeira — disse River silenciosamente. Sophie abriu os olhos um instante e os voltou a fechar. — Deixarei Sophie e você um par de minutos a sós.
Girou sobre seus calcanhares, abandonou o quarto, fechou a porta atrás dele e se deteve no corredor. Apoiou o ombro contra a parede e afundou a mão direita no bolso do jeans enquanto utilizava a esquerda para golpear ritmicamente a parede com o chapéu de vaqueiro.
River James parecia exatamente o que era. Um vaqueiro. Um vaqueiro descendente de uma nativa americana e de um homem branco. Tinha herdado o cabelo negro e liso de sua mãe e os olhos verdes de seu pai. Era um homem alto, musculoso e endurecido pelo tempo que levava montando a cavalo e pela terrível vida que tinha suportado até que Joe e Meredith Colton o tinham acolhido em sua casa e lhe tinham dado uma razão para acreditar em um ser humano.
Até então, River tinha sido um lobo solitário. E quando Sophie tinha saído de sua vida, tinha retornado a aquele estado. A encerrar-se completamente em si mesmo. Ele não necessitava de Sophie. Não necessitava de ninguém. Ou pelo menos isso era o que tinha estado dizendo a si mesmo.
Mas tinha estado mentindo para si mesmo.
Tinha passado muito tempo desde a última vez que River James havia se sentido indefeso, derrotado. Embora nem tanto da última vez que tivesse estado zangado. Quando, sendo ainda adolescente, tinha ido viver na casa de Joe Colton, seu temperamento tinha sido sempre seu principal problema. E embora com o tempo aquela fúria se convertesse em algo um pouco mais próximo ao orgulho, sempre parecia disposta a aflorar. Sobre tudo no que dizia respeito a Sophie.
Zangou-se com ela porque não o deixava nem a sol nem a sombra. E depois se zangou com ela por crescer e por lhe fazer ver que para ele era algo mais que uma irmã. Também se tinha zangado com ela quando o tinha beijado, e descoberto o quanto que a desejava.
E se tinha enfurecido com ela quando tinha decidido fazer as coisas direito e se afastou de seu lado. E mais ainda quando tinha permanecido longe dele. E havia tornado a zangar-se quando tinha levado aquele idiota do Chet Wallace ao rancho e tinha anunciado que ia se casar com ele.
E naquele momento, estava zangado com ela por estar naquela cama de hospital, com aquele aspecto tão condenadamente frágil, por continuar sendo tão bonita e por lhe haver feito consciente de que ainda a amava.
De que sempre a tinha amado. E de que sempre a amaria.

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