Sete
Nick encontrou as duas na cozinha. Não tinha certeza do que estava se passando quando viu Liza enrubescida, olhando para ele com os olhos verdes arregalados. Bonnie, por outro lado, estava radiante.
- O que houve?
- Nada! - respondeu Liza rapidamente.
- Estávamos esperando que você voltasse para servir o almoço - disse a empregada. - Você foi às compras?
- Fui. - Ele evitou olhar para Liza. Ele descobriu que ir às compras era algo muito íntimo. Imaginar Liza nas roupas que comprara foi difícil o suficiente. Mas quando foi para a área de roupas íntimas, foi ainda pior. - Deixei os pacotes na lavanderia.
- Ei, então traga-as para cá! - exclamou Bonnie. -Tenho certeza de que Liza está curiosa para ver o que você selecionou.
- Não! - exclamou Liza. Ela não olhou para ele. -Você já me comprou roupas suficientes. Olha só, já estou até usando-as.
- Muito bem. Mas não creio que seja suficiente para duas semanas. Além disso, estas roupas não são boas. Imagino que você esteja acostumada a trajes bem mais elegantes. - Ele sabia que mulheres ricas não se vestiam com roupas simples. Daphne gastava uma fortuna em roupas. Cada traje custava mais do que a despesa com alimentação de uma família.
- Ah, você é devagar demais - disse Bonnie já saindo.
Surpreso, Nick protestou, mas era tarde demais. Pretendia deixar as caixas com as roupas íntimas de seda onde estavam até que pudesse levá-las ao quarto de Liza. A imagem mental de um desfile privado o fez parar de pensar. Não foi isso que imaginou. Mas era uma fantasia e tanto.
- Nick?
- Ah, oi?
- Você enviou o dinheiro?
- Sim. Falei com o contador hoje cedo. Ele prometeu cuidar disso.
- Obrigada. Se você me disser o total que gastou, faço um cheque incluindo as roupas.
- Não precisa. Comprei tudo no cartão. A conta só vem daqui a um mês. - Ele não queria que ela pagasse pelas roupas. Queria presenteá-la, embora não perguntasse a si mesmo a razão.
- Uau! - exclamou Bonnie, voltando cheia de sacolas. - Você se empolgou mesmo. Venha Liza. Vamos olhar o que Nick escolheu. Ele tem um ótimo gosto.
Sem esperar que Liza se juntasse a ela, Bonnie pôs as sacolas na bancada da cozinha e abriu a primeira caixa.
Nick soltou um gemido ao ver que a empregada encontrara a caixa que ele não queria. O sutiã e a calcinha verde-claros estavam por cima. Quando viu a cor, incomum para roupas íntimas, rapidamente pensou em Liza com seus olhos verdes, numa pose sensual.
- Eu, ah, achei que você pudesse precisar de mais roupas intimas.
- Que mulher não usaria isso? - exclamou Bonnie. - Olha, Liza, tem mais três conjuntos, cada um numa cor diferente. Pêssego, azul e branco. Não são adoráveis?
- Adoráveis - disse Liza.
A próxima caixa revelou duas camisolas Dior, de desenho simples, feitas de seda, opacas, mas muito finas. Com os robes combinando.
Nick não suportava mais aquilo. Pegou as duas caixas e as colocou sobre uma cadeira, debaixo da mesa.
- As outras caixas são roupas. Espero que goste. Liza lançou um olhar de dúvida sobre ele.
Talvez ela pensasse que ele estava tentando seduzi-la. Será que não manteria a palavra? Prometera não tocar nela - e até agora não o fizera. Mas ele não prometeu não fantasiar.
Bonnie abriu uma caixa para mostrar a Liza um suéter de cashmere verde, com uma saia de lã. Gomo outubro já estava frio, era o traje perfeito para um dia ao ar livre.
- Mas... mas se eu não posso sair, não precisarei de nada desse tipo.
Nick deu de ombros.
- Você pode usá-lo mais tarde.
Ele havia comprado outras coisas, mais casuais. Um macacão jeans com várias blusas. Um terno azul-marinho Chanel. Um vestidinho de lã que faria Liza parecer ter 18 anos. Uma calça marrom e um suéter grosso, que cairia até suas coxas.
- Isso é muito, Nick - disse Liza.
Daphne jamais parou de comprar roupas, até mesmo depois de ter vários doseis repletos. Será que estava testando Liza? Não pensara nisso até aquele momento. Mas, se estivesse, Liza passara no teste, e muito bem.
- Não é muito, Liza. E se precisar de qualquer outra coisa, é só falar. Nosso shopping aqui é quase tão bom quanto o de Nova York.
Daphne considerava as lojas de Saratoga muito boas, assim como os ricos de Nova York que vinham às compras aqui, especialmente na estação de corridas.
- Tenho certeza que sim.
- Eu lhe disse que Nick tem um gosto excelente. Agora, vocês dois, levem tudo lá isso para cima que vou servir o almoço. Imagino que Nick vá querer que você durma logo em seguida - disse Bonnie.
- Mas acabei de acordar - protestou Liza.
- Então talvez assistamos a um jogo de futebol. - Ele imaginou que isso a faria dormir facilmente. A maioria das mulheres não gosta de futebol.
- Quem está jogando? - perguntou Liza, surpreendendo.
- Ah, sei que os Giants e os Cowboys jogam. Não sei sobre o segundo jogo.
- Oh, então vamos logo. - Ela pegou metade das caixas e correu para a porta.
Nick fitou a empregada.
- Ela gosta de futebol?
- Parece que sim. Você é um homem de sorte.
Bonnie o observou sair com as roupas elegantes que comprara.
Tudo estava indo muito bem.
Ela ficara surpresa quando Nick telefonara avisando que tinha visita. Isso era raro - ainda mais uma mulher. Então ela deduziu que fosse um amigo, um colega de trabalho, um homem. Ficou chocada ao vê-lo com uma mulher nos braços. E muito empolgada.
Daí se deu conta que a mulher era famosa, rica e bonita, e sua empolgação diminuiu. Muito parecida com Daphne, a terrível mulher de quem ele se divorciara.
Mas Liza não agia como Daphne. Era muito simpática. Nada mandona. Pediu desculpas por dormir até mais tarde. Nada como Daphne, especialmente no que diz respeito aos empregados.
Já fazia quatro anos desde que ele e Daphne haviam se separado. Era incomum um homem passar tanto tempo sem a companhia de uma mulher. Bonnie já estava preocupada com ele.
Mas era óbvio que Liza fazia o coração dele palpitar.
Que bom!
Agora era hora de dar uma mãozinha.
Liza disse a Nick que guardaria as roupas mais tarde. Ela pareceu não querer fazer isso na frente dele. Sugeriu que não deveriam, fazer a sra. Allen esperar.
Mesmo achando que as razões dela eram outras, seguiu-a até o andar de baixo. Entraram na cozinha e encontraram três bandejas alinhadas sobre a bancada.
- Rápido, Nick - ordenou Bonnie.
Ele a fitou.
- Achei que você ia querer comer na sala, para não perder o jogo. Já começou há meia hora.
Como sua empregada insistia que ele comesse à mesa, dizendo que a televisão atrapalhava a digestão, Nick ficou surpreso com aquilo. Liza, entretanto, não se deu conta de que a sra. Allen estava fazendo uma mudança radical.
- Muito bem pensado, sra. Allen. Deve ser fã de futebol, também - disse Liza, sorrindo.
- Ah, gosto muito, querida. Agora, vou tirar o assado do forno enquanto vocês servem a salada e os pãezinhos. Depois acabamos com a torta de chocolate para sobremesa.
Nick ficou muito desconfiado. A não ser que Bonnie tivesse disfarçado muito, ele jamais a vira assistir a um jogo de futebol. Ele nem mesmo sabia se ela conhecia os Giants. Estava aprontando algo. Talvez tenha lido sua mente quando pensou em Liza caindo no sono.
Deduzindo ser isso o que se passava, ele sorriu e serviu salada para Liza. Ela ofereceu a ele a travessa de pães quentes. Quando Bonnie colocou a travessa sobre o fogão e removeu a tampa, o cheiro de carne assada tomou conta do ambiente.
- Humm, acho que o meu apetite está voltando, Bonnie. Sua culinária é tentadora - disse Liza sorrindo. Bonnie ficou radiante.
Durante os cinco anos em que ficara casado com Daphne, jamais vira Bonnie reagir dessa maneira. Mas, também, jamais vira a ex-mulher elogiar a empregada pelo excelente trabalho.
- Sirva-se, querida.
Foi o que Liza fez, servindo-se de uma generosa porção de carne, batatas, cenouras e cebolas.
Enquanto se serviam, Bonnie serviu os copos de chá gelado. Nick concordou em deixar Liza tomar o leite com a sobremesa.
- Você pode carregar sua bandeja, Liza? - perguntou Nick.
- Claro que sim - respondeu ela indignada. - Não sou mais criança.
- Não, mas não está forte o bastante.
- Ei, nada de discussões. Você estão perdendo a partida - avisou a sra. Allen, como se o jogo na TV fosse a coisa mais importante do mundo.
Mas funcionou. Liza pôs o copo de chá na bandeja e a levantou. Em seguida, olhou à sua volta.
- O que foi? - perguntou ele.
- Não sei onde fica a sala. Só conheço a cozinha e o meu quarto.
- Desculpe. Depois lhe mostro a casa. Siga-me.
A sala era o cômodo favorito de Nick. Enormes janelas cobriam uma parede, com vista para as árvores que se alinhavam no quintal. Uma enorme televisão ficava em frente à outra parede com vários sofás verdes confortáveis.
Ele deixou a bandeja sobre a mesa de centro e abriu um closet onde guardava mesinhas de lanche. Abrindo uma para Liza, ele se afastou para ela colocar a bandeja. Quando se acomodou, ele abriu uma mesinha para ele ao lado dela e outra para Bonnie em frente ao outro sofá.
- Você se importa? Posso ver a TV melhor daqui - disse ele ao se sentar ao lado dela.
- Claro que não, mas talvez eu devesse sentar em outro lugar para Bonnie se acomodar melhor. Ela parecia muito animada.
- Ela pode ver bem dali. Ou você estava brincando quando disse que gostava de futebol?
- Não, eu adoro. Tio Joe e os meninos gostavam de jogar bola. Eles sempre chamavam as meninas para jogar.
- Você jogava futebol? E se machucava?
- Não. Eles não me pegavam. Sou muito rápida - disse ela sorrindo. O sorriso foi desaparecendo. - Foram anos incríveis.
- Você soa como se estivessem perdidos para sempre.
- E estão - disse ela com firmeza, como se demonstrasse que não queria falar sobre a família. - Você vai colocar no jogo ou não?
Ele se levantou e foi pegar o controle remoto quando Bonnie entrou na sala sem a bandeja.
- Crianças, se vocês não se importarem, decidi não assistir o jogo hoje. Lembrei de um livro policial que comecei a ler na noite passada. Estou morrendo de curiosidade para saber quem foi o assassino.
- Eu posso lhe contar - ofereceu Nick. Tinha sido ele quem recomendara o livro para Bonnie.
- Não se atreva! Você se importaria, Liza?
- Claro que não, Bonnie, se é o que você quer.
- Ótimo. Você torce para aqueles, ah, anões por mim. - Sorrindo, a empregada saiu.
Liza olhou para Nick.
- Anões?
- Acho que ela quis dizer Giants.
- Ela não assiste futebol, assiste?
- Não que eu saiba - confessou ele.
- Então, por que disse que assistia?
- Acho que estava tentando lhe fazer sentir-se em casa.
- Oh, que gentil. Você tem muita sorte por tê-la, Nick.
- Concordo plenamente - disse ele. Bonnie não era apenas uma boa cozinheira, mas fazia da casa dele um lar, tomando o lugar de seus falecidos pais. E ela estava determinada a fazer o mesmo por Liza.
Nick ficou muito satisfeito.
Várias horas depois, Liza se esticou e abriu os olhos. Mas não se moveu, pois estava muito confortável para levantar-se.
Até ouvir uma batida de coração sob seu ouvido. Arregalou os olhos e se deu conta de que estava apoiada em Nick, usando-o como travesseiro. Ele a abraçava, mas seus olhos estavam na televisão.
- Sinto muito - disse ela, afastando-se do calor do corpo dele. - Você deve estar todo duro de ter que me segurar. Deveria ter me acordado.
- Por quê? Eu já sabia que você ia dormir.
- Mas... você me enganou, Nick Hathaway!
- Sou inocente, Liza Colton. Não fui eu quem a fez dormir. Só proporcionei a oportunidade. Foi você quem fechou os olhos, bem no meio do jogo que você dizia amar.
- Gosto muito mesmo. Devia estar mais cansada do que esperava. Parece que estou comendo e dormindo o tempo todo. Quando voltarei ao normal? - Como se isso fosse possível ao lado de Nick. Só de olhar para ele, o coração de Liza disparava e fazia-a sentir vontade de se jogar em seus braços.
- Dentro de algumas semanas. Mas ainda assim precisará de cuidado. Você tem datas marcadas para apresentações?
- Eu disse a mamãe para desmarcar tudo por quatro semanas. Não quero pensar em cantar enquanto Emily estiver em apuros.
Ele fez um gesto positivo com a cabeça. Fizera muito poucas perguntas sobre a conversa dela com Emily, o que deixara Liza muito grata. Ela não achava uma boa idéia falar para ninguém, nem mesmo para ele.
- Pronta para a torta de chocolate?
- Sabe que acho que sim - ela riu. - Vou ter que entrar de dieta quando for embora.
Nick franziu a testa.
- Não quero esse papo de dieta, mocinha. Coma de maneira sensível, é a chave do negócio.
- Comer de maneira sensível inclui torta de chocolate?
- Isso é parte de uma variedade saudável - ele assegurou.
Quando ela começou a se levantar, ele tocou em seu ombro, mantendo-a no sofá.
- Eu pego. Você descansa.
Quase haviam terminado a torta quando o telefone tocou. Nick atendeu.
- Dr. Hathaway, aqui é o detetive Ramsey. Olhando para Liza, Nick disse:
- Sim, detetive. Tudo bem?
Liza chegou perto do aparelho para ouvir a conversa.
- Tudo. Você levou a srta. Colton até o aeroporto?
- Não, não levei - disse Nick calmamente. - O hotel se ofereceu para levá-la numa limusine. - Piscou para Liza. - Você sabe como são essas estrelas. Ela aceitou na hora. Algum problema?
- Não sei bem. Tentamos contatá-la no número que ela nos deu. Deixamos uma mensagem, mas ela não nos retornou a ligação.
- Ela estava muito cansada. Talvez durma por horas a fio. Mas achei que você tivesse terminado a investigação.
- Recebemos informações sobre um homem parecido com a descrição dela no aeroporto. O guarda de segurança nos ligou. Queríamos ter certeza que ela chegou bem em casa.
- Entendo. Achei que você pudesse ter ouvido algo sobre a prima dela.
Um silêncio mortal se deu depois destas palavras.
- Por que você perguntaria isso? - indagou o detetive. Liza olhou para Nick atônita.
- Sei lá. Você ouviu, não ouviu? Mais silêncio.
- Só precisamos saber onde a srta. Colton está.
- Por que? - perguntou Nick.
- Acho que não é da sua conta, doutor, ao menos que saiba algo sobre a srta. Colton que não está me dizendo. Eu detestaria ter de prender você, um médico respeitável, por interferir numa investigação policial.
- Tudo o que sei é que Liza falou em desaparecer por alguns dias porque estava assustada com o homem. Deduzi que foi o que ela quis dizer quando disse à mãe que não atenderia o telefone ou a porta.
- Você tem o número da mãe dela? Nick deu uma risadinha.
- Você, obviamente, nunca falou com a mulher.
- O que você quer dizer com isso?
- Digamos que ela não seja uma pessoa muito fácil.
- E a casa da srta. Colton na Califórnia?
- Detetive, eu fui o médico dela, por um breve período. O número do telefone do apartamento dela em Nova York é tudo o que tenho. Suponho que você possa ligar para o tio Joe, Joe Colton. Talvez ela tenha entrado em contato com ele.
Liza sacudiu a cabeça com força. Não queria tio Joe preocupado com ela e não podia ligar para ele dali para acalmá-lo. O número iria aparecer no identificador de chamadas.
O detetive suspirou frustrado.
- Veja bem, eu preciso de informações e você passou a maior parte do tempo com a mocinha.
-Você quer dizer a srta. Colton?
- Isso mesmo, a srta. Colton. - O detetive Ramsey parecia irritado. - Você acha que ela e a prima podem ter armado essa situação?
Liza ficou indignada pela pergunta do detetive e olhou para Nick. Ele balançou a cabeça levemente.
- Claro que não. A condição médica da srta. Colton deriva do choque causado pelo desaparecimento da prima e da falta de sono e alimentação. Ninguém faria isso consigo mesmo.
- Já ouvi coisas muito estranhas. E se isso for verdade, como ela pode ter melhorado tanto? Ao menos que tenha tido notícias da prima.
Liza temeu que Nick houvesse se encurralado. Mas ele respondeu com calma.
- Ela melhorou porque a sedei e o corpo se recuperou enquanto a mente estava desligada. Talvez eu devesse tê-la mantido aqui por mais tempo, pois sua recuperação pode estar comprometida. Mas eu não tinha como impedi-la de ir.
- Humm...
- Por que você pensaria isso, detetive?
- Por uma razão muito boa, doutor. O sr. Colton recebeu um telefonema... do apartamento dela.
- Recebeu?
Liza ficou atônita. Como alguém ligaria do apartamento dela? A menos que o tenha invadido.
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