
Como num romance
Desperately Seeking Daddy
Arlene James
Um amor que só acontece em livros...
Hellen Moore abandonou os estudos para casar-se e construir um lar. Mas seu sonho dourado, longe de se tornar realidade, resultou em frustração. Divorciada e trabalhando em dois empregos para sustentar a família, ela mal tinha tempo para se divertir ou para dar atenção às crianças. Mas de repente Jackson Tyler entrou em sua vida feito um furacão, questionando seu comportamento, fazendo com que ela se redescobrisse.
Porém, tudo parecia bom demais para ser verdade...
Disponibilização: Lúcia
Digitalização: Simoninha
Revisão: Edna F.
Querida leitora,
Faça chuva ou faça sol, os Romances Nova Cultural trazem para você as melhores histórias de amor. Todos os dias, um romance novo nas bancas. Você tem um amor diferente a cada dia. Não deixe de viver nenhuma dessas emoções. Vá agora mesmo até a banca mais próxima e garanta grandes amores em sua vida!
Janice Florido
Editora Executiva
Como Num Romance
Arlene James
Copyright © 1996 by Deborah A. Rather
Originalmente publicado em 1996 pela Silhouette Books, divisão da Harlequin Enterprises Limited.
Título original: Desperately Seeking Daddy
Tradução: Camillo Garcia
Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial, sob qualquer forma.
Esta edição é publicada através de contrato com a Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canadá.
Silhouette, Silhouette Desire e colofão são marcas registradas da Harlequin Enterprises B.V.
Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência.
EDITORA NOVA CULTURAL uma divisão do Círculo do Livro Ltda.
Alameda Ministro Rocha Azevedo, 346 - 11a andar
CEP: 01410-901 - São Paulo - Brasil
Copyright para a língua portuguesa: 1997 CÍRCULO DO LIVRO LTDA.
Fotocomposição: Círculo do Livro Impressão e acabamento: Gráfica Círculo
CAPÍTULO I
PROCURA-SE UM MARIDO PARA MOÇA BONITA — MÃE DE TRÊS FILHOS EDUCADOS E BONDOSOS. ELA TRABALHA MUITO, É INTELIGENTE E ALEGRE. LIGAR PARA 555-1118. FALAR COM CODY.
Jackson Tyler estava saindo da mercearia Lake City quando viu o aviso escrito numa folha de caderno, logo abaixo de um desenho, evidentemente feito por uma criança.
Em seus três anos como diretor de uma escola particular de primeiro grau, Jackson já vira centenas de pinturas e desenhos infantis. O que o intrigava era o fato de aquele desenho estar fixado não num quadro escolar, mas na porta da maior e mais antiga mercearia da cidade.
Depositando o saco de compras no chão, Jackson resolveu observar melhor a obra do pequeno artista que assinava o aviso: Cody.
Ao abaixar-se, sentiu uma forte pontada no joelho esquerdo. Mas ignorou-a e colocou-se de cócoras diante do desenho. Não tardou a concluir que o menino responsável por aquela obra singela deveria ter menos de nove anos. Os traços do desenho, bem como as letras escritas de maneira irregular, confirmavam essa impressão.
No centro da folha havia uma mulher sorrindo, com um coração vermelho destacando-se no peito, flores nos cabelos cacheados e olhos azuis com longos cílios. Aos pés da figura, a inscrição: mamãe. Ao lado da mulher, três crianças de mãos dadas: um menino, uma menina um pouco menor e um bebê, com as respectivas inscrições: eu — minha irmã Priscilla — meu irmãozinho Davy.
Com um sorriso comovido Jackson observou o espaço em branco à esquerda da mulher, delimitado por um círculo irregular. No interior do círculo, a inscrição: marido de mamãe — quem será?
"Sei que você está tentando ajudar sua mãe, Cody", Jackson pensou, tomado por uma onda de ternura. "Mas esse anúncio poderá criar sérios problemas..."
De fato, a mãe do pequeno e sensível Cody poderia ficar bastante embaraçada quando começasse a receber telefonemas de mau gosto ou trotes de possíveis candidatos. E isso era bastante provável, pois havia muitos desocupados na pequena Lake City que adorariam divertir-se às custas da inocência de um menino que só queria encontrar um pai...
Num gesto calmo e preciso, Jackson retirou o aviso do quadro e guardou-o no bolso da camisa. O joelho esquerdo doeu novamente, quando ele se ergueu. Mas Jackson já estava aprendendo a conviver com aquele problema. Depois de tudo o que sofrera, uma pontada de dor que passaria em poucos minutos não significava realmente nada...
Pegando o saco de compras que havia depositado no chão, Jackson saiu da mercearia e dirigiu-se ao estacionamento onde havia deixado seu sedan azul.
Minutos depois ele seguia rumo ao condomínio fechado onde morava.
Passou pelo apartamento rapidamente, apenas o tempo suficiente para guardar as compras na despensa e tomar um banho, pois o dia estava quente.
Era início de verão; as férias escolares haviam começado na semana anterior.
Vestindo calças caqui de brim leve, camisa branca e mocassins, Jackson saiu novamente e entrou no sedan. Acionou o motor e seguiu pela avenida que ligava seu bairro ao da escola Happy Child, onde ocupava o cargo de diretor.
Cerca de quinze minutos depois estacionava em frente ao pátio vazio do estabelecimento. À esquerda, na área de lazer cercada por um alambrado, várias crianças brincavam, sob o olhar atento de dois funcionários da escola.
Jackson cumprimentou ambos e entrou.
Fora uma dura luta convencer os membros da diretoria a abrir a área de lazer durante as férias. Essa área, antes destinada apenas aos alunos, estava sendo franquiada pela primeira vez às outras crianças do bairro. E a ideia fora de Jackson.
Um problema que ocorria com frequência, durante as férias, era a invasão da área pela garotada das redondezas. A secretária da escola sugerira, durante uma reunião com o corpo discente, a contratação de dois seguranças para vigiar o local. Jackson apoiara a sugestão, mas com uma ressalva: a de que os seguranças deveriam cuidar das crianças, e não impedir sua entrada na escola, Esse argumento fora firmado no fato de que o bairro crescera muito nos últimos anos e necessitava de um espaço de lazer. Só a escola possuía um belo playground, por que não oferecê-lo à população durante as férias escolares?
Apesar da contrariedade de vários membros da diretoria, Jackson vencera a discussão. E era com um sentimento de alegria que ele agora via a garotada se divertindo livremente. Várias daquelas crianças pertenciam a famílias pobres, que não podiam viajar durante as férias. Bem, ao menos elas não ficariam totalmente desprovidas de atividades... Ao menos teriam um local para brincar.
Retirando do bolso o molho de chaves, ele abriu o portão que dava acesso ao pavilhão da diretoria, secretaria, salas de aulas e pátio interno. O silêncio parecia quase palpável nos corredores, em geral tão movimentado com o constante ir e vir de alunos e professores.
Jackson caminhava sem pressa em direção à sala da diretoria. Conhecia cada palmo daquela escola. Seria capaz de descrever cada detalhe interno ou externo da construção que um dia fora a residência de uma família tradicional da região.
Jackson a comprara há cerca de cinco anos e, depois de reformá-la, transformara-a na escola Happy Child, realizando um sonho que acalentara desde muito jovem.
Educação e esportes. Essas eram as duas paixões de Jackson Tyler, ex-jogador de um dos maiores times de beisebol do país e, agora, educador.
Com um meneio de cabeça e um sorriso melancólico, Jackson entrou na sala da diretoria, cuja placa de bronze trazia o seu nome e graduação: Jackson Tyler — Diretor — Bacharel em Pedagogia.
Retirando de novo o molho de chaves do bolso, abriu a porta e passou pela saleta da secretária, que, tal como a maioria dos funcionários da Happy Child, estava de férias. No mês seguinte todos retornariam ao trabalho para fazer o planejamento do próximo ano letivo.
Jackson sentou-se em sua cadeira giratória, diante da mesa de trabalho. Era difícil acostumar-se com aquele silêncio...
Já estava até com saudades da algazarra das crianças. Amava-as como se elas fossem parte de sua família. Adorava vê-las crescendo, desenvolvendo-se, preparando-se para um mundo cheio de mistérios e desafios. E sabia do tamanho de sua responsabilidade, como educador, na formação daqueles espíritos tão jovens e inexperientes.
A escola possuía cerca de duzentos alunos, todos devidamente catalogados no computador que Jackson agora acionava, digitando o nome Cody. Se o autor do desenho que ele havia encontrado na mercearia fosse aluno da Happy Child, Jackson não tardaria a localizá-lo.
De fato, havia um garoto chamado Cody Moore Swift, de oito anos de idade, que acabara de passar para a terceira série. A letra B, ao lado do nome, indicava que ele era inscrito no programa de apoio social da escola.
Esse programa fora criado por Jackson havia cerca de três anos e fornecia bolsas de estudo a alunos pertencentes a famílias que não podiam pagar as altas mensalidades da Happy Child. Em cada classe havia três bolsistas, selecionados de acordo com um exame de aptidão. Cody Moore Swift era um deles.
Jackson acionou um novo comando no teclado e a foto de Cody surgiu na tela, ao lado de seu histórico escolar.
Um sorriso insinuou-se nos lábios de Jackson. Claro que se lembrava daquele garoto risonho, de cabelos loiros cacheados e olhos azuis. Se não estava enganado, Cody já fora levado à diretoria por três vezes, por questões de indisciplina. Jackson conversara com ele longamente, explicando-lhe que as regras da escola deveriam ser respeitadas. Cody ouvira-o com uma expressão compenetrada. Mas logo voltara a fazer as mesmas traquinagens. Suas notas, entretanto, figuravam entre as melhores da classe. Essa era uma das exigências feitas aos bolsistas: que tivessem bom aproveitamento e assiduidade.
Após ler o histórico escolar do menino, Jackson concentrou-se na ficha de matrícula. Tal como já suspeitava, os pais de Cody eram divorciados. Segundo as informações ali contidas Cody vivia com a mãe, a irmã de seis anos e o irmão de dois. Não havia nenhum dado sobre o pai. No item chefe da família contava o nome da mãe, Hellen Moore.
Jackson retirou o desenho de Cody do bolso da camisa e abriu-o sobre a mesa, ao lado do teclado do computador. Pretendia comparar o número de telefone sob o desenho com os dados do menino. Mas na ficha de Cody não constava telefone. Apenas o endereço da família, que morava em Fairhaven Mobile Home. Esse era o nome de um dos mais antigos condomínios da região, muito diferente dos atuais condomínios fechados que se estendiam ao longo da rodovia interestadual que ligava Dallas a Fort Worth.
Fairhaven Mobile Home não oferecia as comodidades dos outros condomínios, tais como áreas de lazer, piscinas, salões de jogos e festas... Ao contrário: tratava-se de um conjunto de casas modestas, separadas umas das outras por singelos jardins com cercas baixas de madeira esmaltada.
Entretanto Jackson sempre tivera um carinho especial por aquele lugar, sobretudo por causa do bosque natural que circundava as casas, como se quisesse aconchegá-las em seu colo verde... Esse bosque era preservado, graças a um trabalho admirável da prefeitura local e dos próprios moradores do lugar. Ali a mãe natureza imperava, intocada pela mão do homem, que em nome do progresso muitas vezes cometia crimes terríveis contra o planeta.
Havia também muitas espécies de pássaros, esquilos e outros roedores. Contava-se que até um bando de pequenos macacos aparecia de vez em quando, para alegria dos moradores, que, felizmente, não tentavam domesticar os animaizinhos. Respeitavam sua condição selvagem e deixavam que vivessem em paz, protegidos pelas árvores centenárias e densa vegetação.
Para Jackson o Fairhaven Mobile Home era um local quase mágico, onde uma criança poderia brincar na terra ou na caixa de areia de um parquinho à moda antiga, com escorregadores, balanços e gangorras de madeira. Chegava a preferir aquele lugar aos sofisticados playgrounds dos condomínios luxuosos da cidade, que possuíam até salas com jogos eletrônicos. Tinha a nítida impressão de que ali as crianças poderiam desfrutar melhor a infância, em contato profundo com a natureza.
Quando chegara a Lake City, cinco anos antes, Jackson decidira estabelecer-se ali. E o primeiro local que chamara-lhe a atenção fora o Fairhaven Mobile Home. Só não fora morar lá porque não encontrara um imóvel para comprar. Todas as casas do Fairhaven, pertencentes a um corretor aposentado que vivia numa cidade vizinha, eram para alugar. O velho senhor recusava-se a vendê-las, pois queria conservar o patrimônio.
Assim, Jackson acabara comprando um apartamento em Blue Bird, um pequeno e luxuoso condomínio situado no bairro nobre da cidade. Também ali havia uma área verde, onde se podia ouvir os pássaros ao amanhecer. Mas nem se comparava, em tamanho, ao bosque que circundava Fairhaven.
Jackson acionou a impressora do computador e em poucos minutos a ficha de Cody Moore Swift estava impressa.
Releu-a mais uma vez e, alcançando o telefone, discou o número que o menino anotara sob o desenho. Se aquele número fosse verdadeiro, e Jackson poderia jurar que era, alguém da família Moore atenderia a chamada.
De fato, Jackson não tardou a ouvir uma voz feminina do outro lado da linha:
— Alô?
— Alô. — Ele se apresentou: — Meu nome é Jackson Tyler. Aí é da casa dos Moore?
— Sim.
— Por acaso estou falando com a sra. Hellen Moore?
— Não. Aqui é Beth, a babá das crianças.
— E como posso contatar a sra. Moore?
— Ah, ela só chega de madrugada.
— A senhorita não me entendeu — Jackson insistiu. — Preciso falar com a sra. Moore agora.
— Nesse caso, o senhor poderá encontrá-la na Loja de Conveniências Peter Lore, lá no centro da cidade. Ela é caixa e trabalha até às sete da noite.
— Certo. Por acaso a senhorita teria o número do telefone de lá?
— Sim, mas isso não vai adiantar nada, pois Hellen não pode atender chamadas, a menos que se trate de algo urgente.
— Compreendo. Bem, muito obrigado por sua atenção, senhorita.
— De nada. Quer que eu dê algum recado a Hellen?
— Não é necessário. — Jackson agradeceu mais uma vez, desligou o telefone e saiu em seguida.
Lake City, uma pequena e famosa cidade construída ao redor de um grande lago, no coração do Texas, estava particularmente movimentada naquele início de verão.
Jackson levou apenas alguns minutos para chegar até o centro da cidade. Encontrou uma vaga a cerca de cem metros da Loja de Conveniências Peter Lore, estacionou o sedan azul e saltou.
A movimentação na loja era intensa. Grupos de adolescentes, casais com crianças, jovens namorados ou pessoas solitárias buscavam, nas prateleiras cheias de variedades, alguma guloseima para a tarde de sábado... Ou então algum produto que haviam se esquecido de comprar na mercearia ou no supermercado, ambos já fechados àquela hora da tarde.
Havia um balcão baixo, próximo à porta da loja, onde ficava a caixa registradora. Por trás desta, uma mulher de cabelos curtos, loiros e cacheados, rosto angelical e compleição delicada trabalhava sem cessar, registrando e cobrando as compras dos fregueses.
Jackson não teve dúvidas de que ela era Hellen Moore. O pequeno Cody soubera captar as principais características da mãe no desenho que fizera: o rosto triangular, os olhos enormes e azuis, os cabelos que mais lembravam os de um anjo barroco.
A princípio Jackson pensou em esperar que a fila de fregueses terminasse para abordar Hellen. Mas o movimento na loja era incessante. Pessoas chegavam e saíam quase que na mesma proporção. Ao que tudo indicava, Hellen Moore não teria sequer um minuto de sossego até a hora da saída.
Por um momento Jackson perguntou-se se não seria melhor voltar mais tarde. Afinal o assunto que o trouxera ali era muito sério e não deveria ser tratado de maneira superficial.
Mas, também, ele não pretendia mesmo tratar do caso ali, diante de todos. O que desejava fazer era marcar um horário com Hellen, para que pudessem conversar. Essa era a melhor opção, ele decidiu, entrando na fila.
Enquanto aguardava sua vez, pôde observar melhor a mãe do pequeno Cody. Era bela, disso não havia a menor sombra de dúvida. Devia ter cerca de vinte e cinco anos. Entretanto o cansaço era evidente no rosto de traços perfeitos.
"E não é para menos", Jackson pensou, penalizado. "Para mim, ficar meia hora nessa caixa registradora já seria o suficiente para enlouquecer."
— O próximo — disse Hellen, sorrindo de maneira polida para a velha sra. Lang, cliente assídua da loja. — Oh, como vai, senhora?
— Bem. — A mulher sorriu de volta. — E você, minha querida?
— Para ser franca, bastante cansada — Hellen respondeu, enquanto registrava na máquina os dois pacotes de biscoitos de coco, o queijo e a goiabada que a sra. Lang comprava religiosamente, todos os sábados.
— Você trabalha demais, minha menina — a velha senhora sentenciou, num tom carinhoso.
— É preciso, sra. Lang — Helen retrucou, filosoficamente. — É preciso...
A sra. Lang pagou a conta e saiu. Ao chamar o próximo cliente da fila, Helen deparou com os olhos mais belos que já vira em toda a sua vida.
Tinha a vaga impressão de conhecer aquele homem alto, de cabelos negros e lisos, dono dos olhos que a fitavam com insistência e que mais pareciam ônix preciosas. Quem seria? Perguntou-se, desviando o rosto.
Bem, fosse quem fosse, aquele homem a estava observando desde o momento em que entrara na loja. E a última coisa de que Hellen precisava, no momento, era um flerte...
Por isso ela foi séria e incisiva ao atendê-lo, momentos depois:
— O que posso fazer pelo senhor? — indagou, ao ver que o homem não havia comprado nada. Abriu a pequena estante de acrílico onde ficavam os cigarros, balas e chicletes e esperou que ele fizesse o pedido.
Mas o homem apenas sorriu e disse num tom cordial:
— Preciso de um minuto do seu tempo, senhora.
— Impossível — ela respondeu secamente, enquanto fechava a estante. — E agora, se o senhor me der licença...
— Seu nome é Hellen Moore, não? — ele a interrompeu. Se não agisse rápido, aquela mulher decidida acabaria por mandá-lo embora.
— Sim — ela confirmou, franzindo a testa. — E o senhor, quem é?
— Jackson Tyler — ele se apresentou e concluiu: — Diretor da escola onde seu filho Cody estuda.
Ela empalideceu e suas mãos caíram por um instante sobre o teclado da máquina:
— Aconteceu algo com Cody durante a aula? — perguntou, assustada. Em seguida, como se falasse consigo mesma, acrescentou. — Mas as férias já começaram há alguns dias. Como é possível que...
— Por favor, não fique nervosa — Jackson apressou-se a tranquilizá-la. — Não há nada de errado com Cody, eu garanto.
Agora sim, Helen lembrava-se daquele homem belo e carismático, que vira de relance na última reunião de pais e mestres, no mês anterior. Ela havia chegado atrasada e cruzara com ele no corredor da escola. Sim... Fora exatamente naquele dia que o vira pela primeira vez.
— Quer dizer que está tudo bem com meu filho, sr. Tyler? — ela indagou, um tanto desconfiada.
— Sim, senhora. Pode acreditar em mim.
— Então, o que está fazendo aqui?
— Vim porque preciso falar-lhe em particular.
As pessoas na fila começavam a impacientar-se com a demora.
— Ei, sra. Moore — protestou um adolescente sardento, apoiado imediatamente pelos colegas que o cercavam, carregados de refrigerantes. — Que tal andar mais depressa?
— Cuide de sua vida, garoto — Helen retrucou. — Você é muito jovem para ser rabugento.
— Um momento, por favor, pessoal — disse Jackson, com um sorriso cheio de simpatia. — Sou eu o culpado por esse... Digamos... Engarrafamento. Mas prometo que já deixarei a sra. Moore trabalhar em paz. — Erguendo a voz por sobre o burburinho que sua interferência acabava de causar, ele perguntou a Hellen: — A senhora sai às sete da noite, não é mesmo?
— Exato.
— Posso esperá-la para conversarmos?
— Não, pois tenho um compromisso em seguida.
— Será que não pode atrasar-se por alguns minutos? — Jackson insistiu, um tanto aborrecido. Aquela mulher havia lhe parecido uma pessoa consciente e responsável... Do tipo capaz de cancelar qualquer compromisso para tratar de um assunto relativo aos filhos.
"Será que me enganei a respeito de Hellen Moore?" Ele se perguntou e logo obteve a resposta:
— O compromisso ao qual me refiro é profissional, sr. Tyler. Eu tenho dois empregos.
— Quer dizer que vai entrar em outro trabalho, quando sair daqui?
— Exato.
— E a que horas estará livre, sra. Moore?
— Depois da meia-noite.
— Nesse caso, é melhor conversarmos amanhã — Jackson ponderou.
— Eu costumo entrar às nove da manhã, aqui na loja.
— Então, será que poderíamos conversar antes desse horário? — Jackson propôs. E acrescentou: — Que tal às oito, na escola?
"Oito horas", Hellen repetiu em pensamento. Isso significava que ela dormiria uma hora a menos, que sairia de casa uma hora mais cedo, que ficaria uma hora a mais longe das crianças...
"Oh, Cody querido, o que foi que você fez? Deve ter sido algo muito grave, para o próprio diretor da escola vir me procurar!"
Um sentimento de frustração brotou no íntimo de Hellen. Se ela não tivesse de trabalhar para sustentar a si e às crianças, se não fosse obrigada a fazer o papel de mãe e pai de família... Talvez lhe sobrasse tempo para dar mais atenção aos filhos. Mas como fazer isso, trabalhando em dois empregos e ainda por cima sendo dona de casa?
Com um leve meneio de cabeça ela cortou o fluxo de pensamentos. A autocomiseração não a levaria a nada. E, também, de nada adiantava cogitar sobre o motivo pelo qual o sr. Tyler desejava falar-lhe em particular. Fosse o que fosse, ele seria esclarecido na manhã seguinte. Até lá, era melhor nem pensar no assunto. Mesmo porque, de nada adiantaria.
Tomando o silêncio de Hellen como sinal de desinteresse, Jackson Tyler mais uma vez perguntou-se se estaria enganado com relação a Hellen Moore... E a resposta veio ainda mais rápido:
— Estarei na escola às oito horas em ponto, senhor.
— Ótimo. — Ele sorriu. — Bem, não quero atrapalhá-la mais, sra. Moore. Até amanhã.
— Até — Hellen despediu-se e fez sinal ao próximo cliente para se aproximar. Se tivesse tempo de pensar, passaria uns bons momentos refletindo sobre a luz que habitava os olhos negros de Jackson Tyler. Uma luz que jamais vira, em qualquer outro olhar.
Carisma... Era esta a palavra exata para definir a força e mistério daqueles olhos-ônix, verdadeiras jóias preciosas a luzir no rosto de traços perfeitos.

No comments:
Post a Comment