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Sunday, December 19, 2010

Arlene James - Desperately Seeking Daddy p.03

CAPÍTULO III

O Plaza Café ficava num bairro nobre da cidade, de frente para uma praça arborizada, com gran­des jardins de rosas multicoloridas.
Uma garçonete jovem e simpática saudou Jackson:
— Bom dia, professor.
— Bom dia, Liz. Esta é a sra. Hellen Moore, mãe de um aluno lá da escola.
A moça cumprimentou Hellen com amabilidade:
— É um prazer conhecê-la, senhora.
— O prazer é meu — Hellen respondeu, no mesmo tom.
— Ei, acho que a conheço — Liz recordou-se, com um sorriso. — A senhora não trabalha na Loja de Conveniências Peter Lore?
— Exatamente. — Hellen retribuiu o sorriso. — Acho que tam­bém me lembro de você, Liz.
— Ah, eu sou cliente assídua de lá. Adoro os doces caseiros que o Peter vende. Dizem que é a mulher dele quem faz. Isso é verdade?
— Sim. A sra. Lore é uma confeiteira de mão-cheia.
— Vou provar um de seus doces, qualquer dia desses — Jackson afirmou.
— Pois aposto que vai adorar — Liz comentou. — Bem, onde preferem sentar-se?
— No terraço — Jackson respondeu. — Isto é, se a sra. Moore concordar.
— Faça como achar melhor, sr. Tyler — disse Hellen.
A sugestão de Jackson não poderia ter sido melhor. O terraço do Plaza-Café oferecia uma esplêndida visão da praça, onde vários pássaros cantavam na copa das árvores como se saudassem a bela manhã de verão.
Das caixas de som vinha uma música barroca, que lembrava a dos antigos menestréis, executada por um cravo, flautas e violoncelo.
— Estou faminta — Hellen confessou, abrindo o cardápio.
— Nesse caso, é melhor pedir o café da manhã completo — Liz sugeriu.
— Mas é muito caro — Hellen protestou, arregalando os olhos ao ver o preço ao lado de cada item.
— Esqueceu-se de que é minha convidada, sra. Moore? — disse Jackson. E antes que Hellen respondesse, pediu a Liz: — Vamos aceitar sua sugestão.
— Certo. — A garçonete começou a anotar o pedido. — Café da manhã para dois...
— Só para a sra. Moore — Jackson esclareceu. — Já tomei o meu desjejum. Quero apenas uma xícara de café cremoso e um pão de queijo.
Os pedidos chegaram com incrível rapidez. Esse era bem o estilo do Plaza-Café, que atendia seus clientes de maneira gentil e eficiente.
Jackson ficou gratamente surpreso ao ver Hellen comer com incrível apetite. Por duas vezes ela já havia perguntado sobre o assunto que ele tinha a tratar. Mas Jackson preferiu esperar que a refeição chegasse ao fim para iniciar a conversa. E foi o que fez, quando Hellen deu-se por satisfeita:
— Puxa, nem eu mesma acredito que dei conta desse café da manhã!
— Quer mais alguma coisa? — ele ofereceu, solícito.
— Nem pensar! — ela exclamou, com um sorriso.
Liz aproximou-se e tirou a mesa. Hellen esperou que ela se afastasse para indagar:
— E então, sr. Tyler? O que tem a conversar comigo a respeito de Cody?
Como resposta Jackson apenas tirou o desenho do bolso e, desdobrando-o, colocou-o sobre a mesa.
— Oh não — Hellen murmurou, depois de observá-lo por alguns instantes. — Suponho que tenha encontrado isto no quadro de avisos da escola...?
— Na porta da mercearia Lake, senhora. — Jackson não pôde deixar de dizer.
O rosto de Hellen tornou-se rubro de vergonha e seus olhos azuis encheram-se de lágrimas.
— Aposto que Cody só queria ajudar, sra. Moore. — Jackson tentou consolá-la.
— Claro que sim — ela aquiesceu, com voz trêmula. — Ele sabe muito bem quanto me sinto triste e cansada, lutando sozinha para sustentar nossa família. Eu bem que tento disfarçar, mas...
Hellen não conseguiu terminar a frase. Uma lágrima furtiva escorreu-lhe pelo rosto, marcando-o com um rastro luminoso.
— Não fique assim, sra. Moore, por favor — Jackson pediu, num tom que era quase uma súplica. Não havia previsto que Hellen pudesse chorar... E não suportava ver uma pessoa naquele estado.
— O senhor deve pensar que sou uma péssima mãe — ela comentou, retirando um lenço de papel do bolso do vestido para secar as lágrimas.
— De jeito nenhum, sra. Moore — Jackson protestou, com vee­mência. Na verdade, estava começando a achá-la uma pessoa ad­mirável, como poucas neste mundo. — A senhora está fazendo o máximo que pode para dar uma vida digna a seus filhos.
— Mesmo assim, parece que nunca é suficiente... — ela lamen­tou-se, baixando os olhos.
— Não pense desse jeito derrotista, senhora — Jackson acon­selhou, penalizado.
Ela ergueu os profundos olhos azuis e forçou um sorriso:
— Tem razão, sr. Tyler. A autocomiseração não leva a nada.
— É assim que se fala, sra. Moore. — Jackson sorriu de volta, invadido por uma sensação de alívio. Se Hellen tivesse continuado a chorar, ele acabaria cometendo alguma loucura, tal como abra­çá-la com força, como se assim pudesse protegê-la dos males do mundo... E isso seria totalmente fora de propósito, já que mal a conhecia.
— Pobre Cody — Hellen murmurou. — Ele é o mais velho, sabe?
— Sim — Jackson assentiu. — Estou com a ficha de Cody, aqui no bolso. Aliás, foi assim que localizei seu endereço. — Ele fez uma pausa antes de acrescentar: — Sra. Moore, só insisti em procurá-la porque me senti no dever de contar-lhe sobre isso. — E apontou o desenho, como se estivesse diante de uma flor muito delicada. — Cody naturalmente não se dá conta do quanto esse tipo de anúncio pode ser constrangedor ou perigoso.
— O pobrezinho deve estar muito desesperado, para chegar a esse ponto — Hellen concluiu, com um suspiro. — E tudo por causa do divórcio...
Jackson quis dizer uma palavra de consolo, mas sabia que nada poderia ajudar Hellen naquele momento. Com as duas mãos sobre a mesa, ela meneava a cabeça tristemente, como se buscasse uma explicação para a situação que estava vivendo... Ou talvez para sua própria vida, desde o mais remoto passado até o presente.
O silêncio entre ambos se prolongava, como uma nuvem densa e incômoda. Por fim Jackson atreveu-se a quebrá-lo:
— A senhora se divorciou há pouco tempo?
— Oficialmente, sim — ela respondeu, fitando-o com aqueles olhos incrivelmente límpidos, como se retornasse de distantes divagações. — Mas de certa forma meu casamento já tinha acabado há muito tempo.
Jackson assentiu com um gesto de cabeça e arriscou um comentário:
— Talvez Cody esteja ressentido pelo fato de a senhora ter que trabalhar fora, agora que está divorciada.
Hellen riu, com amargura:
— Imagine! Eu sempre trabalhei para sustentar a família. Car­mody Swift, meu ex-marido, nunca ficava num emprego por mais do que dois meses... Seu maior passatempo era arquitetar planos para enriquecer da noite para o dia. Mas na verdade ele não con­seguia sequer suprir as necessidades básicas das crianças.
Jackson franziu o cenho e inclinou-se sobre a mesa:
— Desculpe se lhe pareço indiscreto, sra. Moore... Mas suponho que seu ex-marido a ajude a sustentar as crianças.
Hellen meneou a cabeça, num gesto de negação:
— Eu me divorciei há cerca de dois anos, sr. Tyler, logo depois que Davy nasceu. O juiz determinou que Carmody pa­gasse uma pensão a mim e aos nossos filhos. Como Carmody alegou estar desempregado, na época, o juiz estipulou o valor mínimo permitido por lei.
— E então...?
— Ainda não vi um tostão desse dinheiro, sr. Tyler. E com certeza jamais verei. Se eu e meus filhos dependêssemos de Car­mody para viver, seríamos mendigos. — A voz de Hellen soava carregada de mágoa.
Uma onda de indignação invadiu Jackson. Mais uma vez, ele disse a si mesmo que sua profissão restringia-se a educar crianças, não a intrometer-se em seus problemas familiares. Mesmo assim, não conseguiu deixar de opinar:
— Se me permite uma sugestão, sra. Moore, acho que deveria entrar em contato com seu ex-marido e explicar-lhe sua situação.
— O senhor não conhece Carmody Swift... — Foi a resposta simples de Hellen, num tom quase inaudível. — Bem, mas não era dele que falávamos e sim de Cody.
— Naturalmente, ele está sentindo demais a ausência do pai...
— Claro. Como já lhe disse, Carmody jamais sustentou nossa família. Mas ao menos ele ficava com as crianças durante o dia, quando eu ia trabalhar. É verdade que não se preocupava em alimentá-las, ou mandá-las para a escola. Quem cuidava disso era Betthy. Mas em compensação dava-lhes carinho e brincava com elas a tarde inteira.
— E na parte da manhã?
— Em geral, Carmody dormia até meio-dia. — Hellen fez uma pausa, como se hesitasse em continuar. Mas por fim, com um gesto vago, acrescentou: — Já que estou desabafando com o senhor, irei até o fim.
— Não se sinta obrigada a falar, sra. Moore — ele disse, num tom suave. — Entretanto, às vezes é bom extravasar um pouco, falar sobre os próprios problemas.
— Tem razão — Hellen concordou e levou alguns instantes para prosseguir: — Eu chegava tarde do trabalho e geralmente encontrava as crianças já dormindo... Carmody, porém, estava mui­to bem disposto, ansioso para conversar e tomar alguns drinques antes do jantar.
— Em contrapartida a senhora estava exausta — Jackson concluiu. Ela concordou com um gesto de cabeça e continuou:
— No final das contas, acabávamos discutindo... O que dava a Carmody o pretexto perfeito para sair e beber até a madrugada, gastando o pouco que tínhamos e fazendo dívidas que eu acabava pagando no final do mês. Isso, sem contar seus envolvimentos extraconjugais, que as fofoqueiras da cidade encarregavam-se de me contar em detalhes.
"Idiota", Jackson pensou. Não havia mesmo outra palavra para definir um homem que cometesse tamanha injustiça com a esposa e filhos. Mais que isso: um homem que não enxergasse a mulher maravilhosa que possuía.
— As coisas pioraram depois que Davy nasceu. Tal como havia feito após o nascimento de Cody e Priscilla, eu queria voltar a trabalhar um mês mais tarde, a fim de receber minha licença de gestante em dinheiro. Mas Davy era um bebê frágil, que neces­sitava de cuidados. Assim, fui obrigada a ficar em casa por três meses... Foi nessa época que descobri que já não podia conviver com Carmody. Nós nos separamos logo depois.
— E Cody não se conformou com isso.
— Até que ele aceitou razoavelmente bem a situação — Hel­len explicou, pensativa. — Priscilla ressentiu-se muito mais.
Quanto a Davy, ele ainda é muito pequeno para compreender essas coisas.
— Mas se Cody realmente aceitou o fato, como se explica isso? — Jackson tornou a apontar o desenho.
— Tudo o que ele sabe é que as coisas eram mais fáceis na época em que existia um homem na família — Hellen argu­mentou. — E a prova está aqui mesmo, no desenho: ele quer a presença de um pai, na família, sr. Tyler... E não necessa­riamente de Carmody.
— Tem razão — Jackson admitiu.
Os olhos de Hellen encheram-se novamente de lágrimas e Jack­son sentiu um irresistível impulso de confortá-la.
— O divórcio é sempre uma situação terrivelmente dolorosa — disse, penalizado.
— O senhor já passou por essa experiência?
— Eu nunca me casei, sra. Moore — ele respondeu, com sin­ceridade. — Mas conheço a dor de uma separação e posso imaginar o que a senhora está passando.
Hellen enxugou os olhos com as costas da mão, num misto de desespero e impotência:
— Oh, Deus... Pensei tanto, antes de pedir o divórcio! Eu simplesmente não podia continuar vivendo com um homem que me desrespeitava como Carmody fazia. Minha auto-estima e meu ego estavam estraçalhados, sr. Tyler. Eu tinha de tomar uma atitude!
— E creio que agiu da melhor forma, sra. Moore.
— Será? — ela retrucou, com uma expressão aflita.
— Mas é claro que sim — Jackson afirmou, com veemência.
— Como pode duvidar disso, senhora?
— Meus filhos estão sofrendo, sr. Tyler.
— Ainda assim tenho certeza de que concordariam com a se­nhora, caso pudessem compreender a situação.
— Obrigada por me dizer isso, sr. Tyler. — Ela o fitou com tamanha tristeza, que Jackson cedeu ao impulso de tomar-lhe a mão e confortá-la.
— Não me agradeça, sra. Moore. Eu estou apenas falando a verdade.
Hellen não retirou a mão, mas fitou-o com ar de surpresa, ao afirmar:
— Pois devo-lhe muitos agradecimentos, sr. Tyler, não apenas por ter se preocupado tanto com meu filho, mas também porque me ajudou a desabafar. Acho que eu estava precisando disso.
— Pode contar comigo sempre que quiser conversar, senhora.
— Obrigada, mais uma vez. Ainda bem que esse desenho caiu em suas mãos...
— A propósito, posso guardá-lo comigo? — Jackson pediu. — Tenho uma verdadeira coleção de pinturas e desenhos de alunos.
— É seu — Hellen concordou.
— Obrigado.
— Posso fazer uma pergunta, sr. Tyler? — ela indagou, após alguns instantes de hesitação.
— Claro, senhora.
— O senhor costuma preocupar-se com os problemas de todos os alunos da escola?
Ele sorriu, com ar modesto:
— Tento ajudá-los sempre que posso, sra. Moore. Para mim, a escola não é apenas um local de estudo para as crianças... É uma espécie de santuário, responsável em parte pela formação do ca­ráter de cada aluno.
— O senhor é um educador nato — Hellen concluiu, com um olhar admirado.
— Eu amo o meu trabalho, sra. Moore. Acho que se não fosse por ele, minha vida não teria sentido. — Jackson consultou o relógio e acrescentou: — Bem, eu estou adorando nossa conversa, mas creio que já tomei demais o seu tempo, não é?
Foi a vez de Hellen consultar o relógio de pulso e exclamar:
— Minha nossa! São quase dez e meia! Preciso ir embora, sr. Tyler.
— Desculpe-me por ter-lhe causado esse atraso, sra. Moore. Mas confesso que não vi o tempo passar.
— Nem eu, tampouco.
Jackson pediu a conta, que Liz trouxe logo em seguida. Pagou, deixando uma boa gorjeta, que a moça agradeceu com um sorriso de simpatia:
— Voltem sempre. — E afastou-se.
— Bem... Há algo mais que o senhor queira me dizer, sobre Cody? — Hellen perguntou.
— Não, exceto que ele é um garoto maravilhoso e muito sensível.
Ela sorriu:
— Obrigada, sr. Tyler. Sabe, eu vou conversar com ele de um modo muito delicado, para não magoá-lo.
— E não se esqueça de agradecê-lo por sua tentativa de ajudar.
Hellen ergueu-se:
— Eu farei isso, sr. Tyler, pode apostar.
— Não tenho dúvidas, sra. Moore. — Jackson tomou o de­senho cuidadosamente nas mãos. Tocando o espaço em branco delimitado por um círculo onde se lia a palavra papai, comentou com um meio-sorriso: — Talvez eu devesse me apresentar como candidato...
Mal havia terminado de falar, Jackson arrependeu-se imensa­mente. Que hora imprópria para brincar! Aquela mulher estava carente e solitária, enfrentando uma situação terrível... E ele re­solvia gracejar justamente sobre isso!
Censurando-se, Jackson disse a si mesmo que havia perdido uma ótima ocasião de manter-se calado. E se Hellen se ofendesse com aquela brincadeira?
Ela, por sua vez, fitou-o com uma expressão de espanto... Que aos poucos foi se transformando em divertimento. De repente um riso cristalino brotou-lhe da garganta, a princípio tímido e depois solto, muito solto, fazendo-a jogar a cabeça para trás.
Agora era Jackson quem se surpreendia com aquela reação inesperada.
— Obrigada, sr. Tyler — ela disse, por fim. — Mais do que de um desabafo, eu precisava rir um pouco. Há quanto tempo não consigo achar graça em nada!
Momentos depois, ambos saíam do Plaza-Café em direção ao sedan e ao Escort estacionados logo em frente, na praça.
— Agradeço-lhe, sr. Tyler... — ela começou a dizer.
Mas Jackson apartou:
— Vou acabar ficando embaraçado com tantos obrigados, sra. Moore.
— Mas o que posso dizer a alguém que me ajudou tanto?
— Considere-me como um amigo, sra. Moore — ele respondeu, fitando-a no fundo dos olhos. — Este é o melhor agradecimento que pode me dar.
— Nesse caso... Amigos. — Ela estendeu a mão, que Jackson reteve entre as suas por alguns instantes.
— Amigos — ele repetiu, fitando-a com intensidade.
Mais uma vez, Hellen pensou que jamais vira olhos tão belos quanto aqueles: negros como dois poços sem fundo, guardiões dos mais incríveis segredos.
— A propósito, gostaria que me chamasse simplesmente de Jackson.
— Então, pode me tratar por Hellen — ela afirmou.
— Está bem... Hellen.
— Até qualquer dia... Jackson.
Ela entrou no Escort, ele no sedan.
A cidade já estava em pleno movimento, àquela hora da manhã. O verão prometia ser quente em Lake City.
Hellen passou o dia trabalhando.
Ao sair da Loja de Conveniências Peter Lore, às sete da noite, seguiu direto para casa. Felizmente estava de folga da creche, pois trabalhara três turnos na noite anterior. Não via a hora de chegar em casa, tomar um banho, jantar com os filhos e dormir até a manhã seguinte, quando conversaria com Cody, antes de sair para o trabalho.
Entretanto as coisas correram de modo bem diferente. Priscilla e o pequeno Davy adormeceram logo depois do jantar. Mas Cody parecia agitado e recusava-se a dormir. Betthy saiu com o namo­rado por volta de nove horas, para tomar um refresco.
— Quero vê-lo na cama quando eu voltar, seu capetinha — disse ao menino. — E trate de deixar sua mãe descansar, pois ela está parecendo um cadáver ambulante, de tão pálida!
— Betthy! — Hellen censurou-a, com um suspiro. — Você não teria uma comparação melhor para fazer a meu respeito?
— Ora, eu só estou sendo sincera — a garota protestou, mandando-lhe um beijo e saindo em seguida.
A sós com o filho, Hellen decidiu aproveitar a oportuni­dade para conversar. E foi o próprio Cody quem introduziu o assunto:
— Que tal o passeio com o sr. Tyler? — indagou, num tom confidencial. — Eu esperei até agora para perguntar, pois não queria que ninguém soubesse do nosso segredo...
Hellen sorriu e, sentando-se no sofá da sala, tomou o filho no colo.
— Você sabe quanto te amo, não é mesmo, Cody?
— Também te amo, mamãe — o menino respondeu, abraçando-a com força. Em seguida riu e tomou-lhe o rosto entre as mãos: — Agora me conte sobre o seu namoro com o sr. Tyler.
— Meu querido... — Hellen acariciou-lhe os cabelos. — Você tem um grande coração e as melhores intenções do mundo.
— Vá direto ao assunto, mamãe — Cody exigiu, com ar de expectativa. — O sr. Tyler pediu você em casamento?
— Cody, o casamento não é algo que se possa comprar ou ven­der... Não é tampouco um produto que você pode anunciar e esperar pela melhor oferta.
— Mas, mamãe, o sr. Tyler é um bom homem. Ele não gosta de beber nem de fumar, pois vive dizendo lá na escola quanto esses vícios são perigosos. Além do mais, ele adora crianças e...
— Cody...
Hellen tentou interrompê-lo, mas o menino continuava a falar:
— Nunca vi o sr. Tyler perder a paciência. Ele também não grita quando dá bronca em alguém, sabe? Ele explica direitinho por que não devemos fazer uma coisa e a gente nem fica triste. Puxa, mamãe, o sr. Tyler é o melhor candidato que...
— Sim, meu amor, o sr. Tyler é um bom homem.
— Quer dizer que você gostou dele?
— Claro, mas isso não significa que vamos nos casar.
— Por que não, se ele também gostou de você?
— Porque, como já lhe disse, as coisas não são tão simples assim.
— Não entendo. —- Cody agora estava muito sério.
— A gente só se casa quando têm um sentimento especial pela outra pessoa, entende?
— Mas você acabou de dizer que gosta do sr. Tyler! — o menino argumentou.
"Calma", Hellen recomendou-se, em pensamento. Não podia per­der a paciência, naquele momento. Caso contrário, acabaria ma­goando Cody e deixando-o ainda mais confuso.
Por isso foi sincera e direta:
— Meu amor, eu não sei como explicar esse sentimento especial... Mas trata-se de algo que você descobrirá, quando crescer.
— Mas até lá vai demorar muito — o menino protestou, aborrecido.
— Sim, querido, infelizmente você terá de esperar alguns anos para compreender o que estou lhe dizendo. — Hellen fez uma pausa e acariciou o rosto do menino. — Sei que você pôs aquele anúncio lá na mercearia com intenção de me ajudar.
— Foi mesmo.
— E fiquei muito feliz ao ver que você se preocupa tanto co­migo... Mas prometa-me que não fará aquilo de novo.
Cody fitou-a com uma expressão frustrada nos olhos azuis.
— Por favor, querido — ela insistiu. — Você com certeza não está entendendo meu pedido, mas em nome do nosso amor...
— Prometo — o menino interrompeu-a num tom sério, quase solene.
— Obrigada, Cody. Você é a maior riqueza que possuo neste mundo, querido.
— E Priscilla e Davy também?
— Claro. — Hellen abraçou-o com força. — Vocês são minhas jóias preciosas... A certeza de que minha vida tem um sentido mágico, apesar de tantos percalços.
— Tantos... o quê, mamãe?
— Percalços, querido. Quer dizer: dificuldades, transtornos, obstáculos.
— Ah, bom.
Hellen beijou-lhe os cabelos:
— Agora, que tal se fôssemos dormir?
— Você está com sono?
— Sim.
— Quer que eu cante uma música de ninar bem bonita?
— Quero que me dê um beijo e vá para o seu quarto, pois você também está com uma carinha cansada. Amanhã cantaremos um pouco, junto com Priscilla, Betthy e Davy, antes de eu sair para trabalhar. Está bem assim?
— Combinado — o menino concordou, bocejando. — Boa noite, mamãe.
— Boa noite, querido.
Minutos depois, aconchegada entre os lençóis da cama de casal que ela acabara de pagar havia cerca de três meses, Hellen man­tinha os olhos fixos no teto.
Estava exausta e seu corpo ansiava por umas boas horas de sono. Sua mente, entretanto, estava inquieta. Pensamentos per­turbadores a assaltavam, numa velocidade estonteante. A con­versa com Jackson Tyler fora muito proveitosa. Porém, aquele homem a havia impressionado bem mais do que ela gostaria de admitir.
O porte atlético, o modo suave de falar, os olhos negros como dois faróis luminosos no rosto de traços perfeitos... Todas essas características haviam permanecido muito vividas em sua memó­ria, durante o dia inteiro. Por várias vezes ela se atrapalhara no atendimento aos clientes da loja de conveniências. E isso jamais lhe acontecera antes.
Hellen suspirou e fechou os olhos, tentando relaxar. Mas ainda assim a imagem de Jackson continuava estampada em sua mente.
"Talvez eu devesse me apresentar como candidato..."
Hellen recordou-se das palavras de Jackson e do quanto ela havia gargalhado, diante do absurdo daquela afirmação.
Imagine só se um homem culto, de nível social elevado, seria maluco o suficiente para unir-se a uma mulher divorciada, com três filhos.
— Só mesmo em sonhos, ou naqueles romances açucarados que transformam a dura realidade num adorável paraíso — ela pensou em voz alta, sem a menor vontade de rir.

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