Oito
Nick fitou Liza. E, em seguida, sem consultá-la, disse:
- Detetive, acho que seria uma boa idéia se nos falássemos pessoalmente. Você pode vir a minha casa?
Depois de um silêncio tenso, o detetive disse:
- Posso. Quando é a melhor hora?
- Sei que é domingo, mas acho que agora seria melhor.
- Eu também. Estarei aí em 20 minutos. - O detetive desligou sem se despedir.
- Nick! O que está fazendo? Ele descobrirá que estou aqui! Você prometeu me esconder e não me mostrar para a polícia! - Sua voz estava repleta de pânico e ela se afastou dele.
- Você não está pensando, querida - disse ele. - Se não dissermos a eles que você esteve aqui o tempo todo e que não foi você a dar aquele telefonema, a investigação vai se perder. E, francamente, não estou interessado em ser preso.
- Tudo bem, então arrumo as malas e desapareço. - Ela se levantou.
Nick a segurou.
- Você não precisa fazer isso. Não haverá problema se a polícia souber onde você está. Eles manterão segredo.
- Da minha família? Eu duvido.
Ela estava com a razão. Mas ainda assim Nick achou que tinha feito a coisa certa.
- Você terá de explicar à polícia a razão de sua família não poder saber.
- Como posso fazer isso? - gritou ela com a voz carregada de raiva e frustração. Até mesmo sob todo aquele estresse, Nick percebeu que Liza tinha uma bela voz.
- Diga a ele a razão.
- Não faz sentido, Nick. Ninguém acreditará em mim. Ele saberá que falei com Emily e... eu não posso traí-la.
- Não, ele não saberá. Você suspeitava de sua tia desde o início, não é mesmo?
- Talvez. Eu sabia que as coisas não iam bem e Emily confirmou. Seqüestrá-la não era o objetivo. E assassiná-la não fazia sentido a menos que tenha sido tia Meredith, ou quem quer que seja aquela mulher.
- Você acha que assassinato foi o motivo? Mas e o bilhete pedindo resgate?
- Emily... ela disse que o homem estava tentando matá-la.
Nick franziu a testa.
- Talvez você não precisasse mencionar que acha que tenha sido tentativa de assassinato. Diga apenas que suspeita que alguém da família esteja envolvido. Isso não será uma surpresa muito grande. Normalmente, é o caso quando a vítima conhece o criminoso. - Ele passou a mão pelo braço dela para acalmá-la.
Infelizmente, isso teve o efeito inverso sobre ele. Foi difícil o suficiente tê-la nos braços enquanto dormia, sabendo que ela confiava nele. Agora, com ela acordada, envolvida na conversa, a vontade de abraçá-la e beijar-lhe os lábios era enorme.
- Deixe-me ir, Nick. Preciso sair daqui. Você não me deu tempo suficiente para...
- Se você for, estará em perigo, Liza. Não pode ir para o seu apartamento. O homem estará vigiando.
- Por que você acha isso?
- Quem você acha que deu o telefonema do seu apartamento?
Ela se jogou de volta no sofá.
- Oh, Deus, não tinha pensado nisso. Você acha que ele estava lá? Mas eu tenho um porteiro. Ele não deixaria ninguém entrar no meu apartamento. Ele não podia... Mas quem... - Fechou os olhos, como se não pudesse encarar a realidade do que dizia. - E se eu tivesse ido para casa?
Nick não economizou palavras. Ela precisava entender o perigo da situação.
- Talvez já estivesse morta. Liza ficou pálida.
- E talvez Emily também - sussurrou. - Talvez ele tivesse me forçado a contar sobre o paradeiro dela.
- Isso mesmo.
Para surpresa de Nick, ela se jogou em seus braços.
- Oh, Nick, obrigada por me trazer para cá. Você salvou minha vida!
Ele a abraçou e lhe deu um beijo na têmpora. A idéia de alguém machucar a bela mulher em seus braços era horripilante. Assim como a possibilidade de não tê-la em sua vida. Ele a puxou para o colo e a abraçou com força. Depois de vários minutos, ela se afastou.
- Eu preciso dizer a eles, não é mesmo?
- Só onde está e porque está tentando se esconder. Mesmo se o detetive não acreditar nas suas razões, acho que manterá seu paradeiro em segredo. Mas ele pode assegurar ao seu tio que você está bem sem dizer onde está.
- Eu não queria preocupar tio Joe. Achei que ele pudesse acreditar que eu estava descansando em meu apartamento.
- Tenho certeza de que alguém já disse a ele que o telefonema veio do seu apartamento. Já deve estar muito preocupado. - Nick a trouxe para perto de novo, incapaz de resistir à tentação. - Eu ficaria - disse ele.
Ela se soltou dele e se levantou.
- Eu não deveria ter me atirado em você. Sinto muito.
- Eu prometi que não exigiria nada de você, Liza. Mantenho a palavra - ele a assegurou. Nick morreria se ela tivesse medo de ficar a sós com ele.
- Mais uma razão pela qual eu não deveria... não foi justo de minha parte tirar vantagem de você.
- Não sou um adolescente, Liza. Na verdade, você vai me considerar muito velho. Tenho 38 anos, 12 a mais que você. Eu tenho certo autocontrole. - Ele não diria a ela como esse autocontrole estava fraco desde que a conhecera.
Ela concordou, mas se afastou, como se pudesse ler os pensamentos dele.
- Velho demais para você? - perguntou ele.
- Não! Não, você não é velho demais para nada. E agradeço sua honestidade. - A voz dela estava ofegante.
Antes que ele pudesse responder, a campainha tocou. Nick olhou para o relógio.
- Ou o detetive Ramsey é mais rápido do que dissera, ou temos outro visitante. Fique aqui e não faça barulho.
Nick a deixou próxima ao sofá, fechou a porta da sala e correu para a porta principal, sem querer envolver Bonnie naquela confusão. O detetive estava do lado de fora.
Nick abriu a porta.
- Você é rápido mesmo - disse ele ao convidá-lo para entrar.
- Não havia tráfego - disse o homem, lançando um olhar afiado sobre Nick.
Nick sabia que ele se apressara com medo de que algo acontecesse antes que pudesse chegar. Não culpava o detetive. Se dependesse de Liza, isso era o que aconteceria.
- Por aqui - disse Nick, sem explicar nada.
Abriu a porta da sala, mas Liza não estava mais ao lado do sofá. Por um instante, com o coração na mão, Nick pensou que ela fugira.
E então a viu de pé atrás da porta. O detetive ainda não a vira. Nick se afastou e o chamou para entrar. Em seguida, fechou a porta e pegou na mão de Liza.
- Detetive Ramsey, eu menti para você no telefone, como você pode ver. Liza está aqui desde ontem à noite.
O detetive fitou Liza.
- É o que vejo.
Nick puxou Liza até o sofá.
- Sente-se e explicaremos nossos motivos.
- Espero que sim, do contrário prenderei vocês por obstrução... ou algo parecido - resmungou Ramsey.
Nick suspirou e Liza tentou se livrar dele. O policial não estava ajudando a dissipar os medos da moça.
- Venha Liza, tudo vai ficar bem.
Quando todos se sentaram, Nick disse:
- Liza queria desaparecer, pois temia que o homem a encontrasse. Ofereci trazê-la para cá.
O detetive olhou para ele com um ar sarcástico.
- Quanta gentileza.
Nick teve vontade de dar um soco nele, mas controlou a raiva.
- Eu sabia que minha empregada apreciaria a companhia e, além disso, eu poderia ficar de olho em Liza enquanto trabalhava. Podíamos manter a presença dela em segredo. Quase não tenho visitas.
- Você tem uma empregada?
- Tenho - respondeu Nick.
- Compreendo os temores da moça e a razão de você ajudá-la. O que não compreendo é a razão de manter isso escondido de nós. Estamos aí para ajudar.
Nick olhou para Liza e fez um gesto positivo. Ainda a segurava e pôde sentir a tensão aumentar nela.
- O problema em lhes contar, detetive Ramsey, é que vocês informariam à minha família - disse Liza.
- E por que isso seria um problema, srta. Colton? -perguntou o detetive.
- Eu... acho que... que é possível que alguém na família esteja envolvido - disse Liza, olhando para Nick.
- Quem?
Liza não respondeu. Nick disse:
- O que a srta. Colton quer de vocês, detetive, é que mantenham o paradeiro dela em segredo. Ela queria que vocês soubessem que não foi ela a fazer o telefonema.
- E o que quero saber é quem ela acha que esteja envolvido no seqüestro - disse o detetive com determinação.
Nick olhou para Liza de novo. Somente ela poderia responder a essa dúvida.
Ela lambeu os lábios.
Ele apertou a mão da moça, mas não tentou responder por ela.
- Antes de lhe dizer - disse Liza, com hesitação. - Devo avisá-lo que os meus motivos não farão sentido para você. - Deu de ombros. - Mas isso não faz com que eu não acredite neles.
- Tudo bem.
- Minha tia Meredith e minha prima se envolveram num acidente há nove anos. Quando voltei à casa de tio Joe, vi que Emily estava pálida e assustada. Ela me disse o que não dissera a mais ninguém. - Fez uma pausa, tentando recompor os pensamentos. - No acidente, ela viu duas Merediths.
- Ela sofreu alguma lesão na cabeça? - perguntou o detetive.
- Ela desmaiou, mas não é isso, detetive. Minha prima continua acreditando que viu duas mulheres idênticas na cena do acidente.
- Isso não faz sentido, srta. Colton.
- Eu avisei. Mas tem algo mais. O comportamento de minha tia mudou drasticamente daquele dia em diante. Ela deixou de ser carinhosa e se tornou uma pessoa egoísta e fria. O seu amor pela jardinagem, que transformou a casa num paraíso, desapareceu de repente. A empregadora gentil e paciente se tornou uma tirana mandona. A esposa dedicada desapareceu. O casamento do meu tio se tornou um... um pedaço de papel.
- Sua prima já a confrontou? - perguntou Ramsey.
- Detetive, minha prima tinha apenas 11 anos e estava muito confusa. Mas contou ao meu tio que vira duas Merediths no local do acidente. Na frente da minha tia, que, segundo Emily, fitou-a com ódio no olhar e disse a ela para deixar de ser boba. Desde então, Meredith sempre olhou para ela com muita raiva.
- Se a mulher não fez nada em nove anos, por que as coisas mudaram?
- Há um mês, Emily questionou a identidade da mãe para um dos empregados antigos. Meredith ouviu e ameaçou Emily.
- Há testemunhas?
- Não. Ela pode ser uma pessoa horrível, mas não é estúpida.
- Seqüestro parece uma reação estranha - comentou o detetive.
- Parece mesmo - disse Liza.
Nick percebeu que ela estava mais calma agora. Achou até que Ramsey acreditaria nela, pelo menos em parte.
- Veja bem, tia Meredith teve dois filhos depois do acidente. O seqüestro de qualquer um dos dois teria sido mais lucrativo do que o seqüestro de uma filha adotiva.
- Talvez eles fossem mais bem vigiados - Ramsey sugeriu.
- Talvez, mas o quarto de Emily fica no segundo andar, e para ter acesso a ele é preciso entrar na casa. Por que o foco estaria nela? Além do quê, era preciso encontrar o quarto dela. Só pode ter sido de propósito que escolheram Emily e não alguém mais conectado a Joe Colton.
Nick ficou admirado ao ver que Liza usara da lógica para falar da situação da prima. Era uma mulher inteligente. Dava para ver que ela impressionara o detetive.
- Faz sentido, srta. Colton. - O detetive se levantou e caminhou pela sala. Em seguida parou de frente para ela. - Bem, estou disposto a concordar que devemos manter seu paradeiro em segredo. Mas preciso avisar ao FBI que você está a salvo e não está envolvida com o seqüestro. Não sei se eles vão concordar com sua prerrogativa. E preciso ligar para seu tio.
- Eu sei - sussurrou ela. - Mas, por favor...
- Posso pará-los por um tempo. Digo que você telefonou, mas não nos disse onde estava.
- Obrigada! - disse ela aliviada.
- Detetive, quanto eles pediram de resgate? - perguntou Nick.
- Um milhão de dólares. Uma ninharia para Joe Colton.
- Mas achei que o homem que me perseguia significava que ela havia fugido - disse Liza. - Você acha mesmo que ela está em poder dos seqüestradores?
- Não sei. Talvez ele tenha ido até você porque sua tia sabe que Emily falou com você sobre o acidente.
- Isso não faz sentido. Mas, se for verdade, então a mulher com quem Liza conversou na casa também estaria correndo perigo.
- Qual o nome dela?
- Nora. Trabalhava na cozinha e estava zangada pelo fato de tia Meredith tê-la repreendido sem razão.
- Nora de quê?
- Nora Hickman.
O detetive olhou para Nick.
- Posso usar o telefone?
Nick fez que sim com a cabeça e junto de Liza observou o detetive ligar para a delegacia e falar com o chefe, pedindo que averiguasse o nome da empregada. Em seguida, desligou.
- Ele vai ligar em alguns instantes.
- Peço desculpas por tudo, detetive, mas estava preocupado com a segurança de Liza - disse Nick. - A polícia de Nova York foi até o apartamento dela?
- Foi. Bateram na porta e não obtiveram resposta. Como não tinham mandado, não seguiram em frente.
- Tenho certeza de que Liza dará permissão para vasculharem a área.
- Oh, sim. Dou até uma chave, se quiserem. Ou posso ligar para o porteiro e pedir que os deixem entrar - disse Liza.
- Daremos um jeito, contanto que você deixe algo escrito para arquivarmos. Ah, o seu apartamento estava em boas condições quando o deixou?
- Sim. Tenho faxineiros que entram para limpar quando estou fora - disse a moça.
- Certo. Eu...
O telefone tocou. Nick atendeu e passou o fone para o detetive quando a pessoa se identificou.
- Sim? Entendo. Olha, tenho permissão para vasculhar o apartamento da srta. Colton em Nova York. Pode contactar a polícia de lá e pedir que o façam? Levarei a permissão por escrito. - Ele ouviu um pouco e disse: - Sim. Ela disse que tem faxineiros que entram lá, então deve estar tudo em ordem. - Mais silêncio. - Já estou voltando.
O detetive desligou o telefone e olhou para os dois.
- Tudo bem, vamos pedir para a polícia de Nova York averiguar o apartamento. Vou entrar em contato com o FBI e atualizá-los. Mas acho que não terei dificuldades em manter seu paradeiro em segredo da sua família.
- Por quê? - perguntou Nick, temendo o que viria.
- Porque Nora Hickman foi morta em um acidente pouco antes da sua prima ser seqüestrada, srta. Colton.
Liza foi tomada pela dor, antes de se jogar no sofá.
- Pode ter sido coincidência - disse Nick.
- Dr. Hathaway, no meu ramo não vemos muitas coincidências. Se cavarmos fundo o suficiente, há sempre um motivo, uma conexão. A srta. Colton providenciou um motivo sem nem saber o que tinha ocorrido.
O detetive se levantou.
- Não estou dizendo que fez a coisa certa ao manter segredo, srta. Colton, mas entendo o porquê de tê-lo feito. Não vou acusar nenhum de vocês. Mas fiquem longe de tudo. Até que descubramos o que está acontecendo, vocês precisam ter cuidado.
Nick se levantou para conduzir o detetive até a porta. Depois de deixarem Liza na sala, Ramsey disse:
- Creio que tenha sido você a convencê-la a abrir o jogo. Obrigado.
- Contanto que você não revele onde ela está, ficarei grato por tê-lo feito. Não quero que ela se machuque.
- Entendo. Ela é uma bela mulher. Se tiver algum problema, avise-me.
- Pode deixar - concordou Nick, mas quando fechou a porta, balbuciou: - Talvez.
Liza permaneceu em silêncio. Nora morreu num acidente? A mulher tinha uns 50 anos e trabalhou para os Colton por vários anos. Como diria o detetive, coincidência seria conveniente demais.
Liza chegou perto de perder a própria vida. Tremeu e cobriu o rosto com as mãos. O que faria sem a generosidade e o apoio de Nick? Ela não era tola, mas não estava preparada para correr, para lutar com um homem que não hesitaria em matar uma mulher.
- Liza, você está bem? - perguntou Nick, abraçando-a.
Ela não o ouvira entrar. Embora tenha se assustado com o toque dele, seu coração se encheu de calor e gratidão. Lembrando-se da segurança que sentiu ao dormir nos braços dele, ela o abraçou.
- Nick, eu... devo tanto a você.
- Deixe disso. Qualquer um teria feito o mesmo.
- Não, isso não é verdade. A maioria das pessoas não se envolveria.
Ele passou a mão nos cabelos dela.
- Você teria dado um jeito, querida. Você pode até parecer uma menininha abandonada, mas é uma mulher forte. Fiquei orgulhoso de você hoje.
Aquelas palavras a fizeram se sentir mais forte. Tia Meredith as dissera várias vezes, há muito tempo. Mas como a tia adorada havia desaparecido, substituída por uma estranha, ninguém mais a apoiara desse jeito.
- Oh, Nick - disse ela com um suspiro. Em seguida, fez algo que desejara, algo para o que já se havia prevenido, mas que não pôde evitar.
Olhou para ele e o beijou.
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