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Monday, December 20, 2010

Victoria Pade - From Boss to Bridegroom p.01

DOCE MISTÉRIO
From Boss to Bridegroom
Victoria Pade






Quando a dinastia mais famosa da Califórnia é ameaçada, apenas o amor, o prestígio e o poder são capazes de protegê-los!
O lindo e arrogante advogado Rand Colton estava acostumado a vencer ― tanto no tribunal quanto na cama. Graças à fortuna dos Colton, este solteirão não precisava de nada... a não ser da atenção integral de sua estonteante secretária recém contratada, Lucy Lowry. Apesar de seus instintos lhe dizerem que Lucy o queria tanto quanto ele a desejava, Rand sentia que algo ― ou alguém ― a detinha. E Rand sabia que seria preciso muito mais do que sua fortuna ou status para poder conquistar Lucy!

Digitalização e Revisão:
Nelma☺


PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V.
Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas e mera coincidência.

Copyright © 2001 by Harlequin Books S.A.

Originalmente publicado em 2001 por Harlequin Books S.A.
Titulo original: FROM BOSS TO BRIDEGROOM

Editora HR Ltda.
Rua Argentina, 171,4° andar
São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ 20921-380

Correspondências para:
Caixa Postal 8516
Rio de Janeiro, RJ 20220-971

Aos cuidados de Virginia Rivera
virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

Tradução Johann Heyss

HARLEQUIN
BOOKS™
2006


O diário de joe colton

Um peso enorme acaba de ser tirado dos meus ombros. Recebi uma mensagem anônima garantindo que minha filha adotiva desaparecida, Emily, esta viva e bem e que ela voltara em breve. Contei a novidade para meu filho mais velho, Rand, e confidenciei também minha preocupação com meu casamento decadente. Rand parece saber mais sobre o comportamento bizarro da mãe do que demonstra, mas vai acabar me contando o que tem em mente quando achar que deve. Rand sempre foi o meu orgulho, mas fico preocupado com essa sua determinação em ter sucesso. Ele precisa de uma boa mulher que lhe mostre o que e importante na vida ― e parece que esta mulher e a invocada Lucy Lowry, sua nova assistente. Bem, esta linda esquentadinha ilumina o escritório com sua bravura e energia, e não esta para brincadeiras! Ela tem tolerância zero com o jeito autoritário de Rand, e meu filho, com seu pavio curto, não gosta nada disso. Tenho certeza de que as faíscas de atração sexual que esses dois emanam ainda vão acabar produzindo fogos de artifício...




Sobre a autora
VICTORIA PADE
É natural de Colorado, onde ainda mora e trabalha. Sua paixão ― além de escrever ― e chocolate, com o qual se farta freqüentemente e de todas as maneiras. Adora livros e filmes românticos ― quanto mais leves, melhor -, mas bem que gosta de um bom mistério de vez em quando. Ficou particularmente encantada ao ser convidada para participar da serie sobre a família Colton, pela oportunidade de escrever um livro mais cosmopolita e pesquisar sobre Washington, D.C





Conheça a Família Colton:
uma dinastia californiana com um legado de privilégios e poder

Rand Colton: A fera. Um sujeito que bota pra quebrar, este advogado está acostumado a fazer as coisas do seu jeito ― até que sua nova assistente vira sua vida organizadinha de ponta-cabeça!

Lucy Lowry: A bela. Capaz de respondê-lo a altura, a nova assistente de Rand tem o poder de tentá-lo como nenhuma outra mulher. E logo seu chefe só terá uma tarefa pendente em sua lista: transferir a relação dos dois do escritório para um local mais confortável...

Dra. Martha Wilkes A terapeuta desnorteada. Sua paciente chama-se Patsy Portman, mas nenhuma de suas memórias se encaixa com a vida desta mulher. Seria um caso de múltipla personalidade... ou algo mais abominável?














Um

― Bem, é claro, você sabe que eu preciso do dinheiro. Tive todas as despesas com a mudança, o correio e anúncios do negocio. E não dá para saber quanto tempo vou levar para conseguir algum trabalho, mas...
― Mas nada. O trabalho é apenas enquanto Rand encontra outra pessoa, e lhe dará a oportunidade de se familiarizar com o centro da cidade, além de ser uma chance de extrair algo de um advogado e entrar em contato com vários outros. É isto que você quer, não é? Então eles vão lhe enviar sua pesquisa e você poderá começar algo aqui.
Aqui era Washington, D.C. ― Georgetown, mais especificamente ― e Lucy Lowry tinha que reconhecer que sua tia, Sadie Meeks, estava certa.
Lucy tinha acabado de cruzar o país ― vinha da Califórnia ― com seu filho de quatro anos, Max, e a mudança custou caro. Agora que Lucy estava acomodada em uma das quatro casas com terraço que a tia havia comprado a guisa de investimento, precisava se concentrar em fazer algum dinheiro, e esperava que este dinheiro viesse do trabalho free-lance com pesquisas na área do direito, pois assim poderia trabalhar e estar com Max tanto quanto possível. Mas até conseguir arrumar trabalho de pesquisa, pretendia trabalhar como secretária e/ou contadora para pagar as contas. O que era exatamente o que sua tia estava sugerindo: um trabalho de secretária.
― O problema é ser no centro da cidade ― ela disse a tia. ― Não só não vou trabalhar em casa, como nem sequer estarei perto.
Sadie desconsiderou sua preocupação.
― Mas é só por enquanto. Eu lhe disse que já falei com a diretora da creche e eles permitirão que você deixe Max lá de graça em retribuição a meu serviço semanal de leitura para as crianças, e porque ela é minha companheira do clube feminino. É uma creche de muito renome e Max está furando uma fila enorme. Ele terá a oportunidade de fazer amigos e poderá ficar comigo às vezes, também. Vamos utilizar meus conhecimentos de videogame.
Sadie fez uma pausa e mudou de tom.
― Nem que seja como um favor para mim, querida. Estou adorando minha aposentadoria e, por mais que goste de Rand Colton, simplesmente não quero voltar a trabalhar. Mas ele esta todo enrolado...
Lucy sabia que não conseguiria argumentar com a tia. Sadie era sua tia favorita; tinha comprado quatro casas com varandas e ofereceu uma para ela e Max, sem cobrar aluguel. Insistia que o aluguel de duas das casas pagava os custos das quatro, e se Lucy e Max se mudassem para Georgetown para ajudar a tomar conta das casas, principalmente quando Sadie estivesse viajando, já valeria bem mais que o aluguel que deixaria de entrar. Com esta combinação, Lucy poderia pegar trabalho free lance em vez de trabalhar de nove às cinco no escritório, de modo que logo aceitou a proposta. Mas agora também não poderia deixar de negar um favor a Sadie.
― Só uma entrevista com Rand ― Sadie pediu. ― Nunca se sabe, talvez você nem seja escolhida para o trabalho. E mesmo que seja, é só uma questão de organizar a confusão deixada por uma série de secretárias incompetentes que passaram por lá depois que eu me aposentei. Rand estará procurando por outra enquanto isto. Deve levar apenas alguns dias até uma secretária maravilhosa entrar por aquela porta e você estará dispensada. Mas Rand disse que vai ficar maluco com as secretárias que a agencia de empregos temporários anda arrumando para ele.
― Ainda não entendi como ele foi ter tanto azar com as secretárias.
― Não vou enganar: ele não é dos mais fáceis para se trabalhar. Nós sempre nos demos bem, mas só porque eu nunca levei suas ameaças a sério. No fundo, ele tem bom coração, mas isto nem sempre fica claro devido a seu jeito rude. E ele é bem mandão. Mas, afinal, ele é homem, e como todos, precisa de alguém que cuide dele.
― Parece que você está descrevendo um bebezão. Um bebezão mimado ― Lucy comentou, rindo.
― Ele está longe de ser um bebê ― a tia respondeu, em tom de insinuação. ― É um homem, e dos bons. Costuma pegar casos difíceis e trabalhar feito louco por horas, depois cair na farra até o amanhecer e mesmo assim comparecer às nove no tribunal, com a melhor das aparências. Ele simplesmente não entende que nem todos conseguem acompanhar seu ritmo. Além disso, é curto e grosso, e não manda recado. Alguns o acham arrogante. E ele não deixa que o façam de bobo. Mas eu não mandaria você para a jaula do leão a não ser que quisesse ― Sadie disse, como quem confidencia algo. ― Portanto, quando ele estiver atacado, apenas saia de perto e pare de prestar atenção nele.
Difícil de trabalhar? Modos bruscos? Mandão? Homem dos bons? Curto e grosso? Não manda recado? Arrogante?
E isto vinha de uma mulher que se considerava a maior fã de Rand Colton.
Rand Colton só podia ser o pior dos chefes.
― Por favor, querida! Já dei todas as minhas roupas de trabalho para caridade e me acostumei a ficar de camisola até a hora do almoço. Não quero voltar a trabalhar. Mas Rand precisa de ajuda imediatamente.
Lucy olhou para a tia de modo incisivo.
― Você não tem nenhum motivo escuso, tem? Esse negócio que você disse quanto a ele ser bonitão foi só para suavizar os defeitos dele, certo?
Sadie era uma mulher tão alta quanto Lucy, ambas com seu metro e setenta e poucos, mas Lucy era mais esguia, e Sadie, mais rechonchuda, com suas maçãs do rosto que ficavam mais evidentes ao sorrir para a sobrinha.
― Nenhum motivo escuso ― Sadie jurou. ― Sei que você não quer mais saber de homens.
― Não é que não queira saber de homens ― Lucy corrigiu. ― Assim parece que eu sou radical e amarga, e não sou nada disso. Simplesmente optei por...
― Dedicar-se completamente a Max. Eu sei. Você já me disse umas cinqüenta vezes. Não estou te culpando pela falta de interesse nos homens, depois do que o pai de Max fez. Mas acredite em mim, Rand tem mulheres mais do que suficientes a disposição, e eu seria a última pessoa do mundo a querer juntar minha própria sobrinha a um playboy desses. A razão é puro egoísmo de minha parte. Estou tentando arrumar para ele a assistência de que precisa sem ter de meter a mão na massa.
Lucy fez uma pausa de efeito e disse:
― Tudo bem, pode marcar a entrevista.
― Combinado! Três da tarde, hoje. Eu lhe dou uma carona até lá e levo Max para tomar sorvete enquanto você conversa com Rand.
Lucy riu de novo.
― Você até já marcou a entrevista. Muito confiante, hein, tia?
― Vai dar tudo certo. Você verá. Agora vá vestir um blazer. É preciso parecer profissional. Rand é muito exigente neste sentido.
― Ah, que ótimo, ainda por cima é do tipo disciplinador ― Lucy disse, alegremente, acrescentando "disciplinador" e "playboy" a longa lista que fazia Rand Colton não parecer nada recomendável para ela.
― Apenas pense em todos os advogados que você encontrará e para quem dará seu cartão ― Sadie aconselhou, como quem não queria nada. ― Agora ande! Não vá se atrasar. Ele também não tolera atrasos.

― Acho que eu devia ganhar duas bolas de sorvete. Quando você vai a algum lugar vestida deste jeito a gente acaba jantando tarde da noite, e até lá eu fico com fome.
Lucy virou-se para o filho, afivelado por cintos de segurança no banco de trás do carro de Sadie.
Max era pequeno para sua idade, mas era precoce. Ele parecia pular de quatro para quarenta anos, tornando difícil qualquer argumentação.
― É verdade que me visto assim para ir trabalhar. Mas hoje irei apenas conversar com um homem, não vou demorar. Vamos jantar no horário de sempre.
Max torceu seu narizinho impertinente.
Mesmo que não fosse mãe dele, Lucy o acharia adorável, pensou. Ele tinha bochechas que nem as de um esquilo, grandes olhos azuis que a fitavam por detrás de óculos sérios e cabelos castanhos cortados bem curtos.
― Duas bolas, tá? ― ele tentou, a despeito da conversa travada.
― Lamento. Uma bola, colega.
― Mas e se eles tiverem dois sabores novos? Aí eu preciso de duas bolas de sorvete, aí deixo para comer melhor no jantar amanhã.
― Se eles tiverem dois sabores novos, você prova de um hoje e o outro nós pedimos para viagem e você come depois do jantar de amanhã.
Max sorriu, vitorioso, como se fosse aquilo que tivesse tentado conseguir.
Essa visão deixou Lucy toda boba. Ele tinha o hábito de empurrar a ponta da língua entre os dentes da frente quando sorria daquele jeito, era tão lindo que ela mal podia crer. Ele também tinha covinhas irresistíveis que lhe davam um ar dos mais travessos.
― E se houver três sabores novos? ― ele sugeriu, achando que ela tinha baixado a guarda.
― Desista ― ela aconselhou, e ela e Sadie caíram na risada.
Sadie parou no sinal vermelho e apontou para o edifício alto de cromo e vidro no próximo quarteirão.
― O escritório de Rand fica lá. A sorveteria fica dois quarteirões adiante, na entrada do edifício de tijolos vermelhos. Eles têm estacionamento subterrâneo. Por que você não caminha até lá e nos encontra quando terminar?
― Você não quer subir e dar um alô?
― Rand e eu já batemos papo por telefone. Sei como ele é ocupado. Não quero incomodá-lo.
Após o sinal abrir, Sadie encostou o carro em frente ao edifício de Rand Colton.
***
― Vigésimo terceiro andar, sala 2.300. Boa sorte.
― Devo precisar ― Lucy disse, irônica. Então, virando-se para Max, disse: ― Seja bonzinho com a tia Sadie.
― Ele será ― Sadie respondeu, e um carro buzinou atrás.
Lucy viu que esta era sua deixa para sair logo do carro.
Olhou no relógio ao entrar no imponente edifício. Ainda tinha vinte minutos. Não queria se atrasar, mas também não queria parecer ansiosa.
Como tinha tempo, procurou o toalete para conferir sua aparência.
Estava usando o que considerava sua combinação poderosa ― uma blusa azul-marinho justa e decotada que ajudava a disfarçar o tamanho de seu pescoço, e calças também justas para combinar. Sabia que muitos consideravam que a mulher deveria usar saia, mas ela não pensava assim. Em parte por se sentir mais confortável ― e mais confiante ― usando calças, e em parte porque aos dezoito anos ela aceitou o desafio de um amigo e fez uma tatuagem no tornozelo direito. Era uma linda rosa prestes a desabrochar e não era chamativa, mas, dependendo do grau de conservadorismo do entrevistador, podia ser prejudicial.
Ela retocou o batom, de tonalidade vermelho-suave. Sua maquiagem se resumia a isto: pó-de-arroz e blush.
Ficou contente de ver que seus olhos azuis ― do mesmo tom dos olhos de Max ― não estavam mais ligeiramente vermelhos por causa da crise alérgica que havia tido no dia anterior. Mas ela os fechou por um momento para lutar contra a ardência que permanecia após ter feito uma faxina no sótão empoeirado.
Seu cabelo claro cor de mogno batia nos ombros formando uma massa indomável de cachos, os quais ela havia prendido num coque, como sempre fazia em entrevistas de trabalho. Quando os deixava soltos, Lucy ficava com um ar que, para os homens, parecia convidativo. Não era a impressão que ela queria passar.
Olhou para o relógio novamente ― dez para as três ― e viu que estava na hora de pegar o elevador para o vigésimo terceiro andar.
Enquanto se encaminhava, sentiu o mesmo tipo de tensão que sempre sentia antes de entrevistas de trabalho, mas lutou contra essa sensação lembrando a si mesma que aquele trabalho seria temporário e que, apesar de ser um passo importante no sentido de travar novos conhecimentos no meio jurídico, só por ser sobrinha de Sadie ela já tinha meio caminho andado para ser aprovada.
Mas, por outro lado, saber antecipadamente que Rand Colton era um homem difícil a deixava inquieta. Respirou fundo várias vezes para ver se relaxava, e saiu do elevador quando a porta se abriu.
A sala 2.300 ficava a direita, no fim do corredor. Havia duas portas enormes de carvalho, diferentes de todas as outras do andar, e em uma delas uma pequena e elegante placa de ouro na qual se lia Rand Colton, Advogado.
Lucy respirou fundo mais uma vez, girou a maçaneta dourada e entrou no escritório, ouvindo o som de uma mulher soluçando e um homem gritando.
― Era uma tarefa simples: cancelar um compromisso. Mas você deixou o diretor-executivo de uma grande companhia vir até aqui quando eu estava no tribunal. Você pode estar aqui temporariamente, mas tenho certeza de que alguém já lhe disse antes que quando seu chefe pede que cancele um compromisso, você deve pegar o telefone e cancelar o compromisso. A mulher disse, entre soluços:
― Esqueci.
― Esqueceu?
A voz do homem chegou a doer nos ouvidos de Lucy, e ela nem estava no mesmo recinto que eles.
― Você me passou tantas tarefas com tanta pressa que eu não consegui anotar todas a tempo, e então você foi embora e eu tentei...
― Tentar não adianta! Você sabe quanto vale o tempo daquele homem?
Pelo jeito, ela não teve resposta para dar, pois em vez de se defender ela saiu às pressas do escritório, pegou sua bolsa dentro de uma gaveta na sala de espera, passou por Lucy e saiu correndo em direção ao corredor.
Com certeza, um patrão carrasco. Presumindo-se, claro, que aquela voz fosse de Rand Colton.
― Incompetência e idiotice. Onde será que arrumam esta gente?
Estas palavras não foram gritadas, ele estava falando consigo mesmo e Lucy ouviu da sala de espera.
Se já não fossem quase três horas, teria saído do escritório para dar um tempo aquele homem que ainda nem vira para que ele se refizesse antes da entrevista com ela.
Foi então que ele saiu do escritório como um dínamo. Sem sequer olhar para Lucy, que estava parada, de pé, ele sentou-se à mesa de carvalho da sala de espera e começou a digitar com força no teclado do computador. Ele não deu a menor demonstração de ter percebido a presença dela, mas perguntou, com os olhos fixos na tela do computador, no tom mais depreciativo que Lucy jamais ouvira:
― E você, quem é?
Tenha paciência, ela pensou.
― Sou Lucy Lowry, sobrinha de Sadie Meeks. Nós temos uma entrevista às três.
― Já são três horas? ― ele grunhiu, ainda descontando sua raiva no teclado.
― Creio que sim.
― Bem, não tenho tempo para você no momento. Tenho de por algumas coisas em ordem. Sente-se e espere.
― Como é?
Lucy não teve intenção de usar um tom tão imperioso com ele. Simplesmente saiu assim como reação natural ao que ela sentiu ser um ultraje. Mas não se arrependeu. Ninguém falava com ela daquele jeito sem mais nem menos.
Pelo jeito ele percebeu, pois parou o que estava fazendo, aprumou-se e olhou diretamente para ela pela primeira vez com olhos de um azul-cobalto que faria algumas pessoas se encolherem.
Menos Lucy.
Seu maxilar acentuado pulsou como se ele tivesse trincado os dentes, mas ele adotou uma atitude mais profissional.
― Por favor, sente-se enquanto eu faço uma ligação, senhorita Lowry, e logo a atenderei.
Assim era melhor.
― Claro ― ela disse, e virou-se para sentar em uma das seis poltronas estofadas que se alinhavam nas paredes, nas quais Lucy reconheceu alguns originais de artistas renomados.
Quando ele encontrou o que procurava ― aparentemente, um número de telefone ― sentou-se e telefonou.
Lucy teve de admitir, ao ouvir o tom conciliador de Rand, que ele levou a situação com presença de espírito. Ele minimizou a culpa da secretária, aceitou a responsabilidade por sobrecarregá-la de tarefas, mas também não ficou bajulando, o que muitos fariam após ter deslocado um cliente importante inutilmente.
Lucy ficou impressionada.
Também teve oportunidade de olhá-lo mais longamente enquanto ele combinava de jantar com o cliente.
Havia percebido como ele era alto ao adentrar a sala de espera: impressionantes um metro e oitenta e cinco; musculoso e de ombros largos. Olhos azuis e maxilar pronunciado, cabelos escuros ― da cor de um expresso sem creme ― sobrancelhas espessas, nariz aquilino e lábios intrigantes ― o lábio superior era bem mais fino que o inferior.
Não era exagero da tia chamá-lo de bonitão. O termo nem chegava perto de descrever sua aparência admirável, seu físico belamente moldado e uma presença que preenchia a sala toda. Embalado em um terno Armani cinza, uma camisa de um cinza mais claro que parecia ter acabado de sair da lavanderia e uma gravata de seda que sem dúvida custara mais que o traje completo de Lucy, ele era, com certeza, digno de admiração.
Mas num sentido puramente objetivo, Lucy tratou de afirmar para si mesma. A final, não estava interessada no homem em si. Por mais lindo que ele fosse. Primeiro que ela não estava aberta a romances no momento, pois pretendia se dedicar a criação do filho. Alem disso, nem que estivesse, sabia muito bem que não tinha de chegar nem perto de se relacionar com um homem como Rand Colton.
Lucy só não tinha certeza se valeria a pena suportar o tipo de grosseria que havia presenciado.
Ele desligou o telefone e, sem lhe dirigir uma só palavra, voltou a ligar para fazer uma reserva em um restaurante que Lucy tinha visto na televisão na noite anterior. Era considerado um dos melhores do distrito federal e, de acordo com a repórter, as pessoas esperavam meses para conseguir uma mesa. Mas ele conseguiu uma reserva para quatro às oito horas; só precisou dizer seu nome.
Desligou então pela segunda vez e voltou-se para ela.
― Então você é sobrinha de Sadie Meeks. Até ontem eu nem sabia que ela tinha uma sobrinha.
― Lucy Lowry ― ela repetiu, pois não tinha certeza se ele lembrava de seu nome. ― E, pelo que ouvi dizer ao telefone, você é Rand Colton.
― Desculpe por não me apresentar. Sim, sou eu.
Aquilo pareceu procrastinar a conversa, pois ele a observou tão minuciosamente que ela sentiu vontade de se contorcer. Mas não fez nada disso, não lhe daria essa confiança. Ele então falou:
― Sadie me disse que você já foi secretária executiva e fez pesquisas na área jurídica, e que você pretende se dedicar apenas a pesquisa jurídica, mas que estaria disposta a trabalhar aqui em caráter temporário para dar um jeito nas coisas enquanto eu não arrumo outra secretária, certo?
― Parece que minha tia já fez a entrevista por mim.
― Ela disse que você é tão boa quanto ela.
― Nunca trabalhamos juntas, de modo que não sei se é verdade. Mas sou boa.
A resposta o fez dar um sorriso meloso de canto de boca, como se estivesse percebendo algum duplo sentido e demonstrando haver entendido.
Lucy se aprumou na cadeira, preparando-se para dizer alguma impropriedade. mas ele a surpreendeu e guardou seus pensamentos para si.
Infelizmente ela também conseguiu perceber claramente o efeito perturbador que aquele sorrisinho diabólico causou nela, num sentido nada profissional. E manter uma postura profissional de nada adiantou.
― Sadie lhe avisou sobre o que espero de uma secretária?
― Ela disse que você é rude e mandão.
Ele riu, emitindo um som profundo e ressonante que pareceu esquentar o ar ao redor.
― Honestidade. Gosto disso. Ela lhe avisou da quantidade de horas e do volume de trabalho com que minha secretária-assistente-pesquisadora precisa arcar?
― Disse. Mas é preciso dizer que não trabalho depois das cinco da tarde sob hipótese alguma.
Ele franziu as sobrancelhas sobre aqueles olhos alucinantes.
― Certo, vou deixar passar esse quesito, pois você é sobrinha de Sadie e esta é uma entrevista informal. Estou cheio de problemas, e a ultima coisa de que preciso é outra mãe solteira neste escritório. Já tive várias delas nos últimos dois meses. Cansei de pegá-las no telefone com os filhos, ou preocupadas com eles, ou saindo para fazer algo relacionado a eles. Por isso, não vou perguntar se você tem filhos. Mas, se tiver, faça um favor a nós dois e diga "não, obrigada" de uma vez.
Lucy não escondia Max de ninguém e ela quase disse que era mãe solteira, sim. Mas ao mesmo tempo lhe ocorreu que isso não era da conta de Rand Colton. Ter um filho, sendo solteira ou não, não interferiria no trabalho que ele queria que ela fizesse. Por outro lado, do jeito que ele era veemente em sua opinião sobre mães solteiras, Lucy achou que reconhecer isso para ele influenciaria na opinião sobre ela e poderia gerar comentários negativos a respeito dela com outros advogados a quem ela poderia estar oferecendo trabalho de pesquisa jurídica. Não negaria ser mãe, jamais faria isso. Mas como ele deixou a cargo dela admitir que tinha um filho e recusar o trabalho, ela simplesmente não o fez. E disse:
― Garanto a você que meus assuntos pessoais não interromperão meu trabalho e que trabalharei com afinco durante o dia todo. Mas apenas até as cinco.
― Eu encerro meu expediente mais tarde.
― Eu, não.
Lucy o encarou, olho no olho, sem piscar antes dele. Sim, ela estava percebendo que trabalhar para este homem lhe daria os contatos de que tanto precisava para desenvolver seu trabalho futuro, de modo que o emprego era mais valioso do que ela pensava. Mas não era tão fundamental a ponto de fazê-la negar Max. Rand Colton quebrou o silêncio.
― Você sabe que estou com a corda no pescoço aqui. A biblioteca ― disse, apontando com a cabeça em direção ao corredor atrás de si ― está cheia de arquivos para serem atualizados, selecionados e armazenados. Não sei como algumas pessoas se julgam competentes se nem conhecem o alfabeto direito. Estou trabalhando em vários casos grandes, e como você deve ter percebido ao chegar, minha agenda está uma bagunça.
― Posso cuidar de tudo isto.
― Mas só até as cinco.
― Posso ficar uma única noite até tarde para por as coisas em ordem. Mas depois estarei sempre saindo às cinco. Sob qualquer circunstancia.
― Isto é pressa de fazer o jantar para algum namorado ou marido?
― Expor minha vida pessoal faz parte da entrevista?
Ele ficou olhando para ela com uma expressão divertida.
― Então é pegar ou largar seus serviços, e qualquer coisa extra-escritório é território proibido. É isso?
― A função é temporária ― ela enfatizou. ― Não vejo por que estes detalhes possam fazer diferença.
Ele a observou com seus olhos penetrantes, e Lucy olhou bem dentro deles. No final, ele cedeu.
― Acredito que Sadie não me enrolaria em relação as suas qualidades, portanto acho que terei de me contentar com o expediente até as cinco. Mas é bom que você seja tão boa quanto diz sua tia.
― Então estou contratada?
― Sim. Pode começar amanhã?
― Numa sexta-feira?
Ele assentiu.
― E fique até tarde amanhã, como disse.
Rand Colton, o playboy, queria trabalhar numa sexta à noite?
― Sim ― Lucy concordou, pois nem tinha mesmo nada planejado. ― Então estarei aqui amanhã, às oito.
― Sadie não falou nada sobre isto?
Sobre o que?
― Não sei do que está falando. Sei que você é um advogado bem-sucedido, que nasceu na Califórnia, e isto foi tudo o que Sadie me disse.
― Ela também lhe disse que sou rude e mandão ― ele a relembrou, com aquele sorriso nos lábios indicando como ele se divertia com aquilo.
― Sim, ela disse que você é rude e mandão ― ela confirmou. ― Mas não falou de problema algum em relação a estar aqui as oito da manhã.
― Eu também moro em Georgetown. Pego você às sete e meia. Gosto de começar a trabalhar no caminho. Economiza tempo e já chegamos ao escritório sabendo o que fazer pelo dia todo. Então, sete e meia ― ele repetiu. ― Em ponto. Não me faça esperar.
O tom era de dispensa, então Lucy se levantou.
― Sete e meia. Estarei pronta.
― E você fica comigo até tarde amanhã.
Por que aquilo soava como se envolvesse algo além de trabalho?
Ela estava provavelmente apenas imaginando aquilo.
Ou ele estava tentando passar uma cantada?
Não fazia diferença, pois ela não daria atenção à palpitação que estava sentindo por dentro.
― Trarei até sapatos mais confortáveis para depois do expediente ― ela disse, como se quisesse convencê-lo.
― Está bem. Então poremos tudo em ordem.
― Mas você estará procurando por outra para meu lugar, certo? Não quero demorar muito para começar a trabalhar em casa por conta própria ― ela disse, para que não restasse duvida.
― Sim, já entrei em contato com uma agencia de empregos.
― Ótimo.
― Diga a Sadie que mandei lembranças.
― Direi.
― Se você tiver metade das qualidades dela como secretaria, ficarei feliz.
― Tenho certeza de que ficará satisfeito ― Lucy disse, mortificada de ver que deixou escapar um tom lascivo ao dizer aquelas palavras. ― Com meu trabalho ― ela acrescentou, consertando o ato falho.
Desta vez, Rand sorriu. Um sorriso amplo e satisfeito, expondo dentes brancos e perfeitos, mostrando para ela por que havia tantas mulheres dispostas a ficar com ele.
Mas ele a livrou de uma fria ao cruzar a sala de espera, abrir a porta para ela e dispensá-la enfatizando novamente:
― Sete e meia.
Lucy lutou contra o calor que fazia seu rosto corar e saiu da sala, triste por acabar sentindo o cheiro bom de sua loção pós-barba ao passar por ele.
― Darei a Sadie seu recado ― ela disse, só para preencher o silencio.
Mas o encontro com Rand Colton não terminou por ali, pois ele ficou na porta, observando-a caminhar até o elevador. E quando ela cedeu a tentação de olhar para trás, ele ainda estava lá, observando-a.
Pelo menos depois que a porta do elevador se fechou ela conseguiu ficar sozinha e respirar aliviada.
Trabalhar para Rand Colton seria mais difícil do que ela pensava, refletiu, enquanto o elevador descia.
Ela conseguiria lidar com um chefe difícil e mandão. Mas é um chefe difícil e mandão com lindos olhos azuis, um corpo de modelo, charmoso, inteligente, com um inesperado senão de humor é que lhe dava calafrios?
Aquilo era outra coisa.

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